terça-feira, 17 de março de 2015

Liberália, a cidade dos Perplexos e Apáticos

As observo de longe.
Um sonho estranho, diferente.
Elas estão se matando, gritando alguma bobagem.
O chão está diferente, uma escuridão amortecida sob os pés das mais variadas faces.
Faces alongadas, faces quadradas e faces redondas. Juntas, gritando como crianças famintas.
Uma voz me pergunta:
"Onde está você?"
Estou aqui em cima, sentado. Apático, imóvel.
Como pude deixar tudo isso acontecer? A culpa é mesmo minha?
A voz responde:
"Como pôde? Como pôde?"
Levanto-me e sinto como se um tijolo atingisse o meu abdome. Não estou preparado.
Alguns deles estão tentando escalar a montanha, vejo-os escalando o abismo sob meus pés.
Estão querendo me pegar novamente, querem me levar para baixo, porém não o farão, pois não o permitirei.
Um deles agarra meu pé esquerdo. Forçando-me a sentar novamente.
Penso em chuta-lo, mas não o farei
Já os chutei certa vez e quando menos percebi estava gritando alguma bobagem adentrado ao abismo.
Uma segunda face agarra meu pé direito. Não cederei.
Não os balanço para que se soltem, apenas firmo os pés no chão.
Um deles grunhe:
"Você é um humano!"
O outro concorda e grunhe em resposta:
"Ele tem razão, seu humano!"
Um humano faria isso? Deixaria o mundo ruir? Ser humano é ser humano? O que é ser humano, afinal?
Estendo uma das mãos para uma das faces.
Venha aqui e sente-se ao meu lado.
Veja as coisas como são.
Ela estapeia a minha mão, recuo. Controlo a vontade de chuta-la e apanho teu punho à força.
Sento-a ao meu lado e assistindo a toda a existência, sua feição se transforma em perplexidade, em seguida começa apresentar indícios de apatia.
Agarro o punho da outra, ela se contorce, gritando:
"Não, não! Eu não quero!"
Sento-a e sua atitude é a mesma da outra. Perplexidade. Apatia.
Estão escalando!
Continuam escalando!
Será uma longa pescaria, senhores!
O melhor será que, no final, não restará nenhuma face no abismo, apenas uma montanha superpopulosa, cheia de observadores apáticos e perplexos.
E não haverá mais nada para se observar, exceto o horizonte.

-Lágrimas de Gasolina

terça-feira, 10 de março de 2015

Discurso de ódio

Querem saber de uma coisa?
Pra mim chega.
Eu não sou mais aquela criança que concordava com tudo, que acenava para um corpo morto no meio fio, que sorria para um filho da puta que não sabe a menor ideia do que está dizendo.
Quer saber de outra coisa?
Eu estou com raiva. Estou angustiadamente com raiva, nesse momento eu gostaria de ter presas de aço para devorar a carne desses desgraçados e depois cuspi-las nos pais incompetentes que criaram estes babacas.
E digo mais.
Estou perdendo a minha flexibilidade, e digo isso a plenos pulmões pra quem quiser ouvir!
ESTOU PERDENDO A CAPACIDADE DE ACEITAR!
Não vou sorrir perante a injustiça.
Não vou bater palmas perante os corruptos, nem aceitar esta instalação que pretendem realizar.
Não, não sou nada disso do que você está pensando!
Minha mãe é uma santa e me deu a capacidade de discernir o que é certo do que é errado.
E corrupção, controle, dor e morte não são sinônimos de liberdade.
Eu vos convido a se libertarem!
Não para abusarem de uma libertinagem desmedida. Estou falando de uma opinião formada! Sem religiões, sem discursos, sem reis, nem deuses. Apenas homens! Homens no sentido integral antes que tentem me taxar.
Vos convido a experimentar da dor e do prazer que é ter o chão sob os teus pés. Ter em mente que as pessoas é quem podem mudar as coisas, ter em carne que possamos fazer algo a respeito!
Batam tuas panelas, façam tuas passeatas, fumem tuas maconhas nas calçadas, baforem na face das crianças, façam o que têm de fazer. Façam o que vocês acham correto!
Não abusem da liberdade! Não da liberdade que lhe foi dada, mas da liberdade pessoal. Do fardo de ser um ser pensante, capaz de discernir e modificar a realidade.
Matem, estuprem, ergam suas bandeiras, o mundo esta em guerra e a guerra os levará a autodestruição.
E quando vocês todos, sem exceção, estiverem a mercê de mim, Eu não juro pelo deus, no qual eu não acredito, mas eu juro por aqueles que me amam e me compreendem, que se eu tiver a oportunidade e vocês à mercê, eu ei de destruir cada fagulha da tua hipocrisia, como tentaram fazer comigo.
Isso é um discurso de ódio, sem duvida.
Adoraria poder amar a todos vocês, adoraria ter este dom messiânico, mas enquanto homem, com falhas e ambições, eu sinto ódio.

-Lágrimas de Gasolina

quarta-feira, 4 de março de 2015

Onze

Hoje faz onze anos.

