sexta-feira, 21 de junho de 2013

Manifesto

E naquela esbranquiçada escada de mármore, ele esperava.
Em uma mão pousava uma bandeira branca, na outra, um ardente molotov.
Ele olhou de relance para a prefeitura, e depois para a rebelião caótica que ocorria em suas costas.

Levantou uma das mãos, mas parou antes de concluir a ação. Todos os manifestantes subitamente pararam. A tropa de choque baixou seus escudos. O som do mundo foi reduzido à um leve crepitar de chamas.

Rapidamente as cores e nuances também abandonaram o Brasil. Não havia mais bandeiras. Havia um universo estático preto e branco, e um jovem, ali, parado, com o futuro da nação em suas mãos.

Voltou o olhar para a prefeitura, e desceu-o para a bandeira branca. Sua mão transpirava, dando vida as gotículas que escorriam por sob a haste da paz. Mas, antes de declará-la, hesitou.

Lembrou-se então, dos vinte centavos. Dos vinte centavos que compram cargos políticos, dos vinte centavos que compram amigos. Vinte centavos estes que totalizam a verba anual gasta em saúde, gasta com educação. Talvez vinte centavos seja até mesmo as duas verbas somadas. Lembrou-se dos vinte centavos pagos de salário a polícia, que, por mais vinte centavos, oprime qualquer um que se posicionar contra este Governo que não vale mais do que vinte centavos.

Tentou gritar Brasil, tentou chamar pela pátria! Mas a única coisa, a única, em meio a tanta roubo, a tanta corrupção, a única coisa que passou pela sua garganta foi um jorro de sangue quente. Sangue de ódio, sangue revolucionário.

Voltou a olhar para a bandeira branca. No fundo, ele queria levantá-la, queria amar esta porra de Brasil, pois, se não amasse, teria que deixá-lo. Mas então lembrou-se da merda dos vinte centavos que por anos compraram a dignidade do povo brasileiro.

Mas não mais, não mais! Não mais, PORRA!

O Brasil acordou, a sociedade reagiu! Tardia, mas frenética! Um batalhão sem precedentes que anseia por mudanças, que só vai ser freado por resultados! Uma tropa de pessoas que lutam por um país melhor. Que gritam e jogam para os céus os vinte centavos. Não é por um vinte centavos. Mas por milhões de vinte centavos. Extorquidos de cada brasileiro ano à ano, década após década, mas ninguém diz nada. Ou pelo menos não dizia, pois agora todos foram para as ruas.

Em um momento final, o jovem revolucionário concluiu de que este país não precisa de mudanças, ele precisa ser refeito, e com um grito cortante de agonia, arremessou o coquetel molotov, incendiando tudo e todos.


Ele só não sabia que seu ato não destruiria apenas o país vigente. Destruiria todo um ideal, toda a estrutura da manifestação. Acabaria com os protestos, pois perderam seu caráter pacífico. Não sabia que iniciaria uma guerra civil, um estado de sítio.

Não sabia que o fogo o consumiria tão rápido.

Mas rápido até do que mudanças de estação. Do que primaveras políticas.

- Dedos Azuis