Hoje eu decidi arrumar o meu quarto.
Pensei em começar pelas gavetas, mas comecei pelos armários.
Terminei de colocar alguns documentos no lugar e os ordenei por nome e data, tipo e tamanho.
Cheguei nas gavetas e comecei com as de cima e fui descendo.
Folhei cada objeto que descansava ali, demorei muito tempo.
Eram gavetas que não deveriam ser abertas.
Gavetas antigas, imóveis há cinco anos.
Seu conteúdo, embora estivesse logo ao meu lado durante as horas vagas, nunca me dei ao trabalho de movimentá-las.
Elas simplesmente estavam ali, esperando.
Uma lembrança embaixo de alguma apostila velha do ensino médio;
Algum passado alojado por entre fio velhos e fones quebrados;
Fotos escondidas por entre folhas de caderno;
Um convite para um baile de debutante;
Uma carta;
Uma foto de meus pais;
Um maço de cigarros vazio;
Adornos utilizados em épocas de escola;
Carregadores para celulares ultrapassados;
Apostilas do ensino fundamental;
Um presente sem valor;
Uma foto 3x4;
Chaves do meu antigo quarto; e
Um cofre vazio.
Ali dentro das gavetas, nada mais tem o valor que teve.
O valor se perdeu com o tempo e com as pessoas que se perderam.
No fim das contas, nós é quem agregamos valores às coisas.
A foto 3x4 não tem a barba que tenho hoje, as apostilas não sanam as dúvidas da faculdade, as antigas chaves não abrem porta alguma, não utilizo mais adornos, a carta não tem mais o amor, a debutante se mudou e nunca mais a vi.
Preparo o saco de lixo e jogo a gaveta toda lá dentro.
O mais engraçado é que na época, eu não jogaria nada daquilo no lixo.
Preciso descansar. São duas horas da manhã e o tempo não nos espera tomar fôlego.
A vida é rápida demais para termos lembranças.
- Lágrimas de Gasolina
quarta-feira, 21 de outubro de 2015
terça-feira, 20 de outubro de 2015
Mergulho em Águas Rasas #3 - Eu Sei Me Cuidar!
Senti-me absurdamente zonzo quando sacudi a cabeça e coloquei uma das mãos sobre a beirada da escada. É um tanto quanto impressionante essa resistência que eu sempre tive, sabe? É até engraçado eu sentir somente tontura e nem estar vomitando sangue como qualquer outra pessoa. Cômico mesmo é ter percebido essa resistência extraordinária só agora, afinal já aconteceram tantas coisas que teoricamente deveriam ter me matado, às vezes penso que a morte já está prescrita e que aqueles não eram os momentos dela vir, sei lá.
Subi as escadas e andei, medindo cada passo dado em direção à cerca para apanhar a toalha da minha prima, ela não se importaria que eu me enxugasse ou limpasse o sangue que escorria da minha cabeça, sou o primo mais velho e ela me adora. Além de que a toalha era rosa e não mancharia de nenhuma cor que não pudesse facilmente passar despercebida – foda-se. O importante mesmo era que ninguém percebesse que eu tinha acabado de fazer besteira, pois isso daria munição para as pessoas falarem qualquer merda e todo mundo sabe como as pessoas adoram falar, dar munição para elas me fuzilarem com suas palavras seria o inferno para mim.
Sentei sobre um degrau de concreto nos arredores de uma churrasqueira escondida da chácara e ali fiquei, tentando estancar o sangue e impelindo o pensamento de que qualquer desgraçado poderia me ver e rir. O ferimento minava sangue como um daqueles frascos de ketchup sem vergonha que quando a gente aperta, sai bem mais do que a gente espera. A toalha estava ficando num tom escroto de vermelho rosado, dando a impressão que o sangue que a preenchia era proveniente de alguma boca manchada de batom.
Não demorou muito para o primeiro arrombado ver e alertar todas as pessoas possíveis da festa, a maldita da minha prima havia gritado para meu tio, que desceu correndo com um saco de gelo na mão. Ele ficou lá por alguns minutos me olhando, achando que eu ia deslizar a qualquer momento e começar a estrebuchar no concreto. Eu até poderia passar mal, sentir minhas pernas formigarem e vomitar, mas não diria nada á ninguém, não queria que a atenção fosse desviada para os meus erros. Afinal as pessoas não estavam lá pelos meus pais? Por que elas não ficaram lá sentadas e assistiram à droga da cerimônia? Eu não chamei ninguém e nem pedi ajuda. – Eu sei me cuidar!
Algumas pessoas são tão obcecadas por desgraças alheias, que muitas vezes preferem desviar do seu destino e assistir mais alguns segundos de algum paramédico praticando algum procedimento em algum corpo frio, do que simplesmente dirigir para a porcaria do trabalho. Para mim, isso só pode ser algum tipo de doença, já me disseram todo tipo de coisa para tentar ofuscar essa natureza delas, mas nada pode justificar esse sadismo. A pior parte é que quando essas mesmas pessoas chegam a suas casas, elas abraçam suas esposas e maridos, beijam seus filhos e filhas, vão para o Facebook e escrevem alguma frase de impacto a respeito da vida e do real valor dela.
Isso é demais para mim, cara! A pessoa gasta a porcaria do tempo de vida dela se masturbando mentalmente para um cadáver no caminho para o trabalho e quando chega em casa, quer dar lição de moral.
Eu nunca fiz algo desse tipo. Tá, tá certo, estou mentindo, aconteceu uma vez, sim. Mas foi só dessa vez e a situação era completamente outra, eu não estava lá para ficar apenas observando e lamentando pela vida do pobre infeliz. E a gente acabou se envolvendo sem perceber e foi tudo tão de repente que parecia que alguma atitude imediata devia ser tomada. Bom, numa manhã de algum dia das férias escolares, dois dos meus primos decidiram que deviam vir passar algum tempo na minha casa, comer minha comida e usar as minhas coisas.
Continua
Anterior
- Lágrimas de Gasolina
Subi as escadas e andei, medindo cada passo dado em direção à cerca para apanhar a toalha da minha prima, ela não se importaria que eu me enxugasse ou limpasse o sangue que escorria da minha cabeça, sou o primo mais velho e ela me adora. Além de que a toalha era rosa e não mancharia de nenhuma cor que não pudesse facilmente passar despercebida – foda-se. O importante mesmo era que ninguém percebesse que eu tinha acabado de fazer besteira, pois isso daria munição para as pessoas falarem qualquer merda e todo mundo sabe como as pessoas adoram falar, dar munição para elas me fuzilarem com suas palavras seria o inferno para mim.
Sentei sobre um degrau de concreto nos arredores de uma churrasqueira escondida da chácara e ali fiquei, tentando estancar o sangue e impelindo o pensamento de que qualquer desgraçado poderia me ver e rir. O ferimento minava sangue como um daqueles frascos de ketchup sem vergonha que quando a gente aperta, sai bem mais do que a gente espera. A toalha estava ficando num tom escroto de vermelho rosado, dando a impressão que o sangue que a preenchia era proveniente de alguma boca manchada de batom.
Não demorou muito para o primeiro arrombado ver e alertar todas as pessoas possíveis da festa, a maldita da minha prima havia gritado para meu tio, que desceu correndo com um saco de gelo na mão. Ele ficou lá por alguns minutos me olhando, achando que eu ia deslizar a qualquer momento e começar a estrebuchar no concreto. Eu até poderia passar mal, sentir minhas pernas formigarem e vomitar, mas não diria nada á ninguém, não queria que a atenção fosse desviada para os meus erros. Afinal as pessoas não estavam lá pelos meus pais? Por que elas não ficaram lá sentadas e assistiram à droga da cerimônia? Eu não chamei ninguém e nem pedi ajuda. – Eu sei me cuidar!
Algumas pessoas são tão obcecadas por desgraças alheias, que muitas vezes preferem desviar do seu destino e assistir mais alguns segundos de algum paramédico praticando algum procedimento em algum corpo frio, do que simplesmente dirigir para a porcaria do trabalho. Para mim, isso só pode ser algum tipo de doença, já me disseram todo tipo de coisa para tentar ofuscar essa natureza delas, mas nada pode justificar esse sadismo. A pior parte é que quando essas mesmas pessoas chegam a suas casas, elas abraçam suas esposas e maridos, beijam seus filhos e filhas, vão para o Facebook e escrevem alguma frase de impacto a respeito da vida e do real valor dela.
Isso é demais para mim, cara! A pessoa gasta a porcaria do tempo de vida dela se masturbando mentalmente para um cadáver no caminho para o trabalho e quando chega em casa, quer dar lição de moral.
Eu nunca fiz algo desse tipo. Tá, tá certo, estou mentindo, aconteceu uma vez, sim. Mas foi só dessa vez e a situação era completamente outra, eu não estava lá para ficar apenas observando e lamentando pela vida do pobre infeliz. E a gente acabou se envolvendo sem perceber e foi tudo tão de repente que parecia que alguma atitude imediata devia ser tomada. Bom, numa manhã de algum dia das férias escolares, dois dos meus primos decidiram que deviam vir passar algum tempo na minha casa, comer minha comida e usar as minhas coisas.
Continua
Anterior
- Lágrimas de Gasolina
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
O Beijo da Desilusão
O beijo da desilusão, fez estraçalhar
Um milhão de sorrisos perdidos
Em uma noite em que a lua engoliu o céu
Ao sabor de um velho vinho, azedo como vinagre
E as bruxas sangram os seus pés, dançando ao redor do fogo
Música da desgraça humana, do pranto dos mortais
Do pranto dos mortais.
- Ferdinando
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
Mergulho em Águas Rasas #2 - O Boneco de Pano
Acho engraçado como são as coisas, me lembro que certa
vez, eu e um grupo de amigos tivemos a brilhante e trágica ideia de adentrar as dependências de um retiro de aidéticos localizado à algumas centenas de metros de minha vizinhança. Reunimos somente as mais conhecidas e renomadas figuras do bairro para executar uma missão formada pelo mais alto grau de ingenuidade, imprudência e imbecilidade, é claro que eu fui escalado como líder do bando, eles não me elegeram, mas era explicito em seus rostos o quanto minha presença seria importante. A nossa meta era invadir o retiro através das matas compostas por arvores, córregos e bambus apodrecidos que cercavam toda a propriedade. A entrada da trilha de acesso à mata se desbocava em um descampado maldito de fácil acesso, que ao passar por ela e caminhar alguns metros por folhas podres e animais peçonhentos, podia-se ver, ouvir e sentir um sutil amontoado de águas escuras formado pelo mais puro odor de bosta, sobre o córrego havia uma das vigas da extinta cerca de arame descansando de atravessado, essa ponte era por onde - é claro - passávamos como formiguinhas.
O plano era simples, nos reuniríamos na entrada da trilha, caminharíamos até o córrego, cruzaríamos a ponte, nos esconderíamos em meio às arvores e correríamos como soldados em meio a guerra pela grama a céu aberto até a grade que contornava toda a piscina.
Sim, exatamente isso que você está pensando, toda a droga do plano era para simplesmente darmos algumas poucas braçadas em uma porcaria de piscina, correndo o risco de sermos pegos por invasão e receber uma senhora surra quando chegássemos a nossas casas, mesmo assim não tire a razão da gente, embora fosse um ato de extrema ousadia diluída numa dose gigantesca de burrice, estávamos em janeiro e estava calor pra caralho.
Corremos um de cada vez pela grama durante impressionantes cinco segundos - fiz em quatro -, tendo os corpos freados pela grade quando atingíamos individualmente o objetivo. Um dos meninos preparou e abriu a mochila, retirou um pequeno alicate e abriu a cerca depois de alguns cortes, não fomos vistos nem ouvidos.
Quando nos aproximamos da piscina, notamos que as águas se assemelhavam àquelas vistas correndo pelo córrego há alguns minutos atrás, a partir desse momento eu tinha percebido que adentrar a agua fétida da mata seria muito mais saudável e teria poupado muito mais esforço do que mergulhar na lama esverdeada daquela piscina. No fim das contas, éramos crianças e para a maioria de nós o destino não vale de nada, sendo o caminho ou a viagem o aspecto mais importante, por isso chegar até ali, cortar a grade, simplesmente parar e encarar a piscina com aquele ar de sucesso já seria o suficiente. Porém, em todos os grupos de crianças, sempre existe um elemento que é um pouco mais retardado que os demais.
Então, como uma espécie de iluminação divina ou como se um pequeno diabrete houvesse se apossado do corpo daquele garoto magro e de dentição torta, ouvimos uma risada seguida por grito, vimos um vulto rosa-amarronzado voando num mortal sobre a piscina, girando como um boneco de pano jogado ao ar. Lembro-me de seus membros balançando, digo no sentido literal e integral da coisa, pois o rapaz estava nu, e caindo na piscina. Em seguida, todos nós estávamos lá dentro, não dávamos à mínima para o que aconteceria se alguém chegasse ou se houvesse alguma espécie de contaminação naquela água, éramos crianças e ter preocupações é coisa de adulto.
De vez em quando, me pego pensando em coisas que não fazem o menor sentido e quando me lembro daquela molecada, vejo como cada um era e tinha uma personalidade totalmente única e sabe, pensando nisso, acho que em algum lugar exista uma divisão de entidades responsáveis por organizar os círculos sociais das pessoas. É, algo assim - deve ser. - Não sei se me expressei bem, mas você já percebeu que em todo grupo de amigos, nenhum deles são parecidos e quando são, é porque são irmãos? Por isso eu penso que exista esse tal de recursos humanos celestial, justamente para aquele seu amigo gordinho não ficar sozinho. Sei lá, as coisas são engraçadas e é isso, a gente às vezes se pega pensando em como as coisas aconteceram e no dia seguinte acordamos jurando que não repetiremos os mesmos erros, mas às vezes nossa cabeça é meio atemporal, sabe? A gente esquece com muita facilidade das coisas e o aprendizado vai para o vinagre também.
Foi até engraçado eu lembrar esse tipo de coisa no instante seguinte em que bati a cabeça, porque foi depois daquele momento em que saí da piscina que as coisas ficaram estranhas, afinal eu estava com a cabeça toda inchada e sangrando, minha prima gritava - não ria - como uma hiena e meus pais comemoravam os vinte e cinco anos de casados deles na cobertura de fundo com mais outros cem convidados e parentes.
Continua
Anterior
- Lágrimas de Gasolina
O plano era simples, nos reuniríamos na entrada da trilha, caminharíamos até o córrego, cruzaríamos a ponte, nos esconderíamos em meio às arvores e correríamos como soldados em meio a guerra pela grama a céu aberto até a grade que contornava toda a piscina.
Sim, exatamente isso que você está pensando, toda a droga do plano era para simplesmente darmos algumas poucas braçadas em uma porcaria de piscina, correndo o risco de sermos pegos por invasão e receber uma senhora surra quando chegássemos a nossas casas, mesmo assim não tire a razão da gente, embora fosse um ato de extrema ousadia diluída numa dose gigantesca de burrice, estávamos em janeiro e estava calor pra caralho.
Corremos um de cada vez pela grama durante impressionantes cinco segundos - fiz em quatro -, tendo os corpos freados pela grade quando atingíamos individualmente o objetivo. Um dos meninos preparou e abriu a mochila, retirou um pequeno alicate e abriu a cerca depois de alguns cortes, não fomos vistos nem ouvidos.
Quando nos aproximamos da piscina, notamos que as águas se assemelhavam àquelas vistas correndo pelo córrego há alguns minutos atrás, a partir desse momento eu tinha percebido que adentrar a agua fétida da mata seria muito mais saudável e teria poupado muito mais esforço do que mergulhar na lama esverdeada daquela piscina. No fim das contas, éramos crianças e para a maioria de nós o destino não vale de nada, sendo o caminho ou a viagem o aspecto mais importante, por isso chegar até ali, cortar a grade, simplesmente parar e encarar a piscina com aquele ar de sucesso já seria o suficiente. Porém, em todos os grupos de crianças, sempre existe um elemento que é um pouco mais retardado que os demais.
Então, como uma espécie de iluminação divina ou como se um pequeno diabrete houvesse se apossado do corpo daquele garoto magro e de dentição torta, ouvimos uma risada seguida por grito, vimos um vulto rosa-amarronzado voando num mortal sobre a piscina, girando como um boneco de pano jogado ao ar. Lembro-me de seus membros balançando, digo no sentido literal e integral da coisa, pois o rapaz estava nu, e caindo na piscina. Em seguida, todos nós estávamos lá dentro, não dávamos à mínima para o que aconteceria se alguém chegasse ou se houvesse alguma espécie de contaminação naquela água, éramos crianças e ter preocupações é coisa de adulto.
