sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O Ônibus 3.85 #7 - O Atractor Estranho

A realidade é um tanto quanto estranha. A maioria esmagadora das pessoas tende a acreditar que a razão e o conhecimento são suficientes para traçar e prever todo e qualquer acontecimento que as rodeia. Quantas vezes nós não tivemos nossos planos frustrados por consequência de um misero acontecimento aleatório e totalmente imparcial? Um dia de chuva, um carro que quebra ou uma câimbra em momento inoportuno. Afinal, quais outros fatores norteiam estes fatores? Fatores menores? De que adianta anos de treinamento e preparação quando estes forem frustrados por um momento de azar, de acaso?
No fim das contas, todos estão à mercê do acaso e de toda a gama de fatores que o estabelece. Talvez, se o motorista soubesse da teoria e não somente da prática, deduziria que todas as ações que tomaria daquele momento em diante não surtiriam efeito nenhum no futuro.


Estava ofegante – “Não posso perder a calma, estou no controle” – Repetia mentalmente para si – “Ainda estou no controle” – Disse em voz alta, apanhando uma pequena haste metálica logo ao lado do pequeno extintor de incêndio repousado sob o assento do motorista.
Andou na direção de Dante, balançando a barra metálica e contornando passageiros inertes que insistiam em ficar em pé no corredor. Seu rosto ainda estava sujo de sangue, um vermelho escuro sobre a textura jeans da jaqueta e os longos cabelos desobedientes lhe tapava parte dos olhos.
O ônibus mantinha velocidade constante dando alguns pequenos saltos, dirigindo-se a um destino desconhecido por todos os passageiros.
- “Eu não vou perder meu posto” – Rosnou em voz baixa.
Dante, ainda tentava se soltar dos três passageiros que o seguravam, balançando de um lado para o outro e grunhindo cada vez mais alto à medida que o motorista se aproximava. O homem não deixara claro o que faria com aquela barra de ferro, mas os olhos e a intensidade raivosa com que encarava o prisioneiro explicitavam o que aconteceria com o rosto daquele pobre infeliz.
- “Você está louco!” – Gritou enquanto lutava contra as forças sobre-humanas de seus carcereiros.
Olhou para os lados, buscando alguma forma de ajuda, algum apelo que pudesse ser feito, mas todos os assentos à sua volta estavam vazios, exceto pelas cadeiras à sua esquerda, que abrigavam parte do corpo do garoto que aprisionava teus punhos. Lembrou-se da garotinha apática que repousava em algum dos bancos de trás, fora de seu campo de visão e gritou:
- “Garota! Ei, garota!” – Girou o pescoço ao máximo que pôde para ver se conseguia atrair sua atenção, porém a jovem ainda encarava friamente o vidro que compunha a janela do ônibus. Tentou outra vez.
- “Garota! Gar...” – E sentiu uma forte dor no centro do abdome. Olhou para frente e trombou com os olhos do motorista pregados aos seus, sentiu os tecidos abdominais começarem o processo de rompimento. Abaixou os olhos e viu toda a vermelhidão que escorria através da camisa social perfurada. Soltou um longo suspiro e sentiu a barra de ferro que se alojava acima de seu umbigo e entre suas costelas.
A pressão e a dor diminuíram por um momento, enquanto o motorista recuava o objeto e se preparava para repetir o movimento, uma tentativa de encravamento improvisado.
Ele olhou para o ferimento por alguns segundos e percebeu o quão superficial parecia. A laceração tinha apenas uns dois centímetros de profundidade, porém a barra tinha uma marca avermelhada uniforme por toda a sua circunferência e atingia um pouco menos de um quinto do comprimento total do objeto, resultando em aproximadamente uns dez centímetros de sangue.
Estava perplexo, esticou os dedos na direção do buraco e Dante se contorceu. Estranhamente, o diâmetro do machucado também estava um pouco menor do que deveria.
- “O raio da barra é de pelo menos uns cinco centímetros” - Concluiu após analisar por um curto período a ponta do objeto que segurava - “E o raio deste ferimento tem um pouco mais que a espessura do meu dedo” – Completou mentalmente, enquanto corria o dedo indicador por toda a circunferência da laceração.
Levantou os olhos, boquiaberto. Estava presenciando uma espécie de recuperação espontânea.
- “Mas que raio de divindade é você?” – Disse, se levantando e esboçando um leve sorriso de incredulidade.

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- Lágrimas de Gasolina