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segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Fui Joio e Voltei Trigo

O que eu sentia naquele banco, nem com mil palavras eu poderia descrever, algo me apertava a alma e me dizia que levantasse. Meu coração acelerou-se como se eu estivesse à beira de um ataque, minhas pernas estavam bambas e tremiam feito duas finas varas de bambu sozinhas ao vento, minha cabeça, aérea, parecia estar no topo daquele prédio. Eu apenas implorava para que não fosse a minha hora.
Já cansado de todo meu esforço espiritual, tentando resistir à vontade de ir até lá, deixei-me às vontades das sensações que me tomavam. Minhas pernas então, contra qualquer instinto que eu já tivera, enrijeceram-se e começaram a caminhar. Era como se um fantasma me dominasse o corpo e me fizesse apenas caminhar, me sentia uma marionete à mercê dos fios que lhe guia.
Quando me deparei com a água da pia batismal, declarei que não era minha hora, rejeitei ao Senhor e Sua bênção. Pedi a Deus que esperasse o meu tempo, pedi que me poupasse da salvação, mesmo que por enquanto.
No momento em que meu corpo entrava na água gelada pelo frio de agosto, declarei a Deus que naquele momento, Ele me matava. Declarei a Deus que se me lavasse de todos os meus pecados, perderia de vez a minha alma. Disse a Ele que no instante em que eu pisasse fora da igreja, me entregaria a todos os tipos de vícios, me deleitaria nos braços de todas as mulheres e também nos braços de homens, jogaria a mim mesmo na sarjeta, declararia repúdio ao Seu nome. Blasfemaria e exaltaria Satã.
Depois que levantei das águas, nada do que prometi a Deus fazer me foi possível, no instante em que pisei no degrau da pia batismal, ouvi uma voz forte e grave:
- "Você conhece o seu tempo?"
No momento em que sai, renascido e puro, de dentro daquela pia, nada me foi possível fazer. Apenas ouvi a música que se cantava dentro daquela igreja de teto branco abobadado, durou meia hora, do meu tropeço ao encontro do chão, ainda assim não foi possível nem mesmo um pensamento que me desviasse dos propósitos do divino.
Nas águas entrei joio, delas saí trigo, limpo e maduro, então, por Deus fui colhido.

- Wendy Cho

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Fútil Realidade #5

Hoje eu acordei sem um beijo de bom dia.
O quarto estava abafado demais, a luz que entrava pelos estreitos feixes da janela estava forte demais. O silêncio era onipresente demais.
Não que a casa fosse barulhenta por rotina. Certamente não era, já que meus pais quase não mais conversavam. Mas hoje nem mesmo da rua propagavam-se sons, só um fraco ronco eletrônico.
Desci da cama quente para sentir o gélido piso agredir a sola de meus pés desprotegidos. Com passos aveludados, caminhei até a porta do quarto e a abri. O rangido grave lembrava-me dos raros gritos que meus pais trocavam entre eles; ríspidos, monossilábicos, agressivos. Sem traços de amor.
Caminhei pelo curto corredor até a cozinha, mas tenho que confessar; hoje ele parecia infinitamente mais comprido. Quando atravessei o batente, a luz do sol que entrava pela janela tornou-se tênue e opaca, deixando os eletrodomésticos e móveis criarem sombras agourentas e assustadoras.
A temperatura caiu absurdamente, e uma enorme adaga imaginária atravessou a boca de meu estômago. Não sei por que dizem borboletas. Não lembro de borboletas parecerem com um tornado catastrófico, varrendo tudo e todos pelo caminho.
E lá no centro da cozinha, tornando o branco piso de mármore em um carmesim aveludado, estava o corpo de minha mãe. Flácido, derretido no chão, como se seu corpo tentasse abraçar um sentimento que já não mais existia há muito tempo. Sua boca estava posicionada em um formato agonizante, enquanto uma segunda boca sorria em sua garganta.
Na cômoda da cozinha, um bilhete abandonado escrito pela metade:
“ Lucas, meu amor,
Você foi o melhor presente que Deus me deu, você me deu forças e me mostrou um maravilhoso mundo. Mas, infelizmente, mundos maravilhosos são efêmeros. Eu e seu pai não nos amamos mais há algum tempo, e tentamos nos manter unidos para sua felicidade. Infelizmente, eu não sou forte o suficiente, não sou forte como acreditei que era, e por isso vou m... ”
Gritei por meu pai.
Corri desesperado até seu quarto, poucos metros da cozinha, muitos metros do quarto de minha mãe.
O barulho frágil de um ventilador velho indicava que o aparelho estava ligado. Era um som estranho, fraco e forte, vivo e morto. Era um ronco despretensioso e conquistador, era o extremo do antagônico.
Quando entrei no quarto, gritei horrorizado ao ver seu corpo balançando junto com o ventilador. A gravata enrolada na haste de ferro do aparelho. Sem nada no estômago para vomitar, cuspi bile em fracos esguichos.
Deixei meu corpo cair, ajoelhando em cima do vomito e gritando em desespero. O som do ventilador conseguia ser ainda mais forte.
Em um surto de irritação, agitação, desespero, medo e agonia, corri até o meu quarto e comecei a arrumar minha mochila. Coloquei roupas, brinquedos, meu smartphone. Precisava sair dali o quanto antes.
Mas, para onde ir? O que fazer? Quem procurar? Eu não tenho avós e nem tios próximos, e se ficar aqui, o melhor que pode acontecer-me é ir para um orfanato. Gritei e soquei a parede, deixando o catarro arranhar minha garganta e esguichar na madeira velha.
Eu iria para a escola, eu precisava ir, eu preciso sair daqui. Não tem nada para mim aqui. Preciso sair daqui. Preciso de algo, alguma razão. Meu pai matou minha mãe e se matou em sequência. Mas que droga! Preciso sair daqui. Preciso de alguém, de alguma Brígida em minha vida. Troquei o pijama, joguei a mochila nas costas e sai correndo. Antes de sair de casa, entretanto, fui até a geladeira e peguei um pote de açaí com banana.

Afinal, quem pode realmente prever quando uma família começa ou acaba?

Fim

- Dedos Azuis

O Ônibus 3.85 #6 - Início

Você alguma vez já parou e se perguntou o que teria acontecido se tivesse se atrasado alguns minutos para algum evento do passado?
E se seus pais tivessem atrasado algumas horas para se conhecer? Talvez algum terceiro elemento tivesse tomado partido antes de um deles e se apaixonado, impedindo o seu futuro nascimento e, conseqüentemente, eu perderia um leitor.
E se você tivesse atrasado alguns minutos hoje de manhã? Talvez tivesse perdido o ônibus e o emprego.
E se você tivesse atrasado alguns segundos na semana passada? Talvez você pegasse aquele semáforo da esquina fechado, atrasando mais alguns segundos e impedindo a colisão que envolveu o seu carro na esquina seguinte.
Consegue perceber como os pequenos acontecimentos em um curto espaço de tempo podem gerar diferentes conseqüências?

