sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Lágrimas da Noite

Lágrimas caem enquanto a noite
Espalha o teu encanto,
Enquanto a noite cura as feridas.
Antes do sol nascer, todas as dores terão partido.
Não se esqueça que os anjos visitam os teus sonhos
E que teus pesares serão leves como pluma
O abismo do medo não irá se alimentar
De suas leves esperanças.
Os anjos estarão aqui nesta noite
Lágrimas caem enquanto a noite
Espalha o teu encanto,
Alegra-te pois não estará sozinho
Os anjos estarão ao seu lado
Teus ombros serão cobertos
Por manto divino,
Terá os teus olhos o brilho da esperança
Teu sorriso será belo
E andará pelas montanhas das dores
Pelos vales sombrios.

- Luís Fernando Lançoni

Homem sozinho em floresta escura
Imagem Ilustrativa

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Eternas Lembranças

Ensine algo aos teus filhos
Diga a eles que Davi venceu Golias,
Não trajava armaduras de ouro,
Não usava espadas de duro metal,
Davi venceu Golias,
Vestia trapos e tinha em punho uma pedra.
Pedra de tiro certeiro.
Não deixe o ouro guiar os teus passos,
Pois teu peso é severo,
Teus braços não irão suportar.
Segue leve como os flamingos
Voando rumo ao sol.
Ensine algo aos teus filhos
Os dias passam
Cada vez mais caminhamos
Para o último de nossos dias.
Não espere ser o último à partir
Permita que chorem por você,
E que as tuas histórias vivam  para sempre
Que teu sorriso não morra
Porque para alguns
Serão boas e eternas lembranças.

- Luís Fernando Lançoni

Davi levantando a cabeça decepada de Golias
David and Goliath by Trevone David

quarta-feira, 4 de maio de 2016

2016: um Ano Produtivo

Olá, pessoal.

Informamos que o Lágrimas de Gasolina & Dedos Azuis NÃO encerrou suas atividades.
Em meio a muitos projetos e oportunidades, aos afazeres diários e a graduação, tentaremos manter o Lágrimas de Gasolina & Dedos Azuis atualizado, porém não poderemos garantir a mesma periodicidade de postagem semanal ou mensal que apresentávamos nos anos iniciais do site.

Não pensamos na hipótese de cessar as publicações.

O Lágrimas de Gasolina & Dedos Azuis não vai acabar, o projeto está criando raízes e desenvolvendo galhos maiores.

Só pedimos paciência.

Att,
Bruno Lançoni Neto



quinta-feira, 17 de março de 2016

Sem Reis ou Deuses #1

Quando criança, lembro-me de caminhar a mando de uma voz autoritária que dizia para onde deveria ir ou quais caminhos não seguir.
Naquela época, nunca me ocorreu a possibilidade de sair das garras destas vozes, porém uma janela sempre ficou aberta e a espera de alguma coisa que pudesse esclarecer minha mente nebulosa. Dado que grande parte das alternativas ou esclarecimentos apresentados ao meu pequeno cérebro de criança não passavam de meras ilusões ou projeções da mesma realidade de submissão.
- Se você for tomar banho agora, poderá assistir televisão até mais tarde.
- Se comer toda a sua comida, poderá comer a sobremesa.
Sei que a maioria dos pais não tem a mínima intenção de prejudicar seus filhos, mas estas barganhas familiares contribuíram enormemente para a prosperidade da realidade em que autoridades são necessárias, fizeram com que nos acostumássemos com a presença deste falso tipo de negociação, onde não existe uma troca de fato, mas uma força possuidora de todos os meios, formas e produtos dessa negociação, resultando em obediência do comandado e soberania do comandante. - A mesma força que lhe tira uma liberdade é a mesma que a lhe oferece de volta em troca de outra.
Passei a tomar banho para assistir televisão e comer toda a comida para comer a sobremesa, mas não para me manter limpo ou bem alimentado. Não me perguntava o "por quê?", mas o "para que?" - sem nunca cogitar a possibilidade de compreender os reais motivos para se fazer o que fazia. Sem dúvida, a compreensão seria muitíssimo mais eficaz que qualquer tipo de barganha feita.
Para minha felicidade, meus pais se preocupavam avidamente com o meu bem-estar, por isso - e por ser fruto dessa obediência incompreensível - nunca ousei questionar suas reais intenções - e nem ouso.
Posteriormente, descobri que os dois me preparavam para uma realidade iminente em que a submissão é inescapável, ao mesmo tempo em que diversas famílias faziam o mesmo com suas crianças. O apelo à autoridade era explicita em algumas ocasiões, o que mostrava o quanto éramos dependentes de doutrinas para que alguns argumentos surtissem efeito.
Certa vez, meu pai girou os olhos furiosamente e gritou alguma exigência - raramente me batia - e imediatamente perguntei:
- Por quê?
E meu saudoso pai respondeu:
- Porque eu estou mandando, eu sou seu pai! - E funcionou.

