quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Fútil Realidade #5

Hoje eu acordei sem um beijo de bom dia.
O quarto estava abafado demais, a luz que entrava pelos estreitos feixes da janela estava forte demais. O silêncio era onipresente demais.
Não que a casa fosse barulhenta por rotina. Certamente não era, já que meus pais quase não mais conversavam. Mas hoje nem mesmo da rua propagavam-se sons, só um fraco ronco eletrônico.
Desci da cama quente para sentir o gélido piso agredir a sola de meus pés desprotegidos. Com passos aveludados, caminhei até a porta do quarto e a abri. O rangido grave lembrava-me dos raros gritos que meus pais trocavam entre eles; ríspidos, monossilábicos, agressivos. Sem traços de amor.
Caminhei pelo curto corredor até a cozinha, mas tenho que confessar; hoje ele parecia infinitamente mais comprido. Quando atravessei o batente, a luz do sol que entrava pela janela tornou-se tênue e opaca, deixando os eletrodomésticos e móveis criarem sombras agourentas e assustadoras.
A temperatura caiu absurdamente, e uma enorme adaga imaginária atravessou a boca de meu estômago. Não sei por que dizem borboletas. Não lembro de borboletas parecerem com um tornado catastrófico, varrendo tudo e todos pelo caminho.
E lá no centro da cozinha, tornando o branco piso de mármore em um carmesim aveludado, estava o corpo de minha mãe. Flácido, derretido no chão, como se seu corpo tentasse abraçar um sentimento que já não mais existia há muito tempo. Sua boca estava posicionada em um formato agonizante, enquanto uma segunda boca sorria em sua garganta.
Na cômoda da cozinha, um bilhete abandonado escrito pela metade:
“ Lucas, meu amor,
Você foi o melhor presente que Deus me deu, você me deu forças e me mostrou um maravilhoso mundo. Mas, infelizmente, mundos maravilhosos são efêmeros. Eu e seu pai não nos amamos mais há algum tempo, e tentamos nos manter unidos para sua felicidade. Infelizmente, eu não sou forte o suficiente, não sou forte como acreditei que era, e por isso vou m... ”
Gritei por meu pai.
Corri desesperado até seu quarto, poucos metros da cozinha, muitos metros do quarto de minha mãe.
O barulho frágil de um ventilador velho indicava que o aparelho estava ligado. Era um som estranho, fraco e forte, vivo e morto. Era um ronco despretensioso e conquistador, era o extremo do antagônico.
Quando entrei no quarto, gritei horrorizado ao ver seu corpo balançando junto com o ventilador. A gravata enrolada na haste de ferro do aparelho. Sem nada no estômago para vomitar, cuspi bile em fracos esguichos.
Deixei meu corpo cair, ajoelhando em cima do vomito e gritando em desespero. O som do ventilador conseguia ser ainda mais forte.
Em um surto de irritação, agitação, desespero, medo e agonia, corri até o meu quarto e comecei a arrumar minha mochila. Coloquei roupas, brinquedos, meu smartphone. Precisava sair dali o quanto antes.
Mas, para onde ir? O que fazer? Quem procurar? Eu não tenho avós e nem tios próximos, e se ficar aqui, o melhor que pode acontecer-me é ir para um orfanato. Gritei e soquei a parede, deixando o catarro arranhar minha garganta e esguichar na madeira velha.
Eu iria para a escola, eu precisava ir, eu preciso sair daqui. Não tem nada para mim aqui. Preciso sair daqui. Preciso de algo, alguma razão. Meu pai matou minha mãe e se matou em sequência. Mas que droga! Preciso sair daqui. Preciso de alguém, de alguma Brígida em minha vida. Troquei o pijama, joguei a mochila nas costas e sai correndo. Antes de sair de casa, entretanto, fui até a geladeira e peguei um pote de açaí com banana.

Afinal, quem pode realmente prever quando uma família começa ou acaba?

Fim

- Dedos Azuis