sexta-feira, 13 de junho de 2014

O Príncipe do Nada

Apoiei a sola de meus pés descalço no parapeito do edifício. 

Se era o mais alto da cidade, eu não sei. O que sei é que precisava remar para longe.

Mas qualquer passo, qualquer direção, eu cairia.  

Garota, você não sabe o quão o céu é pesado, quando você está aqui

Aqui, tão perto, tão próximo. Tão azul e tão pesado. 

Senti a pressão no peito. Tristeza, desapontamento, fracasso. 

Toda a emoção de uma vida medíocre, preta e branca, branca e preta.

Algo quente na mão, uma gota de sangue. Tampo o nariz, culpado branco. 

Sinto o pensamento longe, a dor de cabeça crônica. Meus olhos pesados estão nublados. 

Meu braço dói. Outra gota de sangue, mas não escorreu do nariz. 

Um vergão roxo, picadas de agulha, picadas de mosquito.

Olho para os seus. Onde está você, onde estão vocês? 

Cada dia, cada mês. Em todos estes anos. Tantas ligações, tantas mortes. 

Tantos amigos. Atropelamentos, assaltos, câncer, infarto. Suicídio. 

Uma vez fui príncipe. Hoje meu reino é pó e ácaro. 

Olho para baixo, para os carros, para a rua. Tristeza, desapontamento, fracasso. 

E então o céu tornou-se mais leve e as nuvens abriram-se

E Deus desceu. 

Desceu e disse

Nada. 

E o parapeito tornou-se canja

E o Nada tornou-se meu reino.

- Dedos Azuis 

sábado, 7 de junho de 2014

Best at Something

Just being the best at being alone
It sucks sometimes
Not all the time 
Sometimes is even better
It's easier to think
If there's no one to put their stupid lives in the way

- Tim 

domingo, 1 de junho de 2014

Rede Social

O clique do mouse tornou-se tão repetitivo que passei a processá-lo de forma mecânica.

Enquanto as janelas iam abrindo e fechando, iluminando meu rosto, meus olhos acompanhavam cada movimento com um frenesi doentio.


- Allan, não vou te chamar de novo! Desça agora! 


Ignorei o chamado de minha mãe completamente, e continuei imerso em minha rede social. 


Meu pai então abriu a porta com uma força brutal, precipitou-se sobre meu macbook e socou seu teclado, berrando:

- Saia disso agora!

Saindo de meu quarto com a mesma velocidade que entrou, meu pai deixou-me sozinho.


Gritei ao ver a tela de meu computador oscilando de forma penosa. Cliquei diversas vezes e tentei digitar, mas nada. O note estava quebrado.


- Não, não, não...


Era inútil. Minha vida tinha acabado.


Com o coração apertado e uma náusea monstruosa, precipitei-me para descer e jantar, mas algo estranho aconteceu.


Não conseguia soltar a mão do mouse. Não, não era por vontade. A minha mão realmente não se soltava, como se uma força maior a puxasse. Como um vetor, de mesma força e intensidade porém de direção oposta, o teclado quebrado sugou minha outra mão. 


Estraçalhando todas as peças, senti a eletricidade percorrer meu punho quando toquei na placa mãe do notebook. 


O mouse rachou também, dando abertura para minha outra mão preencher seu interior.


Antes que eu pudesse gritar, a tela sugou meu rosto, e todo o meu corpo foi parar dentro do espaço virtual.


E então, finalmente senti paz. Estava ali, em baixo da foto que escolhi para minha capa, em um pequeno quadrado com a borda branca na superfície esquerda da tela, sorrindo para todos aqueles que clicassem em Allan de' Lucca. Agora eu não era só um operador, e sim meu próprio perfil.


- Dedos Azuis

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Ponto

Sabe, existe apenas uma coisa que eu dou mais valor do que a minha própria vida.
Não vou dizer exatamente o que é, porque isso é coisa minha e é problema meu.
Mas naquele dia, foi o dia em que colocaram-me em xeque.
Me lembro bem, malditos manipuladores, aqueles que escarram o pútrido sabor das palavras em meus tímpanos. Os dissimulados, que empurram bons sorrisos goela abaixo.
Lembro-me de estender a mão para um destes e vi todo o resto se desfazer.
Malditos sejam.
"Hei, espera um pouco, afinal de contas isso tudo tem um sentido? Por que você tá me contando isso? Qual é o ponto, cara?"
Afinal das contas, por que as coisas devem ter um ponto? Sempre pensei nisso. Será que qualquer tipo de ponto é válido? Pontos de partida e pontos de chegada? Com qual destes as pessoas mais se importam?
Ultimamente tenho pensado, creio que os pontos de chegada sempre foram os de maior interesse!
"Porra, cara, mas é lógico. Ninguém nunca quer saber como as coisas começaram. Essa parada de contexto e o 'por que' das coisas sempre foi papo furado."
Mas será que os fins justificam os meios? Como viemos parar aqui, afinal?
"Não sei, cara. Eu tenho uma teoria muito louca, as vezes penso que viemos de um meteorito ou coisa parecida."
Não, cara. Você não me entendeu. Como chegamos na droga deste assunto!
"Putz, cara, você tava falando algo sobre amor á própria vida e coisa e tal."
Ah, é verdade. Então, como estava dizendo, existem apenas duas coisas que eu dou mais valor do que a minha própria vida (...)

