domingo, 25 de outubro de 2015

A Criança sem Nariz

Os preguiçosos raios de sol rosa-alaranjados já tinham se despedido do céu há muito tempo. O negrume lusco-fusco de um crepúsculo mal-resolvido começava a se expandir, anunciando com trombetas infernais a vinda da noite.
"Maldito Rogério e sua infinidade de planilhas à ser contabilizadas", pensei. Nesta hora, eu provavelmente já estaria logado na Netlfix, tomando uma sopa instantânea enquanto meu maltês já alimentado me acompanhava no oitavo episódio de Narcos. Mas não, graças ao maldito Rogério, cá estou eu, indo para o ponto de ônibus duas horas mais tarde do que meu horário normal.

- Não, não, não!! - gritei. E lá se foi o último ônibus 3.85. Sangue, excremento, suor, lágrimas, detritos, dejetos decompostos. Três quilómetros percorridos a pé, pelo bairro mais sujo desta imunda cidade. Uma hora de caminha infernal, através do próprio inferno. 

Maldito Rogério. 
Maldito 3.85. 

Puxei meu iPod do bolso e desenrolei os earpods. A sujeira acumulada nas pontas dos fones só davam-me menos aflição do que os fios rachados. O cordão que uma vez já fora branco estava amarelado, desfazendo-se em meus dedos. Maldição, maldição. 

Hello darkness, my old friend 

Enquanto eu andava, olhando para o chão e chutando garrafas vazias, Simon e Garfunkel cuidava de minha depressiva trilha sonora. Se eu não poderia desfazer a visão desprazerosa ou o cheiro desgostoso daquele caminho, pelo menos poderia transportar meus ouvidos para longe dali.

I've come to talk with you again 

E, de repente, uma terrível sensação. A incomoda presença que aparenta te seguir, te vigiar. Olhei para trás, sobre o ombro direito e deparei-me com duas silhuetas que me acompanhavam.
Maldição, só faltava eu ser assaltado agora. Fui mais rápido. 
Meu coração acelerou, ouvia os passos a trás de mim tornando-se mais intensos, mais pesados. Comecei a correr. Maldição, maldição.

Because a vision softly creeping 

 Quase gritei quando um vulto cortou minha frente. Parei de súbito, pronto para vomitar minhas vísceras. Olhei para trás, mas não havia mais ninguém.
Tirei os fones dos ouvidos, mas Simon e Garfunkel continuaram cantando.

- QUEM ESTÁ AI? - gritei.

Left its seeds while I was sleeping 

- Vocês querem me roubar? Que assim seja, porra! Venham, levem toda essa merda! Atirei o iPod no chão com força, mas o aparelho não se quebrou. 

And the vision that was planted in my brain 

O silêncio predominava, e a única coisa que eu conseguia ouvir era minha respiração pesada, meu coração explodindo em meu peito e a fraca música que cantarolava no fundo.

Então, quebrando a calmaria efêmera, das sombras formadas pelas ruelas sinuosas e tortas que margeavam a rua, saiu uma estranha garotinha. As luzes amarelas dos postes velhos deixavam seu aspecto um tanto quanto sombrio, sinistro. Um vestido branco rasgado adornava seu corpo e, escondendo a face, uma máscara de cirurgião finalizava o incomum conjunto. 

Still remains 

Fiquei olhando aquela figura, atônito, com calafrios percorrendo todo o meu corpo. Por fim, murmurei:
- O que você quer?
Ela não respondeu.
- O QUE VOCÊ QUER? - gritei.
- Você me acha bonita? - ela perguntou. 
A voz era a mais pura e inocente que eu já ouvira. Adocicada e angelical. Era suave, era tênue. 
Mas eu não sabia o que responder.

- S-s-sim - menti. 

Ela então fez algo que parou o meu antes explosivo coração; removeu a máscara, revelando o buraco no meio de seu pequeno rostinho. A ferida havia removido completamente seu nariz, deixando no lugar um aglomerado de carne exposta, sangue, pus, tecido adiposo e traços do que parecia ser osso. 

Engasguei em minha própria saliva, tomado por um refluxo irracional. Virei para o lado e comecei a vomitar, enquanto e pequena garota caminhava em minha direção. 