Como dito anteriormente, para minha sorte, meus pais garantiriam o meu bem-estar incondicionalmente, sabido disso, tornava-se desnecessária a compreensão das decisões tomadas por eles em relação a mim. Afinal, as crianças têm a necessidade de serem comandadas pelos adultos até atingirem a próxima etapa do crescimento, pois se sabe que na hora de tomar atitudes racionais ou que preservem a própria integridade física, não é difícil perceber suas incapacidades perante o mundo e a soberania cognitiva dos mais velhos.
Quando cheguei ao ensino fundamental, algumas crianças já haviam aprendido a ler e escrever, a contar até dez e a ver as horas, tudo feito sob a tutela de uma voz maior. Não nos fora ensinado a reconhecer o valor do aprendiz ou da capacidade individual, este fardo era carregado exclusivamente por uma única pessoal da classe - a voz maior.
Quando avancei para os próximos estágios, fui apresentado ao sistema educacional que conhecemos, já não havia exceções, eu e as outras crianças nos tornamos números, a inércia deixou de ser uma opção, o estudo forçado para garantir uma vaga no próximo nível se tornara realidade, estudar e memorizar o que fosse necessário para progredir num sistema criado por eles, do qual não existia possibilidade de fuga - sempre sob a tutela de uma voz maior que nos dizia o que estudar como estudar, como se comportar, como sentar e como utilizar nosso tempo livre.
Desde cedo, nos ensinaram que a melhor parte de um diálogo é aquela em que ouvimos o outro, deram-nos a falsa sensação de que a verdade não pode estar em nós mesmos, sendo uma qualidade inerente a todas as outras pessoas; ensinaram-nos a não desobedecer as autoridades, pois estas exprimiam o melhor que há de nós e que estes são os guardiões do interesse comum - ou, caso queira, nossos eternos pais; passaram a nos ameaçar com a diretoria, criaram um sistema de punições e disseram:
- Caso vocês se comportem, vocês serão beneficiados!
Mas se esqueciam de dizer que a ausência de punição não é um beneficio, mas um estado natural do homem.
Embora não concordasse com os métodos utilizados ou com o sistema de ensino empregado, não me dei o trabalho de recorrer através de qualquer espécie de boicote ou reclamações dirigidas aos meus pais, pois isto nunca fora um grande empecilho no meu trajeto e me apaziguava a idéia de poder mudar para outra escola em qualquer momento, além de nunca ter me feito a seguinte pergunta:
- Por que devo me submeter à um sistema que não concordo para aprender coisas pelas quais não tenho interesse?

Na escola, mesmo que o individualismo e a exclusividade fossem massacrados pelas regras e sistema de educação da instituição, onde toda espécie de coletivismo era incentivado e a submissão um fator onipresente, os clientes - isto é, os pais dos alunos - ao sentir que seus filhos não estavam satisfeitos com o serviço, os mudariam de escola.
Comigo, por se tratar de uma escola particular, caso o dono da empresa se deparasse com um número relevante de reclamações, muito provavelmente algumas regras e métodos mudariam, caso contrário, os alunos seriam obrigados a mudar de escola e o dono perderia dinheiro.
No ensino médio, descobri que o sistema de educação não poderia ser alterado, pois o mesmo era regulado pelo Estado e aquelas escolas que não seguissem o modelo imposto, não seriam reconhecidas pelo órgão fiscalizador e não poderiam ter o título de Instituição de Ensino, o que impossibilitaria satisfazer qualquer um que buscasse outro sistema de educação em outra escola.
Por fim, estávamos satisfeitos - mesmo não concordando - com o sistema de educação imposto e com as regras e os métodos da instituição. Além de estarmos plenamente conscientes da oportunidade de poder mudar para outra instituição quando bem entendêssemos. Esta satisfação provinha indiretamente do medo de aborrecer os clientes que o dono da empresa carregava, seu âmago sabia que desagradar os alunos seria o mesmo que implorar para que as portas de sua escola se fechassem, logo, minha liberdade de escolha garantia o meu bem-estar, mesmo que este não fosse o real objetivo da instituição.
No final do ensino médio, uma pergunta assolava minhas entranhas:
- Se eu não podia tomar algo de algum colega e mais tarde presenteá-lo com aquilo sem parecer antiético, então por que eu permitia que as autoridades o fizessem?
E começou.