Nesses aniversários esperamos uma lembrança, uma flor que seja.

Hoje faz onze anos
E creio que ela nem mesmo reparou em mim

O quarto é escuro, a poltrona fica no canto

Hoje faz onze anos e ela não sabe que observo-a

Ela entrou de mãos dadas com outro homem
E deitou ao seu lado na cama

Gostaria de ter um cigarro, cara

Hoje faz onze anos
É a vadia está transando com outro

Onze, que maldito número 
Tão romântico e tão pútrido
Onze anos
Onze traições
Onze mulheres
Onze assassinatos
E uma, não onze, mas apenas uma mísera fração digitada de onze
Uma amaldiçoou-me

Onze vezes puta

E estou aqui
Comemorando meu aniversário de falecimento há onze anos

Hoje faz onze anos


E o sexo durou pouco mais de onze segundos

- Dedos Azuis

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

O Dia que Contaram a História da Criança que tinha Braços de Porco


O tão esperado dia 16 de fevereiro finalmente havia chegado. Era uma segunda feira chuvosa, e não trazia sinais aparentes de mudanças climáticas.

Ao soar do primeiro sinal, às 7h30 pontualmente, todas as crianças correram agitadas para o grande ônibus estacionado do outro lado da rua. Pouco ligando para a chuva, pouco ligando para os avisos de "cuidado", a manada de pequenas criaturinhas apostavam a corrida decisiva pelo lugar ao fundo.

Após a contagem da turma, o professor deu o sinal para o motorista. Com um som intergalático a porta se fechou, e o estudo do meio iniciava-se.
O destino era Brotas, no interior de São Paulo. O percurso pode ser facilmente percorrido em 1h45, se o trajeto for feito de carro. Agora, em um ônibus lotado de crianças, em pleno feriado de carnaval, e com uma chuva que cada vez tornava-se mais aterrorizante, seis horas de viagem era um pensamento otimista.

No começo todos cantavam, e a felicidade era algo contagiante. Com o tempo alguns foram parando, ao passo que todos estavam em silêncio absoluto antes da primeira hora. O professor emendou algumas atividades, que perduravam por não mais de vinte minutos. Tentou cantar novamente, e até jogos foi uma de suas artimanhas.

Na terceira hora, muitos alunos reclamavam da demora. Alguns gritavam insultos e o ânimo do ambiente estava negativo. O professor precisava tentar novamente fazer desta viagem algo prazeroso. Então, persistindo, tentou novamente uma seleção de piadas, músicas, jogos. Tudo em vão. Mandaram-no calar a boca e, sem conseguir saber de onde veio o insulto, o professor explodiu.

Como cartada final, decidiu contar uma história de terror. Encheu os pulmões de ar e soltou um berro gigantesco, antecipando o que estava por vir. Todos pararam, mudos, imóveis, olhando atentamente para o mestre que com dificuldade tentava ficar em pé.

Quando notou ter conseguido a atenção de todos, começou a conta a história da "Criança que tinha braços de porco". Conforme contava, começou a envolver-se com a trama, e animar-se em conseguir prender a atenção de todos. Subiu em um dos bancos, e elevou sua voz em um tom.

As crianças começaram a chorar, a suplicar que parasse com a tenebrosa história. Muitos gritaram e entraram em pânico, urrando para que aquilo parasse. Mas não parou.

O professor ficou vidrado, em estado de transe hipnótico e, quando chegou ao fim, recomeçou a contar. Seguidamente, de novo e de novo, em um ciclo infinito, o professor contou e recontou a história horrível da "Criança que tinha braços de porco".

No final, quando deu por si, o ônibus estava parado no meio da pista, com vários carros cortando-o e buzinando enfaticamente. O motorista não encontrava-se em lugar algum, e as portas e janelas estavam todas lacradas. As crianças, por sua vez, estavam em convulsão coletiva com todos os pequenos corpinhos tremendo, enquanto espuma escorria de suas bocas e sangue de suas orelhas.

A policia chegou junto com o resgate. O professor estava em estado catatônico quando foi levado para a delegacia. Enforcou-se no banheiro ao lado da sala do interrogatório antes que descobrissem qual era o conteúdo da história.

Os jovens tiveram surtos de frio ao longo de alguns dias. Em uma semana todos estavam mortos.

