terça-feira, 16 de julho de 2013

Raízes

Ele lentamente levantou a cabeça, abrindo uma brecha em seu pensamento e deixando seu olhar fundir-se no céu noturno.

Vagou e divagou sobre galáxias e estrelas, e em meio a um determinado brilho, parou.

No dia seguinte, completaria 42 anos.

42, nossa! Como a vida passou rápida!

Olhou para baixo, para seu terno impecável, para sua gravata perfeitamente lisa, e pensou se tudo aquilo valia realmente a pena.

Tentou lembrar-se da sua infância, de como tudo era simplesmente mais calmo antes.

E conseguiu; porém, atrelado a perfeição de uma calmaria espiritual, estava sempre entrelaçada a imagem de seu pai.

Bóris; o Grande e Perfeito Bóris. Este era seu pai, um executivo brilhante, que com um rápido vislumbre conseguiu salvar suas três companhias em meio ao caos de 29. Nascido com uma intuição de ouro, potencializado para o sucesso, e com o cu virado para a lua, seu pai era uma enorme Sequoia, ofuscando todas as outras palmeiras ao seu redor.

E lá estava ele, sempre ofuscado pela sombra do pai. Uma singela gramínea perdida nas raízes da monstruosa árvore Bóris.

Fechou os olhos, reprimindo a raiva, e cortando momentaneamente sua conexão com as estrelas.

Lembrou-se da casa na praia, de sua mãe preparando o peixe para o almoço, enquanto ele voltava da praia com sua pequena prancha em baixo do braço. O cheiro da maresia subitamente preencheu suas narinas, inundando seu cérebro em nostalgia. Viu o pai parado na soleira da porta, e correu em sua direção, gritando, feliz, exaurindo saudades. Bóris, friamente virou-se para o lado, e disse:
- Não toque em mim sujo deste jeito! Esta calça é nova, pelo amor de Deus! Este menino não tem jeito!

Lentamente tirou os sapatos e a gravata.


Estava em sua casa. Caminhou à passos apressados ao escritório de seu pai. Empurrou a pesada porta, ansioso para mostrar sua mais nova obra de arte. 
- Papai, olhe! - E levantou o desenho o mais alto que suas pequenas mãozinhas podiam alcançar.
Bóris, apenas virou a cadeira, e com ela o braço estirado, que tapeou a criança em cheio no rosto.
A pequena criatura caiu no chão, alguns metros ao lado.
- Nunca mais entre em meu escritório sem bater! Nunca mais.

Deixou cair por sobre os ombros o paleto, e removeu a camisa.


Ligou para o pai quando tinha 18 anos, gritando, perdido em felicidade:

- Pai, eu passei pai! Fui chamado na primeira lista! Você acredita?
- Está surpreso por que? Sua obrigação foi cumprida, nada mais.
E desligou.

Retirou a calça e a cueca.


Parou, com a mão na cintura, observando o monstruoso e colossal universo que estendia-se a sua frente.

Hoje fora o funeral de Bóris, e ele nem teve tempo de ir. Mas não se sentiu mal por isso.

Em contraponto, ontem fora a feira de ciência de Sirob, seu filho. Tempo também fora o carrasco, mas, pensando bem, vontade não havia.

Foi quando ele percebeu, que, ramo por ramo, ano à ano, ele mesmo havia se tornado igual seu pai, e estava sendo um terrível Bóris para seu filho.

Removeu então sua pele, e deixou toda sua essência ser espalhada pelo vento frio que rumava a leste, dissolvendo-se em uma nuvem negra de ácaro.

Afinal, uma gramínea pode ser infinitamente menor do que uma Sequoia, mas produz sementes. E, se há um mal, seja ele gramínea ou Sequoia, deve ser cortado pela raiz.

- Dedos Azuis