quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Contos de Matusalém #1

Aconteceu em uma época onde as coisas não eram deixadas para trás nem esquecidas em gavetas. Não precisávamos nos preocupar com portas trancadas nem com ferros de passar ligados.
Era uma tarde de segunda-feira.
Matusalém era um pequeno raminho saudável e morava com seus pais no fim do vale, estava brincando no infinito quintal de sua morada, desenhando em um pequeno espaço de terra que acabara de limpar, havia colhido e amontoado todas as folhas que conseguira, formando uma enorme pilha de sujeira. Com uma de suas pequenas extremidades, traçava finas e precisas linhas no solo, concentrado nos curtos pensamentos de seu pequeno cérebro e nos movimentos que fazia, não errou um traço sequer. Sua atenção era tão limitada quanto deveria ser para uma plantinha juvenil, por isso não percebera a aproximação quase inaudível de sua mãe. A gigantesca árvore ficou parada acima dos tímidos galhos mais altos do raminho desenhista.
- Nossa, que desenho bonito! O que é? - Uma doce voz cortou sua concentração. - É uma arvore? - Indagou a gigante baobá.
O raminho ficou olhando sobre seus galhos baixos para as raízes de sua mãe, nunca vira seu rosto, mas isto nunca fez a menor diferença, nenhum dos raminhos do vale já o havia feito. Respondeu:
- É sim, sou eu! - Disse enquanto riscava um grande sorriso que preenchia toda a extensão do desenho - e olha como estou feliz! - Completou.
A baobá riu serenamente perante a imaginação de sua cria. Ela era professora no vale e sabia como era raro um raminho que se preocupasse com o futuro. Virou-se para as copas de Pelagus e vislumbrou o último pôr do sol do dia. As árvores maiores preenchiam toda aquela vastidão e escalavam até mesmo as gigantescas montanhas Gaia Retrorsum.
O vale lembrava um enorme prato de sopa de espinafre, suas extremidades eram formações rochosas milenares e maravilhosas, havia árvores e pássaros dos mais variados tipos que preenchiam completamente o centro côncavo da gigantesca tigela, alguns deles se dispersavam à medida que se aproximavam das beiradas. A densa parte central era composta pelas árvores mais antigas do planeta, as primeiras formas de vida vegetal a emergirem sobre aquele jardim gigantesco e eram conhecidas como os líderes daquela sociedade vegetal, os anciões - como eram chamados - estavam envoltos por árvores mais jovens e estas por sua vez, envoltas por árvores ainda mais jovens. Ao contrário dos líderes humanos que conhecemos, as plantas têm uma intensa satisfação por estarem completamente rodeadas por sua espécie.
O planeta das árvores não tinha nome próprio, pois seus habitantes jamais poderiam dizer com firmeza o que era aquele imenso jardim onde moravam, tão pouco sabiam da existência dos outros milhares de planetas ou do vasto universo que os rodeava. Á princípio, as pequenas e poucas criaturas que cuidavam das planícies, antes do nascimento de algum dos ramos que originariam as primeiras árvores, desenvolveram asas, porém algumas delas eram desajeitadas ou pesadas demais para voar. Os primeiros seres a saírem do chão e voarem pelos ares do jardim foram os pequenos animais posteriormente apelidados de Liberums, nesta época as plantas já dominavam cerca de quarenta hectares do que um dia se chamaria Pelagus, assim puderam presenciar aquelas pequenas criaturas peludas e dentuças voando por aí com suas asas coloridas. A partir daquele momento, os anciões perceberam o quão importante aquelas criaturinhas poderiam ser para o estudo do planeta.
Sabiam que existiam extensões incompreensíveis de água fora da concha, nos arredores das planícies inexploradas, porém as asas em evolução dos peludinhos jamais permitiriam que voassem além delas numa viagem tão extensa, o que causou certa frustração à expectativa de sanar as curiosidades dos anciões.
Nada podendo fazer, assim seria o longo processo de exploração do planeta, toda descoberta feita seria passada para as árvores periféricas, que contariam às vizinhas que por sua vez contariam às vizinhas, repetindo-se até atingir os ouvidos das árvores centrais. Esse processo se repetiu até o nascimento da primeira baobá, plantas incrivelmente gigantescas e majestosas e que muitas vezes passavam da estatura da mãe em poucas dezenas de anos.