- Lágrimas de Gasolina

terça-feira, 29 de abril de 2014

Oi, tudo bem?

Sabe, hoje de manha me perguntaram como eu estava.
Eu respondi que estava bem, mas agora eu parei para pensar nisso.
Será que eu estava bem mesmo?
Eu nunca paro para pensar quando alguém me faz uma pergunta dessas, eu simplesmente respondo e vou embora. Não preciso ficar me estendendo. As pessoas normalmente nem esperam eu responder, parece que elas realmente sabem que eu estou bem e que vou responder que estou bem.
Sera que toda conversa que eu ter daqui pra frente com as pessoas vai se resumir a isso? Uma pergunta retorica e uma resposta retorica? Será que é isso que eles querem dizer com papo furado? Não sei responder, sei lá. Simplesmente, nunca me importei. Mas... Por que agora?
Será que o Joe sabia que eu ficaria sentado nessa poltrona pensando sobre isso a noite toda? Será que o Joe fez isso com a intenção de que eu ficasse em casa? Não, como Joe faria tal coisa? Ele é um imbecil. Jamais arquitetaria um plano desses. Ele deve estar dormindo agora.
Nossas palavras não passam de cascas, no fim das contas. Sim, é isso. Cascas. Palavras são tipo... Tipo o sabor de hortelã de um daqueles cigarros de sabor. Um Câncer saboroso.
E se eu fosse um câncer o tempo todo? Ou será que as pessoas gostam de cascas e de hortelã?
Maldito Joe e suas perguntas retóricas. Ele deve estar trepando com a minha namorada nesse momento.
Isso seria uma pena se eu tivesse uma namorada. Quais são suas intenções, cara?
Sabe de uma coisa? Amanha eu vou responder que não estou bem. É, é isso que eu vou fazer.
Mas será que amanha eu vou estar bem? E se eu estiver?
De qualquer forma.
Boa noite.

- Lágrimas de Gasolina


quarta-feira, 9 de abril de 2014

Derrota

Sabe do que as pessoas gostam?
Sabe do que eu gosto?
Eu gosto de você.
E você? Gosta de si?
E se eu fosse você?
E se essas pessoas fossem irrelevantes?
E se tudo o que aconteceu, não fosse?
E se as coisas tivessem sido diferentes?
Você olharia pelo reflexo do tempo com os mesmos olhos de antes?
Veria um futuro e sorriria?
Ou faria como muitos, abaixaria a cabeça e seguiria em frente?
Seguir em frente. Essa é a frase dita por muitos.
E se não seguir em frente fosse a chave?
A desistência, muitas vezes desencadeia novas probabilidades.
E se essas novas probabilidades dessem frutos?
Você os colheria ou os deixaria apodrecer?
E se apodrecessem? Desistiria novamente?
Até quando o desistir será encarado como derrota? Será que o mundo não vê que a desistencia ou a fuga pode ser encarada como uma nova chance? Uma chance de recomeçar?
As vezes os frutos do sucesso não são tão saborosos quanto os frutos que ainda não provamos, como saber?
Por isso eu digo, abra-se para novas probabilidades. Quebre tuas colunas e parta tuas correntes.
Liberte-se do conceito de vitoria e do conceito de derrota.
Cresça. Aprenda. Erre.
Parta. Fuja. Acovarda-te.
As vezes, a derrota não é o fim, mas sim, uma nova manhã para despertar e lutar.

- Lágrimas de Gasolina, o covarde, o fugitivo, o derrotado. Pronto para voltar e lutar, sempre.
Boa noite.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Vala

Quantas mascaras
Eu terei de acreditar
Em quais dessas valas
devo eu enterrar

Até que sufoque
O meu coração
E nunca prorrogue
o sofrimento de viver em vão

- El Dr. Rios Eguo

quarta-feira, 19 de março de 2014

Risco de Giz

É risco de giz, no asfalto.
Abaixo de uma nuvem carregada.
A chuva levou de mim,
O que eu nunca fiz questão de ter.

Se ser feliz é de fato
Uma meta a ser alcançada,
A curva me levou ao fim
Do que eu nunca fiz questão de ser.