- Dedos Azuis





sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Resposta

Não há resposta.
Não adianta vir até aqui na tentativa de preencher essa tua ambição humana.
Chega! Vai viver a tua vida, vai fazer as tuas coisas e me deixa em paz.
"Aqui, pegue esta moeda."
Eu sei que pra você esse vazio é doloroso. Faz parte da tua natureza.
E se eu te dissesse que a partir daqui não tem mais nada?
Você deixaria de amar teus pais? Ou de beijar teus filhos?
"Pegue um pedaço da minha torta."
Deixaria de ajudar um mendigo? Uma velha a atravessar a rua?
Então quer dizer que você era bom porque deveria ser?
Hipócrita.
"Você pode se sentar no meu lugar."
A fé move muitas coisas e montanhas não é uma delas.
A fé move você. Você sabe disso.
Por que tem de haver algo?
"Me dê uma sacola, eu ajudo a senhora."
As coisas não podem sustentar-se por si só?
Por que não ser bom pela bondade?
Por que deveria existir um céu? Ou um inferno?
"Meus parabéns, é uma linda garotinha."
Você quer ser julgado? Ou quer um feedback?
Reconhecimento? Pra mim, você não passa de uma massa grotesca de ambição e falso altruísmo.
Você não precisa de uma justificativa para ser bom, mas de uma justificativa para não ser mau.
"Eu te amo."
Naturalmente podre. Naturalmente mau.

- Lágrimas de Gasolina





quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

4:19 a.m.

Acordei com a insana gritaria.
No começo achei que era chuva, mas quando ouvi os distantes barulhos deduzi ser granizo.
Os barulhos aumentavam, abafando o som dos gritos. Eram sons inconstantes com uma frequência absurdamente alta. Os antes pequenos barulhos agora parecia séries de explosões desordenadas.
Corri pelo quarto escuro, usando ambas palmas das mãos para arremeter contra as janelas fechadas.
Na antes tranqüila cidade, agora incêndios coloridos preenchiam toda minha visão, e constantemente formavam se outros, conforme as estrelas continuavam caindo.
Não, não estou louco.
TODAS estavam caindo, derretendo do céu, vindo para a Terra com a velocidade de cometas.
Era o fim aproximando.

Acordei com o som de meu despertador, dando um grito agoniado. Estava empapado em meu próprio suor, e tremia como o celular que vibrava.
Antes que pudesse desligá-lo, ouvi uma enorme explosão do lado de fora da janela.
Corri pelo quarto escuro, usando ambas palmas das mãos para arremeter contra as janelas fechadas.
Na antes tranqüila cidade, agora incêndios coloridos preenchiam toda minha visão, e constantemente formavam se outros, conforme as estrelas continuavam caindo.
Não, não estou...

Acordei com o som de meu despertador, dando um grito agoniado. Estava empapado em meu próprio suor, e tremia como o celular que vibrava.
Antes que pudesse...

Acordei com a insana gritaria.
No começo achei que era chuva, mas quando ouvi os distantes barulhos deduzi ser granizo.
Os barulhos aumentavam, abafando o som dos gritos. Eram sons inconstantes com uma frequência absurdamente alta. Os antes pequenos barulhos agora parecia séries de explosões desordenadas.
Corri pelo quarto escuro, usando ambas palmas das mãos para arremeter contra as janelas fechadas.
Na antes tranqüila cidade, agora incêndios coloridos preenchiam toda minha visão, e constantemente formavam se outros, conforme as estrelas continuavam caindo.
Não, não estou louco.
TODAS estavam caindo, derretendo do céu, vindo para a Terra com a velocidade de cometas.
Era o fim aproximando.

Esperei pelo despertador tocar, para acordar deste maravilhoso espetáculo apocalíptico. Ao mesmo tempo que era belo, era fatal, aterrorizante.
Era questões de segundo até... Até o despertador tocar...
Em breve...
As explosões aproximavam-se, as estrelas caiam cada vez mais próximas.

Colocando a cabeça para fora, olhei para cima em direção vertical, observando o grande astro que aproximava-se.

O despertador nunca chegou a tocar.

- Dedos Azuis




quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Lxbxrdxdx

As vezes eu acho que nasci na época errada.
Olho para os lados e vejo um amontoado das mais diversas faces da classe A, reclamando e reclamando.
Reclamam daquilo que não têm.
Reclamam daquilo que têm.
Reclamam daquilo que poderiam ter.
Uma criança correndo.
Agora, ela chora. Foi pega.
Olho para o outro lado. Vejo a minha educação, meus ideais e meus princípios. Todos eles de punhos atados, não podendo se mover.
"Queremos sair! Queremos conquistar!", gritam.
"Fique ai! Não corra! Não chore! Não quero ouvir nem um pio!", respondem.
Antes, como crianças dispersas, as palavras podiam correr por ai, sem policiamento algum.
"Você é um idiota! Liberdade nada tem a ver com isso.", respondem, mais uma vez.
Se a minha liberdade não é ditada por mim. Por quem será?

"Você está errado!"
"Você é homofóbico!"
"Você é racista!"
"Você misógino!"
"Você é desumano!"
Não é verdade. Ser negro, não te faz mais humano do que eu. Ser mulher, não te faz mais humano do que eu. Ser homossexual, não te faz mais humano do que eu.
Por que teus rótulos me fazem menos humano?
Quem oprime quem? E os valores, onde ficam? Atados?
"Pare com isso, você se vitimiza demais."
Então, esse é o sentimento?

