Ela já esteve com ele, mas agora esta com o outro.
E agora tudo está bem, tudo está correto. O coração não pulsa dislexo como antes, disforme como já fora. É algo estável, algo concreto. Algo bom.
Mas existe um abismo tão grande entre o bom e o destino. Entre um roqueiro e um ilustrador.
Com o roqueiro, a vida é contínua, alegre, engraçada. Mas só o ilustrador tem o lápis certo para cada momento, a cor que seu coração deseja para aquele milésimo de segundo.
O roqueiro fará da sua vida um festival de Indy Rock. O ilustrador te pegará pela mão e dançará uma valsa sem melodia, sem som. Uma dança descompassada, porém única.
O roqueiro tem aquele sorriso brilhante, fofo, que cativas mesmo o mais insensível coração. Mas o que ela sempre quis foi um sorriso torto, de um ilustrador cafajeste. Um sorriso de um minuto. Um amor de um minuto. Como o amor de um ilustrador.
Como é possível amar alguém que nos faz chorar? Isto nem ilustrador nem roqueiro saberá responder.
Se devemos amar ao próximo, o amor é uma opção. Então por que não escolher o melhor?
O ilustrador nunca vai ser o melhor para ela. Ele é apenas o que ela precisa.
Mas o roqueiro é a base, a estrutura, o conforto da segurança. É saber que o amanhã andará como deves andar, meticulosamente registrado, detalhadamente construído. O roqueiro verá a vida como a sifra de uma música.
O ilustrador… Ah, o ilustrador. Este é um caso perdido, convenhamos. Discorre por momentos incertos, dias aleatórios, fatos únicos e jamais imaginados. Todos os planos se resumem a felicidade, e seus adornos são improvisos momentâneos. O ilustrador vive a vida como um desenho sem esboço, com erros de nanquim, traços sobre traços, linhas incertas, riscos sem nexos.
E como um coração escolherá o ilustrador? Como, por razão ou emoção, alguém escolherá o ilustrador?
- ninguém nunca amará o ilustrador – disse o ilustrador.
Mal sabia ele que a roqueira o amaria. Mas ele nunca vai ser o melhor para ela. Ele é apenas o que ela precisa.
- Dedos Azuis
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terça-feira, 4 de junho de 2013
domingo, 2 de junho de 2013
Dança da Vida
As nuvens lentamente se deslocavam para seus lares, permitindo assim, que a noite avançasse impiedosamente.
A quanto tempo permanecia estático, jamais saberia dizer-lhe. Minutos, horas, dias. Mesmo o eterno pareceria um tempo incerto.
Baixei a cabeça, pousando meus olhos no nada, e voltei meu corpo para trás, refazendo o caminho que por meio de passos arrastados me trouxera até ali. Mas parei, atento ao pequeno som que começava a se propagar das estrelas que surgiam.
“Cause with your hand in my hand”
Voltei-me para minha origem, olhando, curioso. Buscando algum vestígio concreto, físico. Alguma explicação plausível para a nossa música começar a tocar na hora de minha partida.
“And a pocket full of soul”
Mas a emoção abalou-me de tal modo, que fora impossível persistir em um caminho errante. Agi da única maneira que poderia agir; afastei as pernas ligeiramente, um braço curvado em noventa graus à minha frente, o outro contornando uma cintura imaginária.
“I can tell you there’s no place we couldn’t go”
E comecei a dançar uma valsa solitária. Um início lento, cuidadoso, meticuloso. Com passos planejados, movimentos mecânicos.
“Just put your hand on the past”
Deslizei para o lado, intensificando os movimentos. Um passo para lá, uma abertura para cá. E começou a fluir toda uma energia antes reprimida.
“I’m here tryin’ to pull you through”
A música ficou ligeiramente mais alta, ganhando vida, ganhando cores. Todo o ambiente estava preenchido pela sua voz, pela sua risada, sua gargalhada. Rodopiávamos no ar, juntos, entrelaçados. Movimentos floreados, ensaiados. Em uma bela curva, sinto o suave toque de seus cachos morenos acariciando meu rosto. Seu perfume abrindo espaço por entre as flores, tornando-se absoluto e puro.
“You just gotta be strong”
Apertei sua mão e puxei-a de volta, adornando-a com um terno abraço. Um sorriso audacioso forçou as rugas de minha boca, abrindo uma singela curvatura. Tornamos novamente uma abertura, um giro floreado, um ávido movimento, e na volta…
Fui arremessado ao chão.
