sexta-feira, 17 de maio de 2013

Num Piscar de Olhos


Me lembro de Maria com sua cabeça apoiada contra a parede, contava em voz alta.
Corri para o quarto, fechei a porta. Levantei o edredom que cobria a cama e encostava no piso, rastejei pelo chão gelado.
Deitei sobre o azulejo e ali permaneci, olhando para a grade de madeira.
Fechei os olhos, enquanto ouvia o contar de Maria, senti um arrepio.
Quando os abri, não estava mais deitado debaixo da cama. Estava sentado e a grade de madeira se transformara em uma tela brilhante e em um pequeno teclado. Ainda podia ouvir Maria, fazendo contas. Ela estava sentada também, ao meu lado.
Preocupações e mais preocupações dominavam meus pensamentos.
Por que eu sentia aquilo? Preocupado com o que? E por que Maria estava tão cheirosa?
Minhas costas doíam. As pressionei contra a cadeira e inclinei-me, fechando os olhos. Toda a preocupação desaparecera.
Quando os abri, tudo mudara novamente. Meus olhos estavam lacrimosos e pude sentir o cheiro de Maria. Ela usava um grande véu branco, estava linda, e olhando para mim, disse:
“Aceito.”
Um rapaz, muito bem vestido, sorriu.
“Pode beijar a noiva.”
Por que estava feliz? Por que eu queria Maria mais perto de mim?
Fechei os olhos e esbocei uma feição de felicidade. 
Maria estava sobre mim, chorando. Eu estava deitado confortavelmente envolto por rosas.
“Não chore, Maria.”
Duas garotas se aproximaram e tiraram Maria do meu campo de visão. Não conseguia me mexer. Não podia gritar.
“Por favor, tragam Maria de volta.”
Fechei os olhos.
- Lágrimas de Gasolina