A primeira baobá nasceu nas periferias, como de costume, porém um fato pouco costumeiro ocorreu, o tempo se passou e aquela pré-adolescente ultrapassara a altura da mãe em um metro. As vozes ecoaram pelo vale que saudava precocemente a mais nova espécie do planeta, o gigante baobá. As palavras atingiram os ouvidos das grandes árvores centrais e um deles choramingou:
- Eu daria todas as minhas folhas para poder ver o tal gigante!
Mais uma vez as vozes ecoaram pelos galhos e em poucos dias as preces dos anciões atingiram os tímpanos da gigante.
Foi numa terça-feira e o primeiro sol já havia se posto.
As antigas árvores estavam aglomeradas como de costume, recebendo as notícias de todos os cantos do vale, quando toda a atenção foi direcionada para Greg, o quinquagésimo quarto. A árvore gritava de horror, eram palavras estridentes e ininteligíveis, balançava-se tentando remover algo de dentro de si enquanto roçava os próprios galhos contra o tronco. Gritou:
- Algo está dentro de mim! Agora, desceu e está embaixo! Algo está puxando minhas raízes!
As outras plantas o olhavam, desconcertadas, Greg nunca apresentara comportamento tão maluco, embora fosse uma das árvores mais engraçadas conhecidas. Athos, o quinquagésimo, disse:
- Ei, Greg. Fique calmo, com certeza são algumas cigarras, vá - mas foi interrompido pela horrível cena que se projetava à sua frente, algo que nunca havia testemunhado ou sequer imaginado ser possível.
A árvore deslizava como se estivesse sendo tragada pela terra através de uma areia movediça sobrenatural. Já haviam passado cerca de dois metros, depois mais quatro e mais dez, Greg agonizava afogado pela terra enquanto suas últimas folhas passavam pelo vórtice arenoso.
- Me ajudem! Me aju - suas palavras foram tragadas junto com seus últimos membros.
As múltiplas formas de vida que tinham plena consciência de que realmente haviam testemunhado o absurdo, estavam paralisadas com o terror que percorria internamente suas seivas, aguardando estaticamente pelo que veriam em seguida, as mais próximas tentavam inutilmente fugir para longe da marca que a suposta abdução de Greg deixara para trás. Os Receptores impediam quaisquer outras informações de chegarem e logo cuspiam descrições do que havia acontecido nas dependências dos anciões e com a quinquagésima quarta árvore mais antiga do vale.

As árvores receptoras tinham acabado de concluir a décima remessa de mensagens quando algumas plantas começaram a reclamar incessantemente do barulho provindo da marca no chão. Fazia apenas dez minutos desde o ocorrido e cerca de dois hectares já sabiam das notícias, do acontecimento e das palavras alarmantes dos anciões, até mesmo os Liberums foram chamados para iniciar uma busca sem esperança por Greg.

