terça-feira, 30 de julho de 2013

Aborto

Estava sentada. Havia uma garota de uns 16 anos de idade na minha frente.
A fila de espera era extensa.

"264"

O meu numero era o 267. Apenas mais três números e logo chegaria a minha vez.
Algumas das outras garotas, estavam de cabeças baixas, outras choravam. Um homem saiu correndo pelas portas, usava uma camisa suja de sangue velho.

Como eu podia estar naquele lugar, mas que merda. Na hora tudo foi tão bom. Onde eu estaria neste momento se eu tivesse sido um pouco mais cautelosa? Em casa, talvez. Jantando com meus pais.

"265"

Uma maca com alguns restos de carne decolou pelas portas de correr.
A segunda menina se levantou, dolorida.
Mancava em direção a porta.
Eu não era diferente daquelas garotas e mulheres. Algumas eram jovens demais, outras eram velhas demais.
Suas idades pareciam inversamente proporcionais ao grau de seus respectivos arrependimentos. As mais jovens choravam e tremiam. As mais velhas aparentavam uma estranha tranquilidade.

"266"

Eu sou um monstro, como posso pensar em fazer uma coisa dessas com alguém que faz parte de mim? E se eu não fizer, o que vou fazer?

A garota de numero 266 saiu correndo, indo embora. O homem correu a porta enferrujada, olhou para a porta de saída, a mascara cobria parte de seu rosto, suspirou.

"267"

Me levantei, cautelosa. Adentrei a sala de cirurgia.
"Tire a roupa e deite-se."
Tirei toda a roupa, fazia frio. Deitei sobre a maca avermelhada e ele introduziu uma gigantesca agulha na minha vagina. Naquele momento senti o arrependimento.
Ele perfurou meu ventre e o sangue escorreu pelas minhas pernas. Pequenos volumes de carne deslizavam pelas minhas nádegas e caiam. "PLOFT"

Foi quando o instrumento cirúrgico do homem emperrou, dentro da minha vagina.
"Mas que porra é essa?"
Um filamento escamoso saia de dentro de mim e tomava conta da mão do medico, que agonizava de olhos arregalados, suplicando para que aquilo largasse seu braço e o deixasse livre para correr.

"Está quebrando! Está quebrando, porra!"

Pude ouvir um estalo e seu ossos saindo da sua pele. Um grito de dor.
O suposto medico caiu contra o solo, sem consciência.
O tentáculo o fitou por alguns instantes. Eu quis me mexer, mas não pude.
Ele se virou, sem pressa alguma. Dessa vez ele me fitava e eu a ele.
Em sua haste carregava o que restava do braço e da mão do cirurgião, que ainda segurava a agulha.
Soltou o membro, que caiu contra o solo.
E apanhou o objeto para dar continuidade a cirurgia.

- Lágrimas de Gasolina