- Você ainda me acha bonita? - ela perguntou novamente. Era a mesma voz doce de antes, era a mesma voz. Mas eu não conseguia nem olhar para seu rosto, pois sabia que seria inundado novamente pelo acesso de ânsia. 
- S-sim, sim, ainda acho.
Ela sorriu. Cruelmente, não posso dizer que era um sorriso bonito, pois a ferida chorava lágrimas de sangue sobre sua pequena boca, mas ainda assim era inocente e puro. 
E então ela começou a gargalhar, e naquele instante toda a doçura se desfez. Aquilo era a personificação do mal.
Ela era a forma mais pura de maldade que eu já presenciei.

Um negrume abriu em meu coração, e todo meu peito foi tomado por um vácuo desesperador.
Tentei correr, mas o cimento tinha cedido e incorporado meu pé em sua fundação. Meus braços tornaram-se pesados como chumbo e movimentá-los mostrou-se impossível. 
A garota aproximou-se mais, ainda gargalhando. Tirou um pequeno bisturi da faixa que prendia seu vestido e disse:

- Moço, não se preocupe, eu vou te deixar bonito também!

Within the sound of silence

- Dedos Azuis

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Lembranças

Hoje eu decidi arrumar o meu quarto.
Pensei em começar pelas gavetas, mas comecei pelos armários.
Terminei de colocar alguns documentos no lugar e os ordenei por nome e data, tipo e tamanho.
Cheguei nas gavetas e comecei com as de cima e fui descendo.
Folhei cada objeto que descansava ali, demorei muito tempo.
Eram gavetas que não deveriam ser abertas.
Gavetas antigas, imóveis há cinco anos.
Seu conteúdo, embora estivesse logo ao meu lado durante as horas vagas, nunca me dei ao trabalho de movimentá-las.
Elas simplesmente estavam ali, esperando.
Uma lembrança embaixo de alguma apostila velha do ensino médio;
Algum passado alojado por entre fio velhos e fones quebrados;
Fotos escondidas por entre folhas de caderno;
Um convite para um baile de debutante;
Uma carta;
Uma foto de meus pais;
Um maço de cigarros vazio;
Adornos utilizados em épocas de escola;
Carregadores para celulares ultrapassados;
Apostilas do ensino fundamental;
Um presente sem valor;
Uma foto 3x4;
Chaves do meu antigo quarto; e
Um cofre vazio.
Ali dentro das gavetas, nada mais tem o valor que teve.
O valor se perdeu com o tempo e com as pessoas que se perderam.
No fim das contas, nós é quem agregamos valores às coisas.
A foto 3x4 não tem a barba que tenho hoje, as apostilas não sanam as dúvidas da faculdade, as antigas chaves não abrem porta alguma, não utilizo mais adornos, a carta não tem mais o amor, a debutante se mudou e nunca mais a vi.
Preparo o saco de lixo e jogo a gaveta toda lá dentro.
O mais engraçado é que na época, eu não jogaria nada daquilo no lixo.
Preciso descansar. São duas horas da manhã e o tempo não nos espera tomar fôlego.
A vida é rápida demais para termos lembranças.

- Lágrimas de Gasolina

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Mergulho em Águas Rasas #3 - Eu Sei Me Cuidar!