O quinto ancião havia começado sua narração, as Receptoras anotavam artisticamente as palavras que formariam a décima primeira mensagem do dia, porém uma delas parou ao perceber que uma pequena pedra rolara arbitrariamente sobre os dizeres que desenhava na terra, algo estava assustadoramente errado. Outra também parou quando notou que o chão se movia sob suas raízes e apagava os dizeres incrustados na terra. E mais outra parara, quando ouvira os gritos de terror produzidos pelas árvores dos arredores. A marca abdutiva se movia numa vibração sobrenatural, alguns até chegaram a pensar esperançosamente que Greg havia encontrado uma forma de voltar, outros pensaram desastrosamente que o mal que tragara Greg para as profundezas desconhecidas da terra estava prestes a emergir para preencher o estômago que uma única árvore não fora capaz de saciar. Todos sentiam tanto medo quanto curiosidade, mas poucos ousaram dizer alguma coisa, exceto as receptoras que narravam todos os detalhes que seus olhos permitiam descobrir.
- A marca está vibrando loucamente - dizia uma delas - posso sentir minhas raízes balançarem, é como se uma minhoca gigantesca estivesse prestes a saltar pelo buraco a uma velocidade absurda, a sensação é de completo terror, as árvores estão assustadas, as receptoras estão fazendo o mesmo que eu, os anciões estão impassíveis, cochicham entre si, sabem tanto quanto nós, o que é terrível! - fez uma pausa, olhava fixamente para a marca - a marca está aumentando, deve ser apenas impressão. Não, ela realmente está maior! Ei, espera, eu posso ver alguma coisa! Algo está saindo do buraco e é enorme! São folhas, eu não acredito, são folhas! Greg conseguiu!
As receptoras e subreceptoras gritavam velozmente, as árvores próximas falavam com extrema rapidez e precisão, todos ansiosos por reproduzirem via palavras acontecimentos nunca antes ocorridos.
Algo estranho chocou a receptora que se pôs a continuar:
- Só um momento, pessoal! Estas folhas são límpidas demais e estes galhos são maiores que os de Greg.
Uma das receptoras gritou do outro lado do recanto dos anciões:
- Acabei de receber: uma árvore desapareceu na atual periferia, próxima à Gaia Retrorsum, a desaparecida trata-se da nova espécie, a gigante baobá!
Em alguns segundos, nenhuma delas tinha mais certeza alguma, não sabiam se o que haviam presenciado era obra da imaginação ou se estavam ficando loucas. Algumas árvores descansavam inconscientes e ancoradas sobre as próprias raízes que as impediam de atingir o solo, haviam desmaiado. Os inteligentes olhos dos anciões assistiam a gigantesca extensão de casca, galhos e madeira que crescia através do buraco no chão, passaram-se galhos e folhas seguidos por dois metros de tronco, depois mais cinco e mais dez metros, em questão de segundos uma gigantesca árvore ocupava o lugar da quinquagésima quarta árvore mais velha do vale - a penetra era a árvore desaparecida de Gaia Retrorsum, a nova espécie, a gigante baobá.

