quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O Ônibus 3.85 #6 - Início

Você alguma vez já parou e se perguntou o que teria acontecido se tivesse se atrasado alguns minutos para algum evento do passado?
E se seus pais tivessem atrasado algumas horas para se conhecer? Talvez algum terceiro elemento tivesse tomado partido antes de um deles e se apaixonado, impedindo o seu futuro nascimento e, conseqüentemente, eu perderia um leitor.
E se você tivesse atrasado alguns minutos hoje de manhã? Talvez tivesse perdido o ônibus e o emprego.
E se você tivesse atrasado alguns segundos na semana passada? Talvez você pegasse aquele semáforo da esquina fechado, atrasando mais alguns segundos e impedindo a colisão que envolveu o seu carro na esquina seguinte.
Consegue perceber como os pequenos acontecimentos em um curto espaço de tempo podem gerar diferentes conseqüências?

Colocou os talheres, delicadamente, sobre a mesa, enquanto analisava os desenhos em forma de ondas dos mesmos. Apoiou os cotovelos sobre a superfície de madeira cuidadosamente feita a mão por algum artesão colonial renomado. Deixou os ares de satisfação entrar pelas suas narinas. Sua mãe não era a pessoa mais afável do mundo, mas cozinhava como uma deusa.
A mulher estava terminando a sua refeição, tinha os olhos cansados e desapontados, com uma das mãos dirigia uma garfada após a outra, sem proferir um ruído se quer, enquanto a outra repousava sobre o avental amarrotado e disposto sobre o colo encoberto pela parte inferior do vestido.
Terminou de comer e se levantou logo em seguida. Desamarrou o avental das costas, passou a pequena alça pelos cabelos castanhos, retirando-a por completo, dobrou o tecido ao meio e o dispôs sobre o balcão. Olhou por alguns segundos para suas mãos cansadas e envelhecidas, fechou os olhos. Igor a olhava por trás, ainda sentado a mesa, direcionando os olhinhos para a parede, pôde ver a silhueta que dançava, projetada pela soma de corpo e luz de velas.
- "As sombras não envelhecem" - pensou enquanto debruçava sobre os bracinhos.
Voltou a observar a movimentação de sua mãe, que apontava para a mesa e para as louças, a analisou por alguns segundos e entendeu, se levantou e começou a recolher os vestígios do que foi um delicioso jantar.
Soltou um som quase inaudível, proferido através dos dentes, como se queimasse a língua com algum tipo de fluido quente e invisível. Caminhou de cabeça baixa em direção ao velho sofá estacionado no cômodo ao lado, elegantemente disposto em frente a uma pequena tela televisiva de vinte polegadas. Passou os dedos sobre um dos botões agrupados no painel integrado ao lado da tela e o dispositivo se acendeu, fazendo rosnar um chiado de intensidade baixa e irritante.
Os sons do noticiário invadiam a cozinha, onde o jovem lavava as louças e enxugava alguns pratos. O programa começava sempre às sete horas da noite e sua mãe sempre o assistia. A noite já havia tomado conta do lado de fora e a casa estava tomada pelas luzes de velas e pela coloração cinzenta da velha televisão.
- "Um estranho fenômeno acontecerá às vinte e duas horas da noite de amanhã e poderá ser visto de toda a América do Sul, os cientistas dizem tratar de uma gigantesca massa de nuvens estratosféricas polares causadas pelas conseqüências da emissão de gases poluentes na atmosfera, dominando os céus da noite de quarta-feira, atingindo seu ápice na madrugada de quinta-feira. Os mais esotéricos acreditam ser um presságio para o fim do mundo" - Dizia o homem de penteado brilhante com suas mãos sobre a mesa, enquanto algumas imagens rodavam pela tela ao seu lado.
- "Nos dias de hoje" - A imagem pulou para um senhor de corpo franzino e cabelos calvos esbranquiçados - "Esse tipo de fenômeno meteorológico costuma ser corriqueiro nas regiões mais frias do planeta, chamadas de regiões polares. É extraordinário que estes aconteçam em regiões como o Brasil e Argentina" - Disse o meteorologista.
- "O que o senhor acha das teorias?" - Perguntou a repórter.
- "As conspirações? Sobre o fim dos tempos?" - Olhava incrédulo para a câmera - "As pessoas não estão acostumadas com o extraordinário, o que justifica todo esse misticismo alvoroçado." - E desligou.
O garoto estava recostado no batente da porta entre a sala e a cozinha, havia terminado seus afazeres e pôde ouvir toda a notícia. Andou até o sofá, deu umas palmadas na almofada e se sentou.
A televisão estava desligada, via-se apenas o reflexo das velas nos olhos de sua mãe e na tela escura. A mulher estava perplexa, como alguém que acabara de presenciar um atropelamento.
- "Eu" - Os olhos do garoto pareceram saltar - "Esperei por tanto tempo" - Disse a matriarca.
Esticou-se para entender enquanto não acreditava que escutava as primeiras palavras já proferidas pela mãe.

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- Lágrimas de Gasolina

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O Ônibus 3.85 #5 - Infinitos Vazios

As faces contorceram-se. Os que não estavam encarando as ações de Dante, agora estavam.
Até mesmo àqueles estacionados sobre as cadeiras, contorciam o pescoço de forma pouco natural na direção do homem que destruía o rosto do motorista.
Ouviam-se os gemidos ecoando, algumas respirações e um baque surdo de carne contra ossos, de segundos em segundos, por toda a dimensão metálica do ônibus.
O homem estava dominado por um tranqüilo frenesi, que misturava uma raiva desmedida e incompreendida com uma calmaria de fim de tarde. Não apresentava pressa para desferir mais outro soco, atingia-lhe a face e o encarava por alguns segundos, sentia uma fagulha de pensamento dominando a sua mente - Por que estou sentindo tanta raiva deste homem? - E em seguida, o atingia mais uma vez. Repetiu esta ordem por mais três vezes.
Levantou a mão direita pela quinta vez, preparando-se para aplicar a primeira lei de Newton nos ossos faciais do motorista. Girou o punho e ela foi aplicada, não por Dante, mas pelos dedos e mãos de um terceiro, que o inertizava, segurando seu pulso. Olhou para trás e viu aquele que o impedira de continuar. Era um passageiro. Aquele cujo Dante havia se sentado ao lado horas atrás, que não se dispôs a percebê-lo quando se levantara.
O passageiro, com ares funéreos, segurava seu punho levantado, sem demonstrar qualquer sinal de humanidade, parecendo uma casca humana vazia. Trajava um terno caro de gerente de banco e olhava indiferente para a nuca do homem a sua frente.
Dante estava de pé e de costas, olhando por cima do ombro, segurando o motorista inconsciente pela jaqueta jeans com a mão esquerda. Seus olhos, arregalados, não entendiam o que estava acontecendo, tremendo e procurando por uma solução, soltou o motorista, que atingiu o chão sujo de sangue e poeira. Tentou levar a mão esquerda até o punho direito para arriscar uma soltura e tomar espaço, mas falhou, outros dedos e mãos seguravam seu punho e braço esquerdo. Girou o crânio e os olhos para procurar por seu segundo limitador e encontrou. Outros dois passageiros, um adolescente de camisa escura e uma pré-adulta de vestido vermelho, ambos com faces mortas e apáticas.
Balançou os ombros, tentando desesperadamente se soltar, enquanto observava o motorista se levantar. O viu arrumar a jaqueta jeans e ajeitar as luvas antes de acertar-lhe um soco no nariz.
- "Meu deus, eu só queria ir para casa" - Falou em voz rouca e baixa - "Como tudo isso foi acontecer?"
O motorista riu.
- "Você realmente não está entendendo nadinha de nada, mesmo? Você realmente acredita em acaso, seu verme inútil? Você ainda não" - Um barulho gaseificado soou, o ônibus começou a se mover segundos depois. A feição de deboche do motorista mudou para uma expressão de dúvida.
Olhou para trás, na direção do pára-brisa, com os lábios entreabertos de incredulidade, apenas para confirmar se a movimentação que estava sentindo era verdade e não fruto do espancamento que sofrera.
De fato, o ônibus estava se movendo, soltou um grito e correu para o assento, deixando o homem e os passageiros para trás. Sentou-se e apanhou o volante.
- "Algo está errado, o ônibus não deveria se mover sem mim" - Pensou - "Só se" - E se virou para encarar um homem aprisionado pelos seus servos.