Quem teria tamanha audácia para profanar tal puro momento? Um sacrilégio meu pé ter sido puxado por dito monstro que renega todos os aspectos do amor para seu bel prazer.
Olhei para meu agressor, para descobrir que era meu carrasco.
Meu antigo pesadelo que, não mais esquecido, voltou a tapear-me a face.
Olhei para a lápide de mármore branco a minha frente. Adornado em sua pedra, com letras que você teria amado há tempos atrás, seu nome no epitáfio.
“Cause I don’t wanna lose you now”
- Dedos Azuis
quarta-feira, 29 de maio de 2013
Heinz
Quando Charles nasceu foi uma bela tristeza.
Uma engraçada tragédia, e também uma irônica Catarse.
Sua mãe se desfez em lágrimas de gasolina, enquanto seu pai esmurrou a parede até seus dedos ficarem azuis.
Charles, ó triste Charles, havia nascido com um rubro vermelho tomate no lugar de seu rosto. Isso mesmo, um tomate.
Não havia nariz nem boca, só uma lustrosa leguminosa.
Seus pais tentaram, por um ou dois anos. Tentaram ensinar Charles a ler, a desenhar. Tentaram fazer Charles escrever poesias, ser bom nos esportes, ser inteligente. Tentaram fazer o menino de dois anos aprender a tocar violino. Tentaram ensinar Charles a voar.
Mas Charles não conseguia fazer seus pais orgulhosos.
O fim chega para todos. Para Charles chegou em seus quatro anos.
Cansado de tentar, cansado de frustar seus bastardos fraternos, Chales fez a única coisa útil que estava ao alcance de suas pequenas mãos rosadas.
Charles fez, para seus pais, um pote de molho de Tomate.
- Dedos Azuis
(Nota do Autor: As vezes, cobramos tanto de pessoas que não enxergamos que nossos pedidos, muitas vezes, são inalcançáveis. Não apenas pelas próprias limitações pessoais dos indivíduos, mas por atividades extraordinárias. A cabeça de tomate de Charles nunca atrapalhou nenhuma de suas atividades, só o simples fato de seus pais almejarem realizações fora do patamar de uma criança de 2 anos. Mas ninguém enxerga isso, nem mesmo o próprio Charles.
Somos cegados por nossas limitações, quando na verdade, deveríamos estar olhando para nosso potencial.)
domingo, 26 de maio de 2013
Libertar
O galho pendia com o peso de Carina.
Enquanto a corda abraçava seu pescoço, ela sorria para mim.
Seu corpo dançava no ar há algum tempo, naquele velho salgueiro,
indo e vindo. Uma valsa macabra.
Nossos olhos se encontraram. Ou eu encontrei o branco que preenchia
os olhos antes verdes de Carina.
- Quero ficar com você - ela me disse.
Sorri, e uma lágrima de gasolina escorreu de meus olhos azuis.
Também quero ficar com você, quis dizer.
Compensei meu peso de um pé ao outro, indo e vindo.
E Carina pendurada na árvore, indo e vindo.
- Largue disso, abra mão! Me beije - ela me disse.
Estalei meus dedos azuis, prensando-os em busca de inspiração.
Olhei para Carina. Eu te amo, quis dizer.
- Corra, e ambos seremos livres! - ela gritou, enforcada no salgueiro.
Meus olhos tremeluziram em pânico e dúvida, e eu corri.
Corri.
Corri para Carina, e ambos fomos livres.
- Dedos Azuis
Avaliação
Oi, meu nome é João e eu tenho 15 anos.
Faço 16 anos em março e vou dar uma grande festa.
Sou um adolescente como outro qualquer. Amo meus pais.
Gostaria de amar outras pessoas. Gosto de sorvete.
As vezes me sento no balanço do parquinho que fica á algumas quadras de casa. Gosto de pensar. Penso muito.
Falar nunca foi meu ponto forte. Prefiro escrever. As coisas fluem melhor no papel. No papel, a gagueira não é percebida.
No papel, a gagueira não é motivo de deboche.
No papel, as pessoas não veem um rapaz baixinho, muito menos tímido.
Aqui, é o meu lugar perfeito. Aqui, é a minha válvula de escape.
Aqui, as coisas fluem. Fluem do modo como eu preferir. Fluem de tal maneira, que eu não posso ser avaliado, nem julgado.
