domingo, 2 de junho de 2013

Dança da Vida

As nuvens lentamente se deslocavam para seus lares, permitindo assim, que a noite avançasse impiedosamente. 
A quanto tempo permanecia estático, jamais saberia dizer-lhe. Minutos, horas, dias. Mesmo o eterno pareceria um tempo incerto.
Baixei a cabeça, pousando meus olhos no nada, e voltei meu corpo para trás, refazendo o caminho que por meio de passos arrastados me trouxera até ali. Mas parei, atento ao pequeno som que começava a se propagar das estrelas que surgiam.
“Cause with your hand in my hand”
Voltei-me para minha origem, olhando, curioso. Buscando algum vestígio concreto, físico. Alguma explicação plausível para a nossa música começar a tocar na hora de minha partida.
“And a pocket full of soul”
Mas a emoção abalou-me de tal modo, que fora impossível persistir em um caminho errante. Agi da única maneira que poderia agir; afastei as pernas ligeiramente, um braço curvado em noventa graus à minha frente, o outro contornando uma cintura imaginária.
“I can tell you there’s no place we couldn’t go”
E comecei a dançar uma valsa solitária. Um início lento, cuidadoso, meticuloso. Com passos planejados, movimentos mecânicos.
“Just put your hand on the past”
Deslizei para o lado, intensificando os movimentos. Um passo para lá, uma abertura para cá. E começou a fluir toda uma energia antes reprimida.
“I’m here tryin’ to pull you through”
A música ficou ligeiramente mais alta, ganhando vida, ganhando cores. Todo o ambiente estava preenchido pela sua voz, pela sua risada, sua gargalhada. Rodopiávamos no ar, juntos, entrelaçados. Movimentos floreados, ensaiados. Em uma bela curva, sinto o suave toque de seus cachos morenos acariciando meu rosto. Seu perfume abrindo espaço por entre as flores, tornando-se absoluto e puro.
“You just gotta be strong”
Apertei sua mão e puxei-a de volta, adornando-a com um terno abraço. Um sorriso audacioso forçou as rugas de minha boca, abrindo uma singela curvatura. Tornamos novamente uma abertura, um giro floreado, um ávido movimento, e na volta…

Fui arremessado ao chão. 
Quem teria tamanha audácia para profanar tal puro momento? Um sacrilégio meu pé ter sido puxado por dito monstro que renega todos os aspectos do amor para seu bel prazer. 
Olhei para meu agressor, para descobrir que era meu carrasco.
Meu antigo pesadelo que, não mais esquecido, voltou a tapear-me a face.

Olhei para a lápide de mármore branco a minha frente. Adornado em sua pedra, com letras que você teria amado há tempos atrás, seu nome no epitáfio.

“Cause I don’t wanna lose you now”

- Dedos Azuis