- Lágrimas de Gasolina






segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Liberdade de Expressão

Não posso mais olhar para os lados sem ter alguém pra apontar-me um dos dedos.
Não posso mais caminhar sem que alguém me diga o quão torto é o meu andar.
Não posso mais dizer o que penso.
Não posso mais pensar que estou certo.
Se sou seguro, sou inflexível.
Se sou transparente, sou inconveniente.
Se sou introspectivo, sou antipático.
Se sou extrovertido, sou exibido.
Se sou flexível, sou manipulável.
O tempo todo as pessoas tentam rotular.
Parece que sempre temos poucas opções para tantos rótulos.
Tenho que andar de cabeça baixa. Tenho medo de ofender alguém. Tenho medo do que as pessoas podem pensar quando digo algo.
Elas vão tentar me rotular e em seguida me foder.
Elas estão me rotulando neste momento. Querem me foder!
É melhor que eu me censure antes que o façam por mim.
Melhor não dizer o que penso.
As pessoas estão prestes a destruir a maior ferramenta social já criada.
Em pouco tempo, destruirão a liberdade de se expressar e em breve, a expressão em si. Em seguida, a interação humana.
Todos terão medo de serem ouvidos. Todos serão oprimidos e opressores.
Criaremos uma casta de criaturas que não conseguem ser contrariadas, do mesmo tipo que se ofende com ideias aversivas.
Eu só quero estar morto quando estes opressores oprimíveis estiverem no comando e com a razão.
Não suportaria a ideia de um vilão inconsciente no poder.
Eu só espero que, pelo menos até lá, vocês deixem eu me expressar como eu bem entender.
Seja certo ou errado, de cara ou chapado.
Deixa eu falar, filho da pxtx!

- Lágrimas de Gasolina

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

.9mm

 Popin Jack tragou seu narguilé, aspirando aos dezoito céus que compõe nosso universo uma fumaça tênue, com aroma de menta.
 Sentado no parapeito de um gigantesco arranha-céu, desfrutava de mais um por do sol. Mesclando-se com sua sombra, as cordas que prendiam seu pulso alongavam-se, terminando em algum infinito que  Popin nunca havia chegado.
 Hoje ele tem 35, mas descobriu que era uma marionete aos seis. Não foi difícil, na verdade. Sem pais, invisível às outras pessoas, com cordas em cada extremidade de seu corpo e, fundamentalmente, sem livre-arbítrio.
 Popin Jack não podia escolher se ia ou vinha, ou até mesmo se dormia ou acordava. Nem mesmo o trago do narguilé era sua escolha, e sim uma esticada de corda de algum Ser que estava acima.
Ele era uma marionete, pois bem, sem escolha alguma de sua vida. Apenas ia vivendo conforme lhe era designado.

 Ontem, dia 14 de Janeiro, enquanto os últimos raios de sol se despediam para deixar suas enteadas nuvens trazerem a chuva, Popin observou um acidente no centro da cidade. Dotado de onisciência e onipresença, conseguiu acompanhar todo o destrinchamento do horrível drama.

 Maria chegou em casa, encontrou seu marido Roberto traindo-a com outra, Ana, em sua própria cama.
 Maria furiosa sai de casa e vai para um boteco qualquer, afogar seu sofrimento enquanto observa o mundo por trás de um fundo de copo.
 Enquanto isso Roberto perde o controle, motivado pelo nível de estresse da situação e mata Ana com uma .9mm que guardava na gaveta da cozinha.
 Maria sai do bar dirigindo, perde o controle do carro, atropela duas garotinhas, Nicky e Lara, e destrói a loja do Arthur, revendedor de eletrodomésticos.

 Horas depois, o pai de Nicky e Lara, Matheus, entra na delegacia com uma .9mm recém adquirida e mata Maria com três tiros.
 Arthur colocou sua casa como fiadora de sua nova loja, que estava aberta a apenas uma semana, e todo o investimento feito foi fruto do montante de sua aposentadoria. Desejou ter uma arma, seria menos doloroso. Todo seu dinheiro, toda sua esperança, tudo destruído por uma garota mimada que decidiu beber apenas por fazer farra, sem motivo algum. Como não tinha uma arma, Arthur jogou-se do vigésimo segundo andar de seu prédio.
 Matheus foi preso.
 Roberto usou a última bala de sua .9mm quando viu o noticiário.
 O dinheiro que Matheus pagou por sua .9mm ilegal foi o mesmo dinheiro que Cláudio, traficante de armas, injetou em suas veias e morreu de overdose na madrugada do dia 15 de Janeiro.



Popin Jack tragou mais uma vez seu narguilé, e, não por vontade própria, pegou um pequeno caderno que jazia ao seu lado, no topo do prédio.

Os caminhos que as pessoas trilham, as decisões que tomam, é tudo um grande efeito borboleta. As vezes uma decisão sábia se mostra estúpida. As vezes o seu investimento te deixa na miséria. As vezes o seu amor parte seu coração em mais pedaços do que sua alma é capaz de juntar. As vezes, ou melhor, sempre, as escolhas erradas estarão presentes. E é nelas que encontraremos as maiores frustrações, os maiores sofrimentos e, muitas vezes, o nosso ponto final.

