terça-feira, 14 de abril de 2015

O Show

Ele não tinha nada, exceto medo.
Não medo de morrer ou qualquer outra forma de flagelo físico. Ele tinha medo do anonimato.
Anos atrás, foi um famoso orador de circo. Multidões atravessavam estados apenas para vê-lo abrir os números e espetáculos, e a satisfação do público era tão grande que muitos voltavam uma segunda e até mesmo uma terceira vez.
Hoje em dia seu braço era tão fino que não aguentava mais carregar o comprido microfone. A cartola que pousava em sua cabeça abandonara o preto e tornou-se cinza, com mais bocas do que era possível contar. Ao redor dos olhos, a sombra preta escorria em rios por sua bochecha, acusando trajetos cursados por lágrimas. Seu terno vinho estava engomado, e de acordo com a incidência da luz solar era possível identificar manchas de sangue. Mas nada disso importava, pois no topo daquele prédio, detalhes tão pequenos eram invisíveis.
Uma mulher gritou, alguém implorou para que ele não pulasse, outros ignoraram e continuaram andando. Com o decorrer das horas, podia-se dizer que uma bela multidão havia se formado.
Que comece o show.
Botando-se em pé, urrou que iria pular. Um coro negativo veio em resposta, dando-lhe ainda mais ânimo. Articulou violentamente com as mãos, encenando que a vida não mais lhe era prazerosa, e de que o sol não brilhava como antes. Uma criança desatou a chorar.
A multidão aumentava, assim como sua encenação.
Arremessou a cartola aos ventos, chorando falsamente enquanto observava-a rodopiar pelo céu. E em quanto as horas passavam, mais seu show fazia sucesso.
No final do dia, mais de trezentas pessoas concentravam-se ao redor do prédio, maior do que qualquer público que já o visitara no circo. Carros da polícia iluminavam seu palco com sirenes, enquanto os bombeiros cuidavam da parte acústica. Um helicóptero sobrevoava o local, e se estivesse com sorte, já estaria nos jornais locais.
 Pois bem, era hora de encerrar. Agradeceu a Deus pelo rejuvenescimento de sua alma. Virou-se para descer do parapeito e
Escorregou.
Um passo falso apenas, em um parapeito ridiculamente estreito.
Enquanto caia, a surpresa apoderou-se de seu corpo. Mesclado com a felicidade que sentia, o gozo foi absoluto.

Antes de tocar o chão, jurou ter ouvido palmas. Aquele espetáculo foi seu maior sucesso.


- Dedos Azuis