segunda-feira, 14 de março de 2016

O Homem que Tinha Tudo

Bocht era seu nome, mas entre os moradores de sua antiga rua, era conhecido como “o menino que tinha de tudo”. Tudo, talvez fosse uma tênue hipérbole, mas não a ponto caricato, longe de ser um exagero de proporções colossais. Bocht tinha mais do que muitos, mais do que todos que o conheciam, e nunca teve constrangimento algum em demonstrar isto.
Além de ser um garoto extremamente belo e que atraía olhares por onde passava, também era um jovem gênio, que demonstrava fácil aprendizagem e compreensão com o mínimo de esforço aplicado. Seus pais eram donos de uma pequena fortuna, e gabavam-se aos amigos pelo filho que ainda tinha os quatro avós vivos. Falta de amigos nunca foi um problema, vez que Bocht estava sempre rodeado por crianças das mais variadas idades, além dos sempre presentes admiradores seniores. Animais de todas as espécies e tipos preenchiam sua pequena mansão, desde gatos e cachorros até pássaros e pequenos roedores. Por último, mas não final, pois o tudo é grande demais para resumi-lo em um parágrafo, ele tinha o que muitos batalham por toda a vida e nunca conseguem; Bocht era sincera e honestamente feliz.

Os anos passaram, as estações mudaram e o mundo acinzentou-se. O ar tornou-se mais pesado e difícil de respirar, a comida perdeu o gosto, o dinheiro perdeu o significado. A vida por vezes ameaçava perder o sentido. O menino que tinha de tudo acabou tornando-se o homem que tinha de tudo, e se alguma vez em sua vida, até agora, podemos dizer que Bocht perdeu algo, foi a felicidade que trazia em seu peito quando criança. Mas para este homem, a felicidade não representava nenhuma força estrutural para abalar seu contexto de todo, e, mesmo não sendo mais feliz, ainda acreditava ter tudo. Como esta é uma narrativa de sua vida, por seu subjetivo acreditar que ele ainda tinha tudo, trataremos desta forma até segunda instância.
Após o conhecimento da perda, esta se mostrou mesquinha outra vez, e cada vez mais frequente; seus avós, seus amores, seus admiradores, seus amigos, seus pais. A última perda que Bocht sofreu foi a de seus sentimentos, e, desde então, parou de notar o que mais perdia.
Em contraponto, cada vez sua fortuna tornava-se maior, dobrando, triplicando, em um ritmo exponencial humanamente inacreditável. Dedicava-se aos estudos com tamanha voracidade que os resultados eram diplomas atrás de diplomas, títulos, prêmios, reconhecimentos, mais fortuna. Suas conquistas anestesiaram suas perdas, a ponto de passarem despercebidas e tornarem-se cada vez mais superficiais. Para Bocht, ele ainda era o homem que tinha de tudo, então ainda assimilaremos isto como verdade absoluta.

Já faz tempo, tanto tempo que é difícil buscar a data exata, mas acredito que foi em meados de seu trigésimo aniversário. Ele admirava seu reflexo esbelto em seu espelho Guardian quando notou o pequeno fio branco que descansava sobre seu Armani risca-de-giz. Com os dedos em pinça, trouxe a poucos centímetros do nariz e inspecionou-o com afinco.
Efemeridade.
Foi esta a palavra que ecoou em sua cabeça. Foi esta palavra que o atormentou nos anos seguintes. Foi esta palavra que trouxe de volta um sentido para a sua vida, um significado para o seu dinheiro. Bocht precisava descobrir como contornar a morte.
Dedicou-se e investiu em diferentes campos de pesquisa, contratou cientistas de todos os cantos do mundo, apostou em pesquisas pioneiras em universidades estrangeiras e abriu mão do cargo de CEO de sua empresa. Estudou os supercentenários, os atletas que competiram nos Jogos Olimpícos. Viajou aos cantos mais remotos do mundo para compreender a chave da imortalidade dos vermes, assim como o impacto dos alimentos no organismo. Apostou uma parcela de seu dinheiro na recuperação de células e tecidos através da impressão 3D, fez inúmeras pesquisas ilegais em células-tronco e, quando a razão fraquejou, cogitou subornar Deus.
Turritopsis dohrnii, foi este o nome responsável pelas suas insônias. A espécie de água-viva que driblava seu destino e rejuvenescia suas células indefinidamente, não podendo morrer por causas naturais.
“É isso”, gritava Bocht em seu subconsciente. “É isso”. E, tamanha era sua convicção, que no dia em que recebeu a mensagem, avisando que a última amostra tinha morrido por causas naturais, Bocht sentiu medo. Foi a primeira vez, a primeira de duas vezes em que o homem que tinha de tudo sentiu medo.