Com uma caneta esferográfica azul que falhava em 20% de seu uso, escreveu nas páginas amareladas:

" Será que nosso livre-arbítrio é a razão de nossos sofrimentos?"

Sem mais, tirou uma .9mm que estava atado à seu cinto e disparou contra sua têmpora, deixando as cordas frouxas caírem junto com seu corpo sobre uma cidade preta e branca.

- Dedos Azuis





terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Presença

"Engraçado..."
"O que é engraçado, filho?"
"Ah, nada. É que simplesmente esse era o lugar que ele passava a maior parte do tempo, sabe?"
"É, é verdade."
"Ele ficava aqui conversando com as flores, regando-as o dia todo. Parecia que ele gostava mais delas do que de mim. Sei lá."
"Ah, filho, isso não é verdade, seu pai te amava e ele ficaria orgulhoso do homem que você se tornou."
"Não é isso, mãe. É que tá passando tanta coisa comigo, a escola, os amigos e tem essa garota, agora."
"Ah, tem uma garota? E ela é bonita?"
"Ela é linda, engraçada, inteligente e tal, mas é que não sei."
"Você pode contar qualquer coisa para a sua mãe, querido."
"Ah..."
"Vamos, pode falar."
"É que eu não sei se ela aceitaria o nosso estilo de vida."
"Se ela gosta de você com certeza vai te aceitar do jeito que você é."
"As pessoas me olham engraçado na escola. Ontem, o nosso mascote de sala, Billy, morreu e ninguém compreendeu nada do que tinha acontecido, só eu. A professora até chamou a psicologa para conversar comigo e disse que queria conversar com meus pais."
"E você?"
"Eu disse que vocês estavam viajando."
"Fez bem, meu querido. Desculpe não ser a mãe mais presente do mundo."
"Desculpas aceitas. Acho que ouvi a campainha, mãe. Quando o papai acordar você me avisa, ok?"
"Aviso sim, meu lindo."
"Descanse um pouco. Tchau, te amo."
"Tambem te amo e Ah! Não esqueça o hamster."
"Ah, sim. Vamos, Billy."

- Lágrimas de Gasolina




domingo, 28 de dezembro de 2014

Feliz Ano Novo!

"Mas já são quase nove horas."
"Amanhã eu começo."
"Nossa, hoje é dia 27."
"Eu tenho o resto do mês pra fazer."
"Pode ser na segunda?"
"No ano que vem eu vou emagrecer."
"Eu te entrego no mês que vem, eu prometo."
"Não vou poder ir hoje, não dormi muito bem essa noite."
"Hoje eu estou cansado demais para isso."
"Quem sabe na próxima?"
"Só mais 15 minutinhos."
"Não perturbe seu pai, ele trabalhou o dia todo hoje."
"Primeiro o dever e depois o lazer."
"Quando você for mais velho poderá ficar acordado até tarde."
"Passei trinta minutos nesta fila."
"Maldição. Não acredito que perdi o ônibus."
"Esqueci de ligar para a minha namorada."
"Como você pode passar tanto tempo na frente da televisão?"
"Saia deste computador!"
"Não perca seu tempo com ele."
"Vamos correr no parque?"
"Amanha será um novo dia!"
"Hoje não estou disponível."
"Que tal irmos jantar fora?"
"Feliz aniversario atrasado!"
"Acho que esqueci as minhas chaves no carro."
"Devia ter estudado mais."
"Feliz ano novo!"

- Lágrimas de Gasolina

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Feliz Natal

Hoje eu percebi como as coisas andam perdendo as cores.
Não só hoje em especial, mas hoje era para ser especial, porra. Hoje é Natal, afinal.
Me lembro dos presentes que ganhei, laços bonitos e laços feios, grandes e pequenos, coloridos e foscos, de todos os tipos, todos se presenteando, todos sorrindo e gritando:
"Feliz Natal! Feliz Natal!"
Me lembro das cadeiras cheias. Das mesas fartas. Das crianças correndo e eu era uma delas.
Era tudo muito bonito.
Estou sentado, não sinto o sono. Sinto a insonia e a falta de vontade.
Vejo a falsidade, não vejo as cores, uma cadeira vazia logo ali.
A sala não está mais tão cheia quanto o ano passado.
Um primo que viajou, um avô que se foi. Um pai estressado.
"Ele não gostou do presente."
Não sei por que eu não via essas coisas quando era menor.
Minha pequena cabeça trabalhava para encontrar laços bonitos e presentes grandes.
Parece que ela já não funciona desse jeito.
"Vou ter que trabalhar no Natal."
Estamos perdendo a humanidade, o amor, o significado. O Natal nunca foi tão vazio.
Estou envelhecendo e as outras pessoas tambem.
Não me preocupo mais com o que vou ganhar.
Não me preocupo mais com os presentes.
Vejo as crianças correndo. Não sou uma delas.
"Volte aqui! Pare de chorar!"
Para onde foi a inocencia?
Para onde foram as cores?
Para onde foi a magia?
Para onde foi o Natal?
"Estamos indo. Boa noite, obrigado por tudo!"
Nunca precisei agradecer antes. Simplesmente pegava meus presentes e ia embora.
Sorrindo como a criança brincalhona que era.
Vejo um resto de magia e ela está refletida nas crianças.
Será que eu transmitia essa mesma sensação?
Transmitia, porque não transmito mais.
Sou apatico.
"Precisamos ir."
"Vou logo em seguida. Podem apagar as luzes."
Mas, que luzes?

