quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Fútil Realidade #1

Brígida franziu o cenho e mostrou para os amigos à sua volta o pequeno pote arroxeado em suas mãos.

- Banana, vocês podem acreditar nisso? - Grunhiu e arremessou o recipiente lacrado ao chão - Meus pais devem me odiar! Eu peço açaí com guarana, e me compram com banana! Meus Deus, como posso ser tão abandonada assim?!

Olhou para cima e gritou, batendo com o sapato rosa na grama pisoteada do pátio da escola.

- Sério! Meu Deus, que vida injusta, eu não aguento mais isso! Eu não aguento mais! Vocês não acham um absurdo isso? Como alguém pode continuar vivendo assim? Banana, poxa!

Eu ouvia aquilo enquanto olhava para a pequena mala em meus pés. 

Obviamente, não estava na mesma roda que Brígida estava. Na verdade, não estava em roda nenhuma.

Apenas sentava na grama suja e molhada da recente garoa, abrindo e fechando o zíper. 

- Sabe... - Falei, alto o suficiente para Brígida ouvir - Hoje eu acordei sem um beijo de bom dia. Mamãe estava no chão da cozinha, morta com a garganta rasgada e ensanguentada. Seu pijaminha branco estava todo rasgadinho e sujo. Quando gritei por Papai, ele não respondeu. Corri até seu quarto e encontrei apenas seu corpo pendurado e sem vida no ventilador, girando solitariamente. O pescoço estava todo roxinho. 

Algumas crianças reclamaram em desaprovação e saíram de perto, dando pequenos risinhos. Mas Brígida não. Ela olhava para mim com olhos de lua negra, grandes como o universo. Levantei e caminhei até ela, arrastando a mochila e continuando minha história.

- Certamente, ao ver a cena, vomitei um pouquinho. Mas logo o resultado; o serviço social viria me buscar. Sabe, aqueles homens grandes e com roupas brancas, que tem enormes siringas que parecem espadas. Eles viriam me buscar e me levariam para um lugar triste, com crianças tristes e paredes tristes, onde não se pode desenhar na parede ou desenhar com as crianças. Eu cresceria triste, e provavelmente me tornaria um adulto triste, se um dia chegasse a ser adulto. Então, como era o óbvio, fiz minha mala com alguns brinquedos e roupas, e fugi de casa. Corri até a escola, e desde que acabou a aula não tenho para onde ir. 

As outras crianças riram e saíram de perto, cuspindo em mim quando passaram. Brígida não.

Brígida permaneceu boquiaberta, com os buracos negros que eram seus olhos fixos em mim. Com passos curtos e lentos, caminhou até o pequeno pote de açaí e agarrou-o com as duas mãos. Caminhou até mim com um pequeno sorriso, e disse:

- Você quer dividir comigo? Eu tenho duas colheres na minha lancheira.

                                                                                                                                    Continua Aqui.

- Dedos Azuis