Sempre Trasteando.

- El Dr. Rios Eguo

domingo, 19 de janeiro de 2014

Fútil Realidade #3

Apertei forte sua mão e entrelacei meus dedos aos seus. Nenhuma força no mundo poderia me separar dela.
A chuva desistiu de participar do dia, e os guarda-chuvas mostraram-se obsoletos. Com a mão livre, baixei o cogumelo negro que segurava e fechei-o com um singelo clique. 


Mesmo depois de dez anos, os olhos de Brígida ainda borravam neste dia, turvejando-se como o céu nublado, que durante uma década manteve-se fiel em chover todos os dias 06 de Janeiro.


Pai não pode vir hoje. Um resfriado forte o deixou de cama, mas não era nada sério. Sentindo a angústia de Brígida em não poder homenagear a mãe, arrisquei-me dirigindo até o cemitério. Minhas aulas práticas começam apenas na próxima semana, mas Brígida merece.


Beijei uma rosa branca e depositei ao lado da foto de Mãe. Caminhamos a passos lentos até a entrada do cemitério, e, após passar o arco, Brígida rodou seu corpo e beijou meus lábios.
- Obrigado por me trazer, você é único!
Passei a mão suavemente por suas costas e sorri. Um sorriso fraco, mas ainda sim um sorriso.
- Você merece muito mais.
- Podemos tomar um sorvete, então? - Sorriu Brígida, com os olhos negros como a lua sorrindo em conjunto.


- Estava bom, anjo?
- Sim, o melhor! Obrigada, de coração.

Sorri. 
Depois da morte de mãe, as coisas foram meio estranhas. Risadas e sorrisos não haviam mais. Tudo ficou triste, preto e branco. Pai perdeu sua jovialidade, Brígida perdeu todo seu ânimo e eu perdi, pela segunda vez, minha mãe. 
Foram meses até a dor afunilar-se e iniciar um processo de contração. Pai não era o suporte que Brígida precisava, pois também tinha sua enorme dor. Ofereci meu ombro aos dois; tornei-me o melhor filho e o melhor irmão. 

Mas, com Brígida, as coisas repercutiram de maneira diferente. Esperava uma explosão de Pai quando contamos que estávamos namorando, mas, ao contrário de minha expectativa, vi seu olho brilhar novamente, e seu sorriso caloroso acender como uma fogueira, coisa que não acontecia há quase oito anos. 

Eu e Brígida, Brígida e eu, e Pai também quando não estamos envoltos em nosso casulo de amor. Aos poucos vencemos a dor, aprendemos novamente a ser feliz, pois era isso que Mãe iria querer. Nunca nos esqueceremos dela, mas aprendemos a tocar nossas vidas. 

Olhei para cima, e percebi que pela primeira vez em 10 anos, no dia 06 de Janeiro havia um imenso céu azul acima de minha cabeça.

Ajoelhei em frente a Brígida, na calçada que cruzava com a sorveteria, e, antes que o momento passasse, disse:

- Brígida, você aceita se casar comigo?

                                                                                                                                    Continua Aqui

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Fogo

Ontem pela primeira vez chorei.
Lagrimas incandescentes.
Lágrimas escuras e lagrimas pálidas.
Elas deslizaram pela minha bochecha durante o véu noturno.
E caíram sobre o colchão molhado.
Molhado pela chuva da tarde que passou.
Jamais erre, jamais viva pelos outros.
Mas acima de tudo não impeça que os outros vivam.
As pessoas precisam de tempo
As relações precisam de espaço
Mas não de tanto espaço assim
Outra lagrima
Amanha amanhecerei com o edredom em brasas
Melhor do que uma corda enrolada no meu pescoço
Melhor do que ter a espinha quebrado num mergulho de aguas rasas
Apenas pare de pensar no que foi e no que sera
Apenas viva a droga do momento, ela disse.
Não posso.
É contra minha natureza.
Preparar, apontar. Fogo.

- Lágrimas de Gasolina

domingo, 12 de janeiro de 2014

Noite de Pesadelos

O celular vibrou, e depois reproduziu um som; Um assobio familiar denunciou a música "Three Little Birds", que se estendia vagarosamente, enquanto Sandman corria para alcançar o aparelho.

- Alô? Alô?!
- Sandman...?
- Sim, sim. Quem fala?
- Amaân, meu velho. Não se lembra mais de mim?
- Amaân, quanto tempo! Desculpe a falta de atenção... Esta tudo tão corrido ultimamente...
- Podemos nos ver hoje? Quem sabe tomar uma cerveja ou apenas uma porção de batata frita.
- Claro, podemos. Vou apenas chamar um taxi.
- Estou no Fritz. Até logo.


