sábado, 2 de maio de 2026

Minhas Pequenas Hipocrisias

De vez em quando, apanho-me a pensar em querer ser mais.

Por vezes, penso em como poderia ser melhor, trabalhar melhor, ter mais do que tenho e, sobretudo, como poderia chegar lá. No entanto, lá fora, as sirenes continuam a tocar, as pessoas continuam a ir para o trabalho, as lojas continuam a falir e os preços dos alugueres continuam a subir.

Digo aos meus alunos o que deveriam ser, o que deveriam dizer ou fazer em determinadas situações. Falo sobre a importância de planear e pensar no futuro - o que é, no mínimo, irónico, tendo em conta que dou aulas sobre gestão de tempo.

De facto, estou a escrever este livro. Ou melhor, estava. Os altos e baixos da vida tornam sempre as coisas difíceis. Lembro-me de estar a falar, quase a pregar, numa aula, e cometi o erro de mencionar o livro que certa vez comecei a escrever. No fim, já à porta da sala, um dos alunos gritou:

"Quando sai o tal livro?"

Fiquei ali alguns segundos, de boca entreaberta, a olhar para ele com aqueles olhos que parecem atravessar a pessoa. Não sabia muito bem como responder. Lembro-me de quase ter dito que não tinha tempo.

As sirenes pararam, mas em breve passará outra ambulância. As pessoas continuam a ir para o trabalho e os imóveis estão mais caros do que ontem. O meu senhorio ligou-me a dizer que eu deveria começar a pensar em mudar-me. Marcámos um local para conversar. Afinal, quais eram as alternativas?

"Precisamos do dinheiro", disse ele, enquanto tragava o cigarro.

Insisti que deveria haver uma solução. Se a questão fosse o dinheiro, poderíamos negociar um contrato mais longo e pagar adiantado.

"Mas isso não seria estratégico", respondeu. "Precisamos do dinheiro, e ele tem de ser aplicado na compra ou na reforma de outro imóvel. Se vendermos mais tarde, o Estado fica com metade da diferença, porque não teremos outro imóvel para onde canalizar o valor."

Aquela frase anulou todas as possibilidades que eu tinha em mente, exceto uma: comprar o imóvel.

Pedi-lhe um cigarro. Eram mais pequenos, como se tivessem sido cortados ao meio.

"São mais fortes, por isso são mais pequenos", explicou.

Eu não fumava há pelo menos um ano. Os meus alunos chamariam a isto hipocrisia. Perguntariam se isto é pensar no futuro.

Traguei como quem aceita um argumento irrefutável. A fumaça entrou seca e pesada, ocupando um espaço que talvez fosse mais confortável vazio. Fiquei a observar a rua, tentando encontrar algum padrão, alguma lógica que organizasse tudo num plano maior. Mas não havia plano. Só fluxo.

Foi então, com o cigarro a meio e a conversa encerrada antes mesmo de começar, que percebi algo incómodo: eu não estava sem tempo. Estava sem prioridades.

É fácil culpar o mundo - as sirenes, os preços, os contratos, os imprevistos. Eles são reais, concretos, barulhentos. Mas o livro… o livro era silencioso. Não me cobrava renda, não me ligava no fim do mês, não exigia urgência. Apenas esperava. E eu, confortável na ausência de pressão, deixava-o à espera.

Os meus alunos talvez não estivessem errados. Não sobre o cigarro, mas sobre o resto. Sobre o discurso. Sobre o desfasamento entre o que ensino e o que faço quando ninguém está a ver. Porque a gestão do tempo nunca foi sobre encaixar mais coisas no dia. Sempre foi sobre escolher o que fica de fora.

Apaguei o cigarro antes do fim, mais por impulso do que por decisão. Devolvi o isqueiro e disse que pensaria na proposta de compra. Ele assentiu, como se já soubesse que eu não tinha muitas alternativas.

No caminho de volta para casa, pensei na pergunta que ficou suspensa à porta da sala:

"Quando sai o tal livro?"

Talvez a resposta nunca tenha sido sobre tempo. Talvez sempre tenha sido sobre coragem - ou a falta dela.

Nessa noite, sentei-me em frente ao computador. Abri o ficheiro antigo. O cursor piscava como uma sirene muda, insistente, à espera de uma decisão.