Colocou os talheres, delicadamente, sobre a mesa, enquanto analisava os desenhos em forma de ondas dos mesmos. Apoiou os cotovelos sobre a superfície de madeira cuidadosamente feita a mão por algum artesão colonial renomado. Deixou os ares de satisfação entrar pelas suas narinas. Sua mãe não era a pessoa mais afável do mundo, mas cozinhava como uma deusa.
A mulher estava terminando a sua refeição, tinha os olhos cansados e desapontados, com uma das mãos dirigia uma garfada após a outra, sem proferir um ruído se quer, enquanto a outra repousava sobre o avental amarrotado e disposto sobre o colo encoberto pela parte inferior do vestido.
Terminou de comer e se levantou logo em seguida. Desamarrou o avental das costas, passou a pequena alça pelos cabelos castanhos, retirando-a por completo, dobrou o tecido ao meio e o dispôs sobre o balcão. Olhou por alguns segundos para suas mãos cansadas e envelhecidas, fechou os olhos. Igor a olhava por trás, ainda sentado a mesa, direcionando os olhinhos para a parede, pôde ver a silhueta que dançava, projetada pela soma de corpo e luz de velas.
- "As sombras não envelhecem" - pensou enquanto debruçava sobre os bracinhos.
Voltou a observar a movimentação de sua mãe, que apontava para a mesa e para as louças, a analisou por alguns segundos e entendeu, se levantou e começou a recolher os vestígios do que foi um delicioso jantar.
Soltou um som quase inaudível, proferido através dos dentes, como se queimasse a língua com algum tipo de fluido quente e invisível. Caminhou de cabeça baixa em direção ao velho sofá estacionado no cômodo ao lado, elegantemente disposto em frente a uma pequena tela televisiva de vinte polegadas. Passou os dedos sobre um dos botões agrupados no painel integrado ao lado da tela e o dispositivo se acendeu, fazendo rosnar um chiado de intensidade baixa e irritante.
Os sons do noticiário invadiam a cozinha, onde o jovem lavava as louças e enxugava alguns pratos. O programa começava sempre às sete horas da noite e sua mãe sempre o assistia. A noite já havia tomado conta do lado de fora e a casa estava tomada pelas luzes de velas e pela coloração cinzenta da velha televisão.
- "Um estranho fenômeno acontecerá às vinte e duas horas da noite de amanhã e poderá ser visto de toda a América do Sul, os cientistas dizem tratar de uma gigantesca massa de nuvens estratosféricas polares causadas pelas conseqüências da emissão de gases poluentes na atmosfera, dominando os céus da noite de quarta-feira, atingindo seu ápice na madrugada de quinta-feira. Os mais esotéricos acreditam ser um presságio para o fim do mundo" - Dizia o homem de penteado brilhante com suas mãos sobre a mesa, enquanto algumas imagens rodavam pela tela ao seu lado.
- "Nos dias de hoje" - A imagem pulou para um senhor de corpo franzino e cabelos calvos esbranquiçados - "Esse tipo de fenômeno meteorológico costuma ser corriqueiro nas regiões mais frias do planeta, chamadas de regiões polares. É extraordinário que estes aconteçam em regiões como o Brasil e Argentina" - Disse o meteorologista.
- "O que o senhor acha das teorias?" - Perguntou a repórter.
- "As conspirações? Sobre o fim dos tempos?" - Olhava incrédulo para a câmera - "As pessoas não estão acostumadas com o extraordinário, o que justifica todo esse misticismo alvoroçado." - E desligou.
O garoto estava recostado no batente da porta entre a sala e a cozinha, havia terminado seus afazeres e pôde ouvir toda a notícia. Andou até o sofá, deu umas palmadas na almofada e se sentou.
A televisão estava desligada, via-se apenas o reflexo das velas nos olhos de sua mãe e na tela escura. A mulher estava perplexa, como alguém que acabara de presenciar um atropelamento.
- "Eu" - Os olhos do garoto pareceram saltar - "Esperei por tanto tempo" - Disse a matriarca.
Esticou-se para entender enquanto não acreditava que escutava as primeiras palavras já proferidas pela mãe.

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- Lágrimas de Gasolina

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O Ônibus 3.85 #5 - Infinitos Vazios

As faces contorceram-se. Os que não estavam encarando as ações de Dante, agora estavam.
Até mesmo àqueles estacionados sobre as cadeiras, contorciam o pescoço de forma pouco natural na direção do homem que destruía o rosto do motorista.
Ouviam-se os gemidos ecoando, algumas respirações e um baque surdo de carne contra ossos, de segundos em segundos, por toda a dimensão metálica do ônibus.
O homem estava dominado por um tranqüilo frenesi, que misturava uma raiva desmedida e incompreendida com uma calmaria de fim de tarde. Não apresentava pressa para desferir mais outro soco, atingia-lhe a face e o encarava por alguns segundos, sentia uma fagulha de pensamento dominando a sua mente - Por que estou sentindo tanta raiva deste homem? - E em seguida, o atingia mais uma vez. Repetiu esta ordem por mais três vezes.
Levantou a mão direita pela quinta vez, preparando-se para aplicar a primeira lei de Newton nos ossos faciais do motorista. Girou o punho e ela foi aplicada, não por Dante, mas pelos dedos e mãos de um terceiro, que o inertizava, segurando seu pulso. Olhou para trás e viu aquele que o impedira de continuar. Era um passageiro. Aquele cujo Dante havia se sentado ao lado horas atrás, que não se dispôs a percebê-lo quando se levantara.
O passageiro, com ares funéreos, segurava seu punho levantado, sem demonstrar qualquer sinal de humanidade, parecendo uma casca humana vazia. Trajava um terno caro de gerente de banco e olhava indiferente para a nuca do homem a sua frente.
Dante estava de pé e de costas, olhando por cima do ombro, segurando o motorista inconsciente pela jaqueta jeans com a mão esquerda. Seus olhos, arregalados, não entendiam o que estava acontecendo, tremendo e procurando por uma solução, soltou o motorista, que atingiu o chão sujo de sangue e poeira. Tentou levar a mão esquerda até o punho direito para arriscar uma soltura e tomar espaço, mas falhou, outros dedos e mãos seguravam seu punho e braço esquerdo. Girou o crânio e os olhos para procurar por seu segundo limitador e encontrou. Outros dois passageiros, um adolescente de camisa escura e uma pré-adulta de vestido vermelho, ambos com faces mortas e apáticas.
Balançou os ombros, tentando desesperadamente se soltar, enquanto observava o motorista se levantar. O viu arrumar a jaqueta jeans e ajeitar as luvas antes de acertar-lhe um soco no nariz.
- "Meu deus, eu só queria ir para casa" - Falou em voz rouca e baixa - "Como tudo isso foi acontecer?"
O motorista riu.
- "Você realmente não está entendendo nadinha de nada, mesmo? Você realmente acredita em acaso, seu verme inútil? Você ainda não" - Um barulho gaseificado soou, o ônibus começou a se mover segundos depois. A feição de deboche do motorista mudou para uma expressão de dúvida.
Olhou para trás, na direção do pára-brisa, com os lábios entreabertos de incredulidade, apenas para confirmar se a movimentação que estava sentindo era verdade e não fruto do espancamento que sofrera.
De fato, o ônibus estava se movendo, soltou um grito e correu para o assento, deixando o homem e os passageiros para trás. Sentou-se e apanhou o volante.
- "Algo está errado, o ônibus não deveria se mover sem mim" - Pensou - "Só se" - E se virou para encarar um homem aprisionado pelos seus servos.