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segunda-feira, 27 de julho de 2015

O Ônibus 3.85 #4 - A Graciosa e a Cheia de Graça

O sinal para o intervalo soou, ouviram-se alguns gritares e assovios. As crianças levantaram-se das cadeiras, deixando o professor que implorava por atenção.
Saíram correndo na direção da porta, não dando a mínima atenção para o professor, que soltou um leve som de insatisfação regado com alivio.
Em poucos segundos a sala estava vazia. Olhou para os lados à procura de alguma alma compadecida e lá estava ela, no canto direito, próximo a janela, no fundo.
Ana, ainda sentada, aguardava o professor dar o sinal para se levantar.
Apoiando-se na mesa com ambos os palmos, olhou para a garota de olhos verdes.
- "Ei, Ana. Você pode sair, é hora do intervalo."
Ainda sobre a mesa, repousava um caderno com todo o conteúdo da aula, devidamente anotado.
Graciosamente, prestando total atenção nos lábios do professor, se levantou, arrumou a mochila e saiu.
Os olhos do professor a seguiram enquanto cruzava a porta e perguntou-se a razão de as outras crianças não serem iguais a aquela garotinha.
Uma mochila cor-de-rosa com alguns chaveiros dispostos de forma simples pendia sobre um dos ombros. Caminhava a passos rápidos, como se não quisesse ser incomodada, mas, na verdade, sua mente ainda trabalhava e Ana estava perdida em meio a tantos papeis mentais.
Colocando um pé na frente do outro, olhando para baixo. Este era o seu andar.
Puxou a manga que cobria o braço esquerdo, revelando um delicado relógio dourado e esticou os olhinhos para ver as horas. Estava atrasada e o corredor parecia infinito, talvez mais alguns passos e chegaria até o refeitório. Apertou ainda mais a corrida, entendendo perfeitamente o motivo de tanta correria feita pelas outras crianças, o intervalo é curto demais e não daria tempo para fugir da escola.
Sua mente vagueava pelas decisões que, mesmo ainda indevidamente medidas, já haviam sido tomadas. Para sua cabecinha de criança, seria o que chamamos de um grande feito. Talvez, um pequeno passo para qualquer pré-adolescente, mas um grande salto para uma criança de nove anos.
Quando se deu conta, já havia chego ao refeitório e dali já pôde ver o limiar de seu plano:
As portas de saída, que ainda estavam abertas.
Olhou para os arredores, como quem procura um fruto maduro em uma arvore. Não encontrou nenhum e correu na direção da porta. Atravessou-a utilizando-se de um salto, caindo com ambos os pés na calçada.
Correu em direção à esquina, ouvindo o sinal que gritava ao fundo, chamando os alunos para entrarem em sala, mas ela não, pois aquela garotinha de cabelos longos e castanho-escuros estava livre para fazer o que queria e nada a impediria.
Ana olhou para trás por um momento e viu uma face familiar e feminina vindo na direção dela, correndo a uma velocidade envelhecida, pós-adulta. Não havia tempo para pensar, simplesmente ergueu os pequenos pés e colocou-se em movimento.
Chegou ao meio fio e olhou para os lados em busca de esperança e para averiguar se nenhum automóvel viria em sua direção, pois iria atravessar a rua sozinha pela primeira vez.
Olhou para a esquerda e as ruas estavam desertas, alongou o pescoço para a direita e arrepiou-se. Não era um automóvel que acelerava em sua direção, mas sim uma ponta de esperança. Era o 3.85.
Rapidamente o ônibus parou à sua frente e abriu as portas como um super-herói-automóvel que veio justamente para salvar o dia. Colocou os pés sobre os primeiros degraus e sentiu um puxão, que provinha das hastes que prendiam suas costas e ombros à mochila.
A monitora segurava a alça superior da mochila e puxava a garota. Ana gritou e soltou a mochila, gritando mais uma vez enquanto as portas se fechavam. A monitora abraçou a mochila.
Ana nunca mais foi vista.


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quarta-feira, 22 de julho de 2015

