De vez em quando, apanho-me a pensar em querer ser mais.
Por vezes, penso em como poderia ser melhor, trabalhar melhor, ter mais do que tenho e, sobretudo, como poderia chegar lá. No entanto, lá fora, as sirenes continuam a tocar, as pessoas continuam a ir para o trabalho, as lojas continuam a falir e os preços dos alugueres continuam a subir.
Digo aos meus alunos o que deveriam ser, o que deveriam dizer ou fazer em determinadas situações. Falo sobre a importância de planear e pensar no futuro - o que é, no mínimo, irónico, tendo em conta que dou aulas sobre gestão de tempo.
De facto, estou a escrever este livro. Ou melhor, estava. Os altos e baixos da vida tornam sempre as coisas difíceis. Lembro-me de estar a falar, quase a pregar, numa aula, e cometi o erro de mencionar o livro que certa vez comecei a escrever. No fim, já à porta da sala, um dos alunos gritou:
"Quando sai o tal livro?"
Fiquei ali alguns segundos, de boca entreaberta, a olhar para ele com aqueles olhos que parecem atravessar a pessoa. Não sabia muito bem como responder. Lembro-me de quase ter dito que não tinha tempo.
As sirenes pararam, mas em breve passará outra ambulância. As pessoas continuam a ir para o trabalho e os imóveis estão mais caros do que ontem. O meu senhorio ligou-me a dizer que eu deveria começar a pensar em mudar-me. Marcámos um local para conversar. Afinal, quais eram as alternativas?
"Precisamos do dinheiro", disse ele, enquanto tragava o cigarro.
Insisti que deveria haver uma solução. Se a questão fosse o dinheiro, poderíamos negociar um contrato mais longo e pagar adiantado.
"Mas isso não seria estratégico", respondeu. "Precisamos do dinheiro, e ele tem de ser aplicado na compra ou na reforma de outro imóvel. Se vendermos mais tarde, o Estado fica com metade da diferença, porque não teremos outro imóvel para onde canalizar o valor."
Aquela frase anulou todas as possibilidades que eu tinha em mente, exceto uma: comprar o imóvel.
Pedi-lhe um cigarro. Eram mais pequenos, como se tivessem sido cortados ao meio.
"São mais fortes, por isso são mais pequenos", explicou.
Eu não fumava há pelo menos um ano. Os meus alunos chamariam a isto hipocrisia. Perguntariam se isto é pensar no futuro.
Traguei como quem aceita um argumento irrefutável. A fumaça entrou seca e pesada, ocupando um espaço que talvez fosse mais confortável vazio. Fiquei a observar a rua, tentando encontrar algum padrão, alguma lógica que organizasse tudo num plano maior. Mas não havia plano. Só fluxo.
Foi então, com o cigarro a meio e a conversa encerrada antes mesmo de começar, que percebi algo incómodo: eu não estava sem tempo. Estava sem prioridades.
É fácil culpar o mundo - as sirenes, os preços, os contratos, os imprevistos. Eles são reais, concretos, barulhentos. Mas o livro… o livro era silencioso. Não me cobrava renda, não me ligava no fim do mês, não exigia urgência. Apenas esperava. E eu, confortável na ausência de pressão, deixava-o à espera.
Os meus alunos talvez não estivessem errados. Não sobre o cigarro, mas sobre o resto. Sobre o discurso. Sobre o desfasamento entre o que ensino e o que faço quando ninguém está a ver. Porque a gestão do tempo nunca foi sobre encaixar mais coisas no dia. Sempre foi sobre escolher o que fica de fora.
Apaguei o cigarro antes do fim, mais por impulso do que por decisão. Devolvi o isqueiro e disse que pensaria na proposta de compra. Ele assentiu, como se já soubesse que eu não tinha muitas alternativas.
No caminho de volta para casa, pensei na pergunta que ficou suspensa à porta da sala:
"Quando sai o tal livro?"
Talvez a resposta nunca tenha sido sobre tempo. Talvez sempre tenha sido sobre coragem - ou a falta dela.
Nessa noite, sentei-me em frente ao computador. Abri o ficheiro antigo. O cursor piscava como uma sirene muda, insistente, à espera de uma decisão.
Não escrevi muito. Talvez algumas linhas.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, não parecia um início interrompido.
Parecia continuidade.
- Lágrimas de Gasolina