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- Lágrimas de Gasolina




segunda-feira, 27 de julho de 2015

O Ônibus 3.85 #4 - A Graciosa e a Cheia de Graça

O sinal para o intervalo soou, ouviram-se alguns gritares e assovios. As crianças levantaram-se das cadeiras, deixando o professor que implorava por atenção.
Saíram correndo na direção da porta, não dando a mínima atenção para o professor, que soltou um leve som de insatisfação regado com alivio.
Em poucos segundos a sala estava vazia. Olhou para os lados à procura de alguma alma compadecida e lá estava ela, no canto direito, próximo a janela, no fundo.
Ana, ainda sentada, aguardava o professor dar o sinal para se levantar.
Apoiando-se na mesa com ambos os palmos, olhou para a garota de olhos verdes.
- "Ei, Ana. Você pode sair, é hora do intervalo."
Ainda sobre a mesa, repousava um caderno com todo o conteúdo da aula, devidamente anotado.
Graciosamente, prestando total atenção nos lábios do professor, se levantou, arrumou a mochila e saiu.
Os olhos do professor a seguiram enquanto cruzava a porta e perguntou-se a razão de as outras crianças não serem iguais a aquela garotinha.
Uma mochila cor-de-rosa com alguns chaveiros dispostos de forma simples pendia sobre um dos ombros. Caminhava a passos rápidos, como se não quisesse ser incomodada, mas, na verdade, sua mente ainda trabalhava e Ana estava perdida em meio a tantos papeis mentais.
Colocando um pé na frente do outro, olhando para baixo. Este era o seu andar.
Puxou a manga que cobria o braço esquerdo, revelando um delicado relógio dourado e esticou os olhinhos para ver as horas. Estava atrasada e o corredor parecia infinito, talvez mais alguns passos e chegaria até o refeitório. Apertou ainda mais a corrida, entendendo perfeitamente o motivo de tanta correria feita pelas outras crianças, o intervalo é curto demais e não daria tempo para fugir da escola.
Sua mente vagueava pelas decisões que, mesmo ainda indevidamente medidas, já haviam sido tomadas. Para sua cabecinha de criança, seria o que chamamos de um grande feito. Talvez, um pequeno passo para qualquer pré-adolescente, mas um grande salto para uma criança de nove anos.
Quando se deu conta, já havia chego ao refeitório e dali já pôde ver o limiar de seu plano:
As portas de saída, que ainda estavam abertas.
Olhou para os arredores, como quem procura um fruto maduro em uma arvore. Não encontrou nenhum e correu na direção da porta. Atravessou-a utilizando-se de um salto, caindo com ambos os pés na calçada.
Correu em direção à esquina, ouvindo o sinal que gritava ao fundo, chamando os alunos para entrarem em sala, mas ela não, pois aquela garotinha de cabelos longos e castanho-escuros estava livre para fazer o que queria e nada a impediria.
Ana olhou para trás por um momento e viu uma face familiar e feminina vindo na direção dela, correndo a uma velocidade envelhecida, pós-adulta. Não havia tempo para pensar, simplesmente ergueu os pequenos pés e colocou-se em movimento.
Chegou ao meio fio e olhou para os lados em busca de esperança e para averiguar se nenhum automóvel viria em sua direção, pois iria atravessar a rua sozinha pela primeira vez.
Olhou para a esquerda e as ruas estavam desertas, alongou o pescoço para a direita e arrepiou-se. Não era um automóvel que acelerava em sua direção, mas sim uma ponta de esperança. Era o 3.85.
Rapidamente o ônibus parou à sua frente e abriu as portas como um super-herói-automóvel que veio justamente para salvar o dia. Colocou os pés sobre os primeiros degraus e sentiu um puxão, que provinha das hastes que prendiam suas costas e ombros à mochila.
A monitora segurava a alça superior da mochila e puxava a garota. Ana gritou e soltou a mochila, gritando mais uma vez enquanto as portas se fechavam. A monitora abraçou a mochila.
Ana nunca mais foi vista.


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-Lágrimas de Gasolina

terça-feira, 21 de julho de 2015

O Ônibus 3.85 #2 - Sem Futuro

Igor estava brincando no jardim quando sua mãe bateu na parede e fez sinal para que entrasse.
Correu em direção à humilde casinha da viúva, chorando, quase implorando para não ser esbofeteado.
Chorou em vão, pois quando cruzou o batente, sua mãe já estava em pé sobre o tapete da sala, trajando um vestido azul claro, um avental que escorria até os joelhos e em uma das mãos, uma longa e grossa cinta de seu falecido marido.
O garoto apanhou como um cachorro naquele dia. Igor estava no auge de seus 12 anos e já havia apanhado mais que qualquer outro garoto da rua, mas disso o pobre garoto não sabia, pois não conversava com as outras crianças, afinal, sua mãe não permitia que saísse para brincar.
Quando a mãe o soltou, correu pelo piso de madeira, com o rosto inchado de tanto gritar e chorar. Não entendeu o porquê daquelas cintadas desferidas contra seu corpo. Na verdade, Igor nunca compreendeu nenhuma das punições dadas pela mãe, ela nunca lhe disse uma simples palavra, seja de aprovação ou de censura, se a mãe permitisse que ele fosse à escola, provavelmente Igor poderia supor que o caso dela tratava-se de uma deficiência auditiva e que nunca aprendera a falar.
Enrolou a cinta e jogou sobre a velha poltrona. O garoto estava encostado no canto escuro da sala ao lado de uma peça rústica, que compunha parte da decoração da casa, seguiu sua mãe com os olhos, que caminharam em direção à mesa de jantar. O cheiro de carne moída com molho de tomate impregnava o ar e adentrava as narinas do garoto, sua barriga estava roncando.
Apanhando um pequeno sino de estanho, descansado sobre a mesa, e fazendo-o tilintar, a mulher deu sinal para que aqueles que jaziam na casa se aproximassem para o jantar.
O garoto deu alguns passos sobre o piso de madeira que seguia até a sala de jantar, caminhando, com os pés ainda sujos de terra, na direção da mesa. Puxou uma cadeira e se sentou. Sua mãe estava sentada logo à frente, com as mãos cobrindo parte do rosto e proferindo sons ininteligíveis em voz rouca e baixa. O garoto abaixou a cabeça e fez o mesmo, se pondo a orar sem saber, conversando com uma entidade da qual nunca ouvira falar e nem saber do por que de fazê-lo.
Tinha muitas perguntas não respondidas, que eram apenas saciadas pela sua vã imaginação somadas a sua visão de mundo infantil e sem embasamento familiar. Para ele, o mundo se resumia ao quintal de sua casa, sua mãe e os pássaros que voavam por cima do muro.
Estes momentos antes das refeições tinham um brilho intenso de reflexão e autoconhecimento que Igor jamais se daria liberdade de calcular, assim, os fazendo, simplesmente porque gostava da sensação e nunca se dando ao trabalho de questionar, seja a si ou a sua mãe.