O Ônibus 3.85 #3 - O Duradouro

- "Por quê?"
O motorista o encarava com olhos arregalados de incredulidade. Nunca, até aquele momento, alguém havia lhe feito qualquer tipo de indagação. Não podia acreditar que o dia que tanto temia chegaria tão rápido.
O rapaz se levantou e perguntou novamente, porém com o tom um pouco mais eloqüente:
- "Por quê?"
O motorista cerrou os olhos, apertando os punhos, mas conseguiu se conter. Não poderia deixar que o medo o dominasse, seria certo que perderia o posto. Olhou para os passageiros, que mantinham a mesma posição, como peões de estanho em um tabuleiro de xadrez, indiferentes e desinteressados.
- "Que bom" - pensou - "ainda estou no comando."
Voltou o olhar para o homem na sua frente, que o encarava com olhos de fornalha e fedia álcool.
- "Qual é o seu nome?"
O homem afrouxou os olhos, sentindo-se mais seguro, pois sabia que não perderia a carona.
- "Dante, mas pode me chamar pelo meu segundo nome" - E recebeu um soco no canto esquerdo do rosto, atingindo a face no ombro da garota que residia ao seu lado, obrigando-o a se sentar.
Em estado de semi-lucidez, se perguntou o que estava acontecendo e recebeu outro golpe, dessa vez atingindo-lhe a têmpora esquerda. Ninguém moveu um membro ou esboçou alguma reação. Nada.
Olhou para o próprio peito, onde abrigava uma camisa amarrotada de coloração vinho e a viu ficando ainda mais vinho. Estava sangrando. Voltou o rosto para cima e levantou os braços, obstruindo a passagem de um terceiro ataque.
Levantou-se e olhou para os olhos do seu agressor, que gargalhava enquanto atingia-lhe os braços com os pulsos encobertos por uma fina luva de motorista.
Uma gota de sangue escorreu de seu rosto e atingiu a manga da camisa, contraiu o ombro direito e, em seguida, esticou o braço, em um movimento cruzado, cortando o ar na direção da face do motorista. Lembrou-se dos dias de glória, dos bares e das festanças, quando algum de seus amigos participava de alguma briga por engano.
O motorista tropeçou para trás, devido o golpe que lhe fora dado no queixo e caiu zonzo.
- "Os dias passaram rápido demais, não houve tempo suficiente para treinar" - pensou, enquanto via um corpo vinho e de calças sociais voando na sua direção, pronto para esbofeteá-lo por mais alguns segundos.
Soltando um grito de ajuda, quase ordenando, se encolheu cobrindo o rosto com as mãos e encolhendo os joelhos na direção do peito, em posição fetal.
- "Alguém faça alguma coisa!"
Dante soltou uma risada e esticou as mãos na direção da jaqueta jeans do motorista. Piscou depressa para retirar um cisco do olho e disse:
- "Eu nem sei o que está acontecendo aqui! O senhor levantou do seu posto, perguntou meu nome, me deu alguns socos e ninguém na droga desse ônibus fez porcaria nenhuma, mas que droga de mundo é esse em que vivemos? Olha para todas estas pessoas aqui!" - disse apontando para todos e percebendo que todos o encaravam de volta, sentiu um leve calafrio. Dando um soco na face do motorista, continuou:
- "Venham e façam alguma coisa!"


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terça-feira, 21 de julho de 2015

O Ônibus 3.85 #2 - Sem Futuro

Igor estava brincando no jardim quando sua mãe bateu na parede e fez sinal para que entrasse.
Correu em direção à humilde casinha da viúva, chorando, quase implorando para não ser esbofeteado.
Chorou em vão, pois quando cruzou o batente, sua mãe já estava em pé sobre o tapete da sala, trajando um vestido azul claro, um avental que escorria até os joelhos e em uma das mãos, uma longa e grossa cinta de seu falecido marido.
O garoto apanhou como um cachorro naquele dia. Igor estava no auge de seus 12 anos e já havia apanhado mais que qualquer outro garoto da rua, mas disso o pobre garoto não sabia, pois não conversava com as outras crianças, afinal, sua mãe não permitia que saísse para brincar.
Quando a mãe o soltou, correu pelo piso de madeira, com o rosto inchado de tanto gritar e chorar. Não entendeu o porquê daquelas cintadas desferidas contra seu corpo. Na verdade, Igor nunca compreendeu nenhuma das punições dadas pela mãe, ela nunca lhe disse uma simples palavra, seja de aprovação ou de censura, se a mãe permitisse que ele fosse à escola, provavelmente Igor poderia supor que o caso dela tratava-se de uma deficiência auditiva e que nunca aprendera a falar.
Enrolou a cinta e jogou sobre a velha poltrona. O garoto estava encostado no canto escuro da sala ao lado de uma peça rústica, que compunha parte da decoração da casa, seguiu sua mãe com os olhos, que caminharam em direção à mesa de jantar. O cheiro de carne moída com molho de tomate impregnava o ar e adentrava as narinas do garoto, sua barriga estava roncando.
Apanhando um pequeno sino de estanho, descansado sobre a mesa, e fazendo-o tilintar, a mulher deu sinal para que aqueles que jaziam na casa se aproximassem para o jantar.
O garoto deu alguns passos sobre o piso de madeira que seguia até a sala de jantar, caminhando, com os pés ainda sujos de terra, na direção da mesa. Puxou uma cadeira e se sentou. Sua mãe estava sentada logo à frente, com as mãos cobrindo parte do rosto e proferindo sons ininteligíveis em voz rouca e baixa. O garoto abaixou a cabeça e fez o mesmo, se pondo a orar sem saber, conversando com uma entidade da qual nunca ouvira falar e nem saber do por que de fazê-lo.
Tinha muitas perguntas não respondidas, que eram apenas saciadas pela sua vã imaginação somadas a sua visão de mundo infantil e sem embasamento familiar. Para ele, o mundo se resumia ao quintal de sua casa, sua mãe e os pássaros que voavam por cima do muro.
Estes momentos antes das refeições tinham um brilho intenso de reflexão e autoconhecimento que Igor jamais se daria liberdade de calcular, assim, os fazendo, simplesmente porque gostava da sensação e nunca se dando ao trabalho de questionar, seja a si ou a sua mãe.


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- Lágrimas de Gasolina

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Ensaio para um Mundo Melhor

Fizeram algumas marcas no chão, como se estivessem se preparando para algo.
Um dos participantes tropeçou, atingindo o solo e foi assim que tudo começou.
A platéia soltou um grito de dor, cantarolando com a sonoridade do baque feito pela colisão entre o palco e o rapaz.
Um dos participantes saiu de posição e se pôs a ajudar o companheiro. Parou ao seu lado e estendeu uma das mãos.
Ouviu-se alguém gritar ao fundo:
-Meu deus! Que lindo!
O ator caído levantou uma das mãos e agarrou o braço do companheiro de palco, que o ajudou a levantar, contraindo os ombros.
A platéia estava eufórica. Alguns gritavam, enquanto outros estavam em pé, batendo palmas.
Os dois amigos, de mãos dadas e levantadas para que todos pudessem ver, estavam no centro do palco e completamente iluminados pelo show de luzes que o palco proporcionava.
Todos lutavam para ver o que acontecia, não queriam perder um segundo daquele sentimento que absorviam dos atores.
Por fim, o rapaz dirigiu uma das mãos ao bolso e dele tirou uma flor, entregando ao companheiro, que aceitou de bom grado, expressando a completa e fugaz sensação de ajudar alguém.
A platéia delirou por alguns segundos, bateram palmas, assoviaram, bateram nas cadeiras e assoviaram mais um pouco.
As cortinas se fecharam.
Apagaram as luzes.
Os rapazes soltaram as mãos.
Um deles amassou a flor e jogou no chão escuro.
Removeram as marcas do chão.
Era apenas um ensaio.

- Lágrimas de Gasolina




quinta-feira, 2 de julho de 2015

Tuberculose

Era o refrão.

- I'm lost without you, can't help myself, how does it feel, to know that I love you baby!

E o 3.85 passou, como um falcão, enquanto abstraia-me em meio ao vocal de Robin Thicke. 

