quarta-feira, 3 de julho de 2013

Rodoviária

Me lembro da primeira vez que o vi. Sobretudo negro, barba longa. Carregava um pequeno livro de couro no colo.
Estava sentado na rodoviária, queixo direcionado para frente, os óculos escuros tapavam-lhe os olhos.
Me lembro de sentar ao seu lado.
A figura escura inquietou-se perante minha presença. Parecia desconfortável, coçava a barba e remexia os ombros.
Foi quando apanhou o livro e o abriu em uma página, repleta de escritas, indecifráveis. Caligrafia horrenda.
"Qual é o seu nome?" - perguntou, sem ao menos mover o pescoço.
"Samuel." - respondi, hesitante.
"De que?"
Jamais responderia a um estranho, mas as palavras saíram, mais fortes do que minha vontade.
"Guimarães Rosa"
Ele correu os dedos finos pelas linhas deformadas de seu livro negro, continuava igualmente estático.
"Você deve pegar o próximo ônibus, Samuel."
No mesmo instante, dois ônibus cruzaram a esquina.
"Me acompanhe." - Proferiu, adentrando ao primeiro dos ônibus. A rodoviária estava vazia, exceto por mim, a estranha figura e um pedinte apoiado em uma das vigas.
Meu bom senso falou pelos meus ombros. Permaneci sentado.

Me lembro da segunda vez que o vi. Ele estava sentado, na mesma poltrona, da mesma rodoviária.
"Ola, Samuel."
Me contive em responder.
"Hoje, definitivamente, você deve pegar o próximo ônibus."
No mesmo instante, dois ônibus cruzaram a esquina.
"Me acompanhe." - Proferiu, desta vez sem olhar para trás.
Cruzei os braços, virei o pescoço e gritei em minha mente.
"Não, velho escroto."
O ônibus fechou tuas portas e partiu.
O pedinte sentou-se ao meu lado, pediu por algumas moedas. Dei-lhe três moedas de real.
Entrou no outro ônibus e partiu.

Foi neste momento que o vi pela terceira vez.
"Ola, Samuel."
Estava cansado, estressado e com raiva daquilo. Quando fui abrir meus lábios para proferir alguma maldição para aquele homem, ele me interrompeu.
"Olhe teus bolsos, Samuel. Estão vazios. Parece que você doou teus últimos trocados para aquele pobre maltrapilho. Não terás dinheiro para o próximo ônibus."
Olhei a volta, o homem desaparecera. Uma voz ecoou em minha mente.
"Veremos se terás a mesma sorte."
A volta da rodoviária se tornara negra, abismática. Nenhum homem se aventuraria em tamanha escuridão.
Me apoderei dos cobertores largados daquele maltrapilho e ali permaneci, e ali permaneço.

Já fazem quatro dias.

- Lágrimas de Gasolina