quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Mergulho em Águas Rasas #2 - O Boneco de Pano

Acho engraçado como são as coisas, me lembro que certa vez, eu e um grupo de amigos tivemos a brilhante e trágica ideia de adentrar as dependências de um retiro de aidéticos localizado à algumas centenas de metros de minha vizinhança. Reunimos somente as mais conhecidas e renomadas figuras do bairro para executar uma missão formada pelo mais alto grau de ingenuidade, imprudência e imbecilidade, é claro que eu fui escalado como líder do bando, eles não me elegeram, mas era explicito em seus rostos o quanto minha presença seria importante. A nossa meta era invadir o retiro através das matas compostas por arvores, córregos e bambus apodrecidos que cercavam toda a propriedade. A entrada da trilha de acesso à mata se desbocava em um descampado maldito de fácil acesso, que ao passar por ela e caminhar alguns metros por folhas podres e animais peçonhentos, podia-se ver, ouvir e sentir um sutil amontoado de águas escuras formado pelo mais puro odor de bosta, sobre o córrego havia uma das vigas da extinta cerca de arame descansando de atravessado, essa ponte era por onde - é claro - passávamos como formiguinhas.
O plano era simples, nos reuniríamos na entrada da trilha, caminharíamos até o córrego, cruzaríamos a ponte, nos esconderíamos em meio às arvores e correríamos como soldados em meio a guerra pela grama a céu aberto até a grade que contornava toda a piscina.
Sim, exatamente isso que você está pensando, toda a droga do plano era para simplesmente darmos algumas poucas braçadas em uma porcaria de piscina, correndo o risco de sermos pegos por invasão e receber uma senhora surra quando chegássemos a nossas casas, mesmo assim não tire a razão da gente, embora fosse um ato de extrema ousadia diluída numa dose gigantesca de burrice, estávamos em janeiro e estava calor pra caralho.
Corremos um de cada vez pela grama durante impressionantes cinco segundos - fiz em quatro -, tendo os corpos freados pela grade quando atingíamos individualmente o objetivo. Um dos meninos preparou e abriu a mochila, retirou um pequeno alicate e abriu a cerca depois de alguns cortes, não fomos vistos nem ouvidos.
Quando nos aproximamos da piscina, notamos que as águas se assemelhavam àquelas vistas correndo pelo córrego há alguns minutos atrás, a partir desse momento eu tinha percebido que adentrar a agua fétida da mata seria muito mais saudável e teria poupado muito mais esforço do que mergulhar na lama esverdeada daquela piscina. No fim das contas, éramos crianças e para a maioria de nós o destino não vale de nada, sendo o caminho ou a viagem o aspecto mais importante, por isso chegar até ali, cortar a grade, simplesmente parar e encarar a piscina com aquele ar de sucesso já seria o suficiente. Porém, em todos os grupos de crianças, sempre existe um elemento que é um pouco mais retardado que os demais.
Então, como uma espécie de iluminação divina ou como se um pequeno diabrete houvesse se apossado do corpo daquele garoto magro e de dentição torta, ouvimos uma risada seguida por grito, vimos um vulto rosa-amarronzado voando num mortal sobre a piscina, girando como um boneco de pano jogado ao ar. Lembro-me de seus membros balançando, digo no sentido literal e integral da coisa, pois o rapaz estava nu, e caindo na piscina. Em seguida, todos nós estávamos lá dentro, não dávamos à mínima para o que aconteceria se alguém chegasse ou se houvesse alguma espécie de contaminação naquela água, éramos crianças e ter preocupações é coisa de adulto.
De vez em quando, me pego pensando em coisas que não fazem o menor sentido e quando me lembro daquela molecada, vejo como cada um era e tinha uma personalidade totalmente única e sabe, pensando nisso, acho que em algum lugar exista uma divisão de entidades responsáveis por organizar os círculos sociais das pessoas. É, algo assim - deve ser. - Não sei se me expressei bem, mas você já percebeu que em todo grupo de amigos, nenhum deles são parecidos e quando são, é porque são irmãos? Por isso eu penso que exista esse tal de recursos humanos celestial, justamente para aquele seu amigo gordinho não ficar sozinho. Sei lá, as coisas são engraçadas e é isso, a gente às vezes se pega pensando em como as coisas aconteceram e no dia seguinte acordamos jurando que não repetiremos os mesmos erros, mas às vezes nossa cabeça é meio atemporal, sabe? A gente esquece com muita facilidade das coisas e o aprendizado vai para o vinagre também.
Foi até engraçado eu lembrar esse tipo de coisa no instante seguinte em que bati a cabeça, porque foi depois daquele momento em que saí da piscina que as coisas ficaram estranhas, afinal eu estava com a cabeça toda inchada e sangrando, minha prima gritava - não ria - como uma hiena e meus pais comemoravam os vinte e cinco anos de casados deles na cobertura de fundo com mais outros cem convidados e parentes.

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- Lágrimas de Gasolina