De vez em quando, me pego pensando em coisas que não fazem o menor sentido e quando me lembro daquela molecada, vejo como cada um era e tinha uma personalidade totalmente única e sabe, pensando nisso, acho que em algum lugar exista uma divisão de entidades responsáveis por organizar os círculos sociais das pessoas. É, algo assim - deve ser. - Não sei se me expressei bem, mas você já percebeu que em todo grupo de amigos, nenhum deles são parecidos e quando são, é porque são irmãos? Por isso eu penso que exista esse tal de recursos humanos celestial, justamente para aquele seu amigo gordinho não ficar sozinho. Sei lá, as coisas são engraçadas e é isso, a gente às vezes se pega pensando em como as coisas aconteceram e no dia seguinte acordamos jurando que não repetiremos os mesmos erros, mas às vezes nossa cabeça é meio atemporal, sabe? A gente esquece com muita facilidade das coisas e o aprendizado vai para o vinagre também.
Foi até engraçado eu lembrar esse tipo de coisa no instante seguinte em que bati a cabeça, porque foi depois daquele momento em que saí da piscina que as coisas ficaram estranhas, afinal eu estava com a cabeça toda inchada e sangrando, minha prima gritava - não ria - como uma hiena e meus pais comemoravam os vinte e cinco anos de casados deles na cobertura de fundo com mais outros cem convidados e parentes.
Anterior
- Lágrimas de Gasolina
quarta-feira, 7 de outubro de 2015
Mergulho em Águas Rasas #1 - O Sapo-Deus Monge de Pernas Grossas
Porra, cara! Você não sabe o que me aconteceu nessa ultima semana, para você ter noção, tinha uma caralhada de gente dizendo o quanto eu tinha sorte e como eu deveria ser grato a alguma entidade que não permitiu que nada de pior acontecesse.
Como sempre fui o melhor de todos em tudo que já fiz, pensei que seria uma grande ideia demonstrar o quanto meu salto ornamental seguido pelo meu mergulho Ponta de Girafa - batizado assim por mim mesmo - era imensamente superior a tudo já visto pelos olhos da minha prima de dez anos de idade. Preparei-me como um campeão e saltitei elegantemente até a borda da piscina, parecia um magnata, o Magnata da Piscina, sem dúvida alguma, esse seria o titulo ideal.
Apontei para aquela cara ranhosa de criança e disse em voz alta como deveria ser um verdadeiro mergulho, ela me olhava com aquele olhar de admiração que somente as crianças são capazes e começou a gritar de euforia, parecia uma gargalhada deformada, mas não era, disseram que era, mas é tudo mentira, ela jamais riria do primo mais velho. Isso me irrita muito, todo esse bafafá que as pessoas fazem, estão sempre falando o que dá na cabeça e nunca pesam o quanto isso pode ferir os outros, são um bando de hipócritas essa é a verdade, sempre pregando o quanto você deve ser humilde e o quanto você deve praticar o bem, mas no fim das contas, estão sempre compartilhando imagens de suas conquistas ou alguma porcaria envolvendo estupro, mutilação ou qualquer outra besteira nojenta nas redes sociais. Desgraçados hipócritas!
Arregacei a bermuda para favorecer o ângulo do meu salto, dobrei os joelhos artisticamente enquanto pressionava as palmas uma contra a outra, numa espécie de posição de sapo monge ou um louva-deus de pernas grossas, depende do ponto de vista, acho que estava mais para o louva-deus do que para sapo - sei lá. - Acho um pouco complicado essa comparação entre sapo e louva-deus, embora o sapo seja um animal viscoso e nojento, ele ainda é bem superior ao louva-deus pelo fato de estar acima na cadeia alimentar, eu até diria que sou um sapo-deus monge de pernas grossas. É, esse seria o nome ideal para a posição pré-salto.
Então, na posição sapo-deus monge de pernas grossas, disse mais algumas palavras, apenas para deixar bem claro o quanto aquele salto mudaria toda a percepção de realidade daquela criança e o quanto ela deveria correr na direção dos pais e dizer o quanto o primo dela era embaçado, o rei - o rei, não - o magnata da piscina.
O engraçado é que tudo o que eu disse para minha prima até aquele momento antes do salto, aconteceu de verdade nos minutos que se seguiram, pois realmente abalou toda a minha percepção de realidade e a garota correu - como o vento - para chamar os meus pais. Às vezes eu me surpreendo com o meu poder de adivinhação, alguns diriam ser sorte ou coincidência, mas eu acho que não, deve ser algo maior, alguma espécie de habilidade não compreendida.
Pois é, eu pulei, mas não foi por falta de habilidade que atingi o meu crânio no fundo daquela piscina, na verdade, foi um instante absurdo de azar. Foi até interessante perceber o quanto - até mesmo os mais habilidosos - estão à mercê dos múltiplos fatores do ambiente, como o vento, as ondas sonoras dos pássaros e outras micro-variações incompreensíveis. Acontece que não foi minha culpa, alguma coisa fez com que a minhas pernas deslocassem trinta centímetros para frente e fizessem com que eu ficasse com o corpo perfeitamente reto, realizando um mergulho que só seria considerado seguro se fosse feito numa piscina de três metros de profundidade, que não foi o caso.
Minha cabeça projetava um curta-metragem de uma balada dentro de um trem desgovernado que colidia com uma tela de pintura vazia - não peguei ninguém - quando voltei ao mundo real, percebi que havia se passado pouco menos de dois segundos e eu ainda estava flutuando por entre as águas avermelhadas da piscina, me ergui com minhas próprias pernas e sai da água, suspirando como um guerreiro aquático ferido.
A menina apontava para a minha testa e gritava eufórica - não eram risos, eram gritos -, dizendo que eu estava sangrando e por isso já havia me tornado uma mocinha, eu não entendi muito bem a colocação dela, mas provavelmente era alguma gíria usada na escolinha.
Continua
- Lágrimas de Gasolina
Como sempre fui o melhor de todos em tudo que já fiz, pensei que seria uma grande ideia demonstrar o quanto meu salto ornamental seguido pelo meu mergulho Ponta de Girafa - batizado assim por mim mesmo - era imensamente superior a tudo já visto pelos olhos da minha prima de dez anos de idade. Preparei-me como um campeão e saltitei elegantemente até a borda da piscina, parecia um magnata, o Magnata da Piscina, sem dúvida alguma, esse seria o titulo ideal.
Apontei para aquela cara ranhosa de criança e disse em voz alta como deveria ser um verdadeiro mergulho, ela me olhava com aquele olhar de admiração que somente as crianças são capazes e começou a gritar de euforia, parecia uma gargalhada deformada, mas não era, disseram que era, mas é tudo mentira, ela jamais riria do primo mais velho. Isso me irrita muito, todo esse bafafá que as pessoas fazem, estão sempre falando o que dá na cabeça e nunca pesam o quanto isso pode ferir os outros, são um bando de hipócritas essa é a verdade, sempre pregando o quanto você deve ser humilde e o quanto você deve praticar o bem, mas no fim das contas, estão sempre compartilhando imagens de suas conquistas ou alguma porcaria envolvendo estupro, mutilação ou qualquer outra besteira nojenta nas redes sociais. Desgraçados hipócritas!
Arregacei a bermuda para favorecer o ângulo do meu salto, dobrei os joelhos artisticamente enquanto pressionava as palmas uma contra a outra, numa espécie de posição de sapo monge ou um louva-deus de pernas grossas, depende do ponto de vista, acho que estava mais para o louva-deus do que para sapo - sei lá. - Acho um pouco complicado essa comparação entre sapo e louva-deus, embora o sapo seja um animal viscoso e nojento, ele ainda é bem superior ao louva-deus pelo fato de estar acima na cadeia alimentar, eu até diria que sou um sapo-deus monge de pernas grossas. É, esse seria o nome ideal para a posição pré-salto.
Então, na posição sapo-deus monge de pernas grossas, disse mais algumas palavras, apenas para deixar bem claro o quanto aquele salto mudaria toda a percepção de realidade daquela criança e o quanto ela deveria correr na direção dos pais e dizer o quanto o primo dela era embaçado, o rei - o rei, não - o magnata da piscina.
O engraçado é que tudo o que eu disse para minha prima até aquele momento antes do salto, aconteceu de verdade nos minutos que se seguiram, pois realmente abalou toda a minha percepção de realidade e a garota correu - como o vento - para chamar os meus pais. Às vezes eu me surpreendo com o meu poder de adivinhação, alguns diriam ser sorte ou coincidência, mas eu acho que não, deve ser algo maior, alguma espécie de habilidade não compreendida.
Pois é, eu pulei, mas não foi por falta de habilidade que atingi o meu crânio no fundo daquela piscina, na verdade, foi um instante absurdo de azar. Foi até interessante perceber o quanto - até mesmo os mais habilidosos - estão à mercê dos múltiplos fatores do ambiente, como o vento, as ondas sonoras dos pássaros e outras micro-variações incompreensíveis. Acontece que não foi minha culpa, alguma coisa fez com que a minhas pernas deslocassem trinta centímetros para frente e fizessem com que eu ficasse com o corpo perfeitamente reto, realizando um mergulho que só seria considerado seguro se fosse feito numa piscina de três metros de profundidade, que não foi o caso.
Minha cabeça projetava um curta-metragem de uma balada dentro de um trem desgovernado que colidia com uma tela de pintura vazia - não peguei ninguém - quando voltei ao mundo real, percebi que havia se passado pouco menos de dois segundos e eu ainda estava flutuando por entre as águas avermelhadas da piscina, me ergui com minhas próprias pernas e sai da água, suspirando como um guerreiro aquático ferido.
A menina apontava para a minha testa e gritava eufórica - não eram risos, eram gritos -, dizendo que eu estava sangrando e por isso já havia me tornado uma mocinha, eu não entendi muito bem a colocação dela, mas provavelmente era alguma gíria usada na escolinha.
Continua
- Lágrimas de Gasolina
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
Dor, Sofrimento e Outras Coisas Terrorosas
Deitou-se. Tentou erroneamente dormir.
Não conseguiu se quer fechar os olhos, ficou encarando o teto angular de seu quarto, esperando uma cantiga de ninar que desconhecia a letra. Esperou por mais alguns segundos e se levantou, olhou para o primeiro andar através das grades que rodeavam o mezanino, onde jazia sua cama, analisou a noite e as horas que ainda restavam, analisou o dia que ainda viria e caiu de costas na cama, deitando-se novamente.
Uma pontada de consciência ecoava por suas paredes mentais lhe dizendo que deveria dormir, que amanha seria sexta-feira e que somente na noite do dia de amanhã poderia passá-la em claro.
Uma pequena força se rebelou dentro de si e mais uma vez soltou um grito corporal de liberdade, se livrando do adiantamento do dia de amanhã. Todas as noites quando caminhava atrasadamente até a cama, se recusava a aceitar que estava à mercê do cansaço de seus membros, se recusava a acreditar na implacabilidade do tempo e de como nenhum ser vivente poderia escapar de suas garras.
Desceu os degraus o mais rápido que pôde, queria aproveitar cada momento, produzir a cada segundo e adiar o resto dos dias de sua vida. Pensou no que deveria escrever, nos trabalhos que o deixava insone. Abriu a tela do computador, esticou os dedos e os posicionou sobre as teclas clareadas pelas luzes do monitor, iniciaria o que seria o maior de todos os textos já escritos e historias contadas se não houvesse sido interrompido. Escreveu:
"Quando dos espinhos de uma pútrida flor deslizar uma gota de orvalho e esta atingir o fértil solo de"
Parou bruscamente quando ouviu o som emitido através dos corredores de sua casa e encarou a porta fechada, à espera de alguém que pudesse entrar sem emitir um ruído se quer. Até mesmo a porta de madeira maciça não apresentava empecilho para o som que escorria pelas frestas e adentravam o quarto, atingindo-lhe os tímpanos nus e trementes. Empurrou a cadeira para trás num gesto cuidadoso, sem emitir nenhum barulho, nem mesmo as rodinhas do assento que sempre insistiam em estalar se manifestaram, parecia que todo o quarto estava focado em tornar a percepção do estranho som ainda mais nítido. Pôs-se de pé e caminhou sobre uma espécie de campo minado imaginário, onde qualquer estalido pudesse desencadear a maior de todas as explosões e dilacerar os membros daquele que as provocara.
À medida que se aproximava, o som se tornava cada vez mais orgânico, mas somente quando colocou as mãos na maçaneta pudera ouvir todos os detalhes que passaram despercebidos por seus ouvidos. Eram como a espécie de um ruído causado por uma dilaceração realizada por um animal, onde repentinamente estalares de ossos brotavam, sobrepondo sons semelhantes àqueles causados por uma massa de carne sendo devorada por algum ser desdentado, um animal que fizesse questão de remoer o alimento triturado em sua boca escancarada.
Juntou as forças e os resquícios de coragem dos quais tanto fizera menção em seus contos, e girou a maçaneta, revelando um corredor abismático e de dimensões irreconhecíveis quando admiradas através da perspectiva de um observador cego. Esticou os dedos com a mesma precisão que usava para escrever e pressionou o interruptor na parede, preparando-se para atingir um alvo invisível e desconhecido. Porém no lugar de uma criatura desdentada e de dimensões monstruosas, encontrou uma névoa malcheirosa somada à atenuação dos sons que adentravam com ainda mais força e infligiam ainda mais dor aos seus ouvidos. Forçou-se a caminhar pelo corredor, tapando as narinas e desviando das sequenciais ondas de mau cheiro nauseante, que utilizavam de seu nariz como via de transporte para passageiros só de ida para seu cérebro e dominavam suas lembranças, fazendo-o lembrar das queimadas de esterco velho, que seu falecido avô realizava nas periferias de sua fazenda.
Como grande observador que era, notou as luzes que irradiavam através das frestas de uma porta trancada no final daquele corredor mal cheiroso. Caminhou como um peregrino que rasteja contra os ventos hostis e arenosos do deserto, empurrando cada som mal cheiroso e cada nevoa auditiva, lutava contra um inimigo invisível porém presente e como o fim de toda a sua demonstração de força para telespectadores onipresentes, debruçou-se sobre a porta e deixou que as luzes que escorriam pelas frestas dominassem as solas de seus pés desnudos. Como uma torcida composta por torcedores fanáticos, sua mente gritava frases encorajadoras, embora todos os seus sentidos estivessem entorpecidos, uma fagulha mental de coragem e ímpeto o fez com que girasse a maçaneta e adentrasse o desconhecido e o inefável. Uma onda de podridão em forma gasosa destruiu todos os pelos do seu nariz enquanto debruçava-se sobre a porta e admirava a vil criatura, mais conhecida como "Vovó", sentada sobre um trono formado por porcelana e restos humanos. Sua vista se tornou turva e o chão se tornou próximo, os ruídos cessaram por uma fração de segundo e apenas uma frase ecoou por seus ouvidos:
- "Amorzinho, pega o papel higiênico pra vovó, vai querido!”
- Lágrimas de Gasolina.
Não conseguiu se quer fechar os olhos, ficou encarando o teto angular de seu quarto, esperando uma cantiga de ninar que desconhecia a letra. Esperou por mais alguns segundos e se levantou, olhou para o primeiro andar através das grades que rodeavam o mezanino, onde jazia sua cama, analisou a noite e as horas que ainda restavam, analisou o dia que ainda viria e caiu de costas na cama, deitando-se novamente.
Uma pontada de consciência ecoava por suas paredes mentais lhe dizendo que deveria dormir, que amanha seria sexta-feira e que somente na noite do dia de amanhã poderia passá-la em claro.
Uma pequena força se rebelou dentro de si e mais uma vez soltou um grito corporal de liberdade, se livrando do adiantamento do dia de amanhã. Todas as noites quando caminhava atrasadamente até a cama, se recusava a aceitar que estava à mercê do cansaço de seus membros, se recusava a acreditar na implacabilidade do tempo e de como nenhum ser vivente poderia escapar de suas garras.