Frio, noite, sozinho. E agora sem transporte. As moedas avulsas tilintavam em meu bolso, enfatizando o fato de que, tirando os R$ 3,50, eu não tinha mais nenhum centavo. 
Sem dinheiro para um taxi, sem amigos para uma carona. Neste horário, o próximo 3.85 passaria só daqui há duas horas. Meu celular apitou, sussurrando o fim, e ao som de clarinetes minha bateria despediu-se. Sem comunicação. 

Em uma hora e meia eu estaria em casa, se decidisse caminhar. Xingando o sádico destino, o frio insuportável, a bateria efêmera, o dinheiro escasso e a solidão de morar em uma cidade em que você não conhece praticamente ninguém, levantei e comecei minha jornada. 
A cada passo, repreendia-me mais intensamente, pela falta de atenção. Odiava-me ao ponto de começar a traçar em minha mente soluções incrivelmente ruins para o meu problema. Eu poderia voltar para o ponto de ônibus, e esperar. Talvez tirar um cochilo... e provavelmente ser assaltado. Talvez pegar um taxi, e quando estiver chegando perto pular do carro em movimento... correndo risco de quebrar grande parte dos ossos de meu corpo, além de uma bela surra do taxista. Talvez roubar um carro...

Neste segundo, um suspiro metálico soprou de forma deprimente ao meu lado. Torcendo o pescoço, deparei-me com a lataria verde e branca coberta por ferrugem, os faróis ridiculamente luminosos e as portas escancaradas. O 3.85 estava estacionado ao meu lado, em uma rua que fugia drasticamente do seu destino, em um horário que ele não deveria estar lá, apenas esperando. 

Sorri e subi no ônibus. 

O motorista entrou em uma tosse frenética, escondendo o rosto no canto esquerdo de seu corpo. Sinalizou com o polegar para que eu me dirigisse para o fundo. Não tinha cobrador, então não fiz nenhum movimento para pegar os R$ 3,50 em meu bolso. Nunca se sabe o dia de amanhã. 

Caminhei até o último banco e sentei, com um suspiro de satisfação. Logo estaria em casa. 

Porém, como se lendo meu pensamento e resolvendo contrariar-me, o motorista simplesmente levantou e saiu pela porta de embarque, deixando o motor ligado. 

O cinto apertou-se contra meu peito com uma intensidade anormal (eu não lembrava de ter afivelado os cintos), tirando todo ar de meu pulmão. Tentei gritar, mas nenhuma voz saiu de minha garganta. As janelas estavam completamente embaçadas e opacas, o motor rugia com voracidade. 
O tecido do banco projetou-se, penetrando em minha pele, enquanto eu me debatia enfaticamente. Aos poucos, começou a entrelaçar-se com meus músculos, e senti uma dor aguda, como se minha alma estivesse sendo arrancada de mim. Circulou minha cabeça e entrou em meus orifícios faciais, furando meu tímpano, destruindo meus olhos e adentrando por minha boca e nariz. Desmaiei com a dor. 

Acordei com um pulo assustado. 
Olhei para ambos os lados, assimilando o local. Ainda estava no ponto de ônibus. Maldição, havia sido a porra de um pesadelo. 

Tentava regularizar meu coração acelerado quando o 3.85 virou a esquina. Sinalizei com o indicador. 
Antes de subir a escada, notei a pintura descascando e a ferrugem exagerada. Maldita EMDEC e sua frota velha de ônibus.

Paguei os R$ 3,50 para o motorista e caminhei para os bancos do fundo. Logo que sentei, ouvi uma tosse doentia apoderar-se do motorista. 

Era impressão minha ou ele estava vestido de palhaço?


- Dedos Azuis

quarta-feira, 1 de julho de 2015

O Ônibus 3.85 #1 - Fim da Linha

Fez um daqueles barulhos de gás escapando, como se alguma coisa estivesse com defeito, e parou.
Um bêbado caminhou em direção a entrada do ônibus, apoiou-se na porta traseira e puxou o próprio corpo contra a escada.
Entrou sem pagar, como de costume. Ninguém falou nada, nem mesmo o cobrador.
Sentou-se em uma das cadeiras, olhou para o lado e viu um rosto cinza. Eram nove horas da manhã.
A face não fizera questão de se mover, seus olhos cerrados, quase mortos, somados a uma boca cinza e sem vida. Bocejou.
Assustado, levantou-se, cuidadosamente, e mudou para o assento de trás. A face não ousou observar sua movimentação, permanecendo apático, admirando a rua com seus olhos sonolentos.
Sentou-se próximo a janela e o ônibus começou a se mover. Ainda estava zonzo devido à noite de ontem, que passara no bar. Encostou a cabeça no vidro e tentou lembrar.
Chegou às dez horas da noite anterior, encontrou alguns amigos, caminhou até o bar, pediu algumas doses e acordou recostado no meio fio. Levantou-se, caminhou até o ponto.
Bateu a cabeça no vidro, o ônibus passara sobre uma lombada, voltou a si. Olhou em volta e notou que cada vez mais assentos ocupados, alguns estavam em pé, todos mantinham a mesma expressão vazia, acinzentada. Olhou para o outro lado do ônibus, viu uma garota uniformizada, estava apoiada, encarando o lado de fora, como um animal em uma jaula, que encara seus espectadores.
Decidiu mudar de lugar e se sentar ao lado da garota. Realizou a proeza entre as chacoalhadas do ônibus para que ninguém notasse a sua movimentação. Só estava preocupado em não ser notado, enquanto os outros passageiros nem faziam questão de se preocupar. Colocou o pé direito no corredor do ônibus e em seguida pulou para o assento vazio ao lado da estudante. Ninguém percebeu.
Acomodou-se na cadeira e admirou, por alguns segundos, o acolchoado traseiro do banco à sua frente. Olhou para baixo, analisou as próprias roupas, suas mãos azuis sobre o colo e suas pernas tensionadas, não se sentia mais anestesiado pelo efeito da bebida e da noite mal dormida. Virou o rosto para a direita, em direção a garota, esticou os dedos sobre o ombro da jovem e cutucou.
A garota não se moveu, nem reagiu ao impacto do dedo contra o ombro, o único movimento notável provinha de seus cabelos castanho-escuros, que se movimentavam devido à brisa que adentrava pela janela, possibilitando ver apenas parte de seu rosto adormecido e apático.
Olhos congelados. Não admiravam a paisagem, olhavam fixamente para o próprio reflexo, impressionados e arregalados, como os de quem vê um fantasma refletido no espelho.
Levantou o pescoço, se levantando e apoiando as mãos sobre a cadeira da frente, tentou notar algo de estranho naquele ônibus, algo que não tivesse notado antes, que passara em branco.
Foi quando se lembrou das feições. Todos olhavam pela janela, mas não admiravam a paisagem. O que eles observavam com tanta intensidade eram os próprios reflexos. Estavam tão extasiados pela própria aparência refletida que não conseguiam desviar o olhar.
Notou que nem todos tinham olhos impressionados, alguns estavam com os olhos entreabertos, como os olhos de alguém que assiste ao mesmo programa de televisão durante horas sem poder mudar de canal.
Estava pasmo. Estava enlouquecendo, pensou, apoiando-se e voltando a se sentar em seguida. Percebeu que os ares estavam esfriando, mesmo que pudesse sentir a brisa provinda das janelas do ônibus em movimento, sabia que a repentina queda de temperatura não se tratava de um fator ambiental, muito menos natural.
O ônibus parou, ressonando aquele som gaseificado. Trombou o peito contra a cadeira da frente, os outros passageiros dançaram um pouco, mas se recolocaram na posição anterior logo em seguida.
O bêbado começou a ficar inquieto, estava tudo muito estranho. Colocou a cabeça no corredor e pôde ver, por entre os corpos cinza, que ocupavam o ônibus, uma movimentação vinda da cabine do motorista, que se levantara e vinha caminhando, lentamente, desviando dos corpos paralisados. Parou a duas poltronas de distancia, apontou e disse:
- "Que raios você está fazendo aqui?"
O rapaz, não mais embriagado, já aflito, ficou ainda mais angustiado. Não sabia se o motorista falava do dinheiro da passagem, aquele que não fora pago, ou se referia a alguma outra coisa. Por que ele sairia de seu posto e levantaria justamente agora, 15 pontos depois de sua entrada, parando o ônibus e adiando os compromissos dos outros passageiros, apenas para lhe dar uma bronca?
- "Você pegou o ônibus errado, meu amigo. Sugiro que saia. Agora!"


