terça-feira, 21 de julho de 2015

O Ônibus 3.85 #2 - Sem Futuro

Igor estava brincando no jardim quando sua mãe bateu na parede e fez sinal para que entrasse.
Correu em direção à humilde casinha da viúva, chorando, quase implorando para não ser esbofeteado.
Chorou em vão, pois quando cruzou o batente, sua mãe já estava em pé sobre o tapete da sala, trajando um vestido azul claro, um avental que escorria até os joelhos e em uma das mãos, uma longa e grossa cinta de seu falecido marido.
O garoto apanhou como um cachorro naquele dia. Igor estava no auge de seus 12 anos e já havia apanhado mais que qualquer outro garoto da rua, mas disso o pobre garoto não sabia, pois não conversava com as outras crianças, afinal, sua mãe não permitia que saísse para brincar.
Quando a mãe o soltou, correu pelo piso de madeira, com o rosto inchado de tanto gritar e chorar. Não entendeu o porquê daquelas cintadas desferidas contra seu corpo. Na verdade, Igor nunca compreendeu nenhuma das punições dadas pela mãe, ela nunca lhe disse uma simples palavra, seja de aprovação ou de censura, se a mãe permitisse que ele fosse à escola, provavelmente Igor poderia supor que o caso dela tratava-se de uma deficiência auditiva e que nunca aprendera a falar.
Enrolou a cinta e jogou sobre a velha poltrona. O garoto estava encostado no canto escuro da sala ao lado de uma peça rústica, que compunha parte da decoração da casa, seguiu sua mãe com os olhos, que caminharam em direção à mesa de jantar. O cheiro de carne moída com molho de tomate impregnava o ar e adentrava as narinas do garoto, sua barriga estava roncando.
Apanhando um pequeno sino de estanho, descansado sobre a mesa, e fazendo-o tilintar, a mulher deu sinal para que aqueles que jaziam na casa se aproximassem para o jantar.
O garoto deu alguns passos sobre o piso de madeira que seguia até a sala de jantar, caminhando, com os pés ainda sujos de terra, na direção da mesa. Puxou uma cadeira e se sentou. Sua mãe estava sentada logo à frente, com as mãos cobrindo parte do rosto e proferindo sons ininteligíveis em voz rouca e baixa. O garoto abaixou a cabeça e fez o mesmo, se pondo a orar sem saber, conversando com uma entidade da qual nunca ouvira falar e nem saber do por que de fazê-lo.
Tinha muitas perguntas não respondidas, que eram apenas saciadas pela sua vã imaginação somadas a sua visão de mundo infantil e sem embasamento familiar. Para ele, o mundo se resumia ao quintal de sua casa, sua mãe e os pássaros que voavam por cima do muro.
Estes momentos antes das refeições tinham um brilho intenso de reflexão e autoconhecimento que Igor jamais se daria liberdade de calcular, assim, os fazendo, simplesmente porque gostava da sensação e nunca se dando ao trabalho de questionar, seja a si ou a sua mãe.


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- Lágrimas de Gasolina