terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O Adulto Infeliz

Tirou uma folha amassada do bolso e a desdobrou com cuidado, alisando suas partes violadas pela violência do caminhar e da pressão exercida por suas roupas, levantou os olhos e disse:
- "Sabe, eu cresci com uma cabeça cheia de opiniões de pessoas vazias".
Um homem estava em pé em frente ao banco em que um pequeno adolescente de cabelos escuros estava sentado, uma garoa fina caia sobre os ombros das duas figuras e algumas gotas escorriam pelo nariz choroso daquela criança crescida e desolada.
- "Ora essa" - pensou o homem - "mas você não passa de uma criança".
Olhou para aquelas pequenas mãos que dobravam um papel e o protegiam do vento e da chuva. Respondeu:
- "Como assim, cresceu? Você ainda é muito jovem para se lamentar por sua infância" - o garoto não o olhava - "você está vivendo a droga da sua infância" - o garoto olhou para cima, encarava os botões da camisa social branca em sua frente - "quantos anos você tem? Dez? Nove?" - Completou.
- "Onze." - Cochichou o garoto - "você não entenderia" - abaixou os olhos - "e nem precisa" - disse para si.
Eram quase seis horas da tarde, a garoa tornara-se tão fina quanto uma tênue neblina serrana, os pássaros haviam parado de cantar e não havia pessoas no parque, apenas algumas cadeiras vazias e lixeiras cheias de lixo.
- "Está ficando tarde, garoto." - Comentou após alguns segundos de silêncio - "os seus pais virão te buscar ou você esta pensando em ficar por aqui esta noite?" - Arriscou, não aguentou e sorriu.
Era indiferente, não importasse a pergunta que fosse feita, nada o atingia, sua cabeça estava em outro lugar.
- "Eu não tenho pais" - disse, indiferente - "bom, na realidade eu tenho, mas quase não os vejo, eles trabalham demais." - Complementou.
- "O problema não era esse" - pensou o homem - "afinal todos temos problemas com nossos pais durante a adolescência, alguns adolescentes gritam e se revoltam contra tudo e todos enquanto outros preferem sobrecarregar o departamento de tristezas incubadas do cérebro, porém os dois crescem e se tornam adultos tristes" - sua mente prosseguiu - "Assim como eu" - e sua boca concluiu.
O garoto o encarava sentado com as mãos no bolso sobre um banco de madeira envelhecido.
"Assim como você, o que?" - Perguntou calmamente.
Não havia percebido que teria proferido quaisquer palavras audíveis, correu uma das mãos até o queixo, mas não conseguiu evitar que as palavras que já havia dito chegassem aos ouvidos do garoto.
- "Disse que trabalho demais, garoto." - Lembrou-se das crianças em casa - "temo que meus filhos se sintam assim" - fez um movimento com o rosto -  "como você" - esperou - "não consigo suportar a ideia de que algumas crianças estão largadas pelas ruas ou sozinhas por ai" - suspirou, olhava para o garoto sentado a sua frente - "foi por isso que me tornei o que sou hoje." - Concluiu levantando as mãos num gesto indefeso.
O garoto o olhava, podia ver uns pequenos fios saindo das narinas e do queixo do homem em sua frente, jurou para si que não mencionaria este fato, percebeu que a chuva cessara e perguntou:
- "E o que você é hoje?”
Um sorriso triunfal serpenteou pelos lábios do homem, fez a expressão que os adultos fazem quando conseguem encaixar as falas de uma vítima numa piada de mau gosto, como se houvesse previsto a pergunta e tivesse uma resposta preparada desde a noite do dia anterior. Respondeu de olhos cerrados e de sobrancelhas levantadas:
- "Um adulto infeliz" - disse recitando uma música embutida numa fala de criança.
O garoto o encarou por um ou dois segundos.
- "O senhor não me parece infeliz" - disse - "até acho que você foi uma criança bem alegre." - Concluiu.
