quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A Lenda dos Três Irmãos

Ahla-Khamed pairava sobre as vidraças celestiais, observando todos os acontecimentos que ocorriam debaixo das solas de seus pés. Observava os acontecimentos terrenos, enquanto com uma fina pena regada à tinta, os escrevia em um pedaço de pergaminho. Este era seu trabalho, observar e anotar toda a atividade humana. Era o mais novo de três irmãos, que desempenhavam distintas funções, nunca se soube como ou quem os havia criado.
 As titânicas janelas douradas das vidraças se abriram e delas voaram pedaços de pergaminho. Ohla-Augus estava com as mãos estendidas, enquanto assoprava as últimas anotações que restava em sua palma de volta para o mundo dos homens.  Recolheu algumas outras anotações, que flutuavam ao redor de seus membros, leu uma delas e com um pincel sujo de tinta riscou as palavras: matou, mutilou, estuprou e diversas outras que não deveriam fazer parte da realidade dos mortais, deixando intactas as palavras de cunho bondoso, harmônico e fraternal. Abriu as janelas novamente e esticando as mãos, assoprou as anotações de volta para o mundo dos homens.
As palavras que cruzavam as janelas celestiais e adentravam o mundo dos vivos eram responsáveis por manter a ordem de forma cíclica. Toda ação realizada por cada humano, se vista, seria anotada pelo irmão caçula, passaria pelos olhos avaliativos de Ohla e, depois de filtrados, devolvidos aos solos terrenos, compondo a realidade humana. Aos poucos restaria apenas a bondade e a ordem em sua forma mais pura.
- “Você esqueceu-se de fechar a janela mais uma vez, Ohla!” – Esbravejou o irmão mais velho, sentado sobre um enorme trono dourado abrigado de forma imponente na parte mais alta. Mox se levantou ao ver que o irmão acatava a sua ordem.
- “Espero que não se repita!” – Acrescentou.
Este era Mox-Okhus, o autointitulado gestor de operações celestiais e o maior dos três irmãos. Responsável por garantir que executassem suas tarefas sem nenhum tipo de omissão.
Nenhum deles compreendia a intensa satisfação que sentiam por fazerem parte de um mecanismo tão puro quanto este e em suas consciências pairava o constante pensamento - “Enquanto trabalharmos, toda a realidade presente abaixo das vidraças caminhará na direção da harmonia e benevolência suprema e nós somos os responsáveis.” – Porém o tempo passou de forma mais lenta para um dos irmãos.
As anotações não atingiam a mesma quantidade e qualidade de antes, deixando o irmão do meio frustrado. Mox gritou para Ahla:
- “Irmão, o que está acontecendo? O que você está fazendo? Onde estão as anotações?” – Balançando as mãos furiosamente.
O irmão mais novo estava deitado sobre os pergaminhos, pois estava cansado de observar os homens e decidiu tirar um cochilo, dominado por uma sensação nunca antes sentida, algo que disputava com a única vontade que conhecia. Nenhum deles tinha a capacidade de dormir, mas depois de tanto tempo observando cada movimento humano, cada ação, cada gesto, uma pequena centelha corruptível tomou forma na parte mais fraca de sua divindade.
Ahla-Khamed ficou preguiçoso.
Mox apontou para o irmão que dormia sobre os infinitos rolos de pergaminhos e ordenou furiosamente:
- “Ohla, tire esta vil criatura da minha frente! Levante um dos teus infinitos braços e expurgue as vidraças celestiais, atirando este infeliz para fora delas!”.
A divindade levantou um dos infinitos membros e recolheu o irmão do meio das anotações incompletas.
- “Irmão, o que está fazendo?” – Disse o irmão de olhos sonolentos, enquanto o gigantesco braço o levava em direção à colossal janela dourada.
Ohla não disse nada.
Uma das janelas se abriu e junto ao seu sopro, o corpo do irmão mais novo despencou do alto das vidraças e atingiu o solo terreno. A jovem divindade fora expulsa das vidraças celestiais e na manhã seguinte, Ahla acordaria como um homem.
Mox tomou o posto do irmão expulso e avaliava os diversos pergaminhos com anotações incompletas. Olhou para o irmão, furioso:
- “Está tudo incompleto! Todas estas anotações de nada irão servir.” – Jogou no chão o pergaminho – “Quanto tempo perdido!” – Lamentou.
A divindade viu que teria muito trabalho pela frente e em um ataque de fúria destruiu todas as anotações feitas até aquele momento.