- Lágrimas de Gasolina

FELIZ NATAL!


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Pré-Natal

"Agora você aparece de novo! Como vou explicar para os meus pais?"
"Idiota! Idiota!"
"Como isso foi acontecer? "
"As vezes as coisas não são como esperamos e é isso, só isso."
"Como assim? Do que você tá falando?"
"É, você sabe. De tudo isso que tá acontecendo. Seu esposo morto na banheira, sua gravidez inesperada, esse tipo de coisa."
"As coisas fugiram do controle. Agora, eu não sei o que eu faço."
"Você devia começar pelo corpo."
"Do Pedro? Não, eu não posso!"
"Não, sua boba! O outro corpo, esse dai que você carrega contigo já fazem alguns meses, afinal, não é por isso que Pedro está morto?"
"N-Não, na verdade, sim. É por isso mesmo."
"Então, muito bem, vá ao banheiro e tire isso de dentro de você. Já começaria bem."
"Eu não posso, ele é meu filho, minha criança. Eu não posso simplesmente retira-lo. Ele não é uma sujeira que esfrego dos meus pés e em alguns minutos está fora."
"Eu sei, use a arma."
"Usar a arma? Você está louca? Como eu vou abortar uma criança usando um revolver?"
"Eu não estou falando com.você, eu estou falando com a criança."

"Dois disparos. Uma cabeça suja. Um chão sujo de sangue. Passos, pequenos passos. Uma banheira. Dois cadáveres"
"Não há ninguém por aqui. Quem é essa? Parece que essa pobre infeliz atirou no esposo e depois se matou."
"Pouco provável, olhe para a pernas dela. Estão mutiladas."
"Nessa cidade, só acontecem coisas loucas, cara. Na verdade, eu já to de saco cheio disso tudo."
"Como assim?"
"Ah, você sabe, todas esses crimes sem solução aparente. Mulheres mutiladas, mortos nas banheiras. Tô cansado. Sei lá, minha vida anda uma merda também, a Mari disse que está gravida. Já fez o pré-natal e tudo, sem eu saber."
"Poxa, cara. Que bacana."
"É, é, seria bacana se eu não fosse um fodido. E pra piorar ela disse que talvez sejam gêmeos."
"Chega disso, vamos comer alguma coisa. Porra, fique feliz pela gravidez de sua mulher, é o minimo que ela espera de você."
"É, pode ser."

- Lágrimas de Gasolina

domingo, 23 de novembro de 2014

Blocos

Talvez qualquer dia, eu encontre de novo.
Talvez qualquer dia, eu consiga trazer de volta aquilo que te trouxe para mim.
Eu fiquei confuso, sozinho. Ela apareceu, surgiu como o vento, empurrou algumas coisas e foi embora.
Eu tenho a estrutura forte. Tenho um muro emocional dentro de mim.
Ando pensando muito em tudo o que aconteceu, tudo o que fiz de errado. Revisei tudo, de ponta à ponta, e nada.
Não encontrei uma falha minha se quer.
Mas quem sabe? Quem sabe o problema não seja eu? Será que no começo ela não reparou no problema que estava adquirindo?
Será que demorou tanto tempo assim, inversamente proporcional ao meu apego?
Algumas vezes se passaram. Ela disse que não queria mais.
Foi embora.
Deixou uma magoa e uma ferida. Uma tristeza e um vazio.
A maior injustiça foi que eu nem ao menos soube o porque. Não deu satisfação, e nem devia.
Eu sei que essas coisas acontecem com todos o tempo todo. Todo mundo já teve uma decepção aqui e ali.
Mas eu não tenho medo do que está por vir. O meu medo provem de assuntos muito mais pessoais.
Sinto que estou perdendo a capacidade de amar.
Estou me transformando cada vez mais naquilo que um dia eu jurei combater. Estou me transformando em um monstro sentimental, um devorador de emoções.
Não sinto mais vontade de ter alguém, não sinto mais vontade de agradar, não sinto mais vontade de amar.
Eu só quero à mim, só quero o eu. Pensar em mim, sempre.
Não sou um merda de um egoísta, mas sim, fruto de decepções.
E quando eu disse que era formado em rejeição. Eu não havia mentido. Eu não minto.
Hoje, não sou mais formado em rejeição.
Hoje, sou mestre e tenho pós em reciprocidade. Meu material de trabalho são cimento e tijolos.
Semearei bondade e colherei afeto.
Caminharei com quem caminha comigo. Lutarei por quem luta por mim.
Amarei quem me ama e destruirei quem quiser me destruir,
Minha alma está acinzentada como um tufo de algodão usado.
Não permitirei que nenhuma outra pessoa a escureça mais, não terão chance, pois não a darei.
É apenas mais um bloco no muro.
Apenas mais um bloco.

