quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

.9mm

 Popin Jack tragou seu narguilé, aspirando aos dezoito céus que compõe nosso universo uma fumaça tênue, com aroma de menta.
 Sentado no parapeito de um gigantesco arranha-céu, desfrutava de mais um por do sol. Mesclando-se com sua sombra, as cordas que prendiam seu pulso alongavam-se, terminando em algum infinito que  Popin nunca havia chegado.
 Hoje ele tem 35, mas descobriu que era uma marionete aos seis. Não foi difícil, na verdade. Sem pais, invisível às outras pessoas, com cordas em cada extremidade de seu corpo e, fundamentalmente, sem livre-arbítrio.
 Popin Jack não podia escolher se ia ou vinha, ou até mesmo se dormia ou acordava. Nem mesmo o trago do narguilé era sua escolha, e sim uma esticada de corda de algum Ser que estava acima.
Ele era uma marionete, pois bem, sem escolha alguma de sua vida. Apenas ia vivendo conforme lhe era designado.

 Ontem, dia 14 de Janeiro, enquanto os últimos raios de sol se despediam para deixar suas enteadas nuvens trazerem a chuva, Popin observou um acidente no centro da cidade. Dotado de onisciência e onipresença, conseguiu acompanhar todo o destrinchamento do horrível drama.

 Maria chegou em casa, encontrou seu marido Roberto traindo-a com outra, Ana, em sua própria cama.
 Maria furiosa sai de casa e vai para um boteco qualquer, afogar seu sofrimento enquanto observa o mundo por trás de um fundo de copo.
 Enquanto isso Roberto perde o controle, motivado pelo nível de estresse da situação e mata Ana com uma .9mm que guardava na gaveta da cozinha.
 Maria sai do bar dirigindo, perde o controle do carro, atropela duas garotinhas, Nicky e Lara, e destrói a loja do Arthur, revendedor de eletrodomésticos.

 Horas depois, o pai de Nicky e Lara, Matheus, entra na delegacia com uma .9mm recém adquirida e mata Maria com três tiros.
 Arthur colocou sua casa como fiadora de sua nova loja, que estava aberta a apenas uma semana, e todo o investimento feito foi fruto do montante de sua aposentadoria. Desejou ter uma arma, seria menos doloroso. Todo seu dinheiro, toda sua esperança, tudo destruído por uma garota mimada que decidiu beber apenas por fazer farra, sem motivo algum. Como não tinha uma arma, Arthur jogou-se do vigésimo segundo andar de seu prédio.
 Matheus foi preso.
 Roberto usou a última bala de sua .9mm quando viu o noticiário.
 O dinheiro que Matheus pagou por sua .9mm ilegal foi o mesmo dinheiro que Cláudio, traficante de armas, injetou em suas veias e morreu de overdose na madrugada do dia 15 de Janeiro.



Popin Jack tragou mais uma vez seu narguilé, e, não por vontade própria, pegou um pequeno caderno que jazia ao seu lado, no topo do prédio.

Os caminhos que as pessoas trilham, as decisões que tomam, é tudo um grande efeito borboleta. As vezes uma decisão sábia se mostra estúpida. As vezes o seu investimento te deixa na miséria. As vezes o seu amor parte seu coração em mais pedaços do que sua alma é capaz de juntar. As vezes, ou melhor, sempre, as escolhas erradas estarão presentes. E é nelas que encontraremos as maiores frustrações, os maiores sofrimentos e, muitas vezes, o nosso ponto final.

Com uma caneta esferográfica azul que falhava em 20% de seu uso, escreveu nas páginas amareladas:

" Será que nosso livre-arbítrio é a razão de nossos sofrimentos?"

Sem mais, tirou uma .9mm que estava atado à seu cinto e disparou contra sua têmpora, deixando as cordas frouxas caírem junto com seu corpo sobre uma cidade preta e branca.

- Dedos Azuis