terça-feira, 17 de março de 2015

Liberália, a cidade dos Perplexos e Apáticos

As observo de longe.
Um sonho estranho, diferente.
Elas estão se matando, gritando alguma bobagem.
O chão está diferente, uma escuridão amortecida sob os pés das mais variadas faces.
Faces alongadas, faces quadradas e faces redondas. Juntas, gritando como crianças famintas.
Uma voz me pergunta:
"Onde está você?"
Estou aqui em cima, sentado. Apático, imóvel.
Como pude deixar tudo isso acontecer? A culpa é mesmo minha?
A voz responde:
"Como pôde? Como pôde?"
Levanto-me e sinto como se um tijolo atingisse o meu abdome. Não estou preparado.
Alguns deles estão tentando escalar a montanha, vejo-os escalando o abismo sob meus pés.
Estão querendo me pegar novamente, querem me levar para baixo, porém não o farão, pois não o permitirei.
Um deles agarra meu pé esquerdo. Forçando-me a sentar novamente.
Penso em chuta-lo, mas não o farei
Já os chutei certa vez e quando menos percebi estava gritando alguma bobagem adentrado ao abismo.
Uma segunda face agarra meu pé direito. Não cederei.
Não os balanço para que se soltem, apenas firmo os pés no chão.
Um deles grunhe:
"Você é um humano!"
O outro concorda e grunhe em resposta:
"Ele tem razão, seu humano!"
Um humano faria isso? Deixaria o mundo ruir? Ser humano é ser humano? O que é ser humano, afinal?
Estendo uma das mãos para uma das faces.
Venha aqui e sente-se ao meu lado.
Veja as coisas como são.
Ela estapeia a minha mão, recuo. Controlo a vontade de chuta-la e apanho teu punho à força.
Sento-a ao meu lado e assistindo a toda a existência, sua feição se transforma em perplexidade, em seguida começa apresentar indícios de apatia.
Agarro o punho da outra, ela se contorce, gritando:
"Não, não! Eu não quero!"
Sento-a e sua atitude é a mesma da outra. Perplexidade. Apatia.
Estão escalando!
Continuam escalando!
Será uma longa pescaria, senhores!
O melhor será que, no final, não restará nenhuma face no abismo, apenas uma montanha superpopulosa, cheia de observadores apáticos e perplexos.
E não haverá mais nada para se observar, exceto o horizonte.

-Lágrimas de Gasolina