Desceu os degraus o mais rápido que pôde, queria aproveitar cada momento, produzir a cada segundo e adiar o resto dos dias de sua vida. Pensou no que deveria escrever, nos trabalhos que o deixava insone. Abriu a tela do computador, esticou os dedos e os posicionou sobre as teclas clareadas pelas luzes do monitor, iniciaria o que seria o maior de todos os textos já escritos e historias contadas se não houvesse sido interrompido. Escreveu:
"Quando dos espinhos de uma pútrida flor deslizar uma gota de orvalho e esta atingir o fértil solo de"
Parou bruscamente quando ouviu o som emitido através dos corredores de sua casa e encarou a porta fechada, à espera de alguém que pudesse entrar sem emitir um ruído se quer. Até mesmo a porta de madeira maciça não apresentava empecilho para o som que escorria pelas frestas e adentravam o quarto, atingindo-lhe os tímpanos nus e trementes. Empurrou a cadeira para trás num gesto cuidadoso, sem emitir nenhum barulho, nem mesmo as rodinhas do assento que sempre insistiam em estalar se manifestaram, parecia que todo o quarto estava focado em tornar a percepção do estranho som ainda mais nítido. Pôs-se de pé e caminhou sobre uma espécie de campo minado imaginário, onde qualquer estalido pudesse desencadear a maior de todas as explosões e dilacerar os membros daquele que as provocara.
À medida que se aproximava, o som se tornava cada vez mais orgânico, mas somente quando colocou as mãos na maçaneta pudera ouvir todos os detalhes que passaram despercebidos por seus ouvidos. Eram como a espécie de um ruído causado por uma dilaceração realizada por um animal, onde repentinamente estalares de ossos brotavam, sobrepondo sons semelhantes àqueles causados por uma massa de carne sendo devorada por algum ser desdentado, um animal que fizesse questão de remoer o alimento triturado em sua boca escancarada.
Juntou as forças e os resquícios de coragem dos quais tanto fizera menção em seus contos, e girou a maçaneta, revelando um corredor abismático e de dimensões irreconhecíveis quando admiradas através da perspectiva de um observador cego. Esticou os dedos com a mesma precisão que usava para escrever e pressionou o interruptor na parede, preparando-se para atingir um alvo invisível e desconhecido. Porém no lugar de uma criatura desdentada e de dimensões monstruosas, encontrou uma névoa malcheirosa somada à atenuação dos sons que adentravam com ainda mais força e infligiam ainda mais dor aos seus ouvidos. Forçou-se a caminhar pelo corredor, tapando as narinas e desviando das sequenciais ondas de mau cheiro nauseante, que utilizavam de seu nariz como via de transporte para passageiros só de ida para seu cérebro e dominavam suas lembranças, fazendo-o lembrar das queimadas de esterco velho, que seu falecido avô realizava nas periferias de sua fazenda.
Como grande observador que era, notou as luzes que irradiavam através das frestas de uma porta trancada no final daquele corredor mal cheiroso. Caminhou como um peregrino que rasteja contra os ventos hostis e arenosos do deserto, empurrando cada som mal cheiroso e cada nevoa auditiva, lutava contra um inimigo invisível porém presente e como o fim de toda a sua demonstração de força para telespectadores onipresentes, debruçou-se sobre a porta e deixou que as luzes que escorriam pelas frestas dominassem as solas de seus pés desnudos. Como uma torcida composta por torcedores fanáticos, sua mente gritava frases encorajadoras, embora todos os seus sentidos estivessem entorpecidos, uma fagulha mental de coragem e ímpeto o fez com que girasse a maçaneta e adentrasse o desconhecido e o inefável. Uma onda de podridão em forma gasosa destruiu todos os pelos do seu nariz enquanto debruçava-se sobre a porta e admirava a vil criatura, mais conhecida como "Vovó", sentada sobre um trono formado por porcelana e restos humanos. Sua vista se tornou turva e o chão se tornou próximo, os ruídos cessaram por uma fração de segundo e apenas uma frase ecoou por seus ouvidos:
- "Amorzinho, pega o papel higiênico pra vovó, vai querido!”
- Lágrimas de Gasolina.
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
Influência
Hoje eu tive um sonho.
Já fazia algum tempo que eu não sonhava com algo tão real.
Lembro-me de uma face cinzenta que dizia que os finais estavam por vir.
Começou com uma tarde na praia.
Estávamos todos sentados em cadeiras disformes e plásticas sobre as areias do litoral e conversávamos sobre algo que abrigava os confins do passado, riamos como uma família.
Como uma grande esfera índigo-carmim o sol escorria sobre as águas de um mar calmo e acolhedor, alguns pássaros voavam sobre ele, grasnando um som surdo enquanto pareciam fugir e alertar de algo que estava por vir.
Todos estavam envolvidos numa conversa que eu não conseguia mais entender, seus lábios se mexiam sem proferir qualquer ruído. Lembro-me dos muitos círculos de pessoas entretidas nas próprias conversas-surdas que nos rodeavam, mas que só pude notar naquele momento.
Podia ouvir o som das raras ondas quebradiças, do mar que se afastava sutilmente como uma criança que acabara de roubar uma guloseima e o som dos pássaros.
As águas se recolhiam cada vez mais, a cada instante de forma mais explícita, ninguém as notara além de mim. Logo um cume de águas salgadas tomava forma no horizonte, como se o próprio estivesse vivo e erguendo um de seus membros para se arrastar em direção à praia.
As pessoas continuavam falando comigo, demonstrando que de alguma forma eu ainda as estava respondendo e meus gritos de pavor não às atingiam de forma alguma.
- "Você se lembra daquele dia em que fomos à praia e sua mãe ficou gritando para você sair do fundo?”.
Apontei para o horizonte e para a coluna horizontal de água que crescia e tapava o sol, deixando apenas um fio de luz azulado estendido verticalmente, riscando os céus.
- "Olhe lá no fundo!" - disse, apontando e mexendo os braços.
- "É verdade, é sempre assim com a sua mãe." - respondeu a uma afirmação não feita e soltou uma risadinha.
Alguns longos períodos de tempo se passaram, momentos que somente os sonhos podem nos proporcionar, falo daquela falsa sensação de passagem de tempo onde ficamos estáticos e somos apenas vistos por nós mesmos como atores de uma peça de teatro.
A coluna de água correu por toda a extensão das areias, engoliu tudo e todos, ocupando o local onde banhistas conversavam com seus filhos e onde as mulheres tomavam banho de sol. Fui engolido pela violência das águas como todos aqueles daquela praia, porém fui o único a sofrer pelos malefícios da falta de oxigênio, percebi isto quando procurei pelas pessoas que estavam sentadas ao meu lado e notei que elas continuavam conversando entre si como se nenhuma delas houvesse se quer sentido a força que a onda usara para arremessá-las contra as paredes. Afoguei-me e a visão escureceu.
- "Você tem outra chance." - uma voz ecoou pela escuridão.
Sentei-me sobre o concreto de algum quiosque e uma silhueta engravatada repousou a mão sobre meu ombro. Dali podia-se ver os diversos círculos de pessoas, inclusive o meu e a mim, todos sentados e conversando. As pessoas estavam dispostas da mesma forma que se encontravam antes da onda as atingir. Ao longe, podia-se ver a coluna de mar tapando o sol pressagiando o que eu acabara de vivenciar.
- "Você pode tentar avisá-los novamente, mas deve ser de outra forma." - a voz era da figura bem vestida ao meu lado - "De forma que entendam".
Em seguida, o mar consumia todas as pessoas à minha frente. Fechei os olhos.
Estávamos todos sentados em cadeiras disformes e plásticas sobre as areias do litoral e conversávamos sobre algo que abrigava os confins do passado, riamos como uma família.
Como uma grande esfera índigo-carmim o sol escorria sobre as águas de um mar calmo e acolhedor, alguns pássaros voavam sobre ele, grasnando um som surdo enquanto pareciam fugir e alertar de algo que estava por vir.
- "Não estou me sentindo bem." - gemi.
- "Aconteceu alguma coisa?" - olhavam para mim com olhos de empatia.
- "Acho que vai acontecer algo muito ruim, só isso." - respondi - "Provavelmente acontecerá nos próximos minutos”.
Imediatamente todos se colocaram de pé e começaram a juntar suas coisas.
- "Poderíamos simplesmente ficar em algum quiosque no alto, até esta sensação passar." - continuei e todos acenaram em concordância.
Subimos no mais alto quiosque e observamos o horizonte, esperando pela previsão, mas não acontecera nada fora do normal, nenhuma onda maior que dois metros ou mortes desastrosas.
Senti uma ânsia inominável, uma frustração arrasadora conhecida apenas por aqueles que já tiveram suas maiores certezas refutadas. No fundo, a vaga chama do alívio.
Senti uma mão sobre meu ombro e uma voz ecoou pela escuridão.
- "Às vezes somos mais culpados do que imaginamos".
- "E hoje, mais do que algumas vidas foram salvas" – prosseguiu.
Acordei e estava na praia.
- Lágrimas de Gasolina
Já fazia algum tempo que eu não sonhava com algo tão real.
Lembro-me de uma face cinzenta que dizia que os finais estavam por vir.
Começou com uma tarde na praia.
Estávamos todos sentados em cadeiras disformes e plásticas sobre as areias do litoral e conversávamos sobre algo que abrigava os confins do passado, riamos como uma família.
Como uma grande esfera índigo-carmim o sol escorria sobre as águas de um mar calmo e acolhedor, alguns pássaros voavam sobre ele, grasnando um som surdo enquanto pareciam fugir e alertar de algo que estava por vir.
Todos estavam envolvidos numa conversa que eu não conseguia mais entender, seus lábios se mexiam sem proferir qualquer ruído. Lembro-me dos muitos círculos de pessoas entretidas nas próprias conversas-surdas que nos rodeavam, mas que só pude notar naquele momento.
Podia ouvir o som das raras ondas quebradiças, do mar que se afastava sutilmente como uma criança que acabara de roubar uma guloseima e o som dos pássaros.
As águas se recolhiam cada vez mais, a cada instante de forma mais explícita, ninguém as notara além de mim. Logo um cume de águas salgadas tomava forma no horizonte, como se o próprio estivesse vivo e erguendo um de seus membros para se arrastar em direção à praia.
As pessoas continuavam falando comigo, demonstrando que de alguma forma eu ainda as estava respondendo e meus gritos de pavor não às atingiam de forma alguma.
- "Você se lembra daquele dia em que fomos à praia e sua mãe ficou gritando para você sair do fundo?”.
Apontei para o horizonte e para a coluna horizontal de água que crescia e tapava o sol, deixando apenas um fio de luz azulado estendido verticalmente, riscando os céus.
- "Olhe lá no fundo!" - disse, apontando e mexendo os braços.
- "É verdade, é sempre assim com a sua mãe." - respondeu a uma afirmação não feita e soltou uma risadinha.
Alguns longos períodos de tempo se passaram, momentos que somente os sonhos podem nos proporcionar, falo daquela falsa sensação de passagem de tempo onde ficamos estáticos e somos apenas vistos por nós mesmos como atores de uma peça de teatro.
A coluna de água correu por toda a extensão das areias, engoliu tudo e todos, ocupando o local onde banhistas conversavam com seus filhos e onde as mulheres tomavam banho de sol. Fui engolido pela violência das águas como todos aqueles daquela praia, porém fui o único a sofrer pelos malefícios da falta de oxigênio, percebi isto quando procurei pelas pessoas que estavam sentadas ao meu lado e notei que elas continuavam conversando entre si como se nenhuma delas houvesse se quer sentido a força que a onda usara para arremessá-las contra as paredes. Afoguei-me e a visão escureceu.
- "Você tem outra chance." - uma voz ecoou pela escuridão.
Sentei-me sobre o concreto de algum quiosque e uma silhueta engravatada repousou a mão sobre meu ombro. Dali podia-se ver os diversos círculos de pessoas, inclusive o meu e a mim, todos sentados e conversando. As pessoas estavam dispostas da mesma forma que se encontravam antes da onda as atingir. Ao longe, podia-se ver a coluna de mar tapando o sol pressagiando o que eu acabara de vivenciar.
- "Você pode tentar avisá-los novamente, mas deve ser de outra forma." - a voz era da figura bem vestida ao meu lado - "De forma que entendam".
Em seguida, o mar consumia todas as pessoas à minha frente. Fechei os olhos.
Estávamos todos sentados em cadeiras disformes e plásticas sobre as areias do litoral e conversávamos sobre algo que abrigava os confins do passado, riamos como uma família.
Como uma grande esfera índigo-carmim o sol escorria sobre as águas de um mar calmo e acolhedor, alguns pássaros voavam sobre ele, grasnando um som surdo enquanto pareciam fugir e alertar de algo que estava por vir.
- "Não estou me sentindo bem." - gemi.
- "Aconteceu alguma coisa?" - olhavam para mim com olhos de empatia.
- "Acho que vai acontecer algo muito ruim, só isso." - respondi - "Provavelmente acontecerá nos próximos minutos”.
Imediatamente todos se colocaram de pé e começaram a juntar suas coisas.
- "Poderíamos simplesmente ficar em algum quiosque no alto, até esta sensação passar." - continuei e todos acenaram em concordância.
Subimos no mais alto quiosque e observamos o horizonte, esperando pela previsão, mas não acontecera nada fora do normal, nenhuma onda maior que dois metros ou mortes desastrosas.
Senti uma ânsia inominável, uma frustração arrasadora conhecida apenas por aqueles que já tiveram suas maiores certezas refutadas. No fundo, a vaga chama do alívio.
Senti uma mão sobre meu ombro e uma voz ecoou pela escuridão.
- "Às vezes somos mais culpados do que imaginamos".
- "E hoje, mais do que algumas vidas foram salvas" – prosseguiu.
Acordei e estava na praia.
- Lágrimas de Gasolina
terça-feira, 22 de setembro de 2015
Monólogo
Você já teve a sensação de não fazer parte de algo?
Sentar na cadeira do ônibus, olhar à sua volta e não encontrar nada?
Não encontrar uma aspiração de crescimento, não encontrar alguém que você possa simplesmente conversar sobre o futuro?
Em todo lugar há pessoas implorando por ajuda, mas que nada fazem para merecê-la, já viu alguma delas?
Pessoas que preferem continuar sentadas na mesma cadeira de secretária que se sentaram desde a época do ensino médio; conhece? Sim, as mesmas que perguntam o que fazer, mas não como e muito menos por que fazer o que se faz.
Já parou para notar quantas pessoas estagnaram conscientemente no patamar em que se encontram?
O que você aprendeu no dia de hoje? Você utilizou o que aprendeu? Pelos menos ensinou alguém? Passou adiante?
Pelo amor que você tem pela praticidade que este aparato eletrônico na sua frente te proporciona, pelo amor que você tem pelo conforto da sua cama, pelo amor que você tem à toda projeção intelectual existente, me diga que você está ai! Em algum lugar. Por favor.
- "Mais um dia se passou e foi mais um dia em que não utilizei a Fórmula de Bhaskara!" - E caem na risada.
Eu simplesmente não compreendo. Não compreendo o fato de não desejarem algo mais.
Sempre vomitam o mesmo tipo de desculpa e, peço perdão aos que se desculpam com honestidade por eu generalizar todos vocês, mas não me aguento mais.
As pessoas estacionaram, amoleceram e esqueceram que o mundo é dos grandes e não dos pequenos estagnados.
Imploram e oram aos céus para que em algum dia abençoado ganhem alguma bolada em dinheiro.
Imploram e oram aos céus para que um aumento apareça no holerite do inicio do próximo mês.
Imploram e oram aos céus para que em algum dia abençoado a sorte grande bata a porta e diga:
- "Ei, camarada! Seu grande dia chegou! Isso mesmo, a partir de hoje você poderá fazer o que sempre sonhou e deixar de lado todo esse esforço que você faz apenas para garantir o teu básico. Agora sente-se ai, vamos iniciar seu grande sonho, a partir de hoje você não precisará fazer mais nada!"
Os corruptos, os ignorantes, o compassivos, os estacionários, os apáticos, os desonestos, os oportunistas, os oprimidos.
- "Ei, você ai no fundo, que acabou de se levantar. Sim! Você mesmo! Gostaria de dizer algo? Não? Ah, você só estava indo ao banheiro. Tudo bem, me desculpe. Achei que ia dizer algo... Não? Tudo bem. Não sabe se vai voltar? Mas acabamos de começar. Ah, tudo bem. Não tem problema."
