quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Os Passos da Bailarina

Seus dedos bailavam como se tocassem instrumentos imaginários, e talvez realmente o fizesse, pés flutuando, olhos cerrados. Decerto visitava um de seus mundos particulares. Caso pudesse defini-la em uma característica principal - permita-me ou não, o farei -, diria que é cárcere da própria ilusão. Flores nascem em seu peito num único gesto doce, que é sua morte também. A moça baila num romance e sobrevive nele, ainda que esteja fadado ao fracasso, ainda que ela seja o borrão de tinta que pinta o final. Seria, talvez, causadora do próprio mal, a destruidora de seu mundo, e de outros também. Quem a via tornava-se cárcere da doçura que transitava livremente no assoalho de madeira. Sequer imagina que há tantos observadores da cena se julgando oniscientes, tão transparente se parece. Ou talvez saiba e ri de cada espectador assim que a cortina se fecha. A bailarina se parece com o personagem de um livro que ainda não foi escrito, é certo que não recordo de nenhum capaz de se encaixar em passos milimetricamente ensaiados para parecerem naturais. Dança como se fosse uma dessas pessoas que precisam do amor para sobreviver. Na falta de um, o inventa. Como se dispusesse das palavras além do papel.
De tanto imaginar, escreve em passos de dança. De tanto escrever, se guia pelas palavras que lhe invadiam o âmago, então acreditava. De tanto acreditar, vivia - ainda que dentro de si -, e assim por diante. A verdade é que cada etapa era um passo para o abismo. Foram tantos os abismos que o último passo era dado com os braços abertos.
- "Algum dia" – pensava – "algum dia voarei" – e mergulhava na escuridão.
A plateia aplaude em júbilo.

- Maia