quarta-feira, 29 de maio de 2013

Viver

Lá estava novamente, o velho e seu espelho.
Um espelho mágico, porém. Um espelho que refletia uma vida de 47 anos atrás.
E ele se perguntava; onde foi parar toda aquela cor?
Para onde aquele turbilhão, antes chamado de vida, se escondeu para dar espaço a um monótono tique taque de um velho relógio, que sem permissão tornou-se o mestre do tempo. Risadas, agora ecos abafados de ponteiros desgastados.
Para onde foram os seus amigos? 
As pessoas que riam e cantavam ao seu lado. Aqueles que para sempre juraram estar. Onde estava o André, o Guilherme? Bruno ou Pedro? Qualquer Rafael serviria, qualquer braço estendido para um abraço. Qualquer sorriso. Aqueles que por anos estiveram, não estavam mais.
Agora o velho olhava para o lado, e preenchendo o ambiente, apenas música. Músicas e uma solitária lágrima. Solitária como o velho descolorido.
E por fim o amor. Sem dúvidas, esta fora a pior parte da fotografia.
Foram tantos amores, e tantos amores em potencias. Para o velho, antes jovem, era só aceitar. Apenas deixar ser amado, para ser amado. Tantas pessoas que cederam seu coração em busca de apenas um singelo fragmento de amor. 
Porém, para o antigo jovem, a vida se resumia em uma esplendida festa. Cada dia era alguém diferente. Cada dia uma nova boca, um novo sorriso, um novo coração apaixonado. E ah, como era delicioso esta época, como era gratificante, sentir em sua mão o que apenas um par de olhos azuis eram capaz de realizar. 
Lágrimas brotaram dos mesmos olhos azuis quando lembrou-se de seu primeiro amor. De sua primeira namorada. Tentou sorrir, mas as rugas não permitiram. Lembrou do fim, belo e incerto. Chorou mais ao lembrar de garotas que cederam tudo por ele, e que não fora concedido em troca nem mesmo agradecimentos banais.
O velho olhou pela janela, respirando a suave brisa que lhe acariciava o rosto, e permitiu-se sentir as lágrimas esfriando em suas bochechas ressecadas.
E assim por muito continuou, sentado, o velho e seu espelho mágico.
E assim, por muito continuei, sentado, olhando para aquele pequeno porta retrato, naquele solitário quarto do Residencial Recanto Feliz.
E permaneci naquela posição, aproveitando a brisa, um último toque terno, para sempre.
- Dedos Azuis