quinta-feira, 19 de junho de 2014

Um dia de Mãe

André não lembrava de mais nada daquele dia, daqueles anos. Era muito pequeno.

A única coisa que lembrava com clareza era daquela falsa promessa:

"Vou comprar leite", ela disse.

"Volto logo", ela disse.

Ela não trouxe o leite, muito menos voltou logo. 

Os anos se passaram, acumularam-se, tornaram-se uma grande gaveta de poeira,

onde detalhes não importavam nada e importavam muito. 

Era difícil, foi difícil. Sempre vai ser. 

Seu pai é ótimo, mas é pai. Sua mãe nunca esteve presente.

Seus avós eram ótimos, mas eram avós. Não lembrava do rosto de sua mãe. 

Escola, namoradas, faculdade, carro, emprego, decepções, decepções, decepções. 

Seu pai estava lá, uma verdadeira chapa de aço indestrutível, mas onde estava sua mãe? 

"Volto logo", ela disse. Estas palavras ainda ecoavam em sua mente.

Hoje, com 78 anos, no seu quarto, dentro de um asilo, sentia sua respiração diminuindo. 

Sentia o pó tornando-se mais presente, sentia o ácaro tornando-se mais presente. 

Sentia o cheiro da morte tornando-se mais presente. 

André teve uma vida boa, só não teve uma mãe. 

Ela nunca apareceu, em seus 78 anos ela nunca apareceu. 

Mas hoje ela está ali. 

Não, ela não está morta. 

Ela está divina, com seu corpo de vinte, vinte e cinco anos. 

Seu cabelo louro dourado descia liso como uma cascata em suas costas. 

Trazia no rosto uma máscara que cobria seus olhos, mas claramente reconhecível. 

Amarrada no pescoço, uma longa capa azul lhe adornava. 

E então, agora, com 78 anos, ela contou para André o real motivo de ter partido.

Disse que fora convocada, fora escolhida

Para tornar-se uma super-heroína

Disse que todos os dias da vida de André esteve presente,

Protegendo-o em cada esquina, em cada decisão.

Revelou que não foi mãe, mas fora anjo da guarda e,

ajoelhada aos pés enrugados de André, pediu perdão. 

André sorriu, com os olhos cansados, e abraçou a mãe. 

- Por 28 mil dias, você foi heroína, e por 1 será mãe.

- Mas escolhi desta forma para poder te proteger... - sussurrou a mãe.

- Mal sabes que mães na verdade não só são mães. Não existe dias de mães ou dias de heróis. 
Mães todos os dias sãos mães, são anjos, são super heroínas. 
São professoras e amigas, são apoio e incentivo. 
Mas não me peça perdão, minha mãe.
Não cabe à um filho decidir se perdoa ou não nossa mãe. 

E passando os braços sobre os ombros de sua mãe, ambos saíram do asilo, 

Ela assumindo sua posição de super heroína na Terra, enquanto André ajudaria a defender outros reinos. 

- Dedos Azuis