domingo, 16 de junho de 2013

Vidas Obssessoras

O árido mármore arranhou minhas costas. Os recentes ferimentos ainda incomodavam  Mal cicatrizada e mais fina do que seda, minha pele gritou.
Todo o mundo que me adornava começou a tornar-se preto e branco, conforme iniciava minha aventura no passado. Um hábito comum à todos aqueles que buscavam entender suas falhas.
Novamente no parque, novamente no banco, porém há muito tempo atrás. Giovanni ali, com suas curtas perninhas balançando no ar. As pequenas mãos entrelaçadas a fria corrente do balanço, enquanto sua cabeça pendia para baixo.
A tristeza era seu melhor amigo de infância. 
Foi então que me apresentei. Sorri, e ele sorriu para mim. Foi o suficiente para uma efetiva aprovação. Nos tornamos inseparáveis. 

Sua infância foi monótona, mas satisfatória. Solitária, porém feliz. Giovanni conversava pelos desenhos, sorria rabiscos. E dava todos para mim.

Porém isto começou a mudar. Sua adolescência, seu sucesso profissional, sua vida social. Não havia espaço para fé em meio a tantas garotas. Não havia deixas para crenças bobas, para anjos da guarda.
Giovanni alcançou a tudo e todos pelos seus próprios esforços, pelo seu próprio carisma. Aos 17 Giovanni era ateu.

Seguiu toda uma vida, ou uma desvida.
Ele foi promovido e casou. Teve um filho e chamou-o de Vitor.
Foi demitido e abandonado. Seu filho adoeceu aos 6.

Pela primeira vez em 9 anos, Giovanni chorou de verdade. Pela primeira vez, rezou.

Penso se as coisas teriam sido diferentes.

Penso se as coisas teriam sido diferentes se eu tivesse feito Giovanni abaixar a voz naquela reunião. Bater o carro antes de chegar no motel. Se eu tivesse salvado Vitor.
Mas meu ego não me permitiu-me. Ó caro leitor, não. Desculpe se passei-lhe uma impressão errada. Não sou um anjo da guarda, não.
Sou mais… como meu amigo gosta de dizer, de um departamento mais profundo.
Realmente as coisas teriam sido diferentes, se eu não tivesse ajudado Giovanni a pressionar o gatilho.

- Dedos Azuis