- Lágrimas de Gasolina





sábado, 12 de julho de 2014

Maria

E quando a morte se torna clichê e o amor se torna banal?
E quando as coisas deixam de fazer sentido, mas você não se importa?
Será que é isso o que chamam de crise existencial?
Sinto que meus sentimentos estão amordaçados. Minha mente direciona uma foice na direção do meu coração, dizendo:
"Controla teus hábitos, pobre infeliz. Não quero perder mais nenhuma noite de sono."
E assim se fez e assim se faz.
Estou amordaçado. Não digo mais o que não preciso dizer. Não tento demonstrar o que não sinto.
Me tornei frio, calculista. Me tornei um monstro que jurei jamais me tornar um dia.
Me transformei no mais podre dos tipos. Não sinto pela perda, mas a respeito, de forma intima, mas a respeito mesmo assim.
Me calei, blindei minhas defesas, me tornei forte. Mas até quando essa força será uma vantagem?
Até quando manterei minhas emoções sobre controle?
Fui destruído e me reconstruí. Me apoderei dos detritos que restaram dentro de mim e construí uma barricada impenetrável.
Eu não sou assim, nunca fui e espero que isso acabe.
Foi um monstro deste, do pior tipo, que me tornou assim.
Não, a culpa não foi só sua. Me lembro bem, de ver o ser mais valioso para mim, em um leito de definhamento e eu nada podendo fazer. Senti, com uma intensidade muito superior, a dor que é ter em mente que um dia eu vá perder tudo que amo. Principalmente ela.
Foi a partir daquele momento, naquela manhã, que eu percebi que nem todas as dores já sentidas seriam superiores a perder você.
A partir daquele momento, eu comecei a dar valor ao que realmente importa. Deixei de lado minhas ilusões, deixei de lado minhas asneiras, abri mão de minhas manias.
Eu me transformei no filho da reciprocidade. Sinto pelos que sentem, amo pelos que amam.

- Lágrimas de Gasolina

terça-feira, 8 de julho de 2014

Mágica

Como num passe de magica.
As cortinas se fecharam.
O show acabou.
O sol se recolheu.
Arregacei as mangas pra poder fazer o que faço de melhor. Esquecer.
Ali não existe mais o que existiu.
A criança que cresceu, envelheceu.
Logo surgiu uma nova flor naquele campo de odio.
Num passe de magica.
As luzes se foram.
Como sempre acontece, se foram. Eu só não estava preparado, mas o mais incrivel é que quando aconteceu não deixou sequela. Não deixou rancor. Nem magoa.
Por que me amargurar por perder algo que nunca me pertenceu.
Sim, eu sei que ela é um espirito livre. Sempre foi.
Jaulas não a aprisionaram. As escolas tambem não conseguiram. Quem dirá a selva de pedra.
Nem mesmo o coração de um pobre apaixonado poderia segura-la, afinal, ela é como uma força da natureza, indomável, inatingível, incontrolável e descontrolada.
Dizem que é a minha cabeça que funciona demais, que eu sou louco por volta e meia.
Eu não sou louco. Eu sou só mais um, mais um que caiu nas garras deste vendaval.
Segure as pontas, as rédeas escaparam.
O cavalo fugiu, levou a natureza e levou o amor.
Destruiu tudo que construí mentalmente.
Ou melhor, fez desaparecer.
Como um passe de magica.

- Lágrimas de Gasolina
Porque minhas lagrimas ardem quando saem, mas queimam quando caem. E a minha dor outrora sentida, não é, nem será, de longe, a maior das dores que estão por vir.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Especial

E quando você já não consegue mais discernir as coisas?
Ou melhor, e quando você não consegue discernir uma coisa, em especial?
Em especial, é a palavra. Sempre existiu e sempre existirá uma questão em especial. Algo que te faça pensar durante as noites. É, você sabe do que eu to falando.
Eu to falando daquela coisa que bate no teu peito quando vem. Que te arrepia quando vê.
Venha caminhando ou em onda. Ah, a onda. No meu caso, ela caminha e quebra sobre a minha coluna.
Eu já não sei discernir o que é, ou pensar em quando tudo isso começou.
Faz quanto tempo que a flor virou espinho? Que o casual virou necessidade?
A sensação de querer que aquilo que eu não entendo venha e me rodeie, sem rodeios.
Não quero ter que ir atrás e correr o risco de me furar com teus espinhos, mas ao mesmo tempo eu preciso ir atrás. Quero ser furado.
Qual é o problema nisso tudo? É tudo tão simples e ao mesmo tempo tão complicado.
"Acorda!" Eles disseram "Não, fica nessa não. O mundo tem muito pra ser vivido, muito pra degustar."
Eu gosto do sabor da duvida e dessa em especial.
Em especial. Essa é a palavra.
Fora do comum, notável, excelente. Palavras que não preenchem as lacunas desta duvida. Duvida que tira minhas noites bem dormidas.
Um dia amanhece como flor, cospe teu néctar em mim, Noutro fura meu peito com teus espinhos.
Meu medo é transformar tudo isso em lembrança. Lembranças estão ai para serem lembradas. Ó, pare com isso. Lembranças são um prato cheio para a infelicidade. Eu escarro nelas ou grito, para meus velhos amigos, numa mesa de bar. Lembranças para serem lembradas, não as quero. Eu escolho o momento à lembrança. O momento, eu o vivo.
Não quero que isso acabe. Sempre procurei e encontrei solução para tudo, porque eu quis, mas desta vez é diferente. Não quero sanar esta duvida. Quero que ela caminhe comigo. Gosto da sensação, mas até quando?