- “Se para nada estas servem, que para o nada estas voltem” – Soltou uma gargalhada na frente de Ohla, que observava das proximidades da janela seu irmão louco destruindo aquele emaranhado de papel e anotações, não dizendo uma palavra se quer.
O mais velho tentou durante muito tempo competir com a antiga determinação e eloquência com que seu irmão caçula exercia sua atividade, porém não era competente o suficiente e os constantes acessos de raiva causados pelas visões do dia da expulsão não permitiam que  desempenhasse a melhor das performances.
Sua função sempre foi observar os outros dois irmãos e garantir resultados, não observar os vermes humanos e anotar suas fúteis ações, esta função pertencia a Ahla. Não fazia sentido fugir da sua função natural no universo. Começou a vacilar, deixando alguns acontecimentos ocorrerem despercebidos.
Ahla estava agindo.
Observando os humanos desde sua origem, o irmão mais novo entendia perfeitamente a mente humana, garantindo-lhe poderes persuasivos excepcionais e conseguindo convencer até mesmo o mais cético de todos os humanos existentes na idade média. A longevidade sobrenatural somada a sua inominável habilidade persuasiva garantiu notoriedade perante os mais altos graus hierárquicos e não demorou muito para que Ahla atingisse influencia suficiente para coordenar um ataque às grandes vidraças celestiais, até então desconhecidas pelos homens.
Com a incompetência de Mox e o divino poderio alcançado em solos terrenos, Ahla pôde incitar a construção de um gigantesco projeto capaz de alcançar as grandes vidraças douradas, prometendo aos homens que quando as atingissem poderiam usufruir de todo o ouro que quisessem. O ouro que seria extraído das próprias vidraças.
Mox se sentia um hipócrita, expulsou o irmão mais novo pelo seu desempenho que, embora fosse falho, nem ele, o irmão mais velho, conseguia executar com a mesma precisão.
Ohla olhava as anotações, furioso. Seu irmão mais velho era um inútil, a única coisa que sabia fazer com perfeição era sentar-se. Nem para olhar para baixo e anotar o que via, o cretino servia. Ohla começava a ter certeza que daria conta de tudo aquilo sozinho, não precisando da ajuda do irmão.
- “Esse idiota prepotente” – Pensou enquanto destrancava uma das janelas – “Sempre mandando e mandando” – Acrescentou mentalmente, estendendo os punhos pela janela e preparando-se para assoprar.
Encheu os pulmões de divinos ares e assoprou, mas ouviu um estranho som que cortava o ar a sua frente, um ruído diferente de qualquer sopro que já tenha dado. Sentiu uma pontada em um dos dedos de uma das mãos.
– “Mas o que é isso?” – Gritou, olhando para os dedos.
Pôde ver uma flecha. Uma pequena e humana flecha. Ohla deu um passo para trás, encarando a janela aberta, como quem assiste a um assassinato. Voltou para perto da janela, esticou os punhos para fechá-la, mas era tarde. Uma chuva de flechas voou do mundo dos homens para dentro da morada dos irmãos. As flechas cobriram seus membros e toda a parte superior do grande corpo da divindade foi perfurada por todos os tipos e tamanhos de flechas. Todos os humanos reunidos por Ahla, que alcançaram as vidraças através da orientação dada por um Deus banido, estavam se aglomerando nas janelas celestiais. O irmão mais novo levantou um dos braços, trajando finas roupas de Imperador da humanidade.
- “Irmão, não faça isso! Lembre-se do nosso propósito!” – Suplicou Ohla.
Ahla, ainda de braços levantados, disse calmamente e sem pausas:
- “Seu propósito!” – E abaixou as mãos, ordenando o ataque massivo daquelas distintas e incontáveis faces humanas. Todos os povos de todas as nações unidos pelo poder e pela parte do ouro que receberiam somados à ambição de explorar e conquistar o desconhecido.
Mox e Ohla foram vencidos, pois nem sequer lutaram. A divindade de infinitos braços não disse uma palavra sequer enquanto sentia seus membros adormecerem e morrerem, sua razão de existir havia morrido já fazia tempo. O irmão mais velho foi morto enquanto dormia sobre os pergaminhos, não pôde sentir nada, as milhares de flechas o cobriram como uma gigantesca manta de aço.
Ahla se aproximou do gigantesco trono de Mox e se sentou, encarando seu antigo posto de trabalho, os cadáveres de seus irmãos e as vidraças. Esqueceu-se por alguns segundos dos infinitos humanóides que adentravam pelas janelas abertas e saqueavam sua antiga morada e se lembrou dos dias de trabalho. Fechou os olhos e dormiu. Agora teria tempo para descansar.



-Lágrimas de Gasolina