Alguém me diga que estou errado, que não são todos assim.
- "Oi, você! É, você! Gostaria de dizer algo? Ah, você só quer um carregador para o seu celular? Ah, tudo bem." - Não está nada bem.
Por favor, alguém me diga que estou errado!
- "Posso ir ao banheiro?"
- Lágrimas de Gasolina
Sentar na cadeira do ônibus, olhar à sua volta e não encontrar nada?
Não encontrar uma aspiração de crescimento, não encontrar alguém que você possa simplesmente conversar sobre o futuro?
Em todo lugar há pessoas implorando por ajuda, mas que nada fazem para merecê-la, já viu alguma delas?
Pessoas que preferem continuar sentadas na mesma cadeira de secretária que se sentaram desde a época do ensino médio; conhece? Sim, as mesmas que perguntam o que fazer, mas não como e muito menos por que fazer o que se faz.
Já parou para notar quantas pessoas estagnaram conscientemente no patamar em que se encontram?
O que você aprendeu no dia de hoje? Você utilizou o que aprendeu? Pelos menos ensinou alguém? Passou adiante?
Pelo amor que você tem pela praticidade que este aparato eletrônico na sua frente te proporciona, pelo amor que você tem pelo conforto da sua cama, pelo amor que você tem à toda projeção intelectual existente, me diga que você está ai! Em algum lugar. Por favor.
- "Mais um dia se passou e foi mais um dia em que não utilizei a Fórmula de Bhaskara!" - E caem na risada.
Eu simplesmente não compreendo. Não compreendo o fato de não desejarem algo mais.
Sempre vomitam o mesmo tipo de desculpa e, peço perdão aos que se desculpam com honestidade por eu generalizar todos vocês, mas não me aguento mais.
As pessoas estacionaram, amoleceram e esqueceram que o mundo é dos grandes e não dos pequenos estagnados.
Imploram e oram aos céus para que em algum dia abençoado ganhem alguma bolada em dinheiro.
Imploram e oram aos céus para que um aumento apareça no holerite do inicio do próximo mês.
Imploram e oram aos céus para que em algum dia abençoado a sorte grande bata a porta e diga:
- "Ei, camarada! Seu grande dia chegou! Isso mesmo, a partir de hoje você poderá fazer o que sempre sonhou e deixar de lado todo esse esforço que você faz apenas para garantir o teu básico. Agora sente-se ai, vamos iniciar seu grande sonho, a partir de hoje você não precisará fazer mais nada!"
Os corruptos, os ignorantes, o compassivos, os estacionários, os apáticos, os desonestos, os oportunistas, os oprimidos.
- "Ei, você ai no fundo, que acabou de se levantar. Sim! Você mesmo! Gostaria de dizer algo? Não? Ah, você só estava indo ao banheiro. Tudo bem, me desculpe. Achei que ia dizer algo... Não? Tudo bem. Não sabe se vai voltar? Mas acabamos de começar. Ah, tudo bem. Não tem problema."
Alguém me diga que estou errado, que não são todos assim.
- "Oi, você! É, você! Gostaria de dizer algo? Ah, você só quer um carregador para o seu celular? Ah, tudo bem." - Não está nada bem.
Por favor, alguém me diga que estou errado!
- "Posso ir ao banheiro?"
- Lágrimas de Gasolina
sexta-feira, 18 de setembro de 2015
A Falsa Aceitação
O que é pior, fazer o errado de forma consciente ou ter a ilusão de que o que se está fazendo é o correto? A negligência ou a ignorância?
Provavelmente, diríamos que a negligência é a pior das duas, pois o praticante carrega consigo a consciência e a desonra assumida pela atitude tomada e, justamente por ter esta consciência, ele deve ser duplamente punido. O indivíduo é assumidamente errado.
Porém eu lhes afirmo, sem sombras de dúvidas, que o pior é aquele que erra sem saber da natureza do erro, que afirma sem fundamento, que atira antes de perguntar, uma variante do chamado 'Idiota com Iniciativa', o ignorante; pois funciona como uma doença altamente contagiosa e quase impossível de ser destruída quando se encontra no seu ultimo estágio: A falsa aceitação.
A falsa aceitação é tão perigosa socialmente quanto uma bomba atômica a é para a humanidade, devido aos falsos valores que o indivíduo assume quando se depara com um grupo que pensa exatamente como ele; um grupo que não questiona, que não discute outros ideais e onde as outras linhas de pensamento não são bem-vindas.
O problema começa quando os próprios meios de comunicação ou até mesmo as pessoas passam a desarmar os meios de discussão.
Se todas as armas, como a denúncia, a expressão e a liberdade; forem censuradas, como poderemos dar voz às outras linhas de pensamento?
Será que a maioria é mesmo composta por aqueles que carregam a razão? E se não podemos dar voz àqueles que pensam de forma diferente, será que não estamos monopolizando as ideias e nos privando de possíveis verdades não ouvidas?
E afinal, se não posso ouvir ninguém gritando o quanto eu estou errado, provavelmente eu esteja certo, não é mesmo?
Não, às vezes as pessoas não gritam porque elas simplesmente não podem.
- Lágrimas de Gasolina
Provavelmente, diríamos que a negligência é a pior das duas, pois o praticante carrega consigo a consciência e a desonra assumida pela atitude tomada e, justamente por ter esta consciência, ele deve ser duplamente punido. O indivíduo é assumidamente errado.
Porém eu lhes afirmo, sem sombras de dúvidas, que o pior é aquele que erra sem saber da natureza do erro, que afirma sem fundamento, que atira antes de perguntar, uma variante do chamado 'Idiota com Iniciativa', o ignorante; pois funciona como uma doença altamente contagiosa e quase impossível de ser destruída quando se encontra no seu ultimo estágio: A falsa aceitação.
A falsa aceitação é tão perigosa socialmente quanto uma bomba atômica a é para a humanidade, devido aos falsos valores que o indivíduo assume quando se depara com um grupo que pensa exatamente como ele; um grupo que não questiona, que não discute outros ideais e onde as outras linhas de pensamento não são bem-vindas.
O problema começa quando os próprios meios de comunicação ou até mesmo as pessoas passam a desarmar os meios de discussão.
Se todas as armas, como a denúncia, a expressão e a liberdade; forem censuradas, como poderemos dar voz às outras linhas de pensamento?
Será que a maioria é mesmo composta por aqueles que carregam a razão? E se não podemos dar voz àqueles que pensam de forma diferente, será que não estamos monopolizando as ideias e nos privando de possíveis verdades não ouvidas?
E afinal, se não posso ouvir ninguém gritando o quanto eu estou errado, provavelmente eu esteja certo, não é mesmo?
Não, às vezes as pessoas não gritam porque elas simplesmente não podem.
- Lágrimas de Gasolina
quinta-feira, 17 de setembro de 2015
O Pedido da Morte #1 - Novos Amigos
I.
Foi durante a noite. A hora exata, o dia exato ou até mesmo o mês exato eu não posso afirmar, pelo simples fato de não lembrar-me.
Uma tempestade forte ameaçava quebrar os vidros das antigas janelas de madeira, que rangiam e debatiam-se em movimentos insanos e desconexos. Os gritos ecoavam pela casa velha, atravessando portas e corredores. Em alguns momentos, eram mais altos que os trovões que retumbavam do lado de fora.
Não consigo lembrar-me de quadros ou móveis para descrever e enriquecer a história, estes detalhes eram muito superficiais na época, e por isso nunca tiveram lugar em minha jovem memória. Mas eu me lembro de uma cor: vermelho.
Vermelho sangue.
Esperava sentado na sala, em algum sofá, poltrona ou cadeira que não sei ao certo definir. Agarrava a manta que me cobria com um anseio paternal, tremendo de medo, frio e angústia. Mais trovões. Mais gritos. As luzes piscavam em um brilho fraco, imitando o lusco-fusco.
Um forte trovão. A janela estourou, arremessando cacos de vidro por toda a sala. Eu gritei, minha mãe gritou. E depois o vendaval cortou o cômodo, silenciando todo o resto.
Foi a última vez que ouvi a sua voz.
Depois de alguns segundos, um choro fraco ecoou. Um choro de bebê.
Uma senhora robusta, com os ombros largos, braços fortes e um pescoço ausente atravessou o corredor em minha direção. Seus passos pareciam marteladas no frágil piso de madeira. Em seus grandes braços, um pequeno manto sujo, manchado de vermelho sangue, emitia um grunhido inocente.
A mulher depositou o pequeno pacote em meus braços, rugiu alguma palavra incompreensível e me deu as costas. Com um forte empurrão, arremeteu contra a porta de entrada, e partiu.
Deixando-a escancarada, fiquei sentado em algum móvel indefinido, observando a tempestade devastadora do lado de fora. Em meus braços, meu pequeno irmão reclamava de alguma coisa.
E assim, naquele momento confuso e caótico, enquanto o corpo de minha mãe esfriava em seu quarto, uma grande borboleta negra atravessou o batente da porta aberta. Movimentando-se em semicircunferências, pousou em meu joelho. Depois, com um aceno de antenas, como se cumprimentassem um velho amigo, ela decolou e dirigiu-se para o quarto de minha mãe.
Foi a primeira vez que vi a Morte.
Continua
- Dedos Azuis
Os Passos da Bailarina
Seus dedos bailavam como se tocassem instrumentos imaginários, e talvez realmente o fizesse, pés flutuando, olhos cerrados. Decerto visitava um de seus mundos particulares. Caso pudesse defini-la em uma característica principal - permita-me ou não, o farei -, diria que é cárcere da própria ilusão. Flores nascem em seu peito num único gesto doce, que é sua morte também. A moça baila num romance e sobrevive nele, ainda que esteja fadado ao fracasso, ainda que ela seja o borrão de tinta que pinta o final. Seria, talvez, causadora do próprio mal, a destruidora de seu mundo, e de outros também. Quem a via tornava-se cárcere da doçura que transitava livremente no assoalho de madeira. Sequer imagina que há tantos observadores da cena se julgando oniscientes, tão transparente se parece. Ou talvez saiba e ri de cada espectador assim que a cortina se fecha. A bailarina se parece com o personagem de um livro que ainda não foi escrito, é certo que não recordo de nenhum capaz de se encaixar em passos milimetricamente ensaiados para parecerem naturais. Dança como se fosse uma dessas pessoas que precisam do amor para sobreviver. Na falta de um, o inventa. Como se dispusesse das palavras além do papel.
De tanto imaginar, escreve em passos de dança. De tanto escrever, se guia pelas palavras que lhe invadiam o âmago, então acreditava. De tanto acreditar, vivia - ainda que dentro de si -, e assim por diante. A verdade é que cada etapa era um passo para o abismo. Foram tantos os abismos que o último passo era dado com os braços abertos.
- "Algum dia" – pensava – "algum dia voarei" – e mergulhava na escuridão.
A plateia aplaude em júbilo.
De tanto imaginar, escreve em passos de dança. De tanto escrever, se guia pelas palavras que lhe invadiam o âmago, então acreditava. De tanto acreditar, vivia - ainda que dentro de si -, e assim por diante. A verdade é que cada etapa era um passo para o abismo. Foram tantos os abismos que o último passo era dado com os braços abertos.
- "Algum dia" – pensava – "algum dia voarei" – e mergulhava na escuridão.
A plateia aplaude em júbilo.
- Maia
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
Sem Título
Depois do silêncio fica o eco das palavras perdidas.
Ali, quando tudo o que não foi dito finalmente pede passagem, bem ali há o ponto que impede a continuação. No exato local em que é possível sentir a mão invisível que te prende. Onde o arfar não é mais ouvido e o esfregar de mãos vazias é inevitável. Há uma silhueta que não sai da vista e lágrimas nos olhos. Tanta vida não vivida em plenitude.
Note, as pessoas na rua sempre tem algo a esconder. Seus crimes hediondos foram passionais e juvenis, das cartas rasgadas às chamadas não atendidas. Piores são aquelas que sequer fizeram a ligação. Não é problematização suficiente que explique todas as fugas, a maioria sequer recorda o motivo, apenas sabem que um elo foi quebrado e não há mais conserto.
Eu vejo pessoas partidas sendo inteiras com tudo que tem, e é bonito como um soldado ferido que continua a lutar. Eu me vejo moída no escuro do quarto e completa no espelho. Há um silêncio que me permite sentir em plenitude que nada jamais será total, o recuso como quem finge que jamais teve sequer uma noite insone por pensar demais. Mantenho-me na multidão para ter certeza de que todos vivem bem entre bandagens e cicatrizes, parece altruísmo, mas é egoísmo barato, não quero ser só no ato de ser só.
Sinto que sou inteiramente metade ou menos do que isso. Minha contradição me mantém sã, uma desculpa para ser o que me resta, seja lá o que for. Ainda não sou capaz de me ver por completo. Que assim seja por mil anos, me compreender seria desistir. Que seja assim até amanhã, esperança é bonita, mas dói tanto quanto a tristeza que a acompanha.
Não espere o tempo acabar para mudar uma vida.
Ali, quando tudo o que não foi dito finalmente pede passagem, bem ali há o ponto que impede a continuação. No exato local em que é possível sentir a mão invisível que te prende. Onde o arfar não é mais ouvido e o esfregar de mãos vazias é inevitável. Há uma silhueta que não sai da vista e lágrimas nos olhos. Tanta vida não vivida em plenitude.
Note, as pessoas na rua sempre tem algo a esconder. Seus crimes hediondos foram passionais e juvenis, das cartas rasgadas às chamadas não atendidas. Piores são aquelas que sequer fizeram a ligação. Não é problematização suficiente que explique todas as fugas, a maioria sequer recorda o motivo, apenas sabem que um elo foi quebrado e não há mais conserto.
Eu vejo pessoas partidas sendo inteiras com tudo que tem, e é bonito como um soldado ferido que continua a lutar. Eu me vejo moída no escuro do quarto e completa no espelho. Há um silêncio que me permite sentir em plenitude que nada jamais será total, o recuso como quem finge que jamais teve sequer uma noite insone por pensar demais. Mantenho-me na multidão para ter certeza de que todos vivem bem entre bandagens e cicatrizes, parece altruísmo, mas é egoísmo barato, não quero ser só no ato de ser só.
Sinto que sou inteiramente metade ou menos do que isso. Minha contradição me mantém sã, uma desculpa para ser o que me resta, seja lá o que for. Ainda não sou capaz de me ver por completo. Que assim seja por mil anos, me compreender seria desistir. Que seja assim até amanhã, esperança é bonita, mas dói tanto quanto a tristeza que a acompanha.
Não espere o tempo acabar para mudar uma vida.
- Maia
terça-feira, 15 de setembro de 2015
Voltas do Mundo
Se minha biografia amorosa fosse escrita, o autor seria
Hitchcock.
Frio e entediado.
Viciado em ironia, quase como um remédio diário usado
para combater a frustração.
Amores, aqueles, que vêm e duram até a eternidade, eterno
por uma semana ou dois anos.
A minha certeza
de ter o controle sobre tudo era quase arrogante.
Uma tentativa de independência.
Mas não existem razões para coisas feitas pelo coração.
É Renato... Seu subversivo, seu maluco "seu"
sábio.
Aquela troca de olhares, o convite para o café .
Aqueles olhos azuis, aqueles olhos...
Um beijo e de novo me vi naquela situação que pensei ser
eterna.
Pasmem! Eu não estava no controle.
Uma marionete seduzida por aqueles olhos azuis, uma
feição angelical com um gênio demoníaco.
Meses se passaram,
promessas que nunca havia feito e atitudes que nunca havia tomado.
Sacrifiquei meu orgulho, paguei meus pecados, fui
substituído.
Falava sozinho, arquitetava conversas de reencontro,
imaginava nossa viagem de lua de mel.
Mesmo sabendo que nunca mais seria minha, qualquer
assunto uma esperança me arrancava gestos humilhantes.
Era sádico, era gostoso.
Meus conflitos ou meus demônios?
Talvez apenas meu ser...
Aquele desejo de suicídio após cada frustração.
Estava sendo castigado?
Por sorte ou azar o meu inverno chegou.
Agora é pra valer.
Frio e entediado.
Viciado em ironia, quase como um remédio diário usado
para combater a frustração.
[...]
