terça-feira, 12 de maio de 2015

Moscas

Largou a faca ensanguentada.
- "Olha esse apanhado de moscas que eu recolhi no jardim" - narrou para si mesmo - "estavam sobrevoando a estátua de mármore do meu pai." - Parou por um momento - "Algumas ainda estavam no corpo sem vida de minha mãe".

- "Melhor levá-las para dentro, não quero perder parte da herança que me deixaram" - pensou enquanto subia as escadas. Se trancou em seu quarto e as soltou enquanto trancava as janelas.
Por um momento, um aroma familiar se misturou com o cheiro de sangue e podridão que adentrava pelas frestas da janela.
-"É o cheiro da torta que mamãe deixou no forno" - falei para as moscas - "Está quase pronta" - completou assistindo-as dançar pelos ares.
- "Adoro o som que as moscas fazem quando estão prestes a morrer de velhice." - pensou - "Sua asas ficam pesadas e quando batem, quebram qualquer silêncio ou tentativa de paz. Poderia observá-las pelo resto da minha vida."
Uma das moscas voou em direção à porta, zumbindo pelo caminho tortuoso que fazia, atingiu uma das quatro paredes e aterrissou no chão, estava morta. Se aproximou da pequena criatura e estendeu o dedo indicador na direção daquela casca sem vida, tocou suas perninhas e as balançou um pouco, imaginou o que aconteceria se esmagasse seu cadáver, o som que faria e o sabor que teria. A pressionou com uma pequena quantidade de força e as periferias de seu dedo se preencheram com o muco amarronzado da criatura.
Observou a face manchada de seu dedo indicador e o correu até os lábios, o raspando contra seus dentes como um fazendeiro que raspa o estrume seco das botas contra uma pedra encravada no solo. No primeiro movimento da mandíbula, sentiu um pequeno estalido, no segundo, a deliciosa amargura da morte que dominava seus sentidos, e no terceiro, um terrível som ecoou pelos corredores, um ruido ensurdecido pelas paredes de madeira, semelhante à uma chaleira.
Quando destrancou a porta, as moscas voaram por cima de seus ombros, se deu conta da semelhança entre o som agudo que ouvia e o grito de alguma criança ranhosa.
- "Adoraria descer e afundar uma lâmina no peito de quem fosse que estivesse atrapalhando minha observação" - gritou para os corredores, no intuito de atingir os cômodos abaixo.
"Melhor não" - disseram as moscas.
"Isto pode ser interessante" - respondeu.
Correu pelo corredor enquanto sentia a presença do dia de verão e do sol do lado de fora, a maldita casa nunca esteve tão quente. Novamente, ecoou pelos cômodos, aquele grito infantilizado, desta vez não lhe restava dúvidas, era um pequeno resto de ser humano e estava do lado de fora, no térreo.
As moscas o seguiam como conseguiam, voando por entre seus membros apressados, focados em apanhar o objeto cortante que havia deixado do lado de fora e afundá-lo no peito daquela pobre e infeliz invasora.
"Isto é loucura, garoto!" - disse uma das moscas.
Por um instante, as moscas pousaram sobre os ombros do garoto quando este exitou para dar o próximo passo, parou e encarou a gigantesca porta que descansava imponente no fim do corredor.
Caminhou em sua direção, ignorando as nuvens embaçadas que passavam pelas frestas, o cheiro de torta estragada e a maçaneta incandescente.
Esticou os dedos, esquecendo-se completamente dos sequenciais gritos que o atraíram até ali e acariciou a maçaneta. Estava sedento para saber o que se escondia por detrás daquela tabua de madeira maciça. - "Poderia ser o próprio demonio respirando do outro lado?" - pensou, esboçando um sorriso.  A maçaneta estava fervendo, mas sua curiosidade infantil jamais seria silenciada pelos sinais de perigo que seus instintos gritavam.
- "Abra-a, afinal, você não quer ver o que há do outro lado?" -  cochichou uma das moscas.
- "É loucura, garoto! Saia daqui." - disse outra.
Girou o punho e a porta se abriu como se estivesse dominada, não pela força de seu punho, mas pela possessão de uma entidade catastrófica, uma entidade alimentada pela curiosidade.
Uma luz estrondosa adentrou suas retinas, sentiu as carícias de uma meretriz incandescente, que deslizava as mãos por seu rosto e ouviu pela ultima vez aquele grito agudo.
Sentou-se sobre uma cadeira de praia, sentiu o sol sobre seus ombros e as queimaduras subsequentes.


- Lágrimas de Gasolina