sábado, 21 de setembro de 2013

Horror

Certa vez folhando pelos velhos livros de meu falecido pai, li em algum texto doentio sobre uma gigantesca criatura que vivia nas colinas nos arredores da cidade. Ela caminhava, ou melhor, rastejava sobre grandes tentáculos terminados em bocas. Seu cheiro era horrível, algo assim.
No inicio fui cético, tantas anotações, tantos recortes de papel. Meu pai era um velho babão que quando não estava trabalhando na biblioteca, estava trancado no quarto. Não me impressiona o quanto Kin, minha mãe, o odiava.
As montanhas das reportagens faziam contato com a parte mais periférica da minha cidade. Os recortes, sempre de jornais locais, mostravam sempre as consequências dos avistamentos, os desaparecimentos, mas nunca se quer tinham falado da forma física da suposta criatura. Adoraria saber como meu pai a havia visto e descrito suas dimensões e formas.
Certa noite, peguei no sono em meio os dizeres de meu pai.
"Vá até o topo da colina."
"Venha me encontrar."
As vozes dominavam minha mente, tão altas quanto um trovão e tão inumanas quanto possível.
Meu corpo estava leve e podia vê-lo, mas não conseguia senti-lo. Era como se eu não estivesse ali, mas estava. O chão estremeceu e dele saiu uma gigantesca nuvem prateada de inomináveis dimensões.
Um cheiro horrível e um estalar repugnante de órgãos faziam parte do coro que caracterizava os sons vindos do interior da criatura.
"Vá até o topo da montanha e lá você me encontrará. Teu pai me serviu bem, agora é você quem o deve fazer."
Me levantei e vesti meu sobretudo como se uma força maior estivesse a me controlar. O cheiro pairava no ar, forte, porem aceitável. Como se meu corpo estivesse adaptado aquilo. Uma pessoa comum com certeza teria náuseas.
Abri a portas e corri para o pé da montanha. As arvores estremeceram e um som trovoento percorreu o alto da montanha central.
Uma massa disforme se arrastava em meio a escuridão, não pude vê-la mas ela pôde a mim. Só podia ver a areia, a terra e as pedras sendo empurradas e as arvores sendo derrubadas. Ela era imensa, assustadoramente imensa. Senti uma pontada na minha insanidade e comecei a chorar. E depois rir.
Meu pai não estava louco, eu estava. Uma pedra tocou meu sapato. Pude ver a terra se mexendo, e o cheiro nauseante.
Senti uma pontada no estomago e senti meu peito dilacerar-se. Um trovão.
"Os outros o aguardam. Eles querem um pedaço de ti também"
Que outros?
"Os outros como eu. Aqueles que vivem alem do espaço, aqueles que caminham pelo tempo. Aqueles que estão aqui antes de vocês."
"Todos querem um pedaço da raça humana e você, por ora vai servir como consolo."
Fui arrastado para o nada, rodeado por nuvens metálicas e sons orgânicos, não eram vozes. Um som digestivo. E um trovão.
"Sorria, humano. Hoje você salvou a humanidade."
- Lágrimas de Gasolina