Senti-me absurdamente zonzo quando sacudi a cabeça e coloquei uma das mãos sobre a beirada da escada. É um tanto quanto impressionante essa resistência que eu sempre tive, sabe? É até engraçado eu sentir somente tontura e nem estar vomitando sangue como qualquer outra pessoa. Cômico mesmo é ter percebido essa resistência extraordinária só agora, afinal já aconteceram tantas coisas que teoricamente deveriam ter me matado, às vezes penso que a morte já está prescrita e que aqueles não eram os momentos dela vir, sei lá.
Subi as escadas e andei, medindo cada passo dado em direção à cerca para apanhar a toalha da minha prima, ela não se importaria que eu me enxugasse ou limpasse o sangue que escorria da minha cabeça, sou o primo mais velho e ela me adora. Além de que a toalha era rosa e não mancharia de nenhuma cor que não pudesse facilmente passar despercebida – foda-se. O importante mesmo era que ninguém percebesse que eu tinha acabado de fazer besteira, pois isso daria munição para as pessoas falarem qualquer merda e todo mundo sabe como as pessoas adoram falar, dar munição para elas me fuzilarem com suas palavras seria o inferno para mim.
Sentei sobre um degrau de concreto nos arredores de uma churrasqueira escondida da chácara e ali fiquei, tentando estancar o sangue e impelindo o pensamento de que qualquer desgraçado poderia me ver e rir. O ferimento minava sangue como um daqueles frascos de ketchup sem vergonha que quando a gente aperta, sai bem mais do que a gente espera. A toalha estava ficando num tom escroto de vermelho rosado, dando a impressão que o sangue que a preenchia era proveniente de alguma boca manchada de batom.
Não demorou muito para o primeiro arrombado ver e alertar todas as pessoas possíveis da festa, a maldita da minha prima havia gritado para meu tio, que desceu correndo com um saco de gelo na mão. Ele ficou lá por alguns minutos me olhando, achando que eu ia deslizar a qualquer momento e começar a estrebuchar no concreto. Eu até poderia passar mal, sentir minhas pernas formigarem e vomitar, mas não diria nada á ninguém, não queria que a atenção fosse desviada para os meus erros. Afinal as pessoas não estavam lá pelos meus pais? Por que elas não ficaram lá sentadas e assistiram à droga da cerimônia? Eu não chamei ninguém e nem pedi ajuda. – Eu sei me cuidar!
Algumas pessoas são tão obcecadas por desgraças alheias, que muitas vezes preferem desviar do seu destino e assistir mais alguns segundos de algum paramédico praticando algum procedimento em algum corpo frio, do que simplesmente dirigir para a porcaria do trabalho. Para mim, isso só pode ser algum tipo de doença, já me disseram todo tipo de coisa para tentar ofuscar essa natureza delas, mas nada pode justificar esse sadismo. A pior parte é que quando essas mesmas pessoas chegam a suas casas, elas abraçam suas esposas e maridos, beijam seus filhos e filhas, vão para o Facebook e escrevem alguma frase de impacto a respeito da vida e do real valor dela.
Isso é demais para mim, cara! A pessoa gasta a porcaria do tempo de vida dela se masturbando mentalmente para um cadáver no caminho para o trabalho e quando chega em casa, quer dar lição de moral.
Eu nunca fiz algo desse tipo. Tá, tá certo, estou mentindo, aconteceu uma vez, sim. Mas foi só dessa vez e a situação era completamente outra, eu não estava lá para ficar apenas observando e lamentando pela vida do pobre infeliz. E a gente acabou se envolvendo sem perceber e foi tudo tão de repente que parecia que alguma atitude imediata devia ser tomada. Bom, numa manhã de algum dia das férias escolares, dois dos meus primos decidiram que deviam vir passar algum tempo na minha casa, comer minha comida e usar as minhas coisas.

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- Lágrimas de Gasolina

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

O Beijo da Desilusão

O beijo da desilusão, fez estraçalhar
Um milhão de sorrisos perdidos
Em uma noite em que a lua engoliu o céu
Ao sabor de um velho vinho, azedo como vinagre
E as bruxas sangram os seus pés, dançando ao redor do fogo
Música da desgraça humana, do pranto dos mortais
Do pranto dos mortais.

- Ferdinando

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Mergulho em Águas Rasas #2 - O Boneco de Pano