- Lágrimas de Gasolina
 
 http://www.deviantart.com/art/Forest-98795458
Forest by Andead



terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O Adulto Infeliz

Tirou uma folha amassada do bolso e a desdobrou com cuidado, alisando suas partes violadas pela violência do caminhar e da pressão exercida por suas roupas, levantou os olhos e disse:
- "Sabe, eu cresci com uma cabeça cheia de opiniões de pessoas vazias".
Um homem estava em pé em frente ao banco em que um pequeno adolescente de cabelos escuros estava sentado, uma garoa fina caia sobre os ombros das duas figuras e algumas gotas escorriam pelo nariz choroso daquela criança crescida e desolada.
- "Ora essa" - pensou o homem - "mas você não passa de uma criança".
Olhou para aquelas pequenas mãos que dobravam um papel e o protegiam do vento e da chuva. Respondeu:
- "Como assim, cresceu? Você ainda é muito jovem para se lamentar por sua infância" - o garoto não o olhava - "você está vivendo a droga da sua infância" - o garoto olhou para cima, encarava os botões da camisa social branca em sua frente - "quantos anos você tem? Dez? Nove?" - Completou.
- "Onze." - Cochichou o garoto - "você não entenderia" - abaixou os olhos - "e nem precisa" - disse para si.
Eram quase seis horas da tarde, a garoa tornara-se tão fina quanto uma tênue neblina serrana, os pássaros haviam parado de cantar e não havia pessoas no parque, apenas algumas cadeiras vazias e lixeiras cheias de lixo.
- "Está ficando tarde, garoto." - Comentou após alguns segundos de silêncio - "os seus pais virão te buscar ou você esta pensando em ficar por aqui esta noite?" - Arriscou, não aguentou e sorriu.
Era indiferente, não importasse a pergunta que fosse feita, nada o atingia, sua cabeça estava em outro lugar.
- "Eu não tenho pais" - disse, indiferente - "bom, na realidade eu tenho, mas quase não os vejo, eles trabalham demais." - Complementou.
- "O problema não era esse" - pensou o homem - "afinal todos temos problemas com nossos pais durante a adolescência, alguns adolescentes gritam e se revoltam contra tudo e todos enquanto outros preferem sobrecarregar o departamento de tristezas incubadas do cérebro, porém os dois crescem e se tornam adultos tristes" - sua mente prosseguiu - "Assim como eu" - e sua boca concluiu.
O garoto o encarava sentado com as mãos no bolso sobre um banco de madeira envelhecido.
"Assim como você, o que?" - Perguntou calmamente.
Não havia percebido que teria proferido quaisquer palavras audíveis, correu uma das mãos até o queixo, mas não conseguiu evitar que as palavras que já havia dito chegassem aos ouvidos do garoto.
- "Disse que trabalho demais, garoto." - Lembrou-se das crianças em casa - "temo que meus filhos se sintam assim" - fez um movimento com o rosto -  "como você" - esperou - "não consigo suportar a ideia de que algumas crianças estão largadas pelas ruas ou sozinhas por ai" - suspirou, olhava para o garoto sentado a sua frente - "foi por isso que me tornei o que sou hoje." - Concluiu levantando as mãos num gesto indefeso.
O garoto o olhava, podia ver uns pequenos fios saindo das narinas e do queixo do homem em sua frente, jurou para si que não mencionaria este fato, percebeu que a chuva cessara e perguntou:
- "E o que você é hoje?”
Um sorriso triunfal serpenteou pelos lábios do homem, fez a expressão que os adultos fazem quando conseguem encaixar as falas de uma vítima numa piada de mau gosto, como se houvesse previsto a pergunta e tivesse uma resposta preparada desde a noite do dia anterior. Respondeu de olhos cerrados e de sobrancelhas levantadas:
- "Um adulto infeliz" - disse recitando uma música embutida numa fala de criança.
O garoto o encarou por um ou dois segundos.
- "O senhor não me parece infeliz" - disse - "até acho que você foi uma criança bem alegre." - Concluiu.
O homem tinha afundado o rosto na blusa para evitar o vento.
- "Sabe, garoto" - emergiu o rosto - "o que faz os adultos serem chamados de adultos infelizes não tem nada a ver com ser ou não ser feliz, mas com o fato de você conseguir fazer os outros serem felizes." - Falou como se desse uma lição de moral em um de seus filhos. - "E sim, eu fui uma criança alegre." - Respondeu ao se lembrar da afirmação.
O garoto abaixou a cabeça e pensou por alguns segundos, pegou o papel do bolso e deu uma risadinha, o guardou de volta.
- "Então isso quer dizer que eu vou ser um adulto feliz?" - Perguntou, olhando para o rosto mal-humorado em sua frente. Riu, insolente.
- "Como assim?" - Perguntou o homem ao perceber que sua lição de moral nem sequer atingiu os ouvidos do garoto.
- "Veja bem, se você era uma criança alegre e se tornou um adulto infeliz, eu que sou uma criança infeliz serei um adulto alegre, certo?" - O homem o encarava rindo.
- "Não necessariamente" - respondeu irônico.
O sorriso do rosto do menino desapareceu.
- "Como assim?" - Gaguejou.
Queria ter piedade, mas sempre fora um realista incurável.
- "Garoto, não é assim que funciona" - começou - "não é só porque eu fui de um jeito e terminei de outro exatamente contrario, que vai acontecer o mesmo com você. Nem todas as crianças ou adultos são iguais" - esperou, o garoto o olhava atento - "você vai conhecer crianças tristes que se tornarão adultos tristes, conhecerá crianças felizes que se tornarão adultos felizes e conhecerá pessoas como eu, que nascem de um jeito e terminam de outro" - continuou - "você vai pra escola, vai crescer e vai pra faculdade, vai fazer escolhas, vai arranjar um emprego, vai comprar um carro, vai encontrar uma garota que te aceite infeliz ou feliz, vai ter filhos, vai fazer mais escolhas, vai comprar uma casa, vai escolher um bichinho e todas essas coisas vão dizer se você vai ser um adulto feliz ou infeliz." - Concluiu.
Estava de cabeça baixa, tinha um papel na mão. Levantou e perguntou:
- "Se é a gente que escolhe tudo isso, por que existem pessoas tristes?" - O garoto triste estava mais triste. - "É por causa do que os outros adultos dizem, não é?" - Sua cabeça estava abaixada.
O homem reconheceu.
- "Sim, é por causa do que os outros adultos dizem." - Abaixou a cabeça.
O garoto levantou a cabeça.
- "E as crianças?" - Perguntou.
O homem abaixou, dobrando os joelhos na altura do banco.
- "O que tem as crianças?”
O garoto puxou o braço do homem e colocou um pedaço de papel em sua mão.
- "Elas podem fazer crianças felizes serem infelizes?" - Perguntou, ainda segurava o braço do homem.
Ele se aproximou um pouco, ainda de joelhos e viu os olhos lacrimosos do menino.
- "Não sei, acho que sim." - Disse.
No mesmo instante, o garoto pulou no peito dele, eram dois estranhos, nunca haviam se visto e o garoto o abraçava e soluçava. O homem ainda estava de joelhos enquanto o garoto molhava a camisa úmida pela chuva com suas lágrimas, ele passou os braços ao redor do garoto e o levantou no colo. Lembrou-se do papel em sua mão e o desdobrou, o leu em voz baixa, o garoto não o ouviu.
- "Feioso" - deu uma risadinha ao ler, mas parou, pois se lembrou de todas as vezes que ouvira palavras de mesmo efeito.
- "Você não deveria se preocupar com o que os outros pensam." - Suspirou o homem.
O garoto soluçou.
- "Eu sei".
O homem respondeu.
- "Não, não é pra você. Estou falando isso para me lembrar mais tarde".
 