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- Lágrimas de Gasolina

quarta-feira, 1 de julho de 2015

O Ônibus 3.85 #1 - Fim da Linha

Fez um daqueles barulhos de gás escapando, como se alguma coisa estivesse com defeito, e parou.
Um bêbado caminhou em direção a entrada do ônibus, apoiou-se na porta traseira e puxou o próprio corpo contra a escada.
Entrou sem pagar, como de costume. Ninguém falou nada, nem mesmo o cobrador.
Sentou-se em uma das cadeiras, olhou para o lado e viu um rosto cinza. Eram nove horas da manhã.
A face não fizera questão de se mover, seus olhos cerrados, quase mortos, somados a uma boca cinza e sem vida. Bocejou.
Assustado, levantou-se, cuidadosamente, e mudou para o assento de trás. A face não ousou observar sua movimentação, permanecendo apático, admirando a rua com seus olhos sonolentos.
Sentou-se próximo a janela e o ônibus começou a se mover. Ainda estava zonzo devido à noite de ontem, que passara no bar. Encostou a cabeça no vidro e tentou lembrar.
Chegou às dez horas da noite anterior, encontrou alguns amigos, caminhou até o bar, pediu algumas doses e acordou recostado no meio fio. Levantou-se, caminhou até o ponto.
Bateu a cabeça no vidro, o ônibus passara sobre uma lombada, voltou a si. Olhou em volta e notou que cada vez mais assentos ocupados, alguns estavam em pé, todos mantinham a mesma expressão vazia, acinzentada. Olhou para o outro lado do ônibus, viu uma garota uniformizada, estava apoiada, encarando o lado de fora, como um animal em uma jaula, que encara seus espectadores.
Decidiu mudar de lugar e se sentar ao lado da garota. Realizou a proeza entre as chacoalhadas do ônibus para que ninguém notasse a sua movimentação. Só estava preocupado em não ser notado, enquanto os outros passageiros nem faziam questão de se preocupar. Colocou o pé direito no corredor do ônibus e em seguida pulou para o assento vazio ao lado da estudante. Ninguém percebeu.
Acomodou-se na cadeira e admirou, por alguns segundos, o acolchoado traseiro do banco à sua frente. Olhou para baixo, analisou as próprias roupas, suas mãos azuis sobre o colo e suas pernas tensionadas, não se sentia mais anestesiado pelo efeito da bebida e da noite mal dormida. Virou o rosto para a direita, em direção a garota, esticou os dedos sobre o ombro da jovem e cutucou.
A garota não se moveu, nem reagiu ao impacto do dedo contra o ombro, o único movimento notável provinha de seus cabelos castanho-escuros, que se movimentavam devido à brisa que adentrava pela janela, possibilitando ver apenas parte de seu rosto adormecido e apático.
Olhos congelados. Não admiravam a paisagem, olhavam fixamente para o próprio reflexo, impressionados e arregalados, como os de quem vê um fantasma refletido no espelho.
Levantou o pescoço, se levantando e apoiando as mãos sobre a cadeira da frente, tentou notar algo de estranho naquele ônibus, algo que não tivesse notado antes, que passara em branco.
Foi quando se lembrou das feições. Todos olhavam pela janela, mas não admiravam a paisagem. O que eles observavam com tanta intensidade eram os próprios reflexos. Estavam tão extasiados pela própria aparência refletida que não conseguiam desviar o olhar.
Notou que nem todos tinham olhos impressionados, alguns estavam com os olhos entreabertos, como os olhos de alguém que assiste ao mesmo programa de televisão durante horas sem poder mudar de canal.
Estava pasmo. Estava enlouquecendo, pensou, apoiando-se e voltando a se sentar em seguida. Percebeu que os ares estavam esfriando, mesmo que pudesse sentir a brisa provinda das janelas do ônibus em movimento, sabia que a repentina queda de temperatura não se tratava de um fator ambiental, muito menos natural.
O ônibus parou, ressonando aquele som gaseificado. Trombou o peito contra a cadeira da frente, os outros passageiros dançaram um pouco, mas se recolocaram na posição anterior logo em seguida.
O bêbado começou a ficar inquieto, estava tudo muito estranho. Colocou a cabeça no corredor e pôde ver, por entre os corpos cinza, que ocupavam o ônibus, uma movimentação vinda da cabine do motorista, que se levantara e vinha caminhando, lentamente, desviando dos corpos paralisados. Parou a duas poltronas de distancia, apontou e disse:
- "Que raios você está fazendo aqui?"
O rapaz, não mais embriagado, já aflito, ficou ainda mais angustiado. Não sabia se o motorista falava do dinheiro da passagem, aquele que não fora pago, ou se referia a alguma outra coisa. Por que ele sairia de seu posto e levantaria justamente agora, 15 pontos depois de sua entrada, parando o ônibus e adiando os compromissos dos outros passageiros, apenas para lhe dar uma bronca?
- "Você pegou o ônibus errado, meu amigo. Sugiro que saia. Agora!"


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- Lágrimas de Gasolina

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Garantia

Eu só queria uma garantia.
"Por que esse apelo por segurança, por que agora?"
"Você tenta fazê-la segura o tempo todo, afinal, não é você quem realmente está implorando por segurança? Por que está se desculpando de novo?"
"Para com isso. Erga esse rosto inchado pelo choro e lute. Faça a droga dos teus planos, desgraçado. É de você de quem eles dependem e serão eles quem irão te acolher pro resto da tua vida. Aqueles que te amam que te acompanhem, porra!"
Não é tão simples. Nunca é. As coisas poderiam ser mais simples.
"Não, não poderiam, seu idiota. Se fossem simples você não teria se apaixonado. O que aconteceu com a aquele teu ódio pela simploriedade? Para onde foi? Por que agora o abraça como se fosse a unica salvação? Por que você não vai lá e diz que a ama? Vá e leve algumas flores, pois vai precisar."
Não é tão simples e não deve ser.
"Por que você não volta pro teu banho e abaixa a cabeça, como sempre fez?"
Não é tão simples.
Você não me entende. Eu quero pular na frente de tudo e lutar, construir uma barricada e um império atrás daquilo, mas isso não faz sentido, pois são essas coisas que a distancia de mim.
"Como assim, você está se desculpando de novo? Vá e o faça, porra!"
"Você quer tudo, mas quer que ela esteja lá, junto contigo. Então vá e faça. Faça dar certo! Qual é a porra do problema? Está se sentindo sobrecarregado, é? Pare de achar que as coisas precisam de explicação. O que falta pra você?"
Nada. Não falta nada.
"Então, por que não começa?"
Garantia.