Continua

- Lágrimas de Gasolina


segunda-feira, 14 de março de 2016

O Homem que Tinha Tudo

Bocht era seu nome, mas entre os moradores de sua antiga rua, era conhecido como “o menino que tinha de tudo”. Tudo, talvez fosse uma tênue hipérbole, mas não a ponto caricato, longe de ser um exagero de proporções colossais. Bocht tinha mais do que muitos, mais do que todos que o conheciam, e nunca teve constrangimento algum em demonstrar isto.
Além de ser um garoto extremamente belo e que atraía olhares por onde passava, também era um jovem gênio, que demonstrava fácil aprendizagem e compreensão com o mínimo de esforço aplicado. Seus pais eram donos de uma pequena fortuna, e gabavam-se aos amigos pelo filho que ainda tinha os quatro avós vivos. Falta de amigos nunca foi um problema, vez que Bocht estava sempre rodeado por crianças das mais variadas idades, além dos sempre presentes admiradores seniores. Animais de todas as espécies e tipos preenchiam sua pequena mansão, desde gatos e cachorros até pássaros e pequenos roedores. Por último, mas não final, pois o tudo é grande demais para resumi-lo em um parágrafo, ele tinha o que muitos batalham por toda a vida e nunca conseguem; Bocht era sincera e honestamente feliz.

Os anos passaram, as estações mudaram e o mundo acinzentou-se. O ar tornou-se mais pesado e difícil de respirar, a comida perdeu o gosto, o dinheiro perdeu o significado. A vida por vezes ameaçava perder o sentido. O menino que tinha de tudo acabou tornando-se o homem que tinha de tudo, e se alguma vez em sua vida, até agora, podemos dizer que Bocht perdeu algo, foi a felicidade que trazia em seu peito quando criança. Mas para este homem, a felicidade não representava nenhuma força estrutural para abalar seu contexto de todo, e, mesmo não sendo mais feliz, ainda acreditava ter tudo. Como esta é uma narrativa de sua vida, por seu subjetivo acreditar que ele ainda tinha tudo, trataremos desta forma até segunda instância.
Após o conhecimento da perda, esta se mostrou mesquinha outra vez, e cada vez mais frequente; seus avós, seus amores, seus admiradores, seus amigos, seus pais. A última perda que Bocht sofreu foi a de seus sentimentos, e, desde então, parou de notar o que mais perdia.
Em contraponto, cada vez sua fortuna tornava-se maior, dobrando, triplicando, em um ritmo exponencial humanamente inacreditável. Dedicava-se aos estudos com tamanha voracidade que os resultados eram diplomas atrás de diplomas, títulos, prêmios, reconhecimentos, mais fortuna. Suas conquistas anestesiaram suas perdas, a ponto de passarem despercebidas e tornarem-se cada vez mais superficiais. Para Bocht, ele ainda era o homem que tinha de tudo, então ainda assimilaremos isto como verdade absoluta.

Já faz tempo, tanto tempo que é difícil buscar a data exata, mas acredito que foi em meados de seu trigésimo aniversário. Ele admirava seu reflexo esbelto em seu espelho Guardian quando notou o pequeno fio branco que descansava sobre seu Armani risca-de-giz. Com os dedos em pinça, trouxe a poucos centímetros do nariz e inspecionou-o com afinco.
Efemeridade.
Foi esta a palavra que ecoou em sua cabeça. Foi esta palavra que o atormentou nos anos seguintes. Foi esta palavra que trouxe de volta um sentido para a sua vida, um significado para o seu dinheiro. Bocht precisava descobrir como contornar a morte.
Dedicou-se e investiu em diferentes campos de pesquisa, contratou cientistas de todos os cantos do mundo, apostou em pesquisas pioneiras em universidades estrangeiras e abriu mão do cargo de CEO de sua empresa. Estudou os supercentenários, os atletas que competiram nos Jogos Olimpícos. Viajou aos cantos mais remotos do mundo para compreender a chave da imortalidade dos vermes, assim como o impacto dos alimentos no organismo. Apostou uma parcela de seu dinheiro na recuperação de células e tecidos através da impressão 3D, fez inúmeras pesquisas ilegais em células-tronco e, quando a razão fraquejou, cogitou subornar Deus.
Turritopsis dohrnii, foi este o nome responsável pelas suas insônias. A espécie de água-viva que driblava seu destino e rejuvenescia suas células indefinidamente, não podendo morrer por causas naturais.
“É isso”, gritava Bocht em seu subconsciente. “É isso”. E, tamanha era sua convicção, que no dia em que recebeu a mensagem, avisando que a última amostra tinha morrido por causas naturais, Bocht sentiu medo. Foi a primeira vez, a primeira de duas vezes em que o homem que tinha de tudo sentiu medo.