Nome: João Carlos Felipe Neto Data: 15/01/11Escola: Escola Municipal do Estado do MAProfessor(a): Cristina de Souza AugustoTema: Válvula de Escape
- Lágrimas de Gasolina
quinta-feira, 23 de maio de 2013
Olhos Negros
Todas as noites pousava em minha janela
Aquele lindo pássaro dos olhos negros
Conversamos todas as madrugadas fitando o céu escuro
Conversamos sobre a morte, e como ela pode ser bela
Não ficava uma noite sem sua companhia
Mas com o passar dos dias não a suportava mais
Não aguentava mais ouvir seu gorjear entediante e repetitivo
O único pensamento em minha mente era roubar a vida daqueles belos olhos negros
Na noite seguinte o fiz sem pensar duas vezes
O sufoquei sentindo em minhas mãos os últimos batimentos de seu pequeno e indefeso coração
Roubei a vida de seus brilhantes olhos negros
Me senti feliz, completa
Foi a ultima vez que o vi
Aquele lindo pássaro dos olhos negros
- Dama da noite
quarta-feira, 22 de maio de 2013
Penélope
Grandes porções astrais e um imenso prazer sexual
Grandes vertigens e estou com as mãos e os pés no chão!!
Mas, eu realmente me sinto contente e sei até
quando vou continuar assim.
Nosso cérebro inchado parece pickles,
e nosso coração uma porta que não se abre em vão.
Os tremores que abalaram as montanhas só foram
sentidos por quem teve sua cabeça esmagada, esmagada !!
Nós nos safamos pois estávamos com
Nós nos safamos pois estávamos com…
Penélope e os seus cogumelos voadores vão voltar para casa…
Penélope, Penélope…
- Olhos da Lua
domingo, 19 de maio de 2013
Cíclico
Aquele corredor infinito e branco, e infinitamente branco, se estendia
em uma gigantesca cobra, ondulando sem parar. Enquanto eu corria,
as criaturas transitavam de um lado para outro. As cabeças de animais
pendendo dos corpos pálidos.
Patos e Porcos. Cães e Cabras. Macacos e Mamões. Cabeças que
terminavam em camisetas e shorts brancos. E corriam para todos os
lados, grunhindo e zumbindo.
Aquele corredor comprido e claro. Tremia como um gigantesco celular
vibrando. Pessoas com feições animalescas caminhavam ao meu lado.
Por cima das camisetas e shorts branco, pessoas com orelhas de
macaco e bocas de pato, com nariz de cachorro e olhos de cobra.
Aquele corredor iluminado. As luzes brancas piscavam. Ao meu lado
caminhava meus colegas internos. Com suas roupas de manicômio,
até pareciam animais.
O enfermeiro trouxe o pequeno copo transparente com as duas
pílulas avermelhadas dentro. Tristemente tomei o seu conteúdo.
Aquele corredor infinito e branco, e infinitamente branco…
- Dedos Azuis
sexta-feira, 17 de maio de 2013
Num Piscar de Olhos
Me lembro de Maria com sua cabeça apoiada contra a parede, contava em voz alta.
Corri para o quarto, fechei a porta. Levantei o edredom que cobria a cama e encostava no piso, rastejei pelo chão gelado.
Deitei sobre o azulejo e ali permaneci, olhando para a grade de madeira.
Fechei os olhos, enquanto ouvia o contar de Maria, senti um arrepio.
Quando os abri, não estava mais deitado debaixo da cama. Estava sentado e a grade de madeira se transformara em uma tela brilhante e em um pequeno teclado. Ainda podia ouvir Maria, fazendo contas. Ela estava sentada também, ao meu lado.
Preocupações e mais preocupações dominavam meus pensamentos.
Por que eu sentia aquilo? Preocupado com o que? E por que Maria estava tão cheirosa?
Minhas costas doíam. As pressionei contra a cadeira e inclinei-me, fechando os olhos. Toda a preocupação desaparecera.
Quando os abri, tudo mudara novamente. Meus olhos estavam lacrimosos e pude sentir o cheiro de Maria. Ela usava um grande véu branco, estava linda, e olhando para mim, disse:
“Aceito.”
Um rapaz, muito bem vestido, sorriu.
“Pode beijar a noiva.”
Por que estava feliz? Por que eu queria Maria mais perto de mim?
Fechei os olhos e esbocei uma feição de felicidade.
Maria estava sobre mim, chorando. Eu estava deitado confortavelmente envolto por rosas.
“Não chore, Maria.”
Duas garotas se aproximaram e tiraram Maria do meu campo de visão. Não conseguia me mexer. Não podia gritar.