- Lágrimas de Gasolina 




terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Código de Conduta

Correu até uma das gavetas da cômoda de madeira que descansava sutilmente no canto mais escuro do aposento. Era um móvel sagrado, trancado a duas chaves, uma escondida na gaveta logo abaixo e a outra carregada consigo ao redor do pescoço, pendendo através de um fino cordão de ouro dado por sua falecida progenitora.
Num rápido movimento de dedos o destrancou, o abriu e arrancou uma pequena caixa de madeira isolada por entre as sombras do fundo da gaveta, os estalidos produzidos pelo momento em que apanhou o objeto não foram suficientes para esconder as sirenes que emanavam das ruas ao redor da casa.
- "Quando foi que as coisas fugiram de controle?" - pensou, enquanto abria a caixa, retirando um pequeno amontoado de guardanapos negros enrolados sobre uma peça metálica - "Quando as pessoas fugiram de controle?" - completou aquele vago pensamento, olhando para aquela ferramenta.
Sabia que as armas haviam perdido o significado, por isso as pessoas encontraram outras formas de matar e controlar, formas ainda mais poderosas do que aquelas que disparavam contra um único alvo. Desenvolveram algo pior, como uma espécie de arma que transforma alvos em armas, vítimas em homicidas e carneiros em lobos.
Nem sabia por que pensara em correr até aquele objeto, uma ferramenta que escondera de todas as formas possíveis, na tentativa de evitar que fosse manipulada por algum de seus filhos ou que os colocasse em risco de alguma forma.
Esticou os guardanapos sobre a cama desarrumada, formando um quadrado negro sobre o lençol branco, colocou a peça no centro e uma pequena caixa de pequenos projéteis ao lado e os encarou por alguns segundos. Ouviu um curto e violento baque vindo da janela, acovardado pelos gritos e súplicas dos pobres infelizes que correram para as ruas quando perceberam que havia algo de errado.
- "Sentiram medo e correram para as igrejas e mesquitas da cidade" - pensou ao encarar a janela que sofria com os pequenos intervalos de batidas uniformes - "Foram para as ruas e se esqueceram do mal que vive nelas" - completou ao se dar conta de que as batidas e o pedido de socorro haviam cessado.
Delicadamente passou os dedos sobre as cabeças dos projéteis como se acariciasse o rosto de um sobrinho que não via há anos, com as pontas dos dedos apanhou cada um deles e os dispôs ordenadamente ao lado da pistola. Caminhou por vales mentais, voltando algumas décadas de sua mente e a estacionando numa época aos arredores de sua juventude, quando seu pai o ensinara a atirar. Tentou se lembrar dos movimentos que aqueles velhos dedos de atirador faziam e como suas mãos seguravam aquele objetivo que atiçava sua mente juvenil. Como um trabalhador que se levanta automaticamente e se prepara para mais um longo dia de trabalho, apanhou aquelas peças que descansavam folgadamente sobre os guardanapos negros e iniciou uma montagem semiautomática, quase inconsciente, de um quebra-cabeça assassino.
Sem nenhuma dificuldade, apenas sua mente trabalhava enquanto seus músculos se moviam, encaixando bala após bala, assim como seu falecido pai o ensinara.