Aqueles olhos castanhos, aqueles olhos...
segunda-feira, 14 de setembro de 2015
Fui Joio e Voltei Trigo
O que eu sentia naquele banco, nem com mil palavras eu poderia descrever, algo me apertava a alma e me dizia que levantasse. Meu coração acelerou-se como se eu estivesse à beira de um ataque, minhas pernas estavam bambas e tremiam feito duas finas varas de bambu sozinhas ao vento, minha cabeça, aérea, parecia estar no topo daquele prédio. Eu apenas implorava para que não fosse a minha hora.
Já cansado de todo meu esforço espiritual, tentando resistir à vontade de ir até lá, deixei-me às vontades das sensações que me tomavam. Minhas pernas então, contra qualquer instinto que eu já tivera, enrijeceram-se e começaram a caminhar. Era como se um fantasma me dominasse o corpo e me fizesse apenas caminhar, me sentia uma marionete à mercê dos fios que lhe guia.
Quando me deparei com a água da pia batismal, declarei que não era minha hora, rejeitei ao Senhor e Sua bênção. Pedi a Deus que esperasse o meu tempo, pedi que me poupasse da salvação, mesmo que por enquanto.
No momento em que meu corpo entrava na água gelada pelo frio de agosto, declarei a Deus que naquele momento, Ele me matava. Declarei a Deus que se me lavasse de todos os meus pecados, perderia de vez a minha alma. Disse a Ele que no instante em que eu pisasse fora da igreja, me entregaria a todos os tipos de vícios, me deleitaria nos braços de todas as mulheres e também nos braços de homens, jogaria a mim mesmo na sarjeta, declararia repúdio ao Seu nome. Blasfemaria e exaltaria Satã.
Depois que levantei das águas, nada do que prometi a Deus fazer me foi possível, no instante em que pisei no degrau da pia batismal, ouvi uma voz forte e grave:
- "Você conhece o seu tempo?"
No momento em que sai, renascido e puro, de dentro daquela pia, nada me foi possível fazer. Apenas ouvi a música que se cantava dentro daquela igreja de teto branco abobadado, durou meia hora, do meu tropeço ao encontro do chão, ainda assim não foi possível nem mesmo um pensamento que me desviasse dos propósitos do divino.
Nas águas entrei joio, delas saí trigo, limpo e maduro, então, por Deus fui colhido.
- Wendy Cho
Já cansado de todo meu esforço espiritual, tentando resistir à vontade de ir até lá, deixei-me às vontades das sensações que me tomavam. Minhas pernas então, contra qualquer instinto que eu já tivera, enrijeceram-se e começaram a caminhar. Era como se um fantasma me dominasse o corpo e me fizesse apenas caminhar, me sentia uma marionete à mercê dos fios que lhe guia.
Quando me deparei com a água da pia batismal, declarei que não era minha hora, rejeitei ao Senhor e Sua bênção. Pedi a Deus que esperasse o meu tempo, pedi que me poupasse da salvação, mesmo que por enquanto.
No momento em que meu corpo entrava na água gelada pelo frio de agosto, declarei a Deus que naquele momento, Ele me matava. Declarei a Deus que se me lavasse de todos os meus pecados, perderia de vez a minha alma. Disse a Ele que no instante em que eu pisasse fora da igreja, me entregaria a todos os tipos de vícios, me deleitaria nos braços de todas as mulheres e também nos braços de homens, jogaria a mim mesmo na sarjeta, declararia repúdio ao Seu nome. Blasfemaria e exaltaria Satã.
Depois que levantei das águas, nada do que prometi a Deus fazer me foi possível, no instante em que pisei no degrau da pia batismal, ouvi uma voz forte e grave:
- "Você conhece o seu tempo?"
No momento em que sai, renascido e puro, de dentro daquela pia, nada me foi possível fazer. Apenas ouvi a música que se cantava dentro daquela igreja de teto branco abobadado, durou meia hora, do meu tropeço ao encontro do chão, ainda assim não foi possível nem mesmo um pensamento que me desviasse dos propósitos do divino.
Nas águas entrei joio, delas saí trigo, limpo e maduro, então, por Deus fui colhido.
- Wendy Cho
O Ônibus 3.85 #10 - 45 53 43 4f 4e 44 45 52
"Não procures esconder nada; o tempo vê, escuta e revela tudo." - Sófocles
As chamas das velas oscilavam uniformemente fazendo com que as sombras da mobília e daqueles dois corpos sentados sobre o sofá se alongassem e escalassem as paredes. A maior parte do cômodo estava devorada pela escuridão que a cada minuto consumia mais alguns de seus centímetros, transformando a aconchegante aparência dos móveis rústicos em assombrosas peças de mostruário de alguma loja de velharias.
A figura de vestido azul sentada desleixadamente sobre as gastas almofadas direcionava seus olhos na direção do televisor desligado enquanto exprimia uma fisionomia consagrada pela mais profunda estranheza. Balançando involuntariamente os antebraços e direcionando as palmas entreabertas para cima à medida que escorregava a cabeça para trás, esperou alguns poucos segundos e fechou os olhos.
No momento em que suas pálpebras se encostaram, o garoto ao seu lado pôde ver o movimento epilético realizado por seus olhos, que desenhavam pequenas esferas confusas de pele. Suas sobrancelhas e nariz projetavam a natureza dos pensamentos que invadiam a sua mente: o abismático terror sentido por aqueles que viram o inconcebível.
O garoto esticou as pequenas mãos e colocou-as sobre a palma esquerda da mãe que convulsionava violentamente, arpejando uma musica amedrontadora ouvida apenas por ela, esticou o torso para se aproximar do rosto dela enquanto exprimia o desespero de uma criança que não compreende o que está acontecendo. Nunca a vira protagonizando nenhuma ação desmedida ou incontrolável como aquela, exceto pelos flagelos e os súbitos acessos de raiva que jamais pôde compreender.
Virou o rosto na direção do dele, ainda tremendo e de olhos fechados, os ombros balançando involuntariamente como os rodeiros de uma locomotiva desajustada e desferiu um ruído quase inaudível e inesperado:
- "Horas" - o garoto a olhava sem entender - "Que horas" - soltou a mão da mãe e correu na direção da mesa de canto, onde descansava o velho relógio de pêndulo, o apanhou rapidamente e o levou ao sofá. Sentou-se e esticou as mãos trementes, segurando o relógio em frente à face da mulher.
- "Que horas" - insistiu, sem abrir os olhos.
Trouxe o objeto para si e encarou os ponteiros por alguns instantes, tentando reconhecer os números e dizer as horas que nunca aprendera. Lembrou-se que os ponteiros formavam uma linha vertical sempre que fosse hora de jantar e que o ponteiro menor sempre andava um número quando o maior realizava a volta completa, disse:
- "São duas voltas" - olhou para a mãe que aguardava em silêncio, de lábios entreabertos e cabeça encostada no sofá. Não estava tremendo, mas seus olhos fechados continuavam a dançar - "Não" - voltou os olhinhos para o objeto e corrigiu - "Duas voltas e meia, depois do jantar".
A mulher soltou um longo suspiro, seus olhos não bailavam sob as pálpebras.
- "Oito e meia" - rosnou, desencostando violentamente o pescoço do sofá, apoiou as mãos sobre as almofadas e empurrou o corpo para se levantar, criando um rastro formado pelos seus cabelos castanhos que antes pendiam pacificamente por trás do móvel. Olhou para aquele garoto assustado que se agarrava ao macio tecido que envolvia a almofada e a pressionava contra o peito.
- "Ela vai me bater de novo!" - pensou enquanto seguia com os olhos a figura azulada cruzar a sala.
Dirigiu o olhar para o lado sem compreender por que sua mãe caminhava até a cozinha sendo que o cinto de seu falecido pai jazia ao seu lado, sobre o sofá. O cinto sempre fora a ferramenta preferida usada pela matriarca, então descartou a possibilidade de espancamento.
Ouviu o som das gavetas de talheres serem rapidamente manejadas e o tilintar dos objetos que descansavam lá dentro, os ruídos soaram mais algumas vezes até o momento em que múltiplos baques surdos atravessaram a cozinha e a sala, as gavetas estavam sendo fechadas sequencialmente e constatou que a meta da mulher fora alcançada.
A sala estava majoritariamente consumida pela escuridão, não era possível constatar o que havia nos cantos mais distantes, somente uma das velas estava acesa, travando uma batalha imaginária contra o breu absoluto, uma luta entre luz e trevas em que a claridade se perdia perante a implacável oposição. O silêncio que dominava a casa não era natural, uma ausência total de qualquer ruído, como uma planície desolada por onde nem mesmo o vento ou qualquer forma de vida ousa passar.
Esperou estaticamente por alguns segundos, fitando a porta da cozinha com os pequenos olhinhos repousados sobre a almofada, remexendo-os e demonstrando intensa curiosidade. Um calafrio atingiu-lhe as costas quando viu a escuridão por trás da porta entreaberta da cozinha tomar forma, um abismo humanoide e de vestido azul tornava-se cada vez mais nítido perante seus olhos, tentou reconhecer seu rosto, mas não pôde analisá-los sem ser frustrado pelo reflexo que atraia seus olhos. Um objeto metálico e brilhoso agarrado pela mão esquerda da mãe projetava a luz da vela na direção de seu rosto, em poucos segundos de analise soube que se tratava de uma faca.
Um ímpeto furioso tomou conta dos membros da mulher, transformando-a em um vulto azul cinzento que escorria violentamente na direção do sofá em que Igor jazia tapando os olhos com a almofada e rastejando para a outra extremidade do móvel. Saltou sobre o filho e ergueu ambas as mãos que seguravam a faca com firmeza, a apontou para seu peito e desceu os membros para apunhalá-lo pela primeira vez. Repentinamente, um breu consolidou-se por toda a extensão do aposento, a vela apagou e toda a escuridão consumiu a sala, deixando apenas uma leve e inútil brasa sobre o móvel e o som de algo que violava o espaço físico de algum objeto macio e sem vida.
Em êxtase e rodeada pela escuridão, desferia golpes cada vez mais violentos, soltava curtos gritos e gemidos enquanto ignorava todo o vestígio de realidade à sua volta. Não pôde notar que sua vitima tratava-se de uma almofada e nem que a porta da sala estava sutilmente entreaberta, denunciando um fugitivo.
Ela só cessou o esfaqueamento e retomou consciência da realidade quando os primeiros raios de luz, provindos do estranho evento não anunciado na televisão, cruzaram os céus daquela madrugada e iluminaram o amontoado de algodão e panos que se acumulavam nos pisos da sala.
Igor nunca mais foi visto.
Continua
Anterior
- Lágrimas de Gasolina
As chamas das velas oscilavam uniformemente fazendo com que as sombras da mobília e daqueles dois corpos sentados sobre o sofá se alongassem e escalassem as paredes. A maior parte do cômodo estava devorada pela escuridão que a cada minuto consumia mais alguns de seus centímetros, transformando a aconchegante aparência dos móveis rústicos em assombrosas peças de mostruário de alguma loja de velharias.
A figura de vestido azul sentada desleixadamente sobre as gastas almofadas direcionava seus olhos na direção do televisor desligado enquanto exprimia uma fisionomia consagrada pela mais profunda estranheza. Balançando involuntariamente os antebraços e direcionando as palmas entreabertas para cima à medida que escorregava a cabeça para trás, esperou alguns poucos segundos e fechou os olhos.
No momento em que suas pálpebras se encostaram, o garoto ao seu lado pôde ver o movimento epilético realizado por seus olhos, que desenhavam pequenas esferas confusas de pele. Suas sobrancelhas e nariz projetavam a natureza dos pensamentos que invadiam a sua mente: o abismático terror sentido por aqueles que viram o inconcebível.
O garoto esticou as pequenas mãos e colocou-as sobre a palma esquerda da mãe que convulsionava violentamente, arpejando uma musica amedrontadora ouvida apenas por ela, esticou o torso para se aproximar do rosto dela enquanto exprimia o desespero de uma criança que não compreende o que está acontecendo. Nunca a vira protagonizando nenhuma ação desmedida ou incontrolável como aquela, exceto pelos flagelos e os súbitos acessos de raiva que jamais pôde compreender.
Virou o rosto na direção do dele, ainda tremendo e de olhos fechados, os ombros balançando involuntariamente como os rodeiros de uma locomotiva desajustada e desferiu um ruído quase inaudível e inesperado:
- "Horas" - o garoto a olhava sem entender - "Que horas" - soltou a mão da mãe e correu na direção da mesa de canto, onde descansava o velho relógio de pêndulo, o apanhou rapidamente e o levou ao sofá. Sentou-se e esticou as mãos trementes, segurando o relógio em frente à face da mulher.
- "Que horas" - insistiu, sem abrir os olhos.
Trouxe o objeto para si e encarou os ponteiros por alguns instantes, tentando reconhecer os números e dizer as horas que nunca aprendera. Lembrou-se que os ponteiros formavam uma linha vertical sempre que fosse hora de jantar e que o ponteiro menor sempre andava um número quando o maior realizava a volta completa, disse:
- "São duas voltas" - olhou para a mãe que aguardava em silêncio, de lábios entreabertos e cabeça encostada no sofá. Não estava tremendo, mas seus olhos fechados continuavam a dançar - "Não" - voltou os olhinhos para o objeto e corrigiu - "Duas voltas e meia, depois do jantar".
A mulher soltou um longo suspiro, seus olhos não bailavam sob as pálpebras.
- "Oito e meia" - rosnou, desencostando violentamente o pescoço do sofá, apoiou as mãos sobre as almofadas e empurrou o corpo para se levantar, criando um rastro formado pelos seus cabelos castanhos que antes pendiam pacificamente por trás do móvel. Olhou para aquele garoto assustado que se agarrava ao macio tecido que envolvia a almofada e a pressionava contra o peito.
- "Ela vai me bater de novo!" - pensou enquanto seguia com os olhos a figura azulada cruzar a sala.
Dirigiu o olhar para o lado sem compreender por que sua mãe caminhava até a cozinha sendo que o cinto de seu falecido pai jazia ao seu lado, sobre o sofá. O cinto sempre fora a ferramenta preferida usada pela matriarca, então descartou a possibilidade de espancamento.
Ouviu o som das gavetas de talheres serem rapidamente manejadas e o tilintar dos objetos que descansavam lá dentro, os ruídos soaram mais algumas vezes até o momento em que múltiplos baques surdos atravessaram a cozinha e a sala, as gavetas estavam sendo fechadas sequencialmente e constatou que a meta da mulher fora alcançada.
A sala estava majoritariamente consumida pela escuridão, não era possível constatar o que havia nos cantos mais distantes, somente uma das velas estava acesa, travando uma batalha imaginária contra o breu absoluto, uma luta entre luz e trevas em que a claridade se perdia perante a implacável oposição. O silêncio que dominava a casa não era natural, uma ausência total de qualquer ruído, como uma planície desolada por onde nem mesmo o vento ou qualquer forma de vida ousa passar.
Esperou estaticamente por alguns segundos, fitando a porta da cozinha com os pequenos olhinhos repousados sobre a almofada, remexendo-os e demonstrando intensa curiosidade. Um calafrio atingiu-lhe as costas quando viu a escuridão por trás da porta entreaberta da cozinha tomar forma, um abismo humanoide e de vestido azul tornava-se cada vez mais nítido perante seus olhos, tentou reconhecer seu rosto, mas não pôde analisá-los sem ser frustrado pelo reflexo que atraia seus olhos. Um objeto metálico e brilhoso agarrado pela mão esquerda da mãe projetava a luz da vela na direção de seu rosto, em poucos segundos de analise soube que se tratava de uma faca.
Um ímpeto furioso tomou conta dos membros da mulher, transformando-a em um vulto azul cinzento que escorria violentamente na direção do sofá em que Igor jazia tapando os olhos com a almofada e rastejando para a outra extremidade do móvel. Saltou sobre o filho e ergueu ambas as mãos que seguravam a faca com firmeza, a apontou para seu peito e desceu os membros para apunhalá-lo pela primeira vez. Repentinamente, um breu consolidou-se por toda a extensão do aposento, a vela apagou e toda a escuridão consumiu a sala, deixando apenas uma leve e inútil brasa sobre o móvel e o som de algo que violava o espaço físico de algum objeto macio e sem vida.