- Lágrimas de Gasolina

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Fútil Realidade #4

A vida é irônica. 
Até um certo aspecto, engraçada, mas esta ironia assume uma atmosfera bem sombria quando se presume a efemeridade do tempo. 
Vidas eternas de pessoas eternas, que entre 365 possibilidades, encontraram seu fim em um cruzamento extremamente familiar e singular. 
Há doze anos, eu e Brígida dirigimos até o cemitério nos dias 06 de Janeiro, para prestigiar nossa Mãe. Esta é a primeira vez que estamos vindo, no mesmo dia, para visitar ambos os pais. 
O médico não soube explicar o motivo de Pai ter falecido, há um ano, mas acredito fortemente que o motivo de sua partida foi exatamente a falta de motivos para ficar. A garota de sua vida já não estava mais aqui, e seus filhos estavam casados e aninhados em um laço de amor absoluto. 
Ele cuidou de muitos, e cuidou bem. Deixe que os céus cuidem dele agora. 
Brígida entendeu, eu entendi. Foi menos doloroso que a morte de Mãe. Eles estavam juntos, amando-se sem censuras terrenas, sem podas, sem idade. Apenas um amor infinito e inabalável, o mesmo que há muitos anos gravaram em nossos ânimos. 
Os túmulos estão lado a lado, e isso preenche meu coração com uma felicidade que não é possível transcrever em frágeis linhas. Brígida também está feliz. Muito feliz na verdade. 
Voltamos para nossa casa. para nosso ninho. Perder alguém é doloroso, mas mais doloroso é afastar amantes eternos.
Vendemos nossa antiga casa e compramos uma nova, um pouco menor. 
Recheamos com nossos gostos, nossos valores. Pintamos as paredes com tintas que representavam muito mais do que números em catálogos. 
Éramos muito novos, nem tinhamos terminado nossas faculdades, mas foda-se os padrões que a sociedade impõe. Casamos novos, começamos a morar juntos novos e a vida não podia ser mais feliz. 


Quando terminamos nossas faculdades, agarramos fortemente a ideia de nos tornarmos pais. Sempre fomos adepto, mas agora o tempo livre abriu espaço para este sonho. 
Fizemos uma imensa lista de nomes, para meninos e para meninas, no mesmo dia em que Brígida parou de tomar seu anticoncepcional. Apesar da vergonha, preciso confessar: foram bem prazeirosas as tentativas. 

No começo.

Com o tempo, começamos a ficar preocupados. Quatro meses, quatro menstruações. Brígida insistia em afirmar que era normal, que isso acontece, que em breve Lucas estaria a caminho. Mas eu sabia que tinha algo errado. 

"Endometriose", foi a palavra mais forte que já ouvi. Pior do que "morte", é a anulação da vida, a proibição natural de conceber. Sentamos no chão frio do consultório. Enquanto ela chorava desolada, tentava selar meus braços ao seu redor. Minha camisa empapava-se em suas lágrimas, mas não compartilhei as minhas. 
Não podia ser. Não com a gente. Era um amor tão puro, tão ridiculamente puro. Endometriose. 
Quando ouvi essa palavra, tive medo de perder minha garota. Tive medo de perder a Brígida que eu conhecia, medo de que esta restrição fosse um baque mais forte do que ela poderia aguentar. 

Estava enganado. 

Ficamos sentados no chão por quase duas horas. Quando ela terminou de chorar, levantou-se, limpou seu rosto e me abraçou muito forte. Foi o abraço mais forte que já trocamos. 
A sala do consultório estava bem amarelada por causa da luz artificial, mas os olhos de Brígida continuavam escuros como a lua. 
Ela passou os braços ao redor do meu pescoço e encostou sua testa na minha. 

- Você me ama, mesmo sabendo que não poderei engravidar? 
- Você me ama, mesmo sabendo que eu preferi a trilogia do Hobbit ao invés de O Senhor dos Anéis? 

Ela riu. Uma risada sincera. Fraca, porém sincera. 

- Vamos enfrentar isto - eu disse. 
- Te amo pra sempre. 

Um ano depois, no dia 29 de abril, recebemos a ligação. Lucas estava a caminho. Havíamos conseguido a guarda de um maravilhoso menino de três anos.

Continua


terça-feira, 14 de abril de 2015

O Show

Ele não tinha nada, exceto medo.
Não medo de morrer ou qualquer outra forma de flagelo físico. Ele tinha medo do anonimato.
Anos atrás, foi um famoso orador de circo. Multidões atravessavam estados apenas para vê-lo abrir os números e espetáculos, e a satisfação do público era tão grande que muitos voltavam uma segunda e até mesmo uma terceira vez.
Hoje em dia seu braço era tão fino que não aguentava mais carregar o comprido microfone. A cartola que pousava em sua cabeça abandonara o preto e tornou-se cinza, com mais bocas do que era possível contar. Ao redor dos olhos, a sombra preta escorria em rios por sua bochecha, acusando trajetos cursados por lágrimas. Seu terno vinho estava engomado, e de acordo com a incidência da luz solar era possível identificar manchas de sangue. Mas nada disso importava, pois no topo daquele prédio, detalhes tão pequenos eram invisíveis.
Uma mulher gritou, alguém implorou para que ele não pulasse, outros ignoraram e continuaram andando. Com o decorrer das horas, podia-se dizer que uma bela multidão havia se formado.
Que comece o show.
Botando-se em pé, urrou que iria pular. Um coro negativo veio em resposta, dando-lhe ainda mais ânimo. Articulou violentamente com as mãos, encenando que a vida não mais lhe era prazerosa, e de que o sol não brilhava como antes. Uma criança desatou a chorar.
A multidão aumentava, assim como sua encenação.
Arremessou a cartola aos ventos, chorando falsamente enquanto observava-a rodopiar pelo céu. E em quanto as horas passavam, mais seu show fazia sucesso.
No final do dia, mais de trezentas pessoas concentravam-se ao redor do prédio, maior do que qualquer público que já o visitara no circo. Carros da polícia iluminavam seu palco com sirenes, enquanto os bombeiros cuidavam da parte acústica. Um helicóptero sobrevoava o local, e se estivesse com sorte, já estaria nos jornais locais.
 Pois bem, era hora de encerrar. Agradeceu a Deus pelo rejuvenescimento de sua alma. Virou-se para descer do parapeito e
Escorregou.
Um passo falso apenas, em um parapeito ridiculamente estreito.
Enquanto caia, a surpresa apoderou-se de seu corpo. Mesclado com a felicidade que sentia, o gozo foi absoluto.

Antes de tocar o chão, jurou ter ouvido palmas. Aquele espetáculo foi seu maior sucesso.


