sábado, 8 de junho de 2013

Teoria da Desevolução

O isqueiro chiou com a áspera tração. A fumaça que subia do pequeno papel queimado seguiu direto para seus cabelos internos, mesclou-se com os cabelos externos, e coloriu a atmosfera com as cores de Jah.

Inspirou o crepúsculo e tragou uma pontada do sol. Olhou para o infinito e contou a ele que sempre fora seu amor platônico.  Riu ao lembrar de sua infância, e chorou ao lembrar de seus fracassos.

Ah, maldito tempo fugaz! Teorias de Carpe Diem e poetas bucólicos do arcadismo; todos à merda com suas teorias absolutamente certas. Seu único erro foi amar o espelho, que violentamente abandonou-a com o passar dos anos. Maldito amor de um minuto. Previsível fim.

Soltou mais uma onda de fumaça, e aproveitou cada milésimo de segundo enquanto uma gota de lágrima escorria-lhe pela face; a transbordação do líquido quente, a sensação de perda, o escorrer pelos poros que, eriçados, se fecham em seguida, o rastro esfriando e secando na fria pele.

Toda uma vida amando seu próprio reflexo, para terminar assim. A garota mais popular, o sorriso mais belo. Os olhos mais encantadores, a pele mais lisa. Os cabelos mais lisos, a mente mais vazia.

E agora, vinte anos depois do acidente, mal lacrimejava pelo que ocorreu. Era um espelho de mármore. Um coração insensível, não emotivo, indiferente.

Talvez, durante estes vinte anos, uma ou outra lágrima. Como hoje, enquanto fumava. Mas só pelo efeito das drogas.

Afinal, ela perdeu tudo naquele dia. Porém seu tudo se limitava exclusivamente a sua aparência física.

Enquanto as chamas consumia as paredes de sua casa em labaredas vinda do próprio inferno, ela percorria insanamente os corredores em busca de salvação. O ar escasso, a fumaça preenchendo seus pulmões. O corpo queimado, o sangue que escorria por suas mãos.

A notícia de seu filho e seu marido morto. Uma crise momentânea. Uma única crise de choro e negação, até o momento em que se olhou no espelho.

Não existia mais filho nem marido. Não existia mais Charles nem Adam.  Existia apenas o seu mundo egocêntrico, um orgulho rasgado, e um rosto queimado.

Humanos, Darwin, e uma teoria mal compreendida.

- Dedos Azuis