terça-feira, 10 de setembro de 2013

4, 8, 15, 16, 23, 42

Abri os olhos, desbravando um novo mundo.
Porém, mais torturante do que a sádica luz que rasgava minhas retinas, era o toque do gélido metal em minha pele.
Olhei para meus pulsos magros, machucados, rasgados. Pendendo como uma coleira, algemas enferrujadas me imobilizavam. Segui sua extensão metálica até o fim, para deparar-me com uma tubulação de pia horrivelmente suja.
O chão ao redor estava repleto de sangue, lama e banha. No centro da cozinha abandonada, uma mesa de mogno jazia com um gigantesco porco estripado em cima. Moscas banqueteavam-se enquanto grossas camadas de vermes caiam no chão, em uma disputa sangrenta pelo cadáver em putrefação.

Gritei.

Desesperado, tentei soltar as algemas, urrando enquanto o metal esfolava minha pele.
O sangue, agora encrustado, começava a endurecer, mas novas levas escorriam por entre meus dedos. Em súbito desespero, forcei minha mão em um ângulo descomunal. Uma dor errônea preencheu minha garganta, somada ao desespero do membro recém-fraturado.
Vomitei em meu colo. Continuei urrando em desespero, coberto de fluídos e com os braços em carne viva.

Foi quando eu ouvi.

- 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42...

Procurei o som, arfando.
 Meus olhos casou com a luz refletida na esbranquiçada pele de uma pequena garota. 8, talvez 9 anos. Parada, na soleira da porta da cozinha. Cabelos louros tão brancos que mesclavam-se uniformemente com sua pele sedosa. Olhos grandes, brilhantes, e apavorados.
 Sua pequena boca curvado em um ângulo de súplica, sempre repetindo:

- 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42...

E de repente, a sequência parou. Tudo ficou quieto, como se todo o som do mundo acabara de ser sugado por um gigantesco ar condicionado. Ela levantou o pequeno dedo em riste à frente da boca, e sibilou, pedindo não verbalmente para que eu ficasse calado. Caminhou a passos curtos e rápidos a minha direção, ajoelhou-se ao meu lado e destrancou as algemas em minha mão, com uma pequena chave que trazia ao pescoço. Levantou-me desajeitadamente, e forçou-me a correr, apoiando as pequenas mãos em minhas costas.
As dores e os cheiros nostálgicos deram espaços para a euforia da oportunidade. Corri por entre a porta, saindo em um gigantesco corredor. Inúmeras portas preenchiam ambos os lados da passagem.
Olhei confuso para a garota, que estava atrás de mim, e ela apontou para qual deveria ser meu destino. Corri para a porta, abri, e me deparei com mais um corredor.
Continuei correndo, indo sempre em direção ao destino cedido pelo pequeno dedo da garota. Inúmeros corredores passaram-se, inúmeras portas.
Um sorriso começou a abrir-se em meu rosto.
 - Vou sair daqui, vou sair daqui... - comecei a sussurrar, extasiado.
Mais um corredor. Virei-me e olhei para trás.
A garota apontou para outra porta.
Forcei-me contra a soleira e continuei meu caminho, correndo para a ... Um estrondo metálico preencheu o ambiente, quando meu joelho chocou-se colossalmente com alguma superfície dura. Cai no chão, urrando de dor.

Foi quando eu ouvi:

- 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42...

A garota parada na soleira apenas sorriu, e eu pude ver; um corte que estendeu-se de orelha a orelha, atravessando completamente seu rosto na horizontal. Aberto de tal modo bruto que todo o seu maxilar ficou exposto, a lateral de sua boca, um opaco febril ósseo mesclado ao sangue enegrecido da carne em putrefação. Seu dentes, pequenas fileiras de caninos que se estendiam e multiplicavam-se desumanamente. Centenas de minúsculos dentes afiados e tortos que preenchiam aquela visão. Sangue seco escorria por entre eles e pelo seu queixo.
Abriu a boca, e pude ver aquele buraco. Um negrume colossal que revelava a ausência de língua. Apenas um buraco, apenas um buraco.

As luzes se acenderam. Olhei ao meu redor. Olhei para meu pulso. Algemado no chão de uma velha cozinha imunda com sangue e vomito ressecados.

Meu sangue e meu vomito ressecados.

Mas agora, na mesa, não jazia um porco. Deitado, com a barriga voltada para cima, estava meu corpo, estripado. E eu ali ao lado, assistindo à tudo aquilo como um filme de sessão da tarde.  

- Dedos Azuis