“Por favor, tragam Maria de volta.”
Fechei os olhos.
- Lágrimas de Gasolina
Errar
O rapaz arrumou o colarinho depois passou a mão pelo corpo, tirando toda impureza do terno.
Seu cabelo era escuro, sua boca estava seca e seus olhos, inquietos. Procurava algo, esta era a unica certeza que podia-se tirar daquela misteriosa figura.
Ele batia o pé com força, ofendendo o solo a cada pisão. A maleta em sua mão, balançava freneticamente de um lado para o outro. Repentinamente, seus bruscos pisares cessaram e seus olhos direcionaram-se para o céu.
A mala se abriu e todo o seu conteúdo se juntara ao vento. O rapaz não esboçou reação. Estava distraído demais. Soltou a maleta e dando dois passos para trás, apontou para cima.
Olhei para cima e vi uma bola incandescente que escorria dos céus em direção á terra.
“Eu não quero morrer.” o rapaz disse.
Outra esfera de fogo adentrava a troposfera.
Me aproximei do rapaz. Pobre homem, deixara o trabalho para conferir um boato da empresa, e quem diria, não?
Ah, se ele soubesse que tudo isso é culpa dele e que se ele não tivesse dado ouvidos aos boatos tudo estaria bem.
Ah, se eles soubessem o quão grande é o poder que eles mesmos têm sobre suas próprias vidas.
Se eles soubessem, mas não sabem.
“Adeus rapaz, espero que os outros não cometam o mesmo erro que você.”
“Como assim, que erro?”
“Exato.”
- Lágrimas de Gasolina
quinta-feira, 16 de maio de 2013
Crise Inexistencial
Por favor, eu quero voltar a existir.
Eu grito, angustiado, pela vida que já tive.
Me recordo dos meus amigos, dos passeios e até mesmo dos meus pais. Ah, meus queridos pais, como será que eles estão?
Quero meu cachorro de volta. Quero poder assistir televisão.
Quero poder namorar. Conhecer pessoas, lugares. Festejar. Sorrir.
Quero tudo de volta, mas não posso. Existe algo mais forte do que eu. Algo que me prende e também prenderá a você.
Todos atingiremos a inexistência algum dia. Todos deixaremos de existir como indivíduos em algum momento e assim permaneceremos.
“Com licença. Douglas, é isso? Eu gostaria de fazer um pedido.”
Eu me tornei um nome.
E você?
- Lágrimas de Gasolina
Desenhos
Deslizei o lápis 2B lentamente pela folha, fazendo malabarismos
com grafite. O brilho translúcido da lua invadia meu quarto pela
janela que jazia aberta. E em frente a janela, a outra casa.
Aquela casa; escura, velha, triste. Sem vida. Uma casa vazia,
escura, velha, triste. E vazia.
Apoiei o lápis sobre o papel e olhei para a casa.
Na janela, uma criança pálida me encarava. As feições distorcidas,
a boca escancarada em um grito infernal, as órbitas negras, vazias.
Vazia que nem a casa, só que não mais.
No dia seguinte, tentei terminar meu desenho. Mas algo me
assombrava, algo me perseguia. Algo obsessor começou a
apoderar-se de mim.
Olhei para a casa, mas fui surpreendido quando minha visão fora
cortada previamente. A criança pálida agora me observava de minha
janela. Sua boca, suas órbitas, sempre um resumo de uma galáxia
infinitamente negra. E ali estava ela. Parada, na janela.
Ainda continuava o desenho no terceiro dia. O ambiente estava gelado.
Não havia como respirar de tão denso. A criança esperava em pé
logo atrás de minha cadeira, sugando meus resquícios de felicidade.
No quarto dia ela não estava na casa, nem na janela. Não estava
no meu quarto.
Ela estava dentro de mim.
O desenho estava pronto.
- Dedos Azuis
segunda-feira, 13 de maio de 2013
Sorrir e fazer sorrir
Sorrio, mas não sorrio porque sou uma pessoa feliz.
Sorrio, por que é o meu trabalho. Sorrir e fazer sorrir.
As pessoas são superficiais, elas enxergam apenas o que gostariam de enxergar.
Elas enxergam um rapaz, com cara de bobo e gravata engraçada.
Elas debocham, riem e maltratam. São maldosas, não enxergam uma pessoa com necessidades e ambições.
Mas agradeço. Agradeço, pois os mesmos que riem da desgraça alheia são os mesmos que pagam por ela.