- SANDMAN, quanto tempo! - Disse Amaân, andando até o amigo com os braços abertos.
Após um apertado comprimento, os dois trocaram olhares e sorrisos, e entre um tudo bem tudo bom confuso sentaram-se na mesa do canto.
- Amaân, Amaân... Quem diria que voltaríamos a nos ver ainda este século? Sei que durante a Idade das Trevas nos víamos todo mês, mas, ual! Quem diria...
- Ah, Sandman! Você continua todo meloso e sentimental! - Disse, dando um grosso gole em seu chopp - Mas conte-me, como vai Martha?
- Martha, aquela vadia? - Sandman soltou uma forte gargalhada - Foi embora com Roberto, meu vizinho, assim que descobriu que eu estava pegando sua prima!
Amaân se contorceu de rir, e após arfar algumas vezes, completou:
- Don Sand, você é um imprestável! Garçom, por favor, mais dois chopps!


- Hm... Amaân... você tem certeza que consegue voltar para sua casa sozinho? - Perguntou Sandman, coçando a nuca enquanto o companheiro subia de forma atrapalhada nos degraus do ônibus.
- Para de mi mi mi, Sand. São só alguns quarteirões. O trato de hoje ainda está de pé?
- Sim, claro! - Ficou feliz pelo amigo ter tocado no assunto - Por esta noite, nada de sonhos!
 - Sim, sim! Nada de sonhos bons, nada de pesadelos! Você descansa, eu descanso, a humanidade descansa.
- Eles merecem uma noite, após tanto tempo, certo? Faz mais de dois mil anos que lutamos pelo sono deles todas as noites...
- Sim... - Murmurou Amaân - Hoje eles não sentirão medo, não sentirão esperança, apenas dormirão. A gente se vê, velho amigo!
Sandman balançou a mão, enquanto o ônibus 3.85 levava seu amigo para casa.

Esticou o braço alguns metros a frente, para chamar o taxi que passava. Iria para casa, depois de dois mil anos, e poderia tomar um banho quente e assistir um pouco de futebol. Hoje não faria ninguém sonhar. Hoje a noite era dos humanos.

Mal sabia Sandman que Amaân não cumpriria sua promessa. Esta noite, a humanidade iria sangrar.

- Dedos Azuis

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Meus Olhos

Você não pode me ver

Nem mesmo de muito perto

Você nunca irá me ver

Talvez você enxergue o que eu sou

Mas não quem eu realmente sou

Nem mesmo se olhar nas mais profundas cores de meus olhos

Mas não quero discutir agora a estranha beleza de ter um olho de cada cor

Quero apenas lhe apresentar a tristeza

A tristeza de ser você, e não poder me ver

- Dama da Noite

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Fútil Realidade #2

Quem pode prever o início de uma verdadeira amizade?

Quem pode prever quando uma família começa ou acaba?

A minha havia acabado de recomeçar. 

Alex era seu nome, e ela era Marta. Os pais de Brígida, quando ouviram minha história, interviram pela minha guarda na justiça. Como eu nunca tive avós ou tios próximos, ninguém questionou. Na verdade, o serviço social ficou feliz por livrar-se de mais uma boca para ser alimentada em um orfanato triste em qualquer canto triste da cidade.

A noticia foi como um choque para mim, mas admito que no fundo uma sensação de segurança aqueceu meu coração, como uma manta cobrindo os pés de uma velha senhora, sentada em sua poltrona em um dia frio de inverno. 

Tudo se desenrolou tão rápido; as primeiras noites no quarto de hóspedes, o processo de adoção, o carinho e o amor que cresciam dentro dos corações e lacrava-nos uns aos outros. 

Em um mês, não era mais um quarto de hóspedes; era meu quarto. Não era mais Alex e Marta, e sim pai e mãe. Não era só Brígida; era melhor amiga incondicionalmente e uma irmã como ninguém jamais sonhara.

Aos poucos, o terror daquele dia começou a desgrudar de minha jovem lembrança, e o riso de minha nova família obscureceu os pesadelos frequentes.

Sorri, pela primeira vez depois da morte de meus pais, quando Brígida entrou em meu quarto e me ofereceu uma tigela de açaí com banana. Rimos por horas, gargalhamos, e terminamos apoiados, um no outro, para recuperar o ar. Nossos olhares se cruzaram pela primeira vez.

Tudo estava perfeito. Tudo era lindo. Um sonho que eu jamais tivera a audácia de sonhar. Rezei pelos meus falecidos pais, e agradeci a Deus por esta nova família.

No meu aniversário de oito anos, Marta, mãe, anjo da guarda, guardiã, protetora, morreu em um acidente de carro enquanto comprava meu presente de aniversário. 

E de repente o céu azul acinzentou enquanto minha vida perdia novamente o sentido. 