- Dedos Azuis

terça-feira, 24 de março de 2015

Pútrido Ar

O ar mudou.
Não é o mesmo de antes. Certamente não é o mesmo de ontem, e sem dúvidas não é o mesmo de alguns anos atrás.
O ar não carrega mais a pureza que já carregou. Não carrega em pequenas partículas a estabilidade da vida. Não entorpece-nos de riso e alegria.
O ar, hoje, não é mais uma brisa agradável de verão. Não é um leve sopro em um cabelo aleatório.
Não.
O ar mudou, nada é mais como antigamente.
Hoje o ar é pútrido, cheio de ácaro.
O ar é sujo, e não só pelas partículas de poluentes.
O ar está impregnado com partículas que não possuem correspondentes na tabela periódica.
Carregado de cinzas espirituais, de sopros de desespero. Gritos de ódio, gritos de pavor.
Lotado de desapontamento e tristeza, com o cheiro da morte.
Hoje o ar leva apenas a agonia e a angustia.
E se você procurar bem, verá que não é de fábricas que este pútrido ar emana.
Ah, não...
Se procurar da maneira correta, verá que este ar provém do topo de uma montanha,
onde uma multidão perplexa e apática transpira um turbilhão de nada.
Os seres humanos exalam desespero, ódio, pavor. Regurgitam desapontamento e tristeza.
Morrem como se fosse o único fim esperado para uma vida de agonia e angustia.
E aquela maldita multidão, naquele maldito cume de montanha, poluindo o meu ar.
Poluindo o seu ar. O ar da sua mãe, o ar do seu filho.
Infelizmente, naquela multidão encontram-se todas as pessoas.
Sua mãe está ali, observando perplexa e apática. Seu filho também.
E todos eles, cada um que está lá polui o nosso ar pelo simples fato de serem humanos.
Tiram as cores, tiram a saturação, deixando-nos apenas com um cinza opaco.
Se antes era a base para a vida, hoje é apenas uma oxidação precoce dos nossos órgãos.
O ar mudou, e você também está no cume daquela montanha.
E a podridão que você exala também está matando-me mais rápido.

- Dedos Azuis

sábado, 21 de março de 2015

Morte | Lágrimas de Gasolina


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

4:19 a.m.

Acordei com a insana gritaria.
No começo achei que era chuva, mas quando ouvi os distantes barulhos deduzi ser granizo.
Os barulhos aumentavam, abafando o som dos gritos. Eram sons inconstantes com uma frequência absurdamente alta. Os antes pequenos barulhos agora parecia séries de explosões desordenadas.
Corri pelo quarto escuro, usando ambas palmas das mãos para arremeter contra as janelas fechadas.
Na antes tranqüila cidade, agora incêndios coloridos preenchiam toda minha visão, e constantemente formavam se outros, conforme as estrelas continuavam caindo.
Não, não estou louco.
TODAS estavam caindo, derretendo do céu, vindo para a Terra com a velocidade de cometas.
Era o fim aproximando.

Acordei com o som de meu despertador, dando um grito agoniado. Estava empapado em meu próprio suor, e tremia como o celular que vibrava.
Antes que pudesse desligá-lo, ouvi uma enorme explosão do lado de fora da janela.
Corri pelo quarto escuro, usando ambas palmas das mãos para arremeter contra as janelas fechadas.
Na antes tranqüila cidade, agora incêndios coloridos preenchiam toda minha visão, e constantemente formavam se outros, conforme as estrelas continuavam caindo.
Não, não estou...

Acordei com o som de meu despertador, dando um grito agoniado. Estava empapado em meu próprio suor, e tremia como o celular que vibrava.
Antes que pudesse...

Acordei com a insana gritaria.
No começo achei que era chuva, mas quando ouvi os distantes barulhos deduzi ser granizo.
Os barulhos aumentavam, abafando o som dos gritos. Eram sons inconstantes com uma frequência absurdamente alta. Os antes pequenos barulhos agora parecia séries de explosões desordenadas.
Corri pelo quarto escuro, usando ambas palmas das mãos para arremeter contra as janelas fechadas.
Na antes tranqüila cidade, agora incêndios coloridos preenchiam toda minha visão, e constantemente formavam se outros, conforme as estrelas continuavam caindo.
Não, não estou louco.
TODAS estavam caindo, derretendo do céu, vindo para a Terra com a velocidade de cometas.
Era o fim aproximando.

Esperei pelo despertador tocar, para acordar deste maravilhoso espetáculo apocalíptico. Ao mesmo tempo que era belo, era fatal, aterrorizante.
Era questões de segundo até... Até o despertador tocar...
Em breve...
As explosões aproximavam-se, as estrelas caiam cada vez mais próximas.

Colocando a cabeça para fora, olhei para cima em direção vertical, observando o grande astro que aproximava-se.

O despertador nunca chegou a tocar.

- Dedos Azuis




quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

.9mm

 Popin Jack tragou seu narguilé, aspirando aos dezoito céus que compõe nosso universo uma fumaça tênue, com aroma de menta.
 Sentado no parapeito de um gigantesco arranha-céu, desfrutava de mais um por do sol. Mesclando-se com sua sombra, as cordas que prendiam seu pulso alongavam-se, terminando em algum infinito que  Popin nunca havia chegado.
 Hoje ele tem 35, mas descobriu que era uma marionete aos seis. Não foi difícil, na verdade. Sem pais, invisível às outras pessoas, com cordas em cada extremidade de seu corpo e, fundamentalmente, sem livre-arbítrio.
 Popin Jack não podia escolher se ia ou vinha, ou até mesmo se dormia ou acordava. Nem mesmo o trago do narguilé era sua escolha, e sim uma esticada de corda de algum Ser que estava acima.
Ele era uma marionete, pois bem, sem escolha alguma de sua vida. Apenas ia vivendo conforme lhe era designado.

 Ontem, dia 14 de Janeiro, enquanto os últimos raios de sol se despediam para deixar suas enteadas nuvens trazerem a chuva, Popin observou um acidente no centro da cidade. Dotado de onisciência e onipresença, conseguiu acompanhar todo o destrinchamento do horrível drama.

 Maria chegou em casa, encontrou seu marido Roberto traindo-a com outra, Ana, em sua própria cama.
 Maria furiosa sai de casa e vai para um boteco qualquer, afogar seu sofrimento enquanto observa o mundo por trás de um fundo de copo.
 Enquanto isso Roberto perde o controle, motivado pelo nível de estresse da situação e mata Ana com uma .9mm que guardava na gaveta da cozinha.
 Maria sai do bar dirigindo, perde o controle do carro, atropela duas garotinhas, Nicky e Lara, e destrói a loja do Arthur, revendedor de eletrodomésticos.

 Horas depois, o pai de Nicky e Lara, Matheus, entra na delegacia com uma .9mm recém adquirida e mata Maria com três tiros.
 Arthur colocou sua casa como fiadora de sua nova loja, que estava aberta a apenas uma semana, e todo o investimento feito foi fruto do montante de sua aposentadoria. Desejou ter uma arma, seria menos doloroso. Todo seu dinheiro, toda sua esperança, tudo destruído por uma garota mimada que decidiu beber apenas por fazer farra, sem motivo algum. Como não tinha uma arma, Arthur jogou-se do vigésimo segundo andar de seu prédio.
 Matheus foi preso.
 Roberto usou a última bala de sua .9mm quando viu o noticiário.
 O dinheiro que Matheus pagou por sua .9mm ilegal foi o mesmo dinheiro que Cláudio, traficante de armas, injetou em suas veias e morreu de overdose na madrugada do dia 15 de Janeiro.



