quinta-feira, 17 de setembro de 2015

O Pedido da Morte #1 - Novos Amigos

I.

Foi durante a noite. A hora exata, o dia exato ou até mesmo o mês exato eu não posso afirmar, pelo simples fato de não lembrar-me.
Uma tempestade forte ameaçava quebrar os vidros das antigas janelas de madeira, que rangiam e debatiam-se em movimentos insanos e desconexos. Os gritos ecoavam pela casa velha, atravessando portas e corredores. Em alguns momentos, eram mais altos que os trovões que retumbavam do lado de fora.
Não consigo lembrar-me de quadros ou móveis para descrever e enriquecer a história, estes detalhes eram muito superficiais na época, e por isso nunca tiveram lugar em minha jovem memória. Mas eu me lembro de uma cor: vermelho.
Vermelho sangue.
Esperava sentado na sala, em algum sofá, poltrona ou cadeira que não sei ao certo definir. Agarrava a manta que me cobria com um anseio paternal, tremendo de medo, frio e angústia. Mais trovões. Mais gritos. As luzes piscavam em um brilho fraco, imitando o lusco-fusco.
Um forte trovão. A janela estourou, arremessando cacos de vidro por toda a sala. Eu gritei, minha mãe gritou. E depois o vendaval cortou o cômodo, silenciando todo o resto.
Foi a última vez que ouvi a sua voz.
Depois de alguns segundos, um choro fraco ecoou. Um choro de bebê.
Uma senhora robusta, com os ombros largos, braços fortes e um pescoço ausente atravessou o corredor em minha direção. Seus passos pareciam marteladas no frágil piso de madeira. Em seus grandes braços, um pequeno manto sujo, manchado de vermelho sangue, emitia um grunhido inocente.
A mulher depositou o pequeno pacote em meus braços, rugiu alguma palavra incompreensível e me deu as costas. Com um forte empurrão, arremeteu contra a porta de entrada, e partiu.
Deixando-a escancarada, fiquei sentado em algum móvel indefinido, observando a tempestade devastadora do lado de fora. Em meus braços, meu pequeno irmão reclamava de alguma coisa.

         
E assim, naquele momento confuso e caótico, enquanto o corpo de minha mãe esfriava em seu quarto, uma grande borboleta negra atravessou o batente da porta aberta. Movimentando-se em semicircunferências, pousou em meu joelho. Depois, com um aceno de antenas, como se cumprimentassem um velho amigo, ela decolou e dirigiu-se para o quarto de minha mãe.

Foi a primeira vez que vi a Morte.

Continua

- Dedos Azuis