A chuva gelada caia em sua cabeça, mas ele não ligava. O stress dos últimos anos, movido pelo primeiro fio branco apenas resultou na multiplicação exponencial do mesmo. Ele já era um jovem senhor, com a cabeleira completamente grisalha. Em pontos que ele nunca ousou olhar, constava-se até o início de uma calvície.
Bocht, apesar de ter tudo, não tinha mais rumo. Andava durante horas por ruas vazias, por vielas sem fim. Cruzava bairros, pontes, pessoas, e quando a fadiga o dominava, pegava um taxi e voltava para casa. Só conhecia o escuro, o limite, o frio e a dor.
Naquela noite, na noite da chuva gelada, Bocht foi por um caminho novo. Já fazia três horas e meia que estava em sua caminhada taciturna. Estava perdido, mas ele se perdia todas as noites. Estava sozinho, mas ele estava sozinho todas as noites.
Cansado, desmotivado, letárgico, levantou os olhos, pousando-os na única luz daquela rua negra sem fim. Lentamente decifrou a palavra que aquele conglomerado de letras luminosas formava: VIDENTE. Bocht suspirou, e a noite suspirou junto. Um vento fraco e asmático parecia empurrar-lhe para dentro da loja.
- Eu quero ver meu futuro! – gritou, empurrando a porta com seu sapato Dolce & Gabbana esfarrapado.
A velha senhora assustou com tamanho frenesi, soltando palavras aleatórias e desconexas, enquanto levava a mão ao coração.
- Meu deus, rapaz! Eu tenho pressão alta!
- Eu quero ver meu futuro! – repetiu Bocht, em um tom acima do que o necessário para se fazer ouvir, trazendo em sua voz uma embriaguez psicológica. Pela sua aparência física acaba, as roupas em frangalhos, não era de duvidar-se que realmente estava embriagado.
- Pois bem – disse a idosa – daqui a quanto tempo o senhor gostaria de se ver? Cinco anos? Dez?
Bocht gaguejou, mas não conseguiu dizer nada. Estava apreensivo. Com passos arrastados, começou a mover-se para fora da loja.
- Vou fazer-lhe uma proposta, desde que o pagamento seja gordo – riu a vidente – E se eu enxergar a sua morte? Sim, sim, este assunto parece atrai-lo mais, dado ao espanto em seu rosto. Pois bem, sente-se.
E assim Bocht o fez.
- Encoste sua testa com a minha – e esperou o homem seguir as instruções – cruze os dedos com os meus – disse, estendendo as mãos – agora sopre dentro de minha boca – e assim Bocht o fez.
Segundos que pareciam anos, que arranhavam a garganta do homem com unhas afiadas, fazendo sentir como se afogasse em seu próprio sangue. Então com uma voz rouca, claramente diferente da proferida alguns segundos antes, a senhora disse:
- Não existe futuro, para o homem sem futuro. Não existe morte, para aquele que a muito já moreu. Não existe nada, para o homem que não tem nada.
Bocht jogou-se para trás, recebendo aquilo como um soco na boca do estômago. Sentiu o choro quente escorrendo por seu rosto. Sentiu saudades, sentiu paixão, sentiu remorso. E, pela segunda e última vez em sua vida, sentiu medo.
Mas, quebrando completamente o ambiente de pânico gerado, uma gargalhada ecoou pelo recinto. Não uma gargalhada colossal, sinistra, tenebrosa, e sim uma gargalhada de divertimento sincero.
- Ai, rapaz, você me faz rir! – gargalhou a idosa – estou só tirando uma onda com a sua cara! A Vidente Margô já está em seus aposentos, eu sou apenas a faxineira! – e assim, deu mais uma gargalhada estridente – agora saia daqui, seu mendigo sujo!
Bocht levantou de sobressalto, com o rosto claramente perturbado. Sem dizer uma palavra, saiu da loja.

Não existe nada, para o homem que não tem nada.

Bocht morreu atropelado uma semana depois.

- Dedos Azuis