- "Só use quando não houver mais o que ser dito nem feito, pois a palavra pode ser esquecida e a ação, remediada. Já um tiro, não é tão fácil assim de se esquecer, e muito menos, remediar." - as palavras de seu pai ecoavam pelas paredes de sua mente. A mãe só lhe dissera uma coisa, uma única vez:
- "Não faça nenhuma besteira!”.


Lembrava-se daquelas palavras sentado ao pé da cama, iluminado pela única lâmpada do quarto e segurando a arma com as duas mãos, realizando o movimento daqueles que estão prestes a orar, apoiando os dedos indicadores na testa e os polegares no queixo, com a cabeça abaixada e com o cano da pistola direcionado para o centro de sua testa.
- "Pai, não há nada que possa ser dito ou feito. Mãe, eu não farei nenhuma besteira" - disse em voz baixa para, deslizou a mão até a cintura e guardou a arma.
Aproximou-se da porta da frente, os gritos estavam silenciosos, ecoando com os tilintares das chaves em seu pescoço e o som de seus passos, preparou-se para abrir, agarrando a maçaneta com a força de sua expectativa e sua curiosidade latente projetada nas batidas de seu coração. Nunca soube o que esperar rastejando pelas ruas, apenas sabia o quanto os noticiários suplicavam para que as pessoas não deixassem suas casas naqueles dias.

- "Tranquem as portas, a situação está sob controle, estoquem alimentos e água, a situação está sob controle" - repetiam incessantemente, para apagar qualquer dúvida que insistia na mente das pessoas, numa tentativa de dar uma segurança que já havia sido perdida há muito tempo - "A situação está sob controle!”.

Quando ouvira nos rádios que as mesmas autoridades responsáveis por assegurar a segurança da população haviam se virado contra ela, percebeu a natureza do monstro e as consequências daquela poderosa arma transformadora, porém nunca havia enfrentado nenhum deles ou visto alguma delas em ação, tudo que lhe restara era uma especulação covarde, realizada nas noites em que se lembrava de sua esposa e filhos.


Os garotos estavam na casa dos avós e Marta estava no trabalho quando as coisas ameaçaram fugir do controle, ligou para o escritório de advocacia onde trabalhava e ordenou para que fosse para a casa de seus pais e cuidasse das crianças.
- "Mas por que, Bruno? Meu expediente acaba daqui três horas, não podemos esperar?" - lembrou-se das palavras que fugiam daquele dispositivo celular naquela noite - "Não se preocupe com as crianças, elas estão com seus pais e estão bem, acabei de falar com eles, acalme-se!" – ouviu um curto estrondo e uma pequena gritaria – “O que hou-“ - o telefone ficou mudo e a partir daquele momento, percebeu que não havia mais nada a ser dito.
- "Eu te amo" - respondeu para o som robótico e uniforme que soava em seus ouvidos, soltou o telefone e ajoelhou.

Suas mãos ainda abraçavam a maçaneta quando aquelas lembranças dominaram sua mente, foi como um lapso espasmódico causado pelo toque dado naquela peça metálica, uma descarga elétrica causada pela mais pura certeza. Podia sentir as vibrações em seu ouvido direito, causadas pela memória do ruído telefônico daquele dia, fechou os olhos, apertando com mais força a maçaneta, e ouvindo as palavras não proferidas pela esposa ao telefone, girou o punho e sentiu as vistas escurecerem.