Continua

- Lágrimas de Gasolina

segunda-feira, 29 de junho de 2015

A Curiosidade Matou o Gato

O que?
Então quer dizer que não posso mais pensar?
Novamente?
Vamos fazer assim: Você fica com os teus pecados e eu fico com os meus!
Você guarda os teus defeitos e eu enfrento os meus!
Que tal eu pegar meus demônios e leva-los comigo para a igreja?
Eles iriam me apedrejar em praça publica!
Chamem as mulheres do passado e diga-as para que não lutem pelo que querem.
Diga aos negros que não deveriam ter atingido o patamar de seres humanos.
Vai lá, volta! Regresse!
"Mas cara, isso esta errado, todos o dizem. Algo de errado deve haver!"
Cale a sua boca seu pedaço de rocha imutável.
Atire em todas as direções. Existem alvos que não conseguimos ver.
Eles estão disfarçados de tabus e crimes.
Traga Satan, traga os Homens-bomba, traga o Egoísmo, o Preconceito, a Autodefesa.
Eu digo para os meus filhos serem livres!
Venham comigo crianças, carreguem teus fuzis e apontem para o inalvejavel. Atirem!
Acertem alvos jamais imaginados.
Prever é o mesmo que deixar de prever.
Se prender a previsões é o pior de todos os pecados!
A curiosidade não matou o gato! A curiosidade é a verdadeira vitima e ela não foi simplesmente morta!
Ela foi espancada e estuprada, esquartejada e posta dentro de um moedor de carne.
Seu autor? A comodidade de acreditar cegamente naquilo que te contaram.
Então, você leu em um livro que o que eu ando fazendo deve ser rotulado como errado?
Bom, eu li em vários livros, inclusive no teu, vivenciei e experimentei. Minhas experiências gritam que estou certo!
O chão sob meus pés diz que não devo sossegar!
A curiosidade deve agir como uma força da natureza, indomável e destruidora. Destruidora de filosofias.
Quer saber o que eu sou para a tua filosofia?
Eu sou um maço de cigarros! Sim, isso mesmo!
Estou explicitamente gritando o quão tóxico posso ser para ela, mas no fim das contas, quando você me tragar, sentirá um êxtase e uma calma tão profunda que quando menos perceber, estará viciado!
E no final, assassinarei tua vã filosofia!

-Lágrimas de Gasolina

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Garantia

Eu só queria uma garantia.
"Por que esse apelo por segurança, por que agora?"
"Você tenta fazê-la segura o tempo todo, afinal, não é você quem realmente está implorando por segurança? Por que está se desculpando de novo?"
"Para com isso. Erga esse rosto inchado pelo choro e lute. Faça a droga dos teus planos, desgraçado. É de você de quem eles dependem e serão eles quem irão te acolher pro resto da tua vida. Aqueles que te amam que te acompanhem, porra!"
Não é tão simples. Nunca é. As coisas poderiam ser mais simples.
"Não, não poderiam, seu idiota. Se fossem simples você não teria se apaixonado. O que aconteceu com a aquele teu ódio pela simploriedade? Para onde foi? Por que agora o abraça como se fosse a unica salvação? Por que você não vai lá e diz que a ama? Vá e leve algumas flores, pois vai precisar."
Não é tão simples e não deve ser.
"Por que você não volta pro teu banho e abaixa a cabeça, como sempre fez?"
Não é tão simples.
Você não me entende. Eu quero pular na frente de tudo e lutar, construir uma barricada e um império atrás daquilo, mas isso não faz sentido, pois são essas coisas que a distancia de mim.
"Como assim, você está se desculpando de novo? Vá e o faça, porra!"
"Você quer tudo, mas quer que ela esteja lá, junto contigo. Então vá e faça. Faça dar certo! Qual é a porra do problema? Está se sentindo sobrecarregado, é? Pare de achar que as coisas precisam de explicação. O que falta pra você?"
Nada. Não falta nada.
"Então, por que não começa?"
Garantia.

- Lágrimas de Gasolina

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Steve, o filho da puta - Quadrinho


sábado, 23 de maio de 2015

Souvenires

Então, no fim das contas devo ser influente.
Disseram que a tomada do sucesso profissional caminha pelo vale da influencia.
Influenciar os outros a acreditar nas minhas mentiras, é isso?
Será que o sucesso pessoal dá as mãos à realização profissional?
Eu não acredito nisso e desacredito, ainda mais, nas pessoas que acreditam nisso.
Não anseio por poder, embora me apeteça a ideia de comandar e dominar. Isso deve ser alguma falha da minha humanidade. Este anseio pelo controle.
Todos somos controladores, por isso prezamos tanto pelo autocontrole.
Acredito que haja algo mais.
É claro que eu adoraria ter imensuráveis posses ou quaisquer outros bens materiais, não sou nenhum hipócrita para negar tal coisa.
O sucesso pessoal é mais abrangente, mais profundo, por assim dizer. Acredito que a influencia possa até ser importante ferramenta em determinados casos, mas somente a compreensão é o que realmente deve ser levado em conta.
Compreender, ser empático, se por no lugar de outrem, ou melhor, no meu próprio lugar num determinado contexto.
Compreender o que fora feito e o por que de tê-lo feito.
Relevar a inexperiência, ou melhor, compreende-la.
Lidar com os erros como a bagagem de uma longa viagem, que começa com malas vazias e que se enchem com o decorrer. Caminhar sem arrependimentos.
Enfrentaremos rios ou, quem sabe, mares de impasses ao decorrer desta caminhada.
Pararemos em cada barraquinha de souvenires desta viagem e compraremos os chamados erros, compreenderemos o por que de ter lhes pagado tais preços e os carregaremos com orgulho.
Os mostraremos aos nossos filhos e diremos que existem souvenires mais em conta, mas nunca os pagaremos para eles, pois não podemos. Podemos apenas dizer.
E no final das contas, poderemos olhar pelos espelhos do passado durante as noites mal dormidas, olhar com satisfação e orgulho e, assim, voltar a dormir.
E voltei a dormir.