O homem tinha afundado o rosto na blusa para evitar o vento.
- "Sabe, garoto" - emergiu o rosto - "o que faz os adultos serem chamados de adultos infelizes não tem nada a ver com ser ou não ser feliz, mas com o fato de você conseguir fazer os outros serem felizes." - Falou como se desse uma lição de moral em um de seus filhos. - "E sim, eu fui uma criança alegre." - Respondeu ao se lembrar da afirmação.
O garoto abaixou a cabeça e pensou por alguns segundos, pegou o papel do bolso e deu uma risadinha, o guardou de volta.
- "Então isso quer dizer que eu vou ser um adulto feliz?" - Perguntou, olhando para o rosto mal-humorado em sua frente. Riu, insolente.
- "Como assim?" - Perguntou o homem ao perceber que sua lição de moral nem sequer atingiu os ouvidos do garoto.
- "Veja bem, se você era uma criança alegre e se tornou um adulto infeliz, eu que sou uma criança infeliz serei um adulto alegre, certo?" - O homem o encarava rindo.
- "Não necessariamente" - respondeu irônico.
O sorriso do rosto do menino desapareceu.
- "Como assim?" - Gaguejou.
Queria ter piedade, mas sempre fora um realista incurável.
- "Garoto, não é assim que funciona" - começou - "não é só porque eu fui de um jeito e terminei de outro exatamente contrario, que vai acontecer o mesmo com você. Nem todas as crianças ou adultos são iguais" - esperou, o garoto o olhava atento - "você vai conhecer crianças tristes que se tornarão adultos tristes, conhecerá crianças felizes que se tornarão adultos felizes e conhecerá pessoas como eu, que nascem de um jeito e terminam de outro" - continuou - "você vai pra escola, vai crescer e vai pra faculdade, vai fazer escolhas, vai arranjar um emprego, vai comprar um carro, vai encontrar uma garota que te aceite infeliz ou feliz, vai ter filhos, vai fazer mais escolhas, vai comprar uma casa, vai escolher um bichinho e todas essas coisas vão dizer se você vai ser um adulto feliz ou infeliz." - Concluiu.
Estava de cabeça baixa, tinha um papel na mão. Levantou e perguntou:
- "Se é a gente que escolhe tudo isso, por que existem pessoas tristes?" - O garoto triste estava mais triste. - "É por causa do que os outros adultos dizem, não é?" - Sua cabeça estava abaixada.
O homem reconheceu.
- "Sim, é por causa do que os outros adultos dizem." - Abaixou a cabeça.
O garoto levantou a cabeça.
- "E as crianças?" - Perguntou.
O homem abaixou, dobrando os joelhos na altura do banco.
- "O que tem as crianças?”
O garoto puxou o braço do homem e colocou um pedaço de papel em sua mão.
- "Elas podem fazer crianças felizes serem infelizes?" - Perguntou, ainda segurava o braço do homem.
Ele se aproximou um pouco, ainda de joelhos e viu os olhos lacrimosos do menino.
- "Não sei, acho que sim." - Disse.
No mesmo instante, o garoto pulou no peito dele, eram dois estranhos, nunca haviam se visto e o garoto o abraçava e soluçava. O homem ainda estava de joelhos enquanto o garoto molhava a camisa úmida pela chuva com suas lágrimas, ele passou os braços ao redor do garoto e o levantou no colo. Lembrou-se do papel em sua mão e o desdobrou, o leu em voz baixa, o garoto não o ouviu.
- "Feioso" - deu uma risadinha ao ler, mas parou, pois se lembrou de todas as vezes que ouvira palavras de mesmo efeito.
- "Você não deveria se preocupar com o que os outros pensam." - Suspirou o homem.
O garoto soluçou.
- "Eu sei".
O homem respondeu.
- "Não, não é pra você. Estou falando isso para me lembrar mais tarde".
 
- Lágrimas de Gasolina