Em êxtase e rodeada pela escuridão, desferia golpes cada vez mais violentos, soltava curtos gritos e gemidos enquanto ignorava todo o vestígio de realidade à sua volta. Não pôde notar que sua vitima tratava-se de uma almofada e nem que a porta da sala estava sutilmente entreaberta, denunciando um fugitivo.
Ela só cessou o esfaqueamento e retomou consciência da realidade quando os primeiros raios de luz, provindos do estranho evento não anunciado na televisão, cruzaram os céus daquela madrugada e iluminaram o amontoado de algodão e panos que se acumulavam nos pisos da sala.
Igor nunca mais foi visto.
Continua
Anterior
- Lágrimas de Gasolina
terça-feira, 1 de setembro de 2015
O Ônibus 3.85 #9 - Uma Moeda
A partir de determinado momento, alguns indivíduos estão fadados à não ter destino e até mesmo a condição de não se ter destino é obra do mesmo. A liberdade é a ilusão de quem a sente e o mártir de quem a desconhece.
- "Eu não sou ninguém!" - Disse ofegante e sentiu que uma gota de sangue despencava de uma das narinas, provavelmente mancharia ainda mais a camisa vinho - "Sou um qualquer!" - E a gota caiu, molhando um pouco mais a camisa encharcada de sangue.
O motorista se agachava novamente para ver de perto a estranha fissura que o ferimento havia se tornado, não passando de uma pequena marca de arredores avermelhados com uma casca superficial vinho e preto.
- "Isso foi incrível!" - Comentou impressionado, podia-se sentir um leve teor de sadismo em sua voz.
O ferimento havia se fechado por completo, as cascas haviam deslizado e caído no chão do ônibus e voado para o fundo.
O homem se levantou, ainda segurando a barra de ferro com uma das mãos e dirigiu a mão direita sobre a cabeça da jovem mulher que segurava o punho esquerdo de Dante, correu os dedos pelos cabelos escuros e disse:
- "Espero que a senhorita segure este homem com toda a destreza do mundo, certo?" - Os dedos passaram pelos últimos fios e correram em direção ao rosto do segundo carcereiro - "E de você, eu não espero nada de diferente! Certo, garoto?" - Completou, passando as costas da mão pela bochecha do rapaz.
Os dois não esboçaram reação alguma, mantiveram os mesmos olhares funéreos, as mesmas expressões apáticas e a mesma força sobre-humana aplicada nos punhos e antebraços de Dante, que tentava inutilmente movimentar os membros e os dedos azuis à todo momento.
"Você aí atrás! O mesmo vale pra você!" - Gritou, apontando a barra de ferro na direção do rosto do homem que se apropriava do punho direito do prisioneiro.
Sentiu o braço cansado levantado sobre o ombro que se torcia para manter aquele carcere um pouco menos desconfortável, e os pequenos dedos que envolvia seu membro esquerdo adormecido. Olhou para as faces fúnebres e constatou que não haveria qualquer chance de escapatória, cogitou em levantar as pernas ou saltar, mas logo em seguida desistiu da ideia, pois provavelmente o derrubariam, por isso fixou os pés ao chão, decidido a não se mover não importando quais fossem os flagelos que lhe seriam infligidos. Deixou que os olhos colhessem o máximo de informação possível, correndo-os por toda a extensão do ônibus, observando as costas da jaqueta jeans que se dirigia para à cabine do motorista e em seguida correndo para os assentos e passageiros. Não encontrou nada que pudesse salva-lo do que poderia vir a seguir e amaldiçoou o momento em que decidira pegar um ônibus para ir para casa. Foi então que se deu conta de que praguejava de olhos fechados e estava completamente despreparado para qualquer coisa que pudesse acontecer, abriu os olhos e sentiu um calafrio escorrer pelos seus ombros quando virou os olhos em direção às janelas e das imagens que elas projetavam.
Por um momento, viu os outros passageiros desaparecerem deixando como lembrança uma fina nevoa branca que deslizava sob seus tornozelos, a fumaça se acumulava no chão sobrepondo e escondendo os sujos pisos de ônibus, deixando apenas as cadeiras à mostra. O corpo do motorista estava congelado, estacionado sobre a nevoa, preparado para dar o próximo passo. Percebeu que no lugar das mãos e dedos autoritários que tolhiam seus membros residia apenas uma fina camada de fumaça que se dissipava ao redor de seus punhos, caminhou em direção a janela sem dar valor algum para a liberdade que não teve nas ultimas horas e encostou as palmas e testa no vidro da janela sem acreditar na familiaridade do que via.
As arvores e calçadas que corriam maravilhosamente perante seus olhos pertenciam ao canto mais brilhante e feliz de suas antigas memorias de infância. Os muros azuis da antiga casa dos Souza, onde jogava futebol de rua com os meninos da rua, passou voando pelas janelas, o homem apertou inconscientemente o vidro com os dedos para tentar abraçar aquela recém-reanimada lembrança e em seguida, voou a velha praça e pôde ver sua antiga escola ao fundo.
Eram lembranças das quais a fase adulta jamais o permitiria se lembrar, por alguns instantes fechou os olhos, tentando entender o que acontecia naquele momento, afinal o ônibus não deveria passar por estes lados. As mãos estavam apoiadas nas janelas, mas não estavam abertas, formando punhos fechados e todo o rosto descansava recostado sobre o vidro riscado por lágrimas escorridas. Seu corpo fez o breve movimento que um passageiro faz quando um veículo freia até parar, inclinando-se levemente para o lado e voltando ao ponto inicial. Percebendo que o ônibus havia parado, desgrudou a testa do vidro e abriu os olhos vermelhos e encharcados, pensou que iria desmaiar quando vislumbrou a insensatez que se escancarava do lado de fora para ele, sentiu que a nevoa que dominava as periferias de sua visão escurecia de forma gradual, mas naturalmente elas estavam enegrecidas, formando uma espécie de moldura abismática ao redor daquele retrato que revelava o impossível para seus olhos. Coçou as órbitas desacreditadas e colocou a mão no vidro, enquanto com a outra afastava a negra nevoa que insistia em tentar tapar a janela.
Rodeado pelo breu e clareado pela luz da imagem da antiga casa de seus pais, Dante se recostou sobre o vidro e se pôs a chorar, mas não chorava pelas lembranças que um dia formaram seu antigo presente, e sim porque diante de seus olhos uma pequena criança brincava na calçada em frente aos muros de sua antiga casa e facilmente fora reconhecida pelo homem, pois aquele homem e aquela criança eram a mesma pessoa.
- "Meu deus, eu só queria ir para casa" - Sutilmente aquela frase dominou seus pensamentos e todo seu corpo foi coberto pelo breu. Naquele momento, Dante compreendeu.
Continua
Anterior
-Lágrimas de Gasolina
- "Eu não sou ninguém!" - Disse ofegante e sentiu que uma gota de sangue despencava de uma das narinas, provavelmente mancharia ainda mais a camisa vinho - "Sou um qualquer!" - E a gota caiu, molhando um pouco mais a camisa encharcada de sangue.
O motorista se agachava novamente para ver de perto a estranha fissura que o ferimento havia se tornado, não passando de uma pequena marca de arredores avermelhados com uma casca superficial vinho e preto.
- "Isso foi incrível!" - Comentou impressionado, podia-se sentir um leve teor de sadismo em sua voz.
O ferimento havia se fechado por completo, as cascas haviam deslizado e caído no chão do ônibus e voado para o fundo.
O homem se levantou, ainda segurando a barra de ferro com uma das mãos e dirigiu a mão direita sobre a cabeça da jovem mulher que segurava o punho esquerdo de Dante, correu os dedos pelos cabelos escuros e disse:
- "Espero que a senhorita segure este homem com toda a destreza do mundo, certo?" - Os dedos passaram pelos últimos fios e correram em direção ao rosto do segundo carcereiro - "E de você, eu não espero nada de diferente! Certo, garoto?" - Completou, passando as costas da mão pela bochecha do rapaz.
Os dois não esboçaram reação alguma, mantiveram os mesmos olhares funéreos, as mesmas expressões apáticas e a mesma força sobre-humana aplicada nos punhos e antebraços de Dante, que tentava inutilmente movimentar os membros e os dedos azuis à todo momento.
"Você aí atrás! O mesmo vale pra você!" - Gritou, apontando a barra de ferro na direção do rosto do homem que se apropriava do punho direito do prisioneiro.
Sentiu o braço cansado levantado sobre o ombro que se torcia para manter aquele carcere um pouco menos desconfortável, e os pequenos dedos que envolvia seu membro esquerdo adormecido. Olhou para as faces fúnebres e constatou que não haveria qualquer chance de escapatória, cogitou em levantar as pernas ou saltar, mas logo em seguida desistiu da ideia, pois provavelmente o derrubariam, por isso fixou os pés ao chão, decidido a não se mover não importando quais fossem os flagelos que lhe seriam infligidos. Deixou que os olhos colhessem o máximo de informação possível, correndo-os por toda a extensão do ônibus, observando as costas da jaqueta jeans que se dirigia para à cabine do motorista e em seguida correndo para os assentos e passageiros. Não encontrou nada que pudesse salva-lo do que poderia vir a seguir e amaldiçoou o momento em que decidira pegar um ônibus para ir para casa. Foi então que se deu conta de que praguejava de olhos fechados e estava completamente despreparado para qualquer coisa que pudesse acontecer, abriu os olhos e sentiu um calafrio escorrer pelos seus ombros quando virou os olhos em direção às janelas e das imagens que elas projetavam.
Por um momento, viu os outros passageiros desaparecerem deixando como lembrança uma fina nevoa branca que deslizava sob seus tornozelos, a fumaça se acumulava no chão sobrepondo e escondendo os sujos pisos de ônibus, deixando apenas as cadeiras à mostra. O corpo do motorista estava congelado, estacionado sobre a nevoa, preparado para dar o próximo passo. Percebeu que no lugar das mãos e dedos autoritários que tolhiam seus membros residia apenas uma fina camada de fumaça que se dissipava ao redor de seus punhos, caminhou em direção a janela sem dar valor algum para a liberdade que não teve nas ultimas horas e encostou as palmas e testa no vidro da janela sem acreditar na familiaridade do que via.
As arvores e calçadas que corriam maravilhosamente perante seus olhos pertenciam ao canto mais brilhante e feliz de suas antigas memorias de infância. Os muros azuis da antiga casa dos Souza, onde jogava futebol de rua com os meninos da rua, passou voando pelas janelas, o homem apertou inconscientemente o vidro com os dedos para tentar abraçar aquela recém-reanimada lembrança e em seguida, voou a velha praça e pôde ver sua antiga escola ao fundo.
Eram lembranças das quais a fase adulta jamais o permitiria se lembrar, por alguns instantes fechou os olhos, tentando entender o que acontecia naquele momento, afinal o ônibus não deveria passar por estes lados. As mãos estavam apoiadas nas janelas, mas não estavam abertas, formando punhos fechados e todo o rosto descansava recostado sobre o vidro riscado por lágrimas escorridas. Seu corpo fez o breve movimento que um passageiro faz quando um veículo freia até parar, inclinando-se levemente para o lado e voltando ao ponto inicial. Percebendo que o ônibus havia parado, desgrudou a testa do vidro e abriu os olhos vermelhos e encharcados, pensou que iria desmaiar quando vislumbrou a insensatez que se escancarava do lado de fora para ele, sentiu que a nevoa que dominava as periferias de sua visão escurecia de forma gradual, mas naturalmente elas estavam enegrecidas, formando uma espécie de moldura abismática ao redor daquele retrato que revelava o impossível para seus olhos. Coçou as órbitas desacreditadas e colocou a mão no vidro, enquanto com a outra afastava a negra nevoa que insistia em tentar tapar a janela.
Rodeado pelo breu e clareado pela luz da imagem da antiga casa de seus pais, Dante se recostou sobre o vidro e se pôs a chorar, mas não chorava pelas lembranças que um dia formaram seu antigo presente, e sim porque diante de seus olhos uma pequena criança brincava na calçada em frente aos muros de sua antiga casa e facilmente fora reconhecida pelo homem, pois aquele homem e aquela criança eram a mesma pessoa.
- "Meu deus, eu só queria ir para casa" - Sutilmente aquela frase dominou seus pensamentos e todo seu corpo foi coberto pelo breu. Naquele momento, Dante compreendeu.
Continua
Anterior
-Lágrimas de Gasolina
quarta-feira, 26 de agosto de 2015
O Ônibus 3.85 #8 - Projeções
Por que as coisas devem se limitar ao que são?
Levantou mais uma vez o bastão de madeira e atingiu o para-brisa do automóvel elegantemente estacionado na frente daquele gigantesco condomínio de escritórios. O dia estava nublado e um alarme rouco e metálico soava cada vez mais alto, interrompendo o cantar dos pássaros e atraindo a atenção de alguns olhares do alto do prédio.
- "O desgraçado surtou!" - Todos da sala de cópias começaram a gargalhar enquanto assistiam à cena pela janela - "Aquele era um belo carro!" - Disse o mesmo homem, com um ar de tristeza e ironia.
Era um carro lindo, disso ninguém duvidaria, pois bastava olhar para ele para ver que se tratava de um modelo do ano passado, completo, tinha as rodas cromadas, uma lataria encoberta por um tom cinza que tendia para o preto dependendo do anglo em que fosse visto. De fato, um belo carro.
- "Quer saber de uma coisa, Anderson?" - Gritou para todos que passavam, desferindo outro golpe, dessa vez atingindo o retrovisor externo - "Eu não preciso da droga desse emprego! Eu não preciso de uma promoção! Eu não preciso de você e nem de nenhum de seus parasitas! Eu não preciso de ninguém!" - Destruiu o que restara da janela lateral do carro, em seguida dirigindo um chute na porta do motorista.
As dezenas de olhos se posicionavam nas janelas do edifício, todos voltados para aquela figura que gritava para as paredes da fortaleza do Sr. Anderson. Alguns funcionários podiam ser vistos atrás das janelas pelo lado de fora, uns estavam rindo e comentando alguma piada com os colegas de trabalho, outros seguravam xícaras de café ou chá enquanto abafavam um olhar de admiração e uma minoria que permanecia sentada em suas mesas, trabalhando.
- "Aquele ali é o Sr. Anderson" - Disse o gerente financeiro apoiado à janela do terceiro andar, apontando para uma figura baixa e gorducha que se aproximava do louco destruidor de carros - "Ele vai ficar louco quando puder ver o que esse maluco fez com o teto solar do carro dele" - Completou ironicamente e soltando uma risadinha de canto de boca.
As nuvens estavam ficando cada vez mais escuras, as passivas e cinzentas nuvens que preenchiam os céus transformaram-se em massas disformes e agitadas cinza chumbo e as primeiras gotas começaram a cair sobre o assento descoberto do carro.
- "O que você está fazendo?" - O gorducho balançava as mãos ferozmente - "Você ficou louco?" - Gritou junto a uma trovoada distante.
O homem estava em pé sobre o capô do carro, balançava os sapatos sociais, espalhando os cacos que insistiam em descansar ao lado de seus pés. Soltou o taco e o deixou rolar em direção ao solo, estava digerindo as palavras proferidas pelo antigo homem que comandava seus afazeres.
- "Você não imagina o quanto este carro me custou!" - Esbravejou Anderson - "Este carro vale mais do que a quantia em dinheiro que você ganharia de salário e comissão em 10 anos de trabalho, seu imundo!" - Fez uma pausa - "Onde estava meu bom senso quando contratei um lunático como você?" - Completou, balançando negativamente a cabeça.
O homem girou o pescoço e apertou os dedos inchados pela grande pressão com que pressionara a haste do taco, formando um punho fechado, sentindo que poderia simplesmente esticar os dedos e esmagar facilmente a traquéia de seu antigo chefe.
- "Você era um bom funcionário, mas depois daquele incidente com a máquina de café você ficou estranho" - Continuou, seus ombros estavam molhados devido à garoa que se transformava aos poucos em chuva - "A policia já está a caminho!" - Disse roucamente após alguns segundos avaliando todos os gastos que teria com o seguro.
O homem pulou do automóvel e caiu em pé sem demonstrar qualquer centelha de esforço, se aproximou naturalmente daquela figura bem vestida, medindo sutilmente cada passo. As dezenas de faces os assistiam através das janelas embaçadas, ninguém mais estava trabalhando, o prédio parecia um gigantesco organismo único formado por pequenas faces cinzentas e curiosas.