                                                                                                                                    Continua Aqui

domingo, 5 de janeiro de 2014

Novela

Por que estes putos sorriem o tempo todo?

O que aquele palhaço ta olhando? Tá rindo de que?

"Sai da frente, velhote."

Qual é o problema destas pessoas? Sera que elas não veem o quanto o mundo está doente?

"Será que elas ignoram isso?"

"O que, Dan?"

"Sera que essas pessoas ignoram todos os problemas do mundo: a fome, a miséria  a corrupção e todas as outras coisas?"

"Não, amigo." - Disse Miguel, sorrindo como um babaca. - "Ha ha, elas não ignoram, elas simplesmente, não sabem."

"Não sabem?!?" - indignei-me - "Você é estupido?"

"Não, nós não somos estúpidos, Danilo." - Miguel desferiu um riso. - "O único estupido é você. Olhe à sua volta, todos estão felizes. Só você que está aí sentado com essa cara de bosta. Daqui algum tempo você perceberá e sorrirá como nós, andará como nós e pensará como nós.” e voltou a rir.

"É, Miguel. A ignorância é uma benção.”

"Falando em benção, você viu a novela ontem?"

"Vi sim."

"Eu não te disse?"

E ambos começamos a rir.

- Lágrimas de Gasolina

sábado, 4 de janeiro de 2014

Determinação

O filho foi tratado como doença.

O espirito, escarrado como catarro.

A educação, deixada de lado como problema.

A ignorância cresceu dentro daquele rapaz, e a loucura, enraizou-se no teu ser.

Nas ruas ouvia os sinos das igrejas das quais nunca fez parte.

Via seus amigos e os pais dos seus amigos.

Um garoto sem alma, sem amor, sem princípios. Mas com o primordial, o mais importante.

Aquele garoto tinha o que poucos ousavam ter naqueles dias.
Determinação.

Ele cresceu. Estudou e cresceu mais.

E hoje, ele é um adulto determinado.

"Mas determinado à que?" - Você me pergunta.

Eu, particularmente, não sei, mas sabe o que dizem por aí:

“Gênios nunca revelam seus planos.”