Popin Jack tragou mais uma vez seu narguilé, e, não por vontade própria, pegou um pequeno caderno que jazia ao seu lado, no topo do prédio.

Os caminhos que as pessoas trilham, as decisões que tomam, é tudo um grande efeito borboleta. As vezes uma decisão sábia se mostra estúpida. As vezes o seu investimento te deixa na miséria. As vezes o seu amor parte seu coração em mais pedaços do que sua alma é capaz de juntar. As vezes, ou melhor, sempre, as escolhas erradas estarão presentes. E é nelas que encontraremos as maiores frustrações, os maiores sofrimentos e, muitas vezes, o nosso ponto final.

Com uma caneta esferográfica azul que falhava em 20% de seu uso, escreveu nas páginas amareladas:

" Será que nosso livre-arbítrio é a razão de nossos sofrimentos?"

Sem mais, tirou uma .9mm que estava atado à seu cinto e disparou contra sua têmpora, deixando as cordas frouxas caírem junto com seu corpo sobre uma cidade preta e branca.

- Dedos Azuis





terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Presença

"Engraçado..."
"O que é engraçado, filho?"
"Ah, nada. É que simplesmente esse era o lugar que ele passava a maior parte do tempo, sabe?"
"É, é verdade."
"Ele ficava aqui conversando com as flores, regando-as o dia todo. Parecia que ele gostava mais delas do que de mim. Sei lá."
"Ah, filho, isso não é verdade, seu pai te amava e ele ficaria orgulhoso do homem que você se tornou."
"Não é isso, mãe. É que tá passando tanta coisa comigo, a escola, os amigos e tem essa garota, agora."
"Ah, tem uma garota? E ela é bonita?"
"Ela é linda, engraçada, inteligente e tal, mas é que não sei."
"Você pode contar qualquer coisa para a sua mãe, querido."
"Ah..."
"Vamos, pode falar."
"É que eu não sei se ela aceitaria o nosso estilo de vida."
"Se ela gosta de você com certeza vai te aceitar do jeito que você é."
"As pessoas me olham engraçado na escola. Ontem, o nosso mascote de sala, Billy, morreu e ninguém compreendeu nada do que tinha acontecido, só eu. A professora até chamou a psicologa para conversar comigo e disse que queria conversar com meus pais."
"E você?"
"Eu disse que vocês estavam viajando."
"Fez bem, meu querido. Desculpe não ser a mãe mais presente do mundo."
"Desculpas aceitas. Acho que ouvi a campainha, mãe. Quando o papai acordar você me avisa, ok?"
"Aviso sim, meu lindo."
"Descanse um pouco. Tchau, te amo."
"Tambem te amo e Ah! Não esqueça o hamster."
"Ah, sim. Vamos, Billy."

- Lágrimas de Gasolina




quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Pré-Natal

"Agora você aparece de novo! Como vou explicar para os meus pais?"
"Idiota! Idiota!"
"Como isso foi acontecer? "
"As vezes as coisas não são como esperamos e é isso, só isso."
"Como assim? Do que você tá falando?"
"É, você sabe. De tudo isso que tá acontecendo. Seu esposo morto na banheira, sua gravidez inesperada, esse tipo de coisa."
"As coisas fugiram do controle. Agora, eu não sei o que eu faço."
"Você devia começar pelo corpo."
"Do Pedro? Não, eu não posso!"
"Não, sua boba! O outro corpo, esse dai que você carrega contigo já fazem alguns meses, afinal, não é por isso que Pedro está morto?"
"N-Não, na verdade, sim. É por isso mesmo."
"Então, muito bem, vá ao banheiro e tire isso de dentro de você. Já começaria bem."
"Eu não posso, ele é meu filho, minha criança. Eu não posso simplesmente retira-lo. Ele não é uma sujeira que esfrego dos meus pés e em alguns minutos está fora."
"Eu sei, use a arma."
"Usar a arma? Você está louca? Como eu vou abortar uma criança usando um revolver?"
"Eu não estou falando com.você, eu estou falando com a criança."

"Dois disparos. Uma cabeça suja. Um chão sujo de sangue. Passos, pequenos passos. Uma banheira. Dois cadáveres"
"Não há ninguém por aqui. Quem é essa? Parece que essa pobre infeliz atirou no esposo e depois se matou."
"Pouco provável, olhe para a pernas dela. Estão mutiladas."
"Nessa cidade, só acontecem coisas loucas, cara. Na verdade, eu já to de saco cheio disso tudo."
"Como assim?"
"Ah, você sabe, todas esses crimes sem solução aparente. Mulheres mutiladas, mortos nas banheiras. Tô cansado. Sei lá, minha vida anda uma merda também, a Mari disse que está gravida. Já fez o pré-natal e tudo, sem eu saber."
"Poxa, cara. Que bacana."
"É, é, seria bacana se eu não fosse um fodido. E pra piorar ela disse que talvez sejam gêmeos."
"Chega disso, vamos comer alguma coisa. Porra, fique feliz pela gravidez de sua mulher, é o minimo que ela espera de você."
"É, pode ser."

- Lágrimas de Gasolina

domingo, 23 de novembro de 2014

Blocos

Talvez qualquer dia, eu encontre de novo.
Talvez qualquer dia, eu consiga trazer de volta aquilo que te trouxe para mim.
Eu fiquei confuso, sozinho. Ela apareceu, surgiu como o vento, empurrou algumas coisas e foi embora.
Eu tenho a estrutura forte. Tenho um muro emocional dentro de mim.
Ando pensando muito em tudo o que aconteceu, tudo o que fiz de errado. Revisei tudo, de ponta à ponta, e nada.
Não encontrei uma falha minha se quer.
Mas quem sabe? Quem sabe o problema não seja eu? Será que no começo ela não reparou no problema que estava adquirindo?
Será que demorou tanto tempo assim, inversamente proporcional ao meu apego?
Algumas vezes se passaram. Ela disse que não queria mais.
Foi embora.
Deixou uma magoa e uma ferida. Uma tristeza e um vazio.
A maior injustiça foi que eu nem ao menos soube o porque. Não deu satisfação, e nem devia.
Eu sei que essas coisas acontecem com todos o tempo todo. Todo mundo já teve uma decepção aqui e ali.
Mas eu não tenho medo do que está por vir. O meu medo provem de assuntos muito mais pessoais.
Sinto que estou perdendo a capacidade de amar.
Estou me transformando cada vez mais naquilo que um dia eu jurei combater. Estou me transformando em um monstro sentimental, um devorador de emoções.
Não sinto mais vontade de ter alguém, não sinto mais vontade de agradar, não sinto mais vontade de amar.
Eu só quero à mim, só quero o eu. Pensar em mim, sempre.
Não sou um merda de um egoísta, mas sim, fruto de decepções.
E quando eu disse que era formado em rejeição. Eu não havia mentido. Eu não minto.
Hoje, não sou mais formado em rejeição.
Hoje, sou mestre e tenho pós em reciprocidade. Meu material de trabalho são cimento e tijolos.
Semearei bondade e colherei afeto.
Caminharei com quem caminha comigo. Lutarei por quem luta por mim.
Amarei quem me ama e destruirei quem quiser me destruir,
Minha alma está acinzentada como um tufo de algodão usado.
Não permitirei que nenhuma outra pessoa a escureça mais, não terão chance, pois não a darei.
É apenas mais um bloco no muro.
Apenas mais um bloco.