Anderson olhou para cima, vendo seus funcionários o encarando e esboçou uma pequena fagulha de raiva somada ao medo do que poderia vir a seguir, afrouxou os joelhos, caminhando para trás, enquanto aquela figura movimentava as mãos e as esticava em sua direção - Um raio cortou os céus - E o homem as levantou, soltando um intenso rugido confundido pela trovoada que veio logo em seguida. Teve a mesma sensação que se tem ao encarar algum animal feroz e desconhecido, afrouxou demais os joelhos e escorregou para trás, sentando no chão molhado, sentiu as calças molhadas, se virou e correu pateticamente em direção às portas fechadas do edifício.
- "Mas que merda!" - Gritou quando percebeu que empurrava a porta com uma placa que dizia para realizar o processo inverso. Entrou, deixou a porta entreaberta e encostou o peito na maçaneta de forma que pudesse colocar a grande cabeça para fora e proteger os membros da ventania, deixando amostra apenas o rosto e parte dos dedos e pescoço.
- "Você é um escroto, Dante!" - Gritou mais alto que o ruído causado pela chuva - "Farei algumas ligações! Você não conseguirá emprego nesta cidade!" - Finalizou gaguejando e fechando a porta metálica.
Dante pôde ver através dos vidros das portas que conduziam para o salão de entrada, uma figura embaralhada e gorda falando com duas outras figuras uniformizadas, não conseguiria ouvi-las, mas sabia que faziam parte da segurança patrimonial do edifício. Olhou para cima e notou que alguns ainda o assistiam do alto das janelas, mas a grande maioria já havia voltado ao trabalho. Ouviu as sirenes ao longe e o ranger das portas metálicas, correu pelas ruas e nunca mais foi visto.
Continua
Anterior
- Lágrimas de Gasolina
Levantou mais uma vez o bastão de madeira e atingiu o para-brisa do automóvel elegantemente estacionado na frente daquele gigantesco condomínio de escritórios. O dia estava nublado e um alarme rouco e metálico soava cada vez mais alto, interrompendo o cantar dos pássaros e atraindo a atenção de alguns olhares do alto do prédio.
- "O desgraçado surtou!" - Todos da sala de cópias começaram a gargalhar enquanto assistiam à cena pela janela - "Aquele era um belo carro!" - Disse o mesmo homem, com um ar de tristeza e ironia.
Era um carro lindo, disso ninguém duvidaria, pois bastava olhar para ele para ver que se tratava de um modelo do ano passado, completo, tinha as rodas cromadas, uma lataria encoberta por um tom cinza que tendia para o preto dependendo do anglo em que fosse visto. De fato, um belo carro.
- "Quer saber de uma coisa, Anderson?" - Gritou para todos que passavam, desferindo outro golpe, dessa vez atingindo o retrovisor externo - "Eu não preciso da droga desse emprego! Eu não preciso de uma promoção! Eu não preciso de você e nem de nenhum de seus parasitas! Eu não preciso de ninguém!" - Destruiu o que restara da janela lateral do carro, em seguida dirigindo um chute na porta do motorista.
As dezenas de olhos se posicionavam nas janelas do edifício, todos voltados para aquela figura que gritava para as paredes da fortaleza do Sr. Anderson. Alguns funcionários podiam ser vistos atrás das janelas pelo lado de fora, uns estavam rindo e comentando alguma piada com os colegas de trabalho, outros seguravam xícaras de café ou chá enquanto abafavam um olhar de admiração e uma minoria que permanecia sentada em suas mesas, trabalhando.
- "Aquele ali é o Sr. Anderson" - Disse o gerente financeiro apoiado à janela do terceiro andar, apontando para uma figura baixa e gorducha que se aproximava do louco destruidor de carros - "Ele vai ficar louco quando puder ver o que esse maluco fez com o teto solar do carro dele" - Completou ironicamente e soltando uma risadinha de canto de boca.
As nuvens estavam ficando cada vez mais escuras, as passivas e cinzentas nuvens que preenchiam os céus transformaram-se em massas disformes e agitadas cinza chumbo e as primeiras gotas começaram a cair sobre o assento descoberto do carro.
- "O que você está fazendo?" - O gorducho balançava as mãos ferozmente - "Você ficou louco?" - Gritou junto a uma trovoada distante.
O homem estava em pé sobre o capô do carro, balançava os sapatos sociais, espalhando os cacos que insistiam em descansar ao lado de seus pés. Soltou o taco e o deixou rolar em direção ao solo, estava digerindo as palavras proferidas pelo antigo homem que comandava seus afazeres.
- "Você não imagina o quanto este carro me custou!" - Esbravejou Anderson - "Este carro vale mais do que a quantia em dinheiro que você ganharia de salário e comissão em 10 anos de trabalho, seu imundo!" - Fez uma pausa - "Onde estava meu bom senso quando contratei um lunático como você?" - Completou, balançando negativamente a cabeça.
O homem girou o pescoço e apertou os dedos inchados pela grande pressão com que pressionara a haste do taco, formando um punho fechado, sentindo que poderia simplesmente esticar os dedos e esmagar facilmente a traquéia de seu antigo chefe.
- "Você era um bom funcionário, mas depois daquele incidente com a máquina de café você ficou estranho" - Continuou, seus ombros estavam molhados devido à garoa que se transformava aos poucos em chuva - "A policia já está a caminho!" - Disse roucamente após alguns segundos avaliando todos os gastos que teria com o seguro.
O homem pulou do automóvel e caiu em pé sem demonstrar qualquer centelha de esforço, se aproximou naturalmente daquela figura bem vestida, medindo sutilmente cada passo. As dezenas de faces os assistiam através das janelas embaçadas, ninguém mais estava trabalhando, o prédio parecia um gigantesco organismo único formado por pequenas faces cinzentas e curiosas.
Anderson olhou para cima, vendo seus funcionários o encarando e esboçou uma pequena fagulha de raiva somada ao medo do que poderia vir a seguir, afrouxou os joelhos, caminhando para trás, enquanto aquela figura movimentava as mãos e as esticava em sua direção - Um raio cortou os céus - E o homem as levantou, soltando um intenso rugido confundido pela trovoada que veio logo em seguida. Teve a mesma sensação que se tem ao encarar algum animal feroz e desconhecido, afrouxou demais os joelhos e escorregou para trás, sentando no chão molhado, sentiu as calças molhadas, se virou e correu pateticamente em direção às portas fechadas do edifício.
- "Mas que merda!" - Gritou quando percebeu que empurrava a porta com uma placa que dizia para realizar o processo inverso. Entrou, deixou a porta entreaberta e encostou o peito na maçaneta de forma que pudesse colocar a grande cabeça para fora e proteger os membros da ventania, deixando amostra apenas o rosto e parte dos dedos e pescoço.
- "Você é um escroto, Dante!" - Gritou mais alto que o ruído causado pela chuva - "Farei algumas ligações! Você não conseguirá emprego nesta cidade!" - Finalizou gaguejando e fechando a porta metálica.
Dante pôde ver através dos vidros das portas que conduziam para o salão de entrada, uma figura embaralhada e gorda falando com duas outras figuras uniformizadas, não conseguiria ouvi-las, mas sabia que faziam parte da segurança patrimonial do edifício. Olhou para cima e notou que alguns ainda o assistiam do alto das janelas, mas a grande maioria já havia voltado ao trabalho. Ouviu as sirenes ao longe e o ranger das portas metálicas, correu pelas ruas e nunca mais foi visto.
Continua
Anterior
- Lágrimas de Gasolina
sexta-feira, 14 de agosto de 2015
O Ônibus 3.85 #7 - O Atractor Estranho
A realidade é um tanto quanto estranha. A maioria esmagadora das pessoas tende a acreditar que a razão e o conhecimento são suficientes para traçar e prever todo e qualquer acontecimento que as rodeia. Quantas vezes nós não tivemos nossos planos frustrados por consequência de um misero acontecimento aleatório e totalmente imparcial? Um dia de chuva, um carro que quebra ou uma câimbra em momento inoportuno. Afinal, quais outros fatores norteiam estes fatores? Fatores menores? De que adianta anos de treinamento e preparação quando estes forem frustrados por um momento de azar, de acaso?
No fim das contas, todos estão à mercê do acaso e de toda a gama de fatores que o estabelece. Talvez, se o motorista soubesse da teoria e não somente da prática, deduziria que todas as ações que tomaria daquele momento em diante não surtiriam efeito nenhum no futuro.
Estava ofegante – “Não posso perder a calma, estou no controle” – Repetia mentalmente para si – “Ainda estou no controle” – Disse em voz alta, apanhando uma pequena haste metálica logo ao lado do pequeno extintor de incêndio repousado sob o assento do motorista.
Andou na direção de Dante, balançando a barra metálica e contornando passageiros inertes que insistiam em ficar em pé no corredor. Seu rosto ainda estava sujo de sangue, um vermelho escuro sobre a textura jeans da jaqueta e os longos cabelos desobedientes lhe tapava parte dos olhos.
O ônibus mantinha velocidade constante dando alguns pequenos saltos, dirigindo-se a um destino desconhecido por todos os passageiros.
- “Eu não vou perder meu posto” – Rosnou em voz baixa.
Dante, ainda tentava se soltar dos três passageiros que o seguravam, balançando de um lado para o outro e grunhindo cada vez mais alto à medida que o motorista se aproximava. O homem não deixara claro o que faria com aquela barra de ferro, mas os olhos e a intensidade raivosa com que encarava o prisioneiro explicitavam o que aconteceria com o rosto daquele pobre infeliz.
- “Você está louco!” – Gritou enquanto lutava contra as forças sobre-humanas de seus carcereiros.
Olhou para os lados, buscando alguma forma de ajuda, algum apelo que pudesse ser feito, mas todos os assentos à sua volta estavam vazios, exceto pelas cadeiras à sua esquerda, que abrigavam parte do corpo do garoto que aprisionava teus punhos. Lembrou-se da garotinha apática que repousava em algum dos bancos de trás, fora de seu campo de visão e gritou:
- “Garota! Ei, garota!” – Girou o pescoço ao máximo que pôde para ver se conseguia atrair sua atenção, porém a jovem ainda encarava friamente o vidro que compunha a janela do ônibus. Tentou outra vez.
- “Garota! Gar...” – E sentiu uma forte dor no centro do abdome. Olhou para frente e trombou com os olhos do motorista pregados aos seus, sentiu os tecidos abdominais começarem o processo de rompimento. Abaixou os olhos e viu toda a vermelhidão que escorria através da camisa social perfurada. Soltou um longo suspiro e sentiu a barra de ferro que se alojava acima de seu umbigo e entre suas costelas.
A pressão e a dor diminuíram por um momento, enquanto o motorista recuava o objeto e se preparava para repetir o movimento, uma tentativa de encravamento improvisado.
Ele olhou para o ferimento por alguns segundos e percebeu o quão superficial parecia. A laceração tinha apenas uns dois centímetros de profundidade, porém a barra tinha uma marca avermelhada uniforme por toda a sua circunferência e atingia um pouco menos de um quinto do comprimento total do objeto, resultando em aproximadamente uns dez centímetros de sangue.
Estava perplexo, esticou os dedos na direção do buraco e Dante se contorceu. Estranhamente, o diâmetro do machucado também estava um pouco menor do que deveria.
- “O raio da barra é de pelo menos uns cinco centímetros” - Concluiu após analisar por um curto período a ponta do objeto que segurava - “E o raio deste ferimento tem um pouco mais que a espessura do meu dedo” – Completou mentalmente, enquanto corria o dedo indicador por toda a circunferência da laceração.
Levantou os olhos, boquiaberto. Estava presenciando uma espécie de recuperação espontânea.
- “Mas que raio de divindade é você?” – Disse, se levantando e esboçando um leve sorriso de incredulidade.
Continua
Anterior
- Lágrimas de Gasolina
No fim das contas, todos estão à mercê do acaso e de toda a gama de fatores que o estabelece. Talvez, se o motorista soubesse da teoria e não somente da prática, deduziria que todas as ações que tomaria daquele momento em diante não surtiriam efeito nenhum no futuro.
Estava ofegante – “Não posso perder a calma, estou no controle” – Repetia mentalmente para si – “Ainda estou no controle” – Disse em voz alta, apanhando uma pequena haste metálica logo ao lado do pequeno extintor de incêndio repousado sob o assento do motorista.
Andou na direção de Dante, balançando a barra metálica e contornando passageiros inertes que insistiam em ficar em pé no corredor. Seu rosto ainda estava sujo de sangue, um vermelho escuro sobre a textura jeans da jaqueta e os longos cabelos desobedientes lhe tapava parte dos olhos.
O ônibus mantinha velocidade constante dando alguns pequenos saltos, dirigindo-se a um destino desconhecido por todos os passageiros.
- “Eu não vou perder meu posto” – Rosnou em voz baixa.
Dante, ainda tentava se soltar dos três passageiros que o seguravam, balançando de um lado para o outro e grunhindo cada vez mais alto à medida que o motorista se aproximava. O homem não deixara claro o que faria com aquela barra de ferro, mas os olhos e a intensidade raivosa com que encarava o prisioneiro explicitavam o que aconteceria com o rosto daquele pobre infeliz.
- “Você está louco!” – Gritou enquanto lutava contra as forças sobre-humanas de seus carcereiros.
Olhou para os lados, buscando alguma forma de ajuda, algum apelo que pudesse ser feito, mas todos os assentos à sua volta estavam vazios, exceto pelas cadeiras à sua esquerda, que abrigavam parte do corpo do garoto que aprisionava teus punhos. Lembrou-se da garotinha apática que repousava em algum dos bancos de trás, fora de seu campo de visão e gritou:
- “Garota! Ei, garota!” – Girou o pescoço ao máximo que pôde para ver se conseguia atrair sua atenção, porém a jovem ainda encarava friamente o vidro que compunha a janela do ônibus. Tentou outra vez.
- “Garota! Gar...” – E sentiu uma forte dor no centro do abdome. Olhou para frente e trombou com os olhos do motorista pregados aos seus, sentiu os tecidos abdominais começarem o processo de rompimento. Abaixou os olhos e viu toda a vermelhidão que escorria através da camisa social perfurada. Soltou um longo suspiro e sentiu a barra de ferro que se alojava acima de seu umbigo e entre suas costelas.
A pressão e a dor diminuíram por um momento, enquanto o motorista recuava o objeto e se preparava para repetir o movimento, uma tentativa de encravamento improvisado.
Ele olhou para o ferimento por alguns segundos e percebeu o quão superficial parecia. A laceração tinha apenas uns dois centímetros de profundidade, porém a barra tinha uma marca avermelhada uniforme por toda a sua circunferência e atingia um pouco menos de um quinto do comprimento total do objeto, resultando em aproximadamente uns dez centímetros de sangue.
Estava perplexo, esticou os dedos na direção do buraco e Dante se contorceu. Estranhamente, o diâmetro do machucado também estava um pouco menor do que deveria.
- “O raio da barra é de pelo menos uns cinco centímetros” - Concluiu após analisar por um curto período a ponta do objeto que segurava - “E o raio deste ferimento tem um pouco mais que a espessura do meu dedo” – Completou mentalmente, enquanto corria o dedo indicador por toda a circunferência da laceração.
Levantou os olhos, boquiaberto. Estava presenciando uma espécie de recuperação espontânea.
- “Mas que raio de divindade é você?” – Disse, se levantando e esboçando um leve sorriso de incredulidade.
Continua
Anterior
- Lágrimas de Gasolina
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
Fútil Realidade #5
Hoje eu acordei sem um beijo de bom dia.
O quarto estava abafado demais, a luz que entrava pelos estreitos feixes da janela estava forte demais. O silêncio era onipresente demais.
Não que a casa fosse barulhenta por rotina. Certamente não era, já que meus pais quase não mais conversavam. Mas hoje nem mesmo da rua propagavam-se sons, só um fraco ronco eletrônico.
Desci da cama quente para sentir o gélido piso agredir a sola de meus pés desprotegidos. Com passos aveludados, caminhei até a porta do quarto e a abri. O rangido grave lembrava-me dos raros gritos que meus pais trocavam entre eles; ríspidos, monossilábicos, agressivos. Sem traços de amor.
Caminhei pelo curto corredor até a cozinha, mas tenho que confessar; hoje ele parecia infinitamente mais comprido. Quando atravessei o batente, a luz do sol que entrava pela janela tornou-se tênue e opaca, deixando os eletrodomésticos e móveis criarem sombras agourentas e assustadoras.