É triste pensar que dependo das pessoas que me causam o pior dos sentimentos.
Aquele mesmo sentimento que me impede de sorrir, mas sorrir é o meu trabalho,
Sorrir e fazer sorrir.
- Lágrimas de Gasolina
domingo, 12 de maio de 2013
1, 2, 3
Papai está no fundo de casa. Está chovendo muito.
Cadê a mamãe? E o meu irmãozinho?
Papai balançava a cabeça com muita força, de um lado para o outro.
Ele balbuciava alguma coisa. Cheguei mais perto e pude ouvir.
“1 e 2, 1 e 2, 1 e 2…”
Mamãe e meu irmão mais novo estavam deitados na chuva.
Papai estava com uma cara muito triste.
As suas lágrimas misturavam-se com a chuva e o barro.
Papai parou de cavar, colocando a pá de lado.
Eu olhava o dois grandes buracos no jardim, quando ele olhou para o lado e percebeu minha presença.
Papai apanhou novamente a pá, voltando a cavar.
Só que desse vez, ele contava até três.
- Lágrimas de Gasolina
Submissão
Ela apanhava, mas o amava.
Ele batia, mas não sabia.
Ela aguentava, mas isso a destruía.
Ele ignorava, mas isso o corrompia.
Ela explodiu e um dia decidiu partir.
Ele ficou para trás e nunca mais sorriu.
Sentiu por uma vez, a dor que a destruía e o amor que ela sentia.
Fechou seu sorriso para si.
Enquanto ela abria o seu para o mundo.
- Lágrimas de Gasolina
Ponto de Vista
Ele olhava dentro dos meus olhos.
“Maldito, canalha estupido.”
Como ele ousa entrar na minha casa dessa maneira?
Ele terá o que merece.
Me posicionei para apanhar a pistola de cima da mesa.
Apanhei a arma e a direcionei á sua cabeça.
Ele fez o mesmo.
As luzes apagaram e ouvi um disparo.
Tudo ficou muito claro, minha visão estava ofuscada.
Uma picada percorria meu corpo.
Abri os olhos, sangue por todo meu corpo.
Caí no piso gelado. Não sentia meus braços.
Ele largou a arma, deixando-a cair contra o solo.
Outro disparo.
Por acidente, o projetil atingiu seu maxilar inferior. Perfurando seu cranio.
Seu corpo caiu ao lado do meu.
“Canalha estupido.”
A noite estava fria. Muito fria.
- Lágrimas de Gasolina
quinta-feira, 9 de maio de 2013
Tempo
Hoje faz um ano.
Aquele acidente de carro acabou com a minha vida.
Eu não devia ter bebido naquela noite.
Se eu não tivesse bebido, provavelmente eu estaria com os meus amigos agora.
Eu os amava tanto, amava estar com eles.
Queria poder falar com eles.
Mas não posso.
O máximo que posso fazer é imaginar o quanto estão felizes, onde quer que estejam.
“Um brinde á Isaac, o melhor de todos nós.”
- Lágrimas de Gasolina
Loucura
Eu não sorria, sorrir é para os loucos.
A pequena Ana vinha, com um desenho feito giz nas mãos e me mostrava.
Não tinha tempo para bobeiras. “Não me atrapalhe”
Eu não amava, amar é para os loucos.
Carol chegava do salão. Passava a tarde inteira se arrumando para que eu a amasse mais, mas eu não
reparava nisso, não respondia seu boa noite. Só um beijo seco.
Eu não chorava, chorar é para os loucos.
Minha mulher e minha filha saíram de carro para comprar meu presente de aniversário e morreram em um horrível acidente.
O que eu fazia? Eu trabalhava, era um intelectual. Sentimentos são para os loucos.
Tenho 60 anos. Estou sentado em minha cadeira de balanço.
Sorrio assistindo novela.
Choro olhando para fotos.
E amo sem limites um passado que nunca existiu, pelo simples fato de eu ter enlouquecido tarde demais.
- Dedos Azuis
quarta-feira, 8 de maio de 2013
Orquestra
Começou com um silencioso choro de um violoncelo. Uma lágrima escorre-lhe a face.
Seguido pelos gritos finos dos pobres violinos. Tentou abafar os soluços, mas a dor fora maior.
O som ensurdecedor do bumbo imperou sobre todos. Joga-se no chão.
Entraram as guitarras, dando um ar eufórico para o ambiente. Abre a primeira gaveta do cômodo.
Os pratos colidem insanamente