- "Eu te amo”.
A casa parecia deformada quando se levantou e olhou à volta, fitou as cortinas cuidadosamente escolhidas por Marta, as fotos e os quadros nas paredes haviam perdido o sentido, as figuras não tinham mais rostos e as paredes estavam achatadas. Cambaleou até a cozinha e abriu a gaveta de talheres, onde um conjunto de facas gritava para ser selecionado, aquele conjunto lindo de materiais brilhantes escolhidos a dedo pelo casal seria utilizado por ele naquela tarde, como desculpa para evitar que qualquer um ficasse entre ele e seus filhos. Foi até uma pequena bancada no centro e pegou a chave do carro, o relógio na parede, desajustado para o horário de verão, marcava duas e meia.
Trancou as portas e correu até a garagem, o carro não estava lá. Esquecera que o estacionara do lado de fora quando entrou apressadamente em casa, lembrou-se de seu chefe perguntando o porquê de tanta pressa para abandonar o trabalho, mas não se lembrou de tê-lo respondido, simplesmente deu de ombros e atravessou as portas do edifício. Quando se ajoelhou perante o telefone mudo na hora passada, ainda estava com o terno utilizado naquela manhã de serviço, não se preocupou com suas roupas enquanto corria pela calçada de sua casa em direção ao carro e nem com a sua segurança quando acelerou em direção ao horizonte, a caminho da casa de seus pais.

Sua força de vontade era a única coisa capaz de concluir aquela simples ação de abrir a porta, porém sua mente, constantemente oprimida pela avalanche de lembranças, era incapaz de ignorar os lapsos de memórias convulsivas que explodiam sem aviso prévio, impossibilitando-o de focar em sua decisão. Por alguns minutos, ficou parado, esperando pela terceira torrente de imagens do passado, como um condenado que conta os segundos precedentes à sua execução, tentando inutilmente se preparar para o inevitável.

Algumas crianças imploraram para que parasse, agitaram as mãos sujas de poeira e balançaram os rostos marcados pelas lágrimas escorridas, mas não obtiveram respostas e o carro passou por entre elas. Há alguns metros, em frente a uma casa de portas escancaradas, a imagem de uma mãe enlouquecida balançando uma das mãos e segurando uma pequena criança com a outra, também passara despercebida.
A maioria das casas estava com as portas arrombadas, o desespero alheio não passou despercebido por sua mente, que se agarrara às visões assustadoras concebidas através de sombras violentas, projetadas nos cantos de dentro das casas e janelas quebradas.
O automóvel cortava as ruas habilmente, controlado por um condutor em perfeito estado de alerta, nenhuma curva, manobra ou frenagem era em vão, tudo milimetricamente calculado para que o destino fosse atingido o mais depressa possível.
Vira dois homens arrastando um sofá para a calçada e um terceiro encarando seu carro, as três figuras estavam fardadas, pequenas cruzes desenhadas sobre os distintivos em seus peitos.
Havia percorrido dezessete quilômetros quando se deu conta de que o ponteiro de combustível estava na reserva, provavelmente suficiente para atingir seu objetivo, mas insuficiente para fugir dele em seguida.
Inclinou os olhos um pouco, virando-os para o painel que revelava sombriamente as horas através de um display digital - eram quatro horas. Quando levantou os olhos, fitou uma pequena mercearia que tomava forma no horizonte de casas saqueadas, ponto de referencia para a velha casa de seus pais, virou a direita nas ruas gastas e ouviu os primeiros estalos involuntários dados por um motor sem combustível. Aquela pequena somatória de motor, lataria e rodas imploravam por alimento, assim como as crianças que deixara para trás, forçou o automóvel por mais alguns metros e girou a chave, desligando o carro e deslizando através do declive da rua até a última casa do quarteirão, seu destino.


