quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Influência

Hoje eu tive um sonho.
Já fazia algum tempo que eu não sonhava com algo tão real.
Lembro-me de uma face cinzenta que dizia que os finais estavam por vir.
Começou com uma tarde na praia.
Estávamos todos sentados em cadeiras disformes e plásticas sobre as areias do litoral e conversávamos sobre algo que abrigava os confins do passado, riamos como uma família.
Como uma grande esfera índigo-carmim o sol escorria sobre as águas de um mar calmo e acolhedor, alguns pássaros voavam sobre ele, grasnando um som surdo enquanto pareciam fugir e alertar de algo que estava por vir.
Todos estavam envolvidos numa conversa que eu não conseguia mais entender, seus lábios se mexiam sem proferir qualquer ruído. Lembro-me dos muitos círculos de pessoas entretidas nas próprias conversas-surdas que nos rodeavam, mas que só pude notar naquele momento.
Podia ouvir o som das raras ondas quebradiças, do mar que se afastava sutilmente como uma criança que acabara de roubar uma guloseima e o som dos pássaros.
As águas se recolhiam cada vez mais, a cada instante de forma mais explícita, ninguém as notara além de mim. Logo um cume de águas salgadas tomava forma no horizonte, como se o próprio estivesse vivo e erguendo um de seus membros para se arrastar em direção à praia.
As pessoas continuavam falando comigo, demonstrando que de alguma forma eu ainda as estava respondendo e meus gritos de pavor não às atingiam de forma alguma.
- "Você se lembra daquele dia em que fomos à praia e sua mãe ficou gritando para você sair do fundo?”.
Apontei para o horizonte e para a coluna horizontal de água que crescia e tapava o sol, deixando apenas um fio de luz azulado estendido verticalmente, riscando os céus.
- "Olhe lá no fundo!" - disse, apontando e mexendo os braços.
- "É verdade, é sempre assim com a sua mãe." - respondeu a uma afirmação não feita e soltou uma risadinha.
Alguns longos períodos de tempo se passaram, momentos que somente os sonhos podem nos proporcionar, falo daquela falsa sensação de passagem de tempo onde ficamos estáticos e somos apenas vistos por nós mesmos como atores de uma peça de teatro.
A coluna de água correu por toda a extensão das areias, engoliu tudo e todos, ocupando o local onde banhistas conversavam com seus filhos e onde as mulheres tomavam banho de sol. Fui engolido pela violência das águas como todos aqueles daquela praia, porém fui o único a sofrer pelos malefícios da falta de oxigênio, percebi isto quando procurei pelas pessoas que estavam sentadas ao meu lado e notei que elas continuavam conversando entre si como se nenhuma delas houvesse se quer sentido a força que a onda usara para arremessá-las contra as paredes. Afoguei-me e a visão escureceu.

- "Você tem outra chance." - uma voz ecoou pela escuridão.
Sentei-me sobre o concreto de algum quiosque e uma silhueta engravatada repousou a mão sobre meu ombro. Dali podia-se ver os diversos círculos de pessoas, inclusive o meu e a mim, todos sentados e conversando. As pessoas estavam dispostas da mesma forma que se encontravam antes da onda as atingir. Ao longe, podia-se ver a coluna de mar tapando o sol pressagiando o que eu acabara de vivenciar.
- "Você pode tentar avisá-los novamente, mas deve ser de outra forma." - a voz era da figura bem vestida ao meu lado - "De forma que entendam".
Em seguida, o mar consumia todas as pessoas à minha frente. Fechei os olhos.

Estávamos todos sentados em cadeiras disformes e plásticas sobre as areias do litoral e conversávamos sobre algo que abrigava os confins do passado, riamos como uma família.
Como uma grande esfera índigo-carmim o sol escorria sobre as águas de um mar calmo e acolhedor, alguns pássaros voavam sobre ele, grasnando um som surdo enquanto pareciam fugir e alertar de algo que estava por vir.
- "Não estou me sentindo bem." - gemi.
- "Aconteceu alguma coisa?" - olhavam para mim com olhos de empatia.
- "Acho que vai acontecer algo muito ruim, só isso." - respondi - "Provavelmente acontecerá nos próximos minutos”.
Imediatamente todos se colocaram de pé e começaram a juntar suas coisas.
- "Poderíamos simplesmente ficar em algum quiosque no alto, até esta sensação passar." - continuei e todos acenaram em concordância.
Subimos no mais alto quiosque e observamos o horizonte, esperando pela previsão, mas não acontecera nada fora do normal, nenhuma onda maior que dois metros ou mortes desastrosas.
Senti uma ânsia inominável, uma frustração arrasadora conhecida apenas por aqueles que já tiveram suas maiores certezas refutadas. No fundo, a vaga chama do alívio.
Senti uma mão sobre meu ombro e uma voz ecoou pela escuridão.

- "Às vezes somos mais culpados do que imaginamos".

- "E hoje, mais do que algumas vidas foram salvas" – prosseguiu.

Acordei e estava na praia.

- Lágrimas de Gasolina