- Lágrimas de Gasolina





sábado, 12 de julho de 2014

Maria

E quando a morte se torna clichê e o amor se torna banal?
E quando as coisas deixam de fazer sentido, mas você não se importa?
Será que é isso o que chamam de crise existencial?
Sinto que meus sentimentos estão amordaçados. Minha mente direciona uma foice na direção do meu coração, dizendo:
"Controla teus hábitos, pobre infeliz. Não quero perder mais nenhuma noite de sono."
E assim se fez e assim se faz.
Estou amordaçado. Não digo mais o que não preciso dizer. Não tento demonstrar o que não sinto.
Me tornei frio, calculista. Me tornei um monstro que jurei jamais me tornar um dia.
Me transformei no mais podre dos tipos. Não sinto pela perda, mas a respeito, de forma intima, mas a respeito mesmo assim.
Me calei, blindei minhas defesas, me tornei forte. Mas até quando essa força será uma vantagem?
Até quando manterei minhas emoções sobre controle?
Fui destruído e me reconstruí. Me apoderei dos detritos que restaram dentro de mim e construí uma barricada impenetrável.
Eu não sou assim, nunca fui e espero que isso acabe.
Foi um monstro deste, do pior tipo, que me tornou assim.
Não, a culpa não foi só sua. Me lembro bem, de ver o ser mais valioso para mim, em um leito de definhamento e eu nada podendo fazer. Senti, com uma intensidade muito superior, a dor que é ter em mente que um dia eu vá perder tudo que amo. Principalmente ela.
Foi a partir daquele momento, naquela manhã, que eu percebi que nem todas as dores já sentidas seriam superiores a perder você.
A partir daquele momento, eu comecei a dar valor ao que realmente importa. Deixei de lado minhas ilusões, deixei de lado minhas asneiras, abri mão de minhas manias.
Eu me transformei no filho da reciprocidade. Sinto pelos que sentem, amo pelos que amam.

- Lágrimas de Gasolina

terça-feira, 8 de julho de 2014

Mágica

Como num passe de magica.
As cortinas se fecharam.
O show acabou.
O sol se recolheu.
Arregacei as mangas pra poder fazer o que faço de melhor. Esquecer.
Ali não existe mais o que existiu.
A criança que cresceu, envelheceu.
Logo surgiu uma nova flor naquele campo de odio.
Num passe de magica.
As luzes se foram.
Como sempre acontece, se foram. Eu só não estava preparado, mas o mais incrivel é que quando aconteceu não deixou sequela. Não deixou rancor. Nem magoa.
Por que me amargurar por perder algo que nunca me pertenceu.
Sim, eu sei que ela é um espirito livre. Sempre foi.
Jaulas não a aprisionaram. As escolas tambem não conseguiram. Quem dirá a selva de pedra.
Nem mesmo o coração de um pobre apaixonado poderia segura-la, afinal, ela é como uma força da natureza, indomável, inatingível, incontrolável e descontrolada.
Dizem que é a minha cabeça que funciona demais, que eu sou louco por volta e meia.
Eu não sou louco. Eu sou só mais um, mais um que caiu nas garras deste vendaval.
Segure as pontas, as rédeas escaparam.
O cavalo fugiu, levou a natureza e levou o amor.
Destruiu tudo que construí mentalmente.
Ou melhor, fez desaparecer.
Como um passe de magica.

- Lágrimas de Gasolina
Porque minhas lagrimas ardem quando saem, mas queimam quando caem. E a minha dor outrora sentida, não é, nem será, de longe, a maior das dores que estão por vir.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Um dia de Mãe

André não lembrava de mais nada daquele dia, daqueles anos. Era muito pequeno.

A única coisa que lembrava com clareza era daquela falsa promessa:

"Vou comprar leite", ela disse.

"Volto logo", ela disse.

Ela não trouxe o leite, muito menos voltou logo. 

Os anos se passaram, acumularam-se, tornaram-se uma grande gaveta de poeira,

onde detalhes não importavam nada e importavam muito. 

Era difícil, foi difícil. Sempre vai ser. 

Seu pai é ótimo, mas é pai. Sua mãe nunca esteve presente.

Seus avós eram ótimos, mas eram avós. Não lembrava do rosto de sua mãe. 

Escola, namoradas, faculdade, carro, emprego, decepções, decepções, decepções. 

Seu pai estava lá, uma verdadeira chapa de aço indestrutível, mas onde estava sua mãe? 

"Volto logo", ela disse. Estas palavras ainda ecoavam em sua mente.

Hoje, com 78 anos, no seu quarto, dentro de um asilo, sentia sua respiração diminuindo. 

Sentia o pó tornando-se mais presente, sentia o ácaro tornando-se mais presente. 

Sentia o cheiro da morte tornando-se mais presente. 

André teve uma vida boa, só não teve uma mãe. 

Ela nunca apareceu, em seus 78 anos ela nunca apareceu. 

Mas hoje ela está ali. 

Não, ela não está morta. 

Ela está divina, com seu corpo de vinte, vinte e cinco anos. 

Seu cabelo louro dourado descia liso como uma cascata em suas costas. 

Trazia no rosto uma máscara que cobria seus olhos, mas claramente reconhecível. 

Amarrada no pescoço, uma longa capa azul lhe adornava. 

E então, agora, com 78 anos, ela contou para André o real motivo de ter partido.

Disse que fora convocada, fora escolhida

Para tornar-se uma super-heroína

Disse que todos os dias da vida de André esteve presente,

Protegendo-o em cada esquina, em cada decisão.

Revelou que não foi mãe, mas fora anjo da guarda e,

ajoelhada aos pés enrugados de André, pediu perdão. 

André sorriu, com os olhos cansados, e abraçou a mãe. 

- Por 28 mil dias, você foi heroína, e por 1 será mãe.

- Mas escolhi desta forma para poder te proteger... - sussurrou a mãe.

- Mal sabes que mães na verdade não só são mães. Não existe dias de mães ou dias de heróis. 
Mães todos os dias sãos mães, são anjos, são super heroínas. 
São professoras e amigas, são apoio e incentivo. 
Mas não me peça perdão, minha mãe.
Não cabe à um filho decidir se perdoa ou não nossa mãe. 

E passando os braços sobre os ombros de sua mãe, ambos saíram do asilo, 

Ela assumindo sua posição de super heroína na Terra, enquanto André ajudaria a defender outros reinos. 

- Dedos Azuis