Acho engraçado como são as coisas, me lembro que certa vez, eu e um grupo de amigos tivemos a brilhante e trágica ideia de adentrar as dependências de um retiro de aidéticos localizado à algumas centenas de metros de minha vizinhança. Reunimos somente as mais conhecidas e renomadas figuras do bairro para executar uma missão formada pelo mais alto grau de ingenuidade, imprudência e imbecilidade, é claro que eu fui escalado como líder do bando, eles não me elegeram, mas era explicito em seus rostos o quanto minha presença seria importante. A nossa meta era invadir o retiro através das matas compostas por arvores, córregos e bambus apodrecidos que cercavam toda a propriedade. A entrada da trilha de acesso à mata se desbocava em um descampado maldito de fácil acesso, que ao passar por ela e caminhar alguns metros por folhas podres e animais peçonhentos, podia-se ver, ouvir e sentir um sutil amontoado de águas escuras formado pelo mais puro odor de bosta, sobre o córrego havia uma das vigas da extinta cerca de arame descansando de atravessado, essa ponte era por onde - é claro - passávamos como formiguinhas.
O plano era simples, nos reuniríamos na entrada da trilha, caminharíamos até o córrego, cruzaríamos a ponte, nos esconderíamos em meio às arvores e correríamos como soldados em meio a guerra pela grama a céu aberto até a grade que contornava toda a piscina.
Sim, exatamente isso que você está pensando, toda a droga do plano era para simplesmente darmos algumas poucas braçadas em uma porcaria de piscina, correndo o risco de sermos pegos por invasão e receber uma senhora surra quando chegássemos a nossas casas, mesmo assim não tire a razão da gente, embora fosse um ato de extrema ousadia diluída numa dose gigantesca de burrice, estávamos em janeiro e estava calor pra caralho.
Corremos um de cada vez pela grama durante impressionantes cinco segundos - fiz em quatro -, tendo os corpos freados pela grade quando atingíamos individualmente o objetivo. Um dos meninos preparou e abriu a mochila, retirou um pequeno alicate e abriu a cerca depois de alguns cortes, não fomos vistos nem ouvidos.
Quando nos aproximamos da piscina, notamos que as águas se assemelhavam àquelas vistas correndo pelo córrego há alguns minutos atrás, a partir desse momento eu tinha percebido que adentrar a agua fétida da mata seria muito mais saudável e teria poupado muito mais esforço do que mergulhar na lama esverdeada daquela piscina. No fim das contas, éramos crianças e para a maioria de nós o destino não vale de nada, sendo o caminho ou a viagem o aspecto mais importante, por isso chegar até ali, cortar a grade, simplesmente parar e encarar a piscina com aquele ar de sucesso já seria o suficiente. Porém, em todos os grupos de crianças, sempre existe um elemento que é um pouco mais retardado que os demais.
Então, como uma espécie de iluminação divina ou como se um pequeno diabrete houvesse se apossado do corpo daquele garoto magro e de dentição torta, ouvimos uma risada seguida por grito, vimos um vulto rosa-amarronzado voando num mortal sobre a piscina, girando como um boneco de pano jogado ao ar. Lembro-me de seus membros balançando, digo no sentido literal e integral da coisa, pois o rapaz estava nu, e caindo na piscina. Em seguida, todos nós estávamos lá dentro, não dávamos à mínima para o que aconteceria se alguém chegasse ou se houvesse alguma espécie de contaminação naquela água, éramos crianças e ter preocupações é coisa de adulto.
De vez em quando, me pego pensando em coisas que não fazem o menor sentido e quando me lembro daquela molecada, vejo como cada um era e tinha uma personalidade totalmente única e sabe, pensando nisso, acho que em algum lugar exista uma divisão de entidades responsáveis por organizar os círculos sociais das pessoas. É, algo assim - deve ser. - Não sei se me expressei bem, mas você já percebeu que em todo grupo de amigos, nenhum deles são parecidos e quando são, é porque são irmãos? Por isso eu penso que exista esse tal de recursos humanos celestial, justamente para aquele seu amigo gordinho não ficar sozinho. Sei lá, as coisas são engraçadas e é isso, a gente às vezes se pega pensando em como as coisas aconteceram e no dia seguinte acordamos jurando que não repetiremos os mesmos erros, mas às vezes nossa cabeça é meio atemporal, sabe? A gente esquece com muita facilidade das coisas e o aprendizado vai para o vinagre também.
Foi até engraçado eu lembrar esse tipo de coisa no instante seguinte em que bati a cabeça, porque foi depois daquele momento em que saí da piscina que as coisas ficaram estranhas, afinal eu estava com a cabeça toda inchada e sangrando, minha prima gritava - não ria - como uma hiena e meus pais comemoravam os vinte e cinco anos de casados deles na cobertura de fundo com mais outros cem convidados e parentes.

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- Lágrimas de Gasolina