A temperatura caiu absurdamente, e uma enorme adaga imaginária atravessou a boca de meu estômago. Não sei por que dizem borboletas. Não lembro de borboletas parecerem com um tornado catastrófico, varrendo tudo e todos pelo caminho.
E lá no centro da cozinha, tornando o branco piso de mármore em um carmesim aveludado, estava o corpo de minha mãe. Flácido, derretido no chão, como se seu corpo tentasse abraçar um sentimento que já não mais existia há muito tempo. Sua boca estava posicionada em um formato agonizante, enquanto uma segunda boca sorria em sua garganta.
Na cômoda da cozinha, um bilhete abandonado escrito pela metade:
“ Lucas, meu amor,
Você foi o melhor presente que Deus me deu, você me deu forças e me mostrou um maravilhoso mundo. Mas, infelizmente, mundos maravilhosos são efêmeros. Eu e seu pai não nos amamos mais há algum tempo, e tentamos nos manter unidos para sua felicidade. Infelizmente, eu não sou forte o suficiente, não sou forte como acreditei que era, e por isso vou m... ”
Gritei por meu pai.
Corri desesperado até seu quarto, poucos metros da cozinha, muitos metros do quarto de minha mãe.
O barulho frágil de um ventilador velho indicava que o aparelho estava ligado. Era um som estranho, fraco e forte, vivo e morto. Era um ronco despretensioso e conquistador, era o extremo do antagônico.
Quando entrei no quarto, gritei horrorizado ao ver seu corpo balançando junto com o ventilador. A gravata enrolada na haste de ferro do aparelho. Sem nada no estômago para vomitar, cuspi bile em fracos esguichos.
Deixei meu corpo cair, ajoelhando em cima do vomito e gritando em desespero. O som do ventilador conseguia ser ainda mais forte.
Em um surto de irritação, agitação, desespero, medo e agonia, corri até o meu quarto e comecei a arrumar minha mochila. Coloquei roupas, brinquedos, meu smartphone. Precisava sair dali o quanto antes.
Mas, para onde ir? O que fazer? Quem procurar? Eu não tenho avós e nem tios próximos, e se ficar aqui, o melhor que pode acontecer-me é ir para um orfanato. Gritei e soquei a parede, deixando o catarro arranhar minha garganta e esguichar na madeira velha.
Eu iria para a escola, eu precisava ir, eu preciso sair daqui. Não tem nada para mim aqui. Preciso sair daqui. Preciso de algo, alguma razão. Meu pai matou minha mãe e se matou em sequência. Mas que droga! Preciso sair daqui. Preciso de alguém, de alguma Brígida em minha vida. Troquei o pijama, joguei a mochila nas costas e sai correndo. Antes de sair de casa, entretanto, fui até a geladeira e peguei um pote de açaí com banana.
Afinal, quem pode realmente prever quando uma família começa ou acaba?
Fim
- Dedos Azuis
O quarto estava abafado demais, a luz que entrava pelos estreitos feixes da janela estava forte demais. O silêncio era onipresente demais.
Não que a casa fosse barulhenta por rotina. Certamente não era, já que meus pais quase não mais conversavam. Mas hoje nem mesmo da rua propagavam-se sons, só um fraco ronco eletrônico.
Desci da cama quente para sentir o gélido piso agredir a sola de meus pés desprotegidos. Com passos aveludados, caminhei até a porta do quarto e a abri. O rangido grave lembrava-me dos raros gritos que meus pais trocavam entre eles; ríspidos, monossilábicos, agressivos. Sem traços de amor.
Caminhei pelo curto corredor até a cozinha, mas tenho que confessar; hoje ele parecia infinitamente mais comprido. Quando atravessei o batente, a luz do sol que entrava pela janela tornou-se tênue e opaca, deixando os eletrodomésticos e móveis criarem sombras agourentas e assustadoras.
A temperatura caiu absurdamente, e uma enorme adaga imaginária atravessou a boca de meu estômago. Não sei por que dizem borboletas. Não lembro de borboletas parecerem com um tornado catastrófico, varrendo tudo e todos pelo caminho.
E lá no centro da cozinha, tornando o branco piso de mármore em um carmesim aveludado, estava o corpo de minha mãe. Flácido, derretido no chão, como se seu corpo tentasse abraçar um sentimento que já não mais existia há muito tempo. Sua boca estava posicionada em um formato agonizante, enquanto uma segunda boca sorria em sua garganta.
Na cômoda da cozinha, um bilhete abandonado escrito pela metade:
“ Lucas, meu amor,
Você foi o melhor presente que Deus me deu, você me deu forças e me mostrou um maravilhoso mundo. Mas, infelizmente, mundos maravilhosos são efêmeros. Eu e seu pai não nos amamos mais há algum tempo, e tentamos nos manter unidos para sua felicidade. Infelizmente, eu não sou forte o suficiente, não sou forte como acreditei que era, e por isso vou m... ”
Gritei por meu pai.
Corri desesperado até seu quarto, poucos metros da cozinha, muitos metros do quarto de minha mãe.
O barulho frágil de um ventilador velho indicava que o aparelho estava ligado. Era um som estranho, fraco e forte, vivo e morto. Era um ronco despretensioso e conquistador, era o extremo do antagônico.
Quando entrei no quarto, gritei horrorizado ao ver seu corpo balançando junto com o ventilador. A gravata enrolada na haste de ferro do aparelho. Sem nada no estômago para vomitar, cuspi bile em fracos esguichos.
Deixei meu corpo cair, ajoelhando em cima do vomito e gritando em desespero. O som do ventilador conseguia ser ainda mais forte.
Em um surto de irritação, agitação, desespero, medo e agonia, corri até o meu quarto e comecei a arrumar minha mochila. Coloquei roupas, brinquedos, meu smartphone. Precisava sair dali o quanto antes.
Mas, para onde ir? O que fazer? Quem procurar? Eu não tenho avós e nem tios próximos, e se ficar aqui, o melhor que pode acontecer-me é ir para um orfanato. Gritei e soquei a parede, deixando o catarro arranhar minha garganta e esguichar na madeira velha.
Eu iria para a escola, eu precisava ir, eu preciso sair daqui. Não tem nada para mim aqui. Preciso sair daqui. Preciso de algo, alguma razão. Meu pai matou minha mãe e se matou em sequência. Mas que droga! Preciso sair daqui. Preciso de alguém, de alguma Brígida em minha vida. Troquei o pijama, joguei a mochila nas costas e sai correndo. Antes de sair de casa, entretanto, fui até a geladeira e peguei um pote de açaí com banana.
Afinal, quem pode realmente prever quando uma família começa ou acaba?
Fim
- Dedos Azuis
O Ônibus 3.85 #6 - Início
Você alguma vez já parou e se perguntou o que teria acontecido se tivesse se atrasado alguns minutos para algum evento do passado?
E se seus pais tivessem atrasado algumas horas para se conhecer? Talvez algum terceiro elemento tivesse tomado partido antes de um deles e se apaixonado, impedindo o seu futuro nascimento e, conseqüentemente, eu perderia um leitor.
E se você tivesse atrasado alguns minutos hoje de manhã? Talvez tivesse perdido o ônibus e o emprego.
E se você tivesse atrasado alguns segundos na semana passada? Talvez você pegasse aquele semáforo da esquina fechado, atrasando mais alguns segundos e impedindo a colisão que envolveu o seu carro na esquina seguinte.
Consegue perceber como os pequenos acontecimentos em um curto espaço de tempo podem gerar diferentes conseqüências?
Colocou os talheres, delicadamente, sobre a mesa, enquanto analisava os desenhos em forma de ondas dos mesmos. Apoiou os cotovelos sobre a superfície de madeira cuidadosamente feita a mão por algum artesão colonial renomado. Deixou os ares de satisfação entrar pelas suas narinas. Sua mãe não era a pessoa mais afável do mundo, mas cozinhava como uma deusa.
A mulher estava terminando a sua refeição, tinha os olhos cansados e desapontados, com uma das mãos dirigia uma garfada após a outra, sem proferir um ruído se quer, enquanto a outra repousava sobre o avental amarrotado e disposto sobre o colo encoberto pela parte inferior do vestido.
Terminou de comer e se levantou logo em seguida. Desamarrou o avental das costas, passou a pequena alça pelos cabelos castanhos, retirando-a por completo, dobrou o tecido ao meio e o dispôs sobre o balcão. Olhou por alguns segundos para suas mãos cansadas e envelhecidas, fechou os olhos. Igor a olhava por trás, ainda sentado a mesa, direcionando os olhinhos para a parede, pôde ver a silhueta que dançava, projetada pela soma de corpo e luz de velas.
- "As sombras não envelhecem" - pensou enquanto debruçava sobre os bracinhos.
Voltou a observar a movimentação de sua mãe, que apontava para a mesa e para as louças, a analisou por alguns segundos e entendeu, se levantou e começou a recolher os vestígios do que foi um delicioso jantar.
Soltou um som quase inaudível, proferido através dos dentes, como se queimasse a língua com algum tipo de fluido quente e invisível. Caminhou de cabeça baixa em direção ao velho sofá estacionado no cômodo ao lado, elegantemente disposto em frente a uma pequena tela televisiva de vinte polegadas. Passou os dedos sobre um dos botões agrupados no painel integrado ao lado da tela e o dispositivo se acendeu, fazendo rosnar um chiado de intensidade baixa e irritante.
Os sons do noticiário invadiam a cozinha, onde o jovem lavava as louças e enxugava alguns pratos. O programa começava sempre às sete horas da noite e sua mãe sempre o assistia. A noite já havia tomado conta do lado de fora e a casa estava tomada pelas luzes de velas e pela coloração cinzenta da velha televisão.
- "Um estranho fenômeno acontecerá às vinte e duas horas da noite de amanhã e poderá ser visto de toda a América do Sul, os cientistas dizem tratar de uma gigantesca massa de nuvens estratosféricas polares causadas pelas conseqüências da emissão de gases poluentes na atmosfera, dominando os céus da noite de quarta-feira, atingindo seu ápice na madrugada de quinta-feira. Os mais esotéricos acreditam ser um presságio para o fim do mundo" - Dizia o homem de penteado brilhante com suas mãos sobre a mesa, enquanto algumas imagens rodavam pela tela ao seu lado.
- "Nos dias de hoje" - A imagem pulou para um senhor de corpo franzino e cabelos calvos esbranquiçados - "Esse tipo de fenômeno meteorológico costuma ser corriqueiro nas regiões mais frias do planeta, chamadas de regiões polares. É extraordinário que estes aconteçam em regiões como o Brasil e Argentina" - Disse o meteorologista.
- "O que o senhor acha das teorias?" - Perguntou a repórter.
- "As conspirações? Sobre o fim dos tempos?" - Olhava incrédulo para a câmera - "As pessoas não estão acostumadas com o extraordinário, o que justifica todo esse misticismo alvoroçado." - E desligou.
O garoto estava recostado no batente da porta entre a sala e a cozinha, havia terminado seus afazeres e pôde ouvir toda a notícia. Andou até o sofá, deu umas palmadas na almofada e se sentou.
A televisão estava desligada, via-se apenas o reflexo das velas nos olhos de sua mãe e na tela escura. A mulher estava perplexa, como alguém que acabara de presenciar um atropelamento.
- "Eu" - Os olhos do garoto pareceram saltar - "Esperei por tanto tempo" - Disse a matriarca.
Esticou-se para entender enquanto não acreditava que escutava as primeiras palavras já proferidas pela mãe.
Continua
Anterior
- Lágrimas de Gasolina
E se seus pais tivessem atrasado algumas horas para se conhecer? Talvez algum terceiro elemento tivesse tomado partido antes de um deles e se apaixonado, impedindo o seu futuro nascimento e, conseqüentemente, eu perderia um leitor.
E se você tivesse atrasado alguns minutos hoje de manhã? Talvez tivesse perdido o ônibus e o emprego.
E se você tivesse atrasado alguns segundos na semana passada? Talvez você pegasse aquele semáforo da esquina fechado, atrasando mais alguns segundos e impedindo a colisão que envolveu o seu carro na esquina seguinte.
Consegue perceber como os pequenos acontecimentos em um curto espaço de tempo podem gerar diferentes conseqüências?
Colocou os talheres, delicadamente, sobre a mesa, enquanto analisava os desenhos em forma de ondas dos mesmos. Apoiou os cotovelos sobre a superfície de madeira cuidadosamente feita a mão por algum artesão colonial renomado. Deixou os ares de satisfação entrar pelas suas narinas. Sua mãe não era a pessoa mais afável do mundo, mas cozinhava como uma deusa.
A mulher estava terminando a sua refeição, tinha os olhos cansados e desapontados, com uma das mãos dirigia uma garfada após a outra, sem proferir um ruído se quer, enquanto a outra repousava sobre o avental amarrotado e disposto sobre o colo encoberto pela parte inferior do vestido.
Terminou de comer e se levantou logo em seguida. Desamarrou o avental das costas, passou a pequena alça pelos cabelos castanhos, retirando-a por completo, dobrou o tecido ao meio e o dispôs sobre o balcão. Olhou por alguns segundos para suas mãos cansadas e envelhecidas, fechou os olhos. Igor a olhava por trás, ainda sentado a mesa, direcionando os olhinhos para a parede, pôde ver a silhueta que dançava, projetada pela soma de corpo e luz de velas.
- "As sombras não envelhecem" - pensou enquanto debruçava sobre os bracinhos.
Voltou a observar a movimentação de sua mãe, que apontava para a mesa e para as louças, a analisou por alguns segundos e entendeu, se levantou e começou a recolher os vestígios do que foi um delicioso jantar.
Soltou um som quase inaudível, proferido através dos dentes, como se queimasse a língua com algum tipo de fluido quente e invisível. Caminhou de cabeça baixa em direção ao velho sofá estacionado no cômodo ao lado, elegantemente disposto em frente a uma pequena tela televisiva de vinte polegadas. Passou os dedos sobre um dos botões agrupados no painel integrado ao lado da tela e o dispositivo se acendeu, fazendo rosnar um chiado de intensidade baixa e irritante.
Os sons do noticiário invadiam a cozinha, onde o jovem lavava as louças e enxugava alguns pratos. O programa começava sempre às sete horas da noite e sua mãe sempre o assistia. A noite já havia tomado conta do lado de fora e a casa estava tomada pelas luzes de velas e pela coloração cinzenta da velha televisão.
- "Um estranho fenômeno acontecerá às vinte e duas horas da noite de amanhã e poderá ser visto de toda a América do Sul, os cientistas dizem tratar de uma gigantesca massa de nuvens estratosféricas polares causadas pelas conseqüências da emissão de gases poluentes na atmosfera, dominando os céus da noite de quarta-feira, atingindo seu ápice na madrugada de quinta-feira. Os mais esotéricos acreditam ser um presságio para o fim do mundo" - Dizia o homem de penteado brilhante com suas mãos sobre a mesa, enquanto algumas imagens rodavam pela tela ao seu lado.
- "Nos dias de hoje" - A imagem pulou para um senhor de corpo franzino e cabelos calvos esbranquiçados - "Esse tipo de fenômeno meteorológico costuma ser corriqueiro nas regiões mais frias do planeta, chamadas de regiões polares. É extraordinário que estes aconteçam em regiões como o Brasil e Argentina" - Disse o meteorologista.
- "O que o senhor acha das teorias?" - Perguntou a repórter.
- "As conspirações? Sobre o fim dos tempos?" - Olhava incrédulo para a câmera - "As pessoas não estão acostumadas com o extraordinário, o que justifica todo esse misticismo alvoroçado." - E desligou.
O garoto estava recostado no batente da porta entre a sala e a cozinha, havia terminado seus afazeres e pôde ouvir toda a notícia. Andou até o sofá, deu umas palmadas na almofada e se sentou.
A televisão estava desligada, via-se apenas o reflexo das velas nos olhos de sua mãe e na tela escura. A mulher estava perplexa, como alguém que acabara de presenciar um atropelamento.
- "Eu" - Os olhos do garoto pareceram saltar - "Esperei por tanto tempo" - Disse a matriarca.
Esticou-se para entender enquanto não acreditava que escutava as primeiras palavras já proferidas pela mãe.
Continua
Anterior
- Lágrimas de Gasolina
Assinar:
Postagens (Atom)