Continua 1/ 2

- Lágrimas de Gasolina




sábado, 14 de novembro de 2015

O Lobo e O Rato

Aproximou-se de um dos espelhos do quarto e admirou o próprio resto de existência enquanto arrumava o colarinho. Tentou imaginar os dias que se seguiriam e moveu os olhos em direção a uma gota que escorrera de algum orifício facial, provavelmente um dos olhos. Levou uma das mãos até o rosto e tocou aquela lágrima, que grudou em seu dedo indicador como uma criança que abraça o pai que vai viajar. Por alguns segundos, encarou a figura refletida, um homem bem vestido segurando uma gota de água pelos dedos. Em seguida, dirigiu o dedo úmido em direção aos lábios, fazendo-o percorrer toda a extensão de sua boca. Secou os olhos, se virou, apanhou uma pequena pasta cinzenta que descansava ao pé da cama e saiu.
Por um momento, parou em frente à porta de saída, um dos braços estava estendido e alguns dos dedos acariciavam a maçaneta e pensou em cada pequena mudança que fizera até aquele momento, e em como todas elas haviam se transformado em um amontoado de ações sem qualquer valor.
Lembrou-se de todas as vezes que acordara para trabalhar e correra até o banheiro para um curto banho, das vezes que escovara os dentes e atentamente girava o registro, obstruindo o desperdício, das vezes em que chupara alguma bala e guardara as embalagens no bolso. Tudo aquilo só serviu para resgatar a lembrança de seus pais que sempre diziam:
-"Se vai deixar algo para as outras pessoas, que não seja uma pilha de lixo. Se quiser levar algo consigo, que não seja a oportunidade dos outros verem as arvores como são hoje”.
Tentou girar a maçaneta, percebeu que estava travada e se deu conta de que a mesma estava trancada. Olhou para as letras vermelhas marcadas em sua pasta - Curriculum Vitae - Direcionou o rosto para o molho de chaves dependurado sobre um gancho ao lado da porta, ao lado de uma máscara branca de médico. Pegou a chave, percorreu todas numa seleção cirúrgica e colocou a correta na fechadura, e girou, retirou-a e guardou em um dos bolsos. Dirigiu uma das mãos até a maçaneta e assim ficou por alguns segundos, aquela figura estática, inconsolável e bem vestida, em pé, segurando uma pasta cinza, tão cinza quanto teus olhos e pele, dirigindo um olhar infeliz para a entrada de um mundo que tanto lutara para que não se materializasse. Forçou-se para girar o pulso impotentemente fragilizado e franzino, mas parou e virou os olhos para a atual tendência de vestuário que pendia ao lado da porta. Esticou os dedos e agarrou a máscara, uma existência raivosamente cega e inocente, comparou-se a um rato rodeado pelo fogo e o muro de concreto, a um lobo de olhos furados que consome a própria pata para fugir de uma armadilha de urso, mas que se dá conta de que quando liberto, não saberá para onde ir e nem o que fará com o ferimento. Seus olhos ficaram molhados mais uma vez quando se lembrou da impossibilidade de ter filhos, uma lágrima escorreu quando se deu conta que se um dia viesse à possibilidade de ter herdeiros e os tivesse, não poderiam fazer aquele tipo de comparação. A gota deslizou até seus lábios secos, que a tragou de volta para dentro de seu corpo.
Tirou uma goma de mascar do bolso, abriu delicadamente o doce que a muito havia substituído sua escovação diária, observou a volta feita quando ele puxava as extremidades da embalagem, o pegou e o jogou na boca. Dirigiu a máscara até o nariz e contornou suas orelhas com os laços, fixando-a em seu rosto.
Girou o punho e abriu a porta de uma vez. Seus lábios se tornaram secos e seu rosto empoeirado, caminhou até o meio fio e gritou pelo taxista. Seus olhos enchidos pela maré amarelada dos céus e pelos jornais e restos de papel que caminhavam pelas ruas. Não chorou.
-"Distrito Industrial" - respondeu, enquanto limpava a poeira da camisa.
Em algum canto escuro de suas vestimentas, uma pequena embalagem amassada verde e de letras rosadas, estampava na escuridão os dizeres:
- "Bolong-Long, goma de mascar. Muito mais tempo de hálito fresco. Desde 2017.”

- Lágrimas de Gasolina
Reciclar formado de agua

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Azul, Violeta, Vermelho e Verde

Azul, violeta, vermelho e verde.
Cores que colorem tantos amores preenchidos
em doses plenas do sentido da alma.

Azul brilho de azul,
voa livre e solto,
não quer comparação,
simples sentido,
doce sonido.

Quem quer violeta?
Escuta a paz e então beija emoções,
vibra alto na ponta do arco-íris.

Sangue de vermelho,
brota da terra,
cota ou mesmo velha,
símbolo de bravura,
som puríssimo da força.

Cresce verde e deixa a chuva te tocar.
Amanhece com sono,
com o ninar da manhã,
verde como te quero verde.

Desabrocha em caules maduros
de florestas virgens e delgadas,
patamares de lendas descoloridas,
somente reluz alto na dádiva do campo.

Lendas de fontes inesgotáveis,
colorindo tristezas,
traços de vidas,
e de clarões.


- Sergio Eduardo Del Corso