- Lágrimas de Gasolina

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A Lenda dos Três Irmãos

Ahla-Khamed pairava sobre as vidraças celestiais, observando todos os acontecimentos que ocorriam debaixo das solas de seus pés. Observava os acontecimentos terrenos, enquanto com uma fina pena regada à tinta, os escrevia em um pedaço de pergaminho. Este era seu trabalho, observar e anotar toda a atividade humana. Era o mais novo de três irmãos, que desempenhavam distintas funções, nunca se soube como ou quem os havia criado.
 As titânicas janelas douradas das vidraças se abriram e delas voaram pedaços de pergaminho. Ohla-Augus estava com as mãos estendidas, enquanto assoprava as últimas anotações que restava em sua palma de volta para o mundo dos homens.  Recolheu algumas outras anotações, que flutuavam ao redor de seus membros, leu uma delas e com um pincel sujo de tinta riscou as palavras: matou, mutilou, estuprou e diversas outras que não deveriam fazer parte da realidade dos mortais, deixando intactas as palavras de cunho bondoso, harmônico e fraternal. Abriu as janelas novamente e esticando as mãos, assoprou as anotações de volta para o mundo dos homens.
As palavras que cruzavam as janelas celestiais e adentravam o mundo dos vivos eram responsáveis por manter a ordem de forma cíclica. Toda ação realizada por cada humano, se vista, seria anotada pelo irmão caçula, passaria pelos olhos avaliativos de Ohla e, depois de filtrados, devolvidos aos solos terrenos, compondo a realidade humana. Aos poucos restaria apenas a bondade e a ordem em sua forma mais pura.
- “Você esqueceu-se de fechar a janela mais uma vez, Ohla!” – Esbravejou o irmão mais velho, sentado sobre um enorme trono dourado abrigado de forma imponente na parte mais alta. Mox se levantou ao ver que o irmão acatava a sua ordem.
- “Espero que não se repita!” – Acrescentou.
Este era Mox-Okhus, o autointitulado gestor de operações celestiais e o maior dos três irmãos. Responsável por garantir que executassem suas tarefas sem nenhum tipo de omissão.
Nenhum deles compreendia a intensa satisfação que sentiam por fazerem parte de um mecanismo tão puro quanto este e em suas consciências pairava o constante pensamento - “Enquanto trabalharmos, toda a realidade presente abaixo das vidraças caminhará na direção da harmonia e benevolência suprema e nós somos os responsáveis.” – Porém o tempo passou de forma mais lenta para um dos irmãos.
As anotações não atingiam a mesma quantidade e qualidade de antes, deixando o irmão do meio frustrado. Mox gritou para Ahla:
- “Irmão, o que está acontecendo? O que você está fazendo? Onde estão as anotações?” – Balançando as mãos furiosamente.
O irmão mais novo estava deitado sobre os pergaminhos, pois estava cansado de observar os homens e decidiu tirar um cochilo, dominado por uma sensação nunca antes sentida, algo que disputava com a única vontade que conhecia. Nenhum deles tinha a capacidade de dormir, mas depois de tanto tempo observando cada movimento humano, cada ação, cada gesto, uma pequena centelha corruptível tomou forma na parte mais fraca de sua divindade.
Ahla-Khamed ficou preguiçoso.
Mox apontou para o irmão que dormia sobre os infinitos rolos de pergaminhos e ordenou furiosamente:
- “Ohla, tire esta vil criatura da minha frente! Levante um dos teus infinitos braços e expurgue as vidraças celestiais, atirando este infeliz para fora delas!”.
A divindade levantou um dos infinitos membros e recolheu o irmão do meio das anotações incompletas.
- “Irmão, o que está fazendo?” – Disse o irmão de olhos sonolentos, enquanto o gigantesco braço o levava em direção à colossal janela dourada.
Ohla não disse nada.
Uma das janelas se abriu e junto ao seu sopro, o corpo do irmão mais novo despencou do alto das vidraças e atingiu o solo terreno. A jovem divindade fora expulsa das vidraças celestiais e na manhã seguinte, Ahla acordaria como um homem.
Mox tomou o posto do irmão expulso e avaliava os diversos pergaminhos com anotações incompletas. Olhou para o irmão, furioso:
- “Está tudo incompleto! Todas estas anotações de nada irão servir.” – Jogou no chão o pergaminho – “Quanto tempo perdido!” – Lamentou.
A divindade viu que teria muito trabalho pela frente e em um ataque de fúria destruiu todas as anotações feitas até aquele momento.
- “Se para nada estas servem, que para o nada estas voltem” – Soltou uma gargalhada na frente de Ohla, que observava das proximidades da janela seu irmão louco destruindo aquele emaranhado de papel e anotações, não dizendo uma palavra se quer.
O mais velho tentou durante muito tempo competir com a antiga determinação e eloquência com que seu irmão caçula exercia sua atividade, porém não era competente o suficiente e os constantes acessos de raiva causados pelas visões do dia da expulsão não permitiam que  desempenhasse a melhor das performances.
Sua função sempre foi observar os outros dois irmãos e garantir resultados, não observar os vermes humanos e anotar suas fúteis ações, esta função pertencia a Ahla. Não fazia sentido fugir da sua função natural no universo. Começou a vacilar, deixando alguns acontecimentos ocorrerem despercebidos.
Ahla estava agindo.
Observando os humanos desde sua origem, o irmão mais novo entendia perfeitamente a mente humana, garantindo-lhe poderes persuasivos excepcionais e conseguindo convencer até mesmo o mais cético de todos os humanos existentes na idade média. A longevidade sobrenatural somada a sua inominável habilidade persuasiva garantiu notoriedade perante os mais altos graus hierárquicos e não demorou muito para que Ahla atingisse influencia suficiente para coordenar um ataque às grandes vidraças celestiais, até então desconhecidas pelos homens.
Com a incompetência de Mox e o divino poderio alcançado em solos terrenos, Ahla pôde incitar a construção de um gigantesco projeto capaz de alcançar as grandes vidraças douradas, prometendo aos homens que quando as atingissem poderiam usufruir de todo o ouro que quisessem. O ouro que seria extraído das próprias vidraças.
Mox se sentia um hipócrita, expulsou o irmão mais novo pelo seu desempenho que, embora fosse falho, nem ele, o irmão mais velho, conseguia executar com a mesma precisão.
Ohla olhava as anotações, furioso. Seu irmão mais velho era um inútil, a única coisa que sabia fazer com perfeição era sentar-se. Nem para olhar para baixo e anotar o que via, o cretino servia. Ohla começava a ter certeza que daria conta de tudo aquilo sozinho, não precisando da ajuda do irmão.
- “Esse idiota prepotente” – Pensou enquanto destrancava uma das janelas – “Sempre mandando e mandando” – Acrescentou mentalmente, estendendo os punhos pela janela e preparando-se para assoprar.
Encheu os pulmões de divinos ares e assoprou, mas ouviu um estranho som que cortava o ar a sua frente, um ruído diferente de qualquer sopro que já tenha dado. Sentiu uma pontada em um dos dedos de uma das mãos.
– “Mas o que é isso?” – Gritou, olhando para os dedos.
Pôde ver uma flecha. Uma pequena e humana flecha. Ohla deu um passo para trás, encarando a janela aberta, como quem assiste a um assassinato. Voltou para perto da janela, esticou os punhos para fechá-la, mas era tarde. Uma chuva de flechas voou do mundo dos homens para dentro da morada dos irmãos. As flechas cobriram seus membros e toda a parte superior do grande corpo da divindade foi perfurada por todos os tipos e tamanhos de flechas. Todos os humanos reunidos por Ahla, que alcançaram as vidraças através da orientação dada por um Deus banido, estavam se aglomerando nas janelas celestiais. O irmão mais novo levantou um dos braços, trajando finas roupas de Imperador da humanidade.
- “Irmão, não faça isso! Lembre-se do nosso propósito!” – Suplicou Ohla.
Ahla, ainda de braços levantados, disse calmamente e sem pausas:
- “Seu propósito!” – E abaixou as mãos, ordenando o ataque massivo daquelas distintas e incontáveis faces humanas. Todos os povos de todas as nações unidos pelo poder e pela parte do ouro que receberiam somados à ambição de explorar e conquistar o desconhecido.
Mox e Ohla foram vencidos, pois nem sequer lutaram. A divindade de infinitos braços não disse uma palavra sequer enquanto sentia seus membros adormecerem e morrerem, sua razão de existir havia morrido já fazia tempo. O irmão mais velho foi morto enquanto dormia sobre os pergaminhos, não pôde sentir nada, as milhares de flechas o cobriram como uma gigantesca manta de aço.
Ahla se aproximou do gigantesco trono de Mox e se sentou, encarando seu antigo posto de trabalho, os cadáveres de seus irmãos e as vidraças. Esqueceu-se por alguns segundos dos infinitos humanóides que adentravam pelas janelas abertas e saqueavam sua antiga morada e se lembrou dos dias de trabalho. Fechou os olhos e dormiu. Agora teria tempo para descansar.



