quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Pré-Natal

"Agora você aparece de novo! Como vou explicar para os meus pais?"
"Idiota! Idiota!"
"Como isso foi acontecer? "
"As vezes as coisas não são como esperamos e é isso, só isso."
"Como assim? Do que você tá falando?"
"É, você sabe. De tudo isso que tá acontecendo. Seu esposo morto na banheira, sua gravidez inesperada, esse tipo de coisa."
"As coisas fugiram do controle. Agora, eu não sei o que eu faço."
"Você devia começar pelo corpo."
"Do Pedro? Não, eu não posso!"
"Não, sua boba! O outro corpo, esse dai que você carrega contigo já fazem alguns meses, afinal, não é por isso que Pedro está morto?"
"N-Não, na verdade, sim. É por isso mesmo."
"Então, muito bem, vá ao banheiro e tire isso de dentro de você. Já começaria bem."
"Eu não posso, ele é meu filho, minha criança. Eu não posso simplesmente retira-lo. Ele não é uma sujeira que esfrego dos meus pés e em alguns minutos está fora."
"Eu sei, use a arma."
"Usar a arma? Você está louca? Como eu vou abortar uma criança usando um revolver?"
"Eu não estou falando com.você, eu estou falando com a criança."

"Dois disparos. Uma cabeça suja. Um chão sujo de sangue. Passos, pequenos passos. Uma banheira. Dois cadáveres"
"Não há ninguém por aqui. Quem é essa? Parece que essa pobre infeliz atirou no esposo e depois se matou."
"Pouco provável, olhe para a pernas dela. Estão mutiladas."
"Nessa cidade, só acontecem coisas loucas, cara. Na verdade, eu já to de saco cheio disso tudo."
"Como assim?"
"Ah, você sabe, todas esses crimes sem solução aparente. Mulheres mutiladas, mortos nas banheiras. Tô cansado. Sei lá, minha vida anda uma merda também, a Mari disse que está gravida. Já fez o pré-natal e tudo, sem eu saber."
"Poxa, cara. Que bacana."
"É, é, seria bacana se eu não fosse um fodido. E pra piorar ela disse que talvez sejam gêmeos."
"Chega disso, vamos comer alguma coisa. Porra, fique feliz pela gravidez de sua mulher, é o minimo que ela espera de você."
"É, pode ser."

- Lágrimas de Gasolina