- Lágrimas de Gasolina

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Fútil Realidade #4

A vida é irônica. 
Até um certo aspecto, engraçada, mas esta ironia assume uma atmosfera bem sombria quando se presume a efemeridade do tempo. 
Vidas eternas de pessoas eternas, que entre 365 possibilidades, encontraram seu fim em um cruzamento extremamente familiar e singular. 
Há doze anos, eu e Brígida dirigimos até o cemitério nos dias 06 de Janeiro, para prestigiar nossa Mãe. Esta é a primeira vez que estamos vindo, no mesmo dia, para visitar ambos os pais. 
O médico não soube explicar o motivo de Pai ter falecido, há um ano, mas acredito fortemente que o motivo de sua partida foi exatamente a falta de motivos para ficar. A garota de sua vida já não estava mais aqui, e seus filhos estavam casados e aninhados em um laço de amor absoluto. 
Ele cuidou de muitos, e cuidou bem. Deixe que os céus cuidem dele agora. 
Brígida entendeu, eu entendi. Foi menos doloroso que a morte de Mãe. Eles estavam juntos, amando-se sem censuras terrenas, sem podas, sem idade. Apenas um amor infinito e inabalável, o mesmo que há muitos anos gravaram em nossos ânimos. 
Os túmulos estão lado a lado, e isso preenche meu coração com uma felicidade que não é possível transcrever em frágeis linhas. Brígida também está feliz. Muito feliz na verdade. 
Voltamos para nossa casa. para nosso ninho. Perder alguém é doloroso, mas mais doloroso é afastar amantes eternos.
Vendemos nossa antiga casa e compramos uma nova, um pouco menor. 
Recheamos com nossos gostos, nossos valores. Pintamos as paredes com tintas que representavam muito mais do que números em catálogos. 
Éramos muito novos, nem tinhamos terminado nossas faculdades, mas foda-se os padrões que a sociedade impõe. Casamos novos, começamos a morar juntos novos e a vida não podia ser mais feliz. 


Quando terminamos nossas faculdades, agarramos fortemente a ideia de nos tornarmos pais. Sempre fomos adepto, mas agora o tempo livre abriu espaço para este sonho. 
Fizemos uma imensa lista de nomes, para meninos e para meninas, no mesmo dia em que Brígida parou de tomar seu anticoncepcional. Apesar da vergonha, preciso confessar: foram bem prazeirosas as tentativas. 

No começo.

Com o tempo, começamos a ficar preocupados. Quatro meses, quatro menstruações. Brígida insistia em afirmar que era normal, que isso acontece, que em breve Lucas estaria a caminho. Mas eu sabia que tinha algo errado. 

"Endometriose", foi a palavra mais forte que já ouvi. Pior do que "morte", é a anulação da vida, a proibição natural de conceber. Sentamos no chão frio do consultório. Enquanto ela chorava desolada, tentava selar meus braços ao seu redor. Minha camisa empapava-se em suas lágrimas, mas não compartilhei as minhas. 
Não podia ser. Não com a gente. Era um amor tão puro, tão ridiculamente puro. Endometriose. 
Quando ouvi essa palavra, tive medo de perder minha garota. Tive medo de perder a Brígida que eu conhecia, medo de que esta restrição fosse um baque mais forte do que ela poderia aguentar. 

Estava enganado. 

Ficamos sentados no chão por quase duas horas. Quando ela terminou de chorar, levantou-se, limpou seu rosto e me abraçou muito forte. Foi o abraço mais forte que já trocamos. 
A sala do consultório estava bem amarelada por causa da luz artificial, mas os olhos de Brígida continuavam escuros como a lua. 
Ela passou os braços ao redor do meu pescoço e encostou sua testa na minha. 

- Você me ama, mesmo sabendo que não poderei engravidar? 
- Você me ama, mesmo sabendo que eu preferi a trilogia do Hobbit ao invés de O Senhor dos Anéis? 

Ela riu. Uma risada sincera. Fraca, porém sincera. 

- Vamos enfrentar isto - eu disse. 
- Te amo pra sempre. 

Um ano depois, no dia 29 de abril, recebemos a ligação. Lucas estava a caminho. Havíamos conseguido a guarda de um maravilhoso menino de três anos.

Continua


sexta-feira, 15 de maio de 2015

Um passo à frente

Houdini era uma assassina, e disto eu já sabia desde o primeiro instante em que a vi. 
Demasiadamente simpática, demasiadamente solicita. Sorriso demasiadamente branco e olhos demasiadamente verdes.

A calça jeans preta e a camisa slim de botões vinho surpreenderam-me, pois o prático vestido escuro com fenda lateral até a cintura fora substituido. Parecia confortável naquele traje. Parecia mais humana, menos divina.

E, apesar de todos meus instintos, provavelmente foi nesta humanidade em que apaixonei-me. 
Como um ex assassino (não por contrato e nem por psicopatia, e sim pela simples beleza na arte de matar) reconhecer outros assassinos era tão simples como limpar uma faca.

Os ligeiros movimentos nos pequenos músculos faciais normalmente é o que entrega um assassino, e com Houdini fora basicamente da mesma forma. Mas ela era a composição tão perfeita entre divindade e humanidade, que precisei aborda-la naquela festa.

Ela achou que havia capturado sua presa, mas na verdade capturara um novo namorado. 

Houdini era boa, mas não tão discreta, e sempre que voltava para casa após um assassinato, era claro como uma noite de verão que havia matado alguém. Mas como nunca conversamos disso, ela alegrava-se ao pensar que eu acreditava que era apenas uma administradora de empresa que chegava em casa tarde.

Entretanto, criei um fascínio tão grande nela com a obscuridade de meu passado nunca contado, que Houdini despertou em seu íntimo a insaciável vontade de me matar. Bom, insaciável e inalcançável, pois eu estava sempre a um passo à frente. 

No jantar em que ela colocou cianeto de potássio em minha comida, tristemente deixou rastros do pó embaixo da unha, e com um simples "estou enjoado, vou deitar", escapei de forma gloriosa. Isto instigou-a ainda mais, e com o passar dos dias ela começou a tornar-se ansiosa, desesperada e de certa forma um pouco frenética. Certamente pensava em seu próximo passo, mas, apesar de tudo, eu sempre estaria um à frente.