-Lágrimas de Gasolina

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Fútil Realidade #1

Brígida franziu o cenho e mostrou para os amigos à sua volta o pequeno pote arroxeado em suas mãos.

- Banana, vocês podem acreditar nisso? - Grunhiu e arremessou o recipiente lacrado ao chão - Meus pais devem me odiar! Eu peço açaí com guarana, e me compram com banana! Meus Deus, como posso ser tão abandonada assim?!

Olhou para cima e gritou, batendo com o sapato rosa na grama pisoteada do pátio da escola.

- Sério! Meu Deus, que vida injusta, eu não aguento mais isso! Eu não aguento mais! Vocês não acham um absurdo isso? Como alguém pode continuar vivendo assim? Banana, poxa!

Eu ouvia aquilo enquanto olhava para a pequena mala em meus pés. 

Obviamente, não estava na mesma roda que Brígida estava. Na verdade, não estava em roda nenhuma.

Apenas sentava na grama suja e molhada da recente garoa, abrindo e fechando o zíper. 

- Sabe... - Falei, alto o suficiente para Brígida ouvir - Hoje eu acordei sem um beijo de bom dia. Mamãe estava no chão da cozinha, morta com a garganta rasgada e ensanguentada. Seu pijaminha branco estava todo rasgadinho e sujo. Quando gritei por Papai, ele não respondeu. Corri até seu quarto e encontrei apenas seu corpo pendurado e sem vida no ventilador, girando solitariamente. O pescoço estava todo roxinho. 

Algumas crianças reclamaram em desaprovação e saíram de perto, dando pequenos risinhos. Mas Brígida não. Ela olhava para mim com olhos de lua negra, grandes como o universo. Levantei e caminhei até ela, arrastando a mochila e continuando minha história.

- Certamente, ao ver a cena, vomitei um pouquinho. Mas logo o resultado; o serviço social viria me buscar. Sabe, aqueles homens grandes e com roupas brancas, que tem enormes siringas que parecem espadas. Eles viriam me buscar e me levariam para um lugar triste, com crianças tristes e paredes tristes, onde não se pode desenhar na parede ou desenhar com as crianças. Eu cresceria triste, e provavelmente me tornaria um adulto triste, se um dia chegasse a ser adulto. Então, como era o óbvio, fiz minha mala com alguns brinquedos e roupas, e fugi de casa. Corri até a escola, e desde que acabou a aula não tenho para onde ir. 

As outras crianças riram e saíram de perto, cuspindo em mim quando passaram. Brígida não.

Brígida permaneceu boquiaberta, com os buracos negros que eram seus olhos fixos em mim. Com passos curtos e lentos, caminhou até o pequeno pote de açaí e agarrou-o com as duas mãos. Caminhou até mim com um pequeno sorriso, e disse:

- Você quer dividir comigo? Eu tenho duas colheres na minha lancheira.

                                                                                                                                    Continua Aqui.