- Lágrimas de Gasolina

domingo, 22 de junho de 2014

Abra seus olhos

Dorme...
Dorme...
Dorme...
Dorme...
Dorme...
Dorme...
Dorme...
Dorme...

Agora você acorda!

E vê que só tem aquela ramela grudando.
Seus olhos gordos de porco, cheios de lavagem.
Daquelas coisas imundas que você vê, ou que finge que não vê, no seu cotidiano mesquinho e insignificante.
Vivendo como um animal preso num curral, jogado na merda oferecida pelo sistema, que impõe regras e métodos, só nos engordando para esperar o dia do abate.

Boa noite, sai da ilusão

Abra seus olhos

- Cósmos

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Um dia de Mãe

André não lembrava de mais nada daquele dia, daqueles anos. Era muito pequeno.

A única coisa que lembrava com clareza era daquela falsa promessa:

"Vou comprar leite", ela disse.

"Volto logo", ela disse.

Ela não trouxe o leite, muito menos voltou logo. 

Os anos se passaram, acumularam-se, tornaram-se uma grande gaveta de poeira,

onde detalhes não importavam nada e importavam muito. 

Era difícil, foi difícil. Sempre vai ser. 

Seu pai é ótimo, mas é pai. Sua mãe nunca esteve presente.

Seus avós eram ótimos, mas eram avós. Não lembrava do rosto de sua mãe. 

Escola, namoradas, faculdade, carro, emprego, decepções, decepções, decepções. 

Seu pai estava lá, uma verdadeira chapa de aço indestrutível, mas onde estava sua mãe? 

"Volto logo", ela disse. Estas palavras ainda ecoavam em sua mente.

Hoje, com 78 anos, no seu quarto, dentro de um asilo, sentia sua respiração diminuindo. 

Sentia o pó tornando-se mais presente, sentia o ácaro tornando-se mais presente. 

Sentia o cheiro da morte tornando-se mais presente. 

André teve uma vida boa, só não teve uma mãe. 

Ela nunca apareceu, em seus 78 anos ela nunca apareceu. 

Mas hoje ela está ali. 

Não, ela não está morta. 

Ela está divina, com seu corpo de vinte, vinte e cinco anos. 

Seu cabelo louro dourado descia liso como uma cascata em suas costas. 

Trazia no rosto uma máscara que cobria seus olhos, mas claramente reconhecível. 

Amarrada no pescoço, uma longa capa azul lhe adornava. 

E então, agora, com 78 anos, ela contou para André o real motivo de ter partido.

Disse que fora convocada, fora escolhida

Para tornar-se uma super-heroína

Disse que todos os dias da vida de André esteve presente,

Protegendo-o em cada esquina, em cada decisão.

Revelou que não foi mãe, mas fora anjo da guarda e,

ajoelhada aos pés enrugados de André, pediu perdão. 

André sorriu, com os olhos cansados, e abraçou a mãe. 

- Por 28 mil dias, você foi heroína, e por 1 será mãe.

- Mas escolhi desta forma para poder te proteger... - sussurrou a mãe.

- Mal sabes que mães na verdade não só são mães. Não existe dias de mães ou dias de heróis. 
Mães todos os dias sãos mães, são anjos, são super heroínas. 
São professoras e amigas, são apoio e incentivo. 
Mas não me peça perdão, minha mãe.
Não cabe à um filho decidir se perdoa ou não nossa mãe. 

E passando os braços sobre os ombros de sua mãe, ambos saíram do asilo, 

Ela assumindo sua posição de super heroína na Terra, enquanto André ajudaria a defender outros reinos. 

- Dedos Azuis 

domingo, 15 de junho de 2014

Veludo

Era fino e liso o tecido, a pele esquentava cada vez mais a obsessão era tanta que não importava quem estava embaixo. O importante era estar ali. Me passavam varios nomes na cabeça exceto o seu. Você pede para que eu permaneca mas não convenceu. O meu ego é tão grande que preencheu o vazio que você ocupava não faz falta, nunca fez e nunca fará sempre foi e sempre será: só eu.

- El Dr. Rios Eguo