Não escrevi muito. Talvez algumas linhas.

Mas, pela primeira vez em muito tempo, não parecia um início interrompido.

Parecia continuidade.


- Lágrimas de Gasolina

sábado, 17 de janeiro de 2026

Aquele dragão

Quem és tu?

Quem és tu que afliges o coração de milhões de homens e mulheres por todo o mundo?

Quem és tu que amargas o sabor da comida e me fazes sentir cansado quando me levanto?

Quem é o dragão que tenho de enfrentar todos os dias, quando a minha mente fica em silêncio?

Dê-me o direito de saber contra o que luto e quais são os meus desafios.

Diga-me de uma vez por todas. Quem és tu?


Eu sou o canto do pássaro morto.

Sou o silêncio entre as conversas de bar.

Sou a promessa quebrada e as palavras não ditas.

Sou o que poderia ter sido, mas não aconteceu - talvez nem sequer tenha sido imaginado.

Sou o terror das noites mal dormidas.

Sou o nome dos filhos que não nasceram de casais separados.

Sou os seus convites de casamento.


Sou um vento frio numa noite de verão.

Sou um postal de um lugar maravilhoso que nunca existiu.

Sou o nó na garganta que sentimos quando ouvimos as nossas músicas favoritas.

Sou um vaso com flores mortas - mas num arranjo lindo.

Sou tudo isto e nada disto.


Eu sou tu!

Eu sou tu!

Eu sou tu!

Tal como a porta pertence à casa que a comporta. Eu sou tu!

E agora que sabes, atira-me. Atire-me para longe como quem atira as roupas do trabalho, com raiva e ressentimento.

Raiva por ter de fazer o que é necessário e ressentimento por saber que não seria aceite em mais nenhum outro lugar pelo que és.


E apesar de tudo - apesar de ser este dragão com o qual tens de lutar todos os dias, torço por ti.

Torço para que cantes, para que quebres os silêncios e cumpras as tuas promessas.

Para seres o que podias ter sido e dormires bem todas as noites.

Para que estejas lá quando gritarem de terror e tenhas forças para as salvar.

Para que as tuas flores cresçam e, apesar de mim, o teu jardim floresça.


- Lágrimas de Gasolina

sexta-feira, 6 de março de 2020

Desdém

Aquilo foi desdém?
Não, não foi. Ela não é capaz.
Na verdade, é muito pior que o amargor do desdém.
Na verdade, ela me tratou como um outro, como mais um.

Incrível o que as peças de um amor estilhaçado fazem com um homem.
Deveriam ser usadas como combustível para alguma coisa?
Ou alimentar meu próprio ego não é suficiente?

Meu ego me sufoca.
Logo eu que tão abertamente me abri.
Logo eu que tão honestamente contei tudo que senti.

É claro que meu erro foi esperar algo em troca.
Eu sou um verme da pior espécie.
E não venha me dizer que não sou, pois essa é a pior de minhas hipocrisias.

Dizer por ai que não sofro.
Dizer por ai que tô bem.
Dizer pra todo mundo não sentir por mim.

A verdade é nua e crua. Eu também não saberia como reagir.
Eu também não poderia atender as expectativas.
E as pessoas vêm me dizer o quão incrível sou.

Ah, façam-me o favor!
Me deixem em paz.
Não criem expectativas.
Não aqui.
Não em mim.

Mal sabem elas que eu não passo de uma porcaria de promessa e que debaixo do tal casco impenetrável não há mais que um bobalhão chorão.

E eu queria poder gritar! Ah, como eu queria. Gritar para ninguém. Até minhas cordas vocais rasgarem e meus tímpanos estourarem.

"Eu tô bem" - ela me disse.
A pergunta foi retórica, porra!
Ela deveria ter cuspido na minha cara e rido.
Só assim para eu aprender. Eu preciso esquecê-la e ela vai me dizer isso essa noite. Eu tenho certeza!
Isso vai me deixar louco. Eu vou surtar. Eu tenho certeza!

E vou insistir. Mas insistir em que?
Se já não sobrou nada?

Coloque em sua cabeça miserável: ela não te ama mais. Você foi um passo para algo melhor.
E tu ficou ai, parado. Esperando ela voltar como o babaca que é.
Tu não superou nada. Tu não ficou mais forte. Tu só desenvolveu essa porrada de merda na sua cabeça. Tu tem que roer palitos pra ficar bem, cara!