Houdini comprou uma .9mm, e planejava pressionar o travesseiro contra o meu rosto e apertar o gatilho na noite seguinte, quando comprasse o cartucho necessário. Porém, fora traída quando sem querer disse, enquanto cochilava no sofá, "na gaveta do banheiro de hóspedes". Curioso, procurei e encontrei a pequena pistola lá.

No dia seguinte, quando minha namorada não encontrou a arma, teve um pequeno surto, mas não contou-me o motivo do stress. Chorou, gritou, mas em dez minutos tudo estava bem novamente.

Houdini teve outros movimentos, outras ideias, mas eu sempre estava um passo a frente. Tentou com faca pelas costas, linha de nylon em meu pescoço, uma martelada em minha nuca, e, até sendo menos original, tentou colocar um saco plástico na minha cabeça. 

Mas, sério, gloriosamente estive sempre um passo à frente.

Até aquela sexta, obviamente.

Preparava dois deliciosos bifes Angus, enquanto Houdini assava batatas. Estávamos comemorando um ano de namoro. Ela estava tão feliz, tão radiante. Seu sorriso brilhava mais do que no dia em que a conheci.

As velas, o vinho, a janta. A perfeição reinou. Saiu por um instante para pegar algo para brindarmos.
Quando voltou, revelou em sua mão esquerda a prateada garrafa de espumante. Com um sorriso sarcástico, revelou a mão direita. Na ponta do dedo, uma fina calcinha preta balançava promiscuamente.

O sexo nunca fora tão bom. Dois corpos que tornaram-se um, pelo momento, pelo suor, pelo clímax.

Quando terminamos, a sensação de deleite permaneceu. Sua mão acariciando meu peito arrepiava cada milímetro de meu corpo. Minha respiração pesada estava voltando ao normal.

Delicadamente, Houdini levou sua mão ao centro de suas pernas, e após um instante, trouxe o dedo estendido aos meus lábios.

Percorreu toda periferia de meu lábio inferior, depois superior. Inseriu o dedo entre meus dentes semi-serrados e, antes que eu me desse conta, esfarelou uma pequena quantidade de pó em minha boca.

Assustado e perplexo, sentei, cuspindo violentamente o conteúdo. Houdini riu, uma gargalhada maravilhosa.

- É apenas Eno, seu bobo - olhou em meus olhos com aqueles maldito verde celestial - Não vai ser hoje, amor.

Mexendo a língua, assimilei o gosto; Eno. Olhei para ela, com um sorriso desconfiado.

Transamos mais três vezes naquela noite.

- Dedos Azuis


quinta-feira, 14 de maio de 2015

Como o Vento

Existe um espirito?
Se existe ei de escrever sobre!
Por que escrever a respeito de algo que não posso tocar?
Se posso senti-lo, posso traduzi-lo em letras? Ou quem sabe... Pelo menos tentar.
Hoje foi uma das vezes em que senti a chamada paz de espirito.
Uma arvore retorcida logo ali.
Um caminho que acabasse em um sinal fechado.
A falta de pressa, ou melhor, vontade de andar. Caminhar, apenas.
Ir logo ali e voltar.
Ficar em silencio.
Ficar quieto. Não me expressar.
Dizer o que sinto, mas não como.
Dizer o que fiz, mas não o porque.
Não dever satisfações, apenas estar satisfeito.
Os problemas vieram, ah, e como vieram. Vieram como a brisa, pois eu reagi como a brisa.
Não esbravejei e nem bati de frente. Não peguei um resfriado ou nada do tipo.
Simplesmente, dancei conforme a musica.
Duas massas de ar, vulneráveis, se tocando e girando, valseando pelo espaço da existencia.
Pregando por aquilo que faz mais sentido, pelo menos para a mim, para minha vida.
Fazendo a diferença sem impor nada. Sem dizer uma simples palavra.
Eles vieram, foram vistos, sem analise, e resolvidos. Os chamados problemas, os chamados impasses.
Passaram.
Esperei o sinal abrir. Não superei expectativas, pois não as criei. Fui contemplado por uma satisfação absoluta.
Como satisfazer aquilo que se não buscou sanar?
Isso é o espirito e é para isso que vivemos.
Eu não posso dizer qual é o sentido da vida, mas posso dizer qual é o meu sentido de existir.
Fazer a diferença pelo simples fato de existir.
Satisfazer o que não se busca sanar.
Não criar pretensões ou dilemas.
O vento contorna os muros, mas para que precisamos de muros, afinal?

- Lágrimas de Gasolina

terça-feira, 12 de maio de 2015

Moscas

Largou a faca ensanguentada.
- "Olha esse apanhado de moscas que eu recolhi no jardim" - narrou para si mesmo - "estavam sobrevoando a estátua de mármore do meu pai." - Parou por um momento - "Algumas ainda estavam no corpo sem vida de minha mãe".