- Dedos Azuis

sábado, 23 de novembro de 2013

Voar

Aquele bando de pré adultos uniformizados
Desgraçados
Andei pelos corredores e vi todos eles amontoados.
Filhos da puta
Gostaria de criar asas metálicas, giléticas.
Passar e cortar todos aqueles pescoços.
Desgraçados, saiam  do meu caminho
Morram
Sangrem pelos corredores e deslizem em vossos sangues.
Corri
Se assustaram
Mais um louco atrasado para alguma aula
Gritei
Morram
Tais asas apareceram em minha costas
Cortei tuas têmporas e vossos braços
Corri por todo o corredor
Fiz que o sangue deles jorrassem pelas paredes
Sangrem filhos das putas
Fodam-se tuas famílias e os teus velórios
Sangro-os e não dou a minima
Filhos de papai e patrícias.
Vão tomar no cu, desgraçadas.
Agora morram
O sinal bate, o sangue escorre
Bato nas paredes, as asas somem
O sangue desaparece
A porra das asas estão dentro de mim
E eu estou dentro delas
Que sangrem como os desgraçados ingratos que são
Fodam-se vossas famílias
Estou atrasado para a porcaria da aula de Ética.

- Lágrimas de Gasolina

domingo, 20 de outubro de 2013

Amor Piscopata

Ah, o nosso amor, você me disse que estava escrito nas estrelas.

Mas e me deixar, estava escrito nas mesmas estrelas ou em outras galáxias?

Como pôde, depois de tudo?

Com essa cara rubro escarlate, simplesmente partir?

Falava que me amava, conversávamos sobre o futuro.

Mas enquanto eu estava sentado na cama, olhando você dormir, ouvia dizer coisas que nunca me disse.

Ouvia seus planos. Você planejava partir a muito tempo.

Cruel. Malévola. Vaca.

Simplesmente criou uma faca emocional, e cravou-a em meu coração, deixando-me afogar em meio ao sangue que transbordava da ferida recentemente aberta.

Vaca.

Vaca.

E agora, está mais feliz?

Independente de onde estiver, longe daqui, está simplesmente satisfeita? Era o que você esperava?

Espero que não. Espero que esteja sofrendo horrores.

Se for um décimo do que sofri, será insuportavelmente doloroso. O suficiente para fazer-me voltar a sorrir.


Eu tinha planos para você, sabia?

Sim, eu tinha.

Sempre que você passava, olhava sua nuca, sua espessura. Enquanto dormia, passava horas te observando, vacilando o olhar do travesseiro ao lado para sua boca semi aberta. Olhava para o topo da escada sempre que a via descendo.

Ó, minha querida, de tantas diferentes maneiras pensei em te matar.

Mas você, simplesmente, morre.

Óh, merda! Que vaca absurda que você foi! Maldita! Maldita! Vaca!

Como pôde, eventualmente, morrer?

Uma porra de acidente de carro, pelo amor de Deus!

À anos, culmino em meu interior o melhor jeito, o mais prazeroso de te matar, e você morre casualmente?

Óh, Deus!

Como suportar isso? Insensível você para deixar de lado todo e qualquer sentimento que jamais tive.

Você simplesmente partiu.

Partiu, deixando em meu coração uma facada emocional, que só será curada se preenchida por uma faca do mesmo tamanho, com o mesmo peso, com a mesma lâmina, só que real.

Espero te ver em breve.



Vaca.

- Dedos Azuis



domingo, 13 de outubro de 2013

Gritar é para os fracos

Dou a volta na casa e urro aos quatro cantos da rosa dos ventos.
A vida não é como ensinaram nos livros.
As pessoas não são boas.
A podridão corrompe cada gota do sangue dos corpos desses filhos das putas.

No inicio eu não estava preparado, foi um choque.
Um choque de realidades, a ilusão aprendida nos livros e os punhos desferidos em minha face.
Malditos, malditos.

Urro mais uma vez, desta vez estou no telhado. O vento escorre pelas minhas orelhas e cabelos.
Filhos das putas.
Urro outra vez. O céu se parte. A realidade se parte. O tempo para.

As crianças choram. Os fracos gritam e os inconsoláveis urram.
Urrem para a realidade. Urrem para aqueles que fazem dela um pesadelo.
Seja inconsolável, serre teus punhos, soque-os no estomago, pise no teu sangue e Urre.

Urre como um bárbaro, como um pesadelo, como o inferno. Seja o inferno e o demônio encarnado. Transforme o transformista, transforme o transformista em cinzas.
Faça-os provar do próprio remédio.
E quando conseguir, não grite, gritar é para os fracos.
Urre.
- Lágrimas de Gasolina
http://vidi.deviantart.com/art/scream-11721165