Olha a merda que tu virou! E a culpa não é dela. A culpa é sua. Como sempre. Tu é a piada. Como sempre.

Mas o amor não é o que sobra quando tiramos tudo? Deveria ser, não deveria? Alguém pelo amor de Deus me diga!

Eu queria poder sentir a raiva que tanto me empurram goela abaixo, mas sou incapaz. Não consigo odiar. Não ela. Eu comecei a me odiar? Acho que não. O que eu sinto é ódio por ódio. Não de mim ou dela.

Ao mesmo tempo eu sei que jamais serei o mesmo. Eu sou o mesmo, mas estou fragmentado em outros mais e um deles claramente me detesta. Porque eu tenho essa cicatriz que eu cultivei e ele sente a dor que ela representa. É por isso que ele me odeia.

- Lágrimas de Gasolina

sábado, 22 de fevereiro de 2020

A verdade, a promessa e o que sobrou

A verdade é que eu choro quando ouço as letras que cantam sobre sua estrela estar em outros céus.
A verdade é que estremeço quando penso que poderia ter sido mais para você.
A verdade é que você é minha melhor amiga.
A verdade é que choro enquanto escrevo o que escrevo.
A verdade é que sou um completo covarde.
A verdade é que me poluo para poupar a ansiedade.
A verdade é que cavo em outros corações o abismo que consome o meu.
A verdade é que me tornei algo indesejável.

Sou o vazio que um dia foi completude.
Sou pratos raspados de refeições sem sabor.
Sou camas arrumadas de noites mal dormidas.

Sou a calmaria de uma mente perturbada.
Sou o silêncio entre conversas de bar.
Sou o canto do pássaro morto.

Sou a promessa jamais cumprida. A pior das promessas jamais cumpridas.

Tive o filho que jamais nasceu.
Tive a viagem que nunca aconteceu.
Tive a esposa que não pedi em casamento.

O cartão-postal de um lugar maravilhoso que nunca existiu.

A minha música favorita me faz chorar. Meu lugares favoritos me fazem chorar.
Tudo o que eu fiz eu fiz com você - e eu sei que você me deu tudo o que você tinha, porque eu também te contei tudo que eu tinha pra contar. Te mostrei tudo o que eu sabia.

E hoje eu me peguei chorando no carro, sabendo que um dia você teria uma vida maravilhosa e que um dia seria uma estrela no céu de outra pessoa, mas por que não pode ser o meu céu?

- Lágrimas de Gasolina

Pinky Promise Sculpture

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Qualquer Coisa

Ultimamente eu tenho visto essa coisa. Não sei quando começou e honestamente não faço ideia o quão saudável pode ser traduzi-la em formato de texto. Ela parece ser complexa demais para isso.
Eu tentei me convencer de que se tratava de algo imaginário ou de algo que surgiu sem motivo aparente, mas não consigo me enganar. Essa coisa está lá. Não fisicamente, mas está lá.
Ela me observa indo trabalhar, principalmente quando tranco a porta do meu quarto. Ela me observa quando estou no banho e quando levanto muito rápido da cama. Não sei dizer o motivo de percebe-la nesses momentos específicos.
As vezes eu rio comigo mesmo enquanto debocho da sua fisionomia. Sim, ela tem um rosto - eu acho. Não é algo aterrorizante como você pode estar pensando. Infelizmente o que estou contando não é ficção afinal. Não se trata de alguma entidade que me assombra ou que me quer mal (?). Eu sou seu criador - e jamais seria capaz de criar algo do tipo. Além disso, meu acervo pessoal de estórias de terror anda um pouco obsoleto.
Pra ser sincero, parece-me a forma como lidei com alguma coisa muito profunda. É uma pressão na boca do estômago ou uma dor aguda na cervical. Seu rosto é como o de um cavalo e seu pescoço é muito comprido. Suficiente para contornar a parede do banheiro e me olhar pela janela. Seria uma girafa se seu pescoço formasse uma linha reta, mas não forma. Parece um turbilhão de carne ou fumaça. Seu corpo é de garota.
De qualquer forma, não importa. Sigo sem fazer ideia alguma de qualquer coisa. Talvez ela esteja esperando que eu chore.

Nublado