A chuva gelada caia em sua cabeça, mas ele não ligava. O stress dos últimos anos, movido pelo primeiro fio branco apenas resultou na multiplicação exponencial do mesmo. Ele já era um jovem senhor, com a cabeleira completamente grisalha. Em pontos que ele nunca ousou olhar, constava-se até o início de uma calvície.
Bocht, apesar de ter tudo, não tinha mais rumo. Andava durante horas por ruas vazias, por vielas sem fim. Cruzava bairros, pontes, pessoas, e quando a fadiga o dominava, pegava um taxi e voltava para casa. Só conhecia o escuro, o limite, o frio e a dor.
Naquela noite, na noite da chuva gelada, Bocht foi por um caminho novo. Já fazia três horas e meia que estava em sua caminhada taciturna. Estava perdido, mas ele se perdia todas as noites. Estava sozinho, mas ele estava sozinho todas as noites.
Cansado, desmotivado, letárgico, levantou os olhos, pousando-os na única luz daquela rua negra sem fim. Lentamente decifrou a palavra que aquele conglomerado de letras luminosas formava: VIDENTE. Bocht suspirou, e a noite suspirou junto. Um vento fraco e asmático parecia empurrar-lhe para dentro da loja.
- Eu quero ver meu futuro! – gritou, empurrando a porta com seu sapato Dolce & Gabbana esfarrapado.
A velha senhora assustou com tamanho frenesi, soltando palavras aleatórias e desconexas, enquanto levava a mão ao coração.
- Meu deus, rapaz! Eu tenho pressão alta!
- Eu quero ver meu futuro! – repetiu Bocht, em um tom acima do que o necessário para se fazer ouvir, trazendo em sua voz uma embriaguez psicológica. Pela sua aparência física acaba, as roupas em frangalhos, não era de duvidar-se que realmente estava embriagado.
- Pois bem – disse a idosa – daqui a quanto tempo o senhor gostaria de se ver? Cinco anos? Dez?
Bocht gaguejou, mas não conseguiu dizer nada. Estava apreensivo. Com passos arrastados, começou a mover-se para fora da loja.
- Vou fazer-lhe uma proposta, desde que o pagamento seja gordo – riu a vidente – E se eu enxergar a sua morte? Sim, sim, este assunto parece atrai-lo mais, dado ao espanto em seu rosto. Pois bem, sente-se.
E assim Bocht o fez.
- Encoste sua testa com a minha – e esperou o homem seguir as instruções – cruze os dedos com os meus – disse, estendendo as mãos – agora sopre dentro de minha boca – e assim Bocht o fez.
Segundos que pareciam anos, que arranhavam a garganta do homem com unhas afiadas, fazendo sentir como se afogasse em seu próprio sangue. Então com uma voz rouca, claramente diferente da proferida alguns segundos antes, a senhora disse:
- Não existe futuro, para o homem sem futuro. Não existe morte, para aquele que a muito já moreu. Não existe nada, para o homem que não tem nada.
Bocht jogou-se para trás, recebendo aquilo como um soco na boca do estômago. Sentiu o choro quente escorrendo por seu rosto. Sentiu saudades, sentiu paixão, sentiu remorso. E, pela segunda e última vez em sua vida, sentiu medo.
Mas, quebrando completamente o ambiente de pânico gerado, uma gargalhada ecoou pelo recinto. Não uma gargalhada colossal, sinistra, tenebrosa, e sim uma gargalhada de divertimento sincero.
- Ai, rapaz, você me faz rir! – gargalhou a idosa – estou só tirando uma onda com a sua cara! A Vidente Margô já está em seus aposentos, eu sou apenas a faxineira! – e assim, deu mais uma gargalhada estridente – agora saia daqui, seu mendigo sujo!
Bocht levantou de sobressalto, com o rosto claramente perturbado. Sem dizer uma palavra, saiu da loja.

Não existe nada, para o homem que não tem nada.

Bocht morreu atropelado uma semana depois.

- Dedos Azuis