quinta-feira, 2 de julho de 2015

Tuberculose

Era o refrão.

- I'm lost without you, can't help myself, how does it feel, to know that I love you baby!

E o 3.85 passou, como um falcão, enquanto abstraia-me em meio ao vocal de Robin Thicke. 

Frio, noite, sozinho. E agora sem transporte. As moedas avulsas tilintavam em meu bolso, enfatizando o fato de que, tirando os R$ 3,50, eu não tinha mais nenhum centavo. 
Sem dinheiro para um taxi, sem amigos para uma carona. Neste horário, o próximo 3.85 passaria só daqui há duas horas. Meu celular apitou, sussurrando o fim, e ao som de clarinetes minha bateria despediu-se. Sem comunicação. 

Em uma hora e meia eu estaria em casa, se decidisse caminhar. Xingando o sádico destino, o frio insuportável, a bateria efêmera, o dinheiro escasso e a solidão de morar em uma cidade em que você não conhece praticamente ninguém, levantei e comecei minha jornada. 
A cada passo, repreendia-me mais intensamente, pela falta de atenção. Odiava-me ao ponto de começar a traçar em minha mente soluções incrivelmente ruins para o meu problema. Eu poderia voltar para o ponto de ônibus, e esperar. Talvez tirar um cochilo... e provavelmente ser assaltado. Talvez pegar um taxi, e quando estiver chegando perto pular do carro em movimento... correndo risco de quebrar grande parte dos ossos de meu corpo, além de uma bela surra do taxista. Talvez roubar um carro...

Neste segundo, um suspiro metálico soprou de forma deprimente ao meu lado. Torcendo o pescoço, deparei-me com a lataria verde e branca coberta por ferrugem, os faróis ridiculamente luminosos e as portas escancaradas. O 3.85 estava estacionado ao meu lado, em uma rua que fugia drasticamente do seu destino, em um horário que ele não deveria estar lá, apenas esperando. 

Sorri e subi no ônibus. 

O motorista entrou em uma tosse frenética, escondendo o rosto no canto esquerdo de seu corpo. Sinalizou com o polegar para que eu me dirigisse para o fundo. Não tinha cobrador, então não fiz nenhum movimento para pegar os R$ 3,50 em meu bolso. Nunca se sabe o dia de amanhã. 

Caminhei até o último banco e sentei, com um suspiro de satisfação. Logo estaria em casa. 

Porém, como se lendo meu pensamento e resolvendo contrariar-me, o motorista simplesmente levantou e saiu pela porta de embarque, deixando o motor ligado. 

O cinto apertou-se contra meu peito com uma intensidade anormal (eu não lembrava de ter afivelado os cintos), tirando todo ar de meu pulmão. Tentei gritar, mas nenhuma voz saiu de minha garganta. As janelas estavam completamente embaçadas e opacas, o motor rugia com voracidade. 
O tecido do banco projetou-se, penetrando em minha pele, enquanto eu me debatia enfaticamente. Aos poucos, começou a entrelaçar-se com meus músculos, e senti uma dor aguda, como se minha alma estivesse sendo arrancada de mim. Circulou minha cabeça e entrou em meus orifícios faciais, furando meu tímpano, destruindo meus olhos e adentrando por minha boca e nariz. Desmaiei com a dor. 

Acordei com um pulo assustado. 
Olhei para ambos os lados, assimilando o local. Ainda estava no ponto de ônibus. Maldição, havia sido a porra de um pesadelo. 

Tentava regularizar meu coração acelerado quando o 3.85 virou a esquina. Sinalizei com o indicador. 
Antes de subir a escada, notei a pintura descascando e a ferrugem exagerada. Maldita EMDEC e sua frota velha de ônibus.

Paguei os R$ 3,50 para o motorista e caminhei para os bancos do fundo. Logo que sentei, ouvi uma tosse doentia apoderar-se do motorista. 

Era impressão minha ou ele estava vestido de palhaço?


- Dedos Azuis