- "Melhor levá-las para dentro, não quero perder parte da herança que me deixaram" - pensou enquanto subia as escadas. Se trancou em seu quarto e as soltou enquanto trancava as janelas.
Por um momento, um aroma familiar se misturou com o cheiro de sangue e podridão que adentrava pelas frestas da janela.
-"É o cheiro da torta que mamãe deixou no forno" - falei para as moscas - "Está quase pronta" - completou assistindo-as dançar pelos ares.
- "Adoro o som que as moscas fazem quando estão prestes a morrer de velhice." - pensou - "Sua asas ficam pesadas e quando batem, quebram qualquer silêncio ou tentativa de paz. Poderia observá-las pelo resto da minha vida."
Uma das moscas voou em direção à porta, zumbindo pelo caminho tortuoso que fazia, atingiu uma das quatro paredes e aterrissou no chão, estava morta. Se aproximou da pequena criatura e estendeu o dedo indicador na direção daquela casca sem vida, tocou suas perninhas e as balançou um pouco, imaginou o que aconteceria se esmagasse seu cadáver, o som que faria e o sabor que teria. A pressionou com uma pequena quantidade de força e as periferias de seu dedo se preencheram com o muco amarronzado da criatura.
Observou a face manchada de seu dedo indicador e o correu até os lábios, o raspando contra seus dentes como um fazendeiro que raspa o estrume seco das botas contra uma pedra encravada no solo. No primeiro movimento da mandíbula, sentiu um pequeno estalido, no segundo, a deliciosa amargura da morte que dominava seus sentidos, e no terceiro, um terrível som ecoou pelos corredores, um ruido ensurdecido pelas paredes de madeira, semelhante à uma chaleira.
Quando destrancou a porta, as moscas voaram por cima de seus ombros, se deu conta da semelhança entre o som agudo que ouvia e o grito de alguma criança ranhosa.
- "Adoraria descer e afundar uma lâmina no peito de quem fosse que estivesse atrapalhando minha observação" - gritou para os corredores, no intuito de atingir os cômodos abaixo.
"Melhor não" - disseram as moscas.
"Isto pode ser interessante" - respondeu.
Correu pelo corredor enquanto sentia a presença do dia de verão e do sol do lado de fora, a maldita casa nunca esteve tão quente. Novamente, ecoou pelos cômodos, aquele grito infantilizado, desta vez não lhe restava dúvidas, era um pequeno resto de ser humano e estava do lado de fora, no térreo.
As moscas o seguiam como conseguiam, voando por entre seus membros apressados, focados em apanhar o objeto cortante que havia deixado do lado de fora e afundá-lo no peito daquela pobre e infeliz invasora.
"Isto é loucura, garoto!" - disse uma das moscas.
Por um instante, as moscas pousaram sobre os ombros do garoto quando este exitou para dar o próximo passo, parou e encarou a gigantesca porta que descansava imponente no fim do corredor.
Caminhou em sua direção, ignorando as nuvens embaçadas que passavam pelas frestas, o cheiro de torta estragada e a maçaneta incandescente.
Esticou os dedos, esquecendo-se completamente dos sequenciais gritos que o atraíram até ali e acariciou a maçaneta. Estava sedento para saber o que se escondia por detrás daquela tabua de madeira maciça. - "Poderia ser o próprio demonio respirando do outro lado?" - pensou, esboçando um sorriso.  A maçaneta estava fervendo, mas sua curiosidade infantil jamais seria silenciada pelos sinais de perigo que seus instintos gritavam.
- "Abra-a, afinal, você não quer ver o que há do outro lado?" -  cochichou uma das moscas.
- "É loucura, garoto! Saia daqui." - disse outra.
Girou o punho e a porta se abriu como se estivesse dominada, não pela força de seu punho, mas pela possessão de uma entidade catastrófica, uma entidade alimentada pela curiosidade.
Uma luz estrondosa adentrou suas retinas, sentiu as carícias de uma meretriz incandescente, que deslizava as mãos por seu rosto e ouviu pela ultima vez aquele grito agudo.
Sentou-se sobre uma cadeira de praia, sentiu o sol sobre seus ombros e as queimaduras subsequentes.


- Lágrimas de Gasolina

terça-feira, 14 de abril de 2015

O Show

Ele não tinha nada, exceto medo.
Não medo de morrer ou qualquer outra forma de flagelo físico. Ele tinha medo do anonimato.
Anos atrás, foi um famoso orador de circo. Multidões atravessavam estados apenas para vê-lo abrir os números e espetáculos, e a satisfação do público era tão grande que muitos voltavam uma segunda e até mesmo uma terceira vez.
Hoje em dia seu braço era tão fino que não aguentava mais carregar o comprido microfone. A cartola que pousava em sua cabeça abandonara o preto e tornou-se cinza, com mais bocas do que era possível contar. Ao redor dos olhos, a sombra preta escorria em rios por sua bochecha, acusando trajetos cursados por lágrimas. Seu terno vinho estava engomado, e de acordo com a incidência da luz solar era possível identificar manchas de sangue. Mas nada disso importava, pois no topo daquele prédio, detalhes tão pequenos eram invisíveis.
Uma mulher gritou, alguém implorou para que ele não pulasse, outros ignoraram e continuaram andando. Com o decorrer das horas, podia-se dizer que uma bela multidão havia se formado.
Que comece o show.
Botando-se em pé, urrou que iria pular. Um coro negativo veio em resposta, dando-lhe ainda mais ânimo. Articulou violentamente com as mãos, encenando que a vida não mais lhe era prazerosa, e de que o sol não brilhava como antes. Uma criança desatou a chorar.
A multidão aumentava, assim como sua encenação.
Arremessou a cartola aos ventos, chorando falsamente enquanto observava-a rodopiar pelo céu. E em quanto as horas passavam, mais seu show fazia sucesso.
No final do dia, mais de trezentas pessoas concentravam-se ao redor do prédio, maior do que qualquer público que já o visitara no circo. Carros da polícia iluminavam seu palco com sirenes, enquanto os bombeiros cuidavam da parte acústica. Um helicóptero sobrevoava o local, e se estivesse com sorte, já estaria nos jornais locais.
 Pois bem, era hora de encerrar. Agradeceu a Deus pelo rejuvenescimento de sua alma. Virou-se para descer do parapeito e
Escorregou.
Um passo falso apenas, em um parapeito ridiculamente estreito.
Enquanto caia, a surpresa apoderou-se de seu corpo. Mesclado com a felicidade que sentia, o gozo foi absoluto.

Antes de tocar o chão, jurou ter ouvido palmas. Aquele espetáculo foi seu maior sucesso.


- Dedos Azuis

terça-feira, 24 de março de 2015

Pútrido Ar

O ar mudou.
Não é o mesmo de antes. Certamente não é o mesmo de ontem, e sem dúvidas não é o mesmo de alguns anos atrás.
O ar não carrega mais a pureza que já carregou. Não carrega em pequenas partículas a estabilidade da vida. Não entorpece-nos de riso e alegria.
O ar, hoje, não é mais uma brisa agradável de verão. Não é um leve sopro em um cabelo aleatório.
Não.
O ar mudou, nada é mais como antigamente.
Hoje o ar é pútrido, cheio de ácaro.
O ar é sujo, e não só pelas partículas de poluentes.
O ar está impregnado com partículas que não possuem correspondentes na tabela periódica.
Carregado de cinzas espirituais, de sopros de desespero. Gritos de ódio, gritos de pavor.
Lotado de desapontamento e tristeza, com o cheiro da morte.
Hoje o ar leva apenas a agonia e a angustia.
E se você procurar bem, verá que não é de fábricas que este pútrido ar emana.
Ah, não...
Se procurar da maneira correta, verá que este ar provém do topo de uma montanha,
onde uma multidão perplexa e apática transpira um turbilhão de nada.
Os seres humanos exalam desespero, ódio, pavor. Regurgitam desapontamento e tristeza.
Morrem como se fosse o único fim esperado para uma vida de agonia e angustia.
E aquela maldita multidão, naquele maldito cume de montanha, poluindo o meu ar.
Poluindo o seu ar. O ar da sua mãe, o ar do seu filho.
Infelizmente, naquela multidão encontram-se todas as pessoas.
Sua mãe está ali, observando perplexa e apática. Seu filho também.
E todos eles, cada um que está lá polui o nosso ar pelo simples fato de serem humanos.
Tiram as cores, tiram a saturação, deixando-nos apenas com um cinza opaco.
Se antes era a base para a vida, hoje é apenas uma oxidação precoce dos nossos órgãos.
O ar mudou, e você também está no cume daquela montanha.
E a podridão que você exala também está matando-me mais rápido.

- Dedos Azuis

sábado, 21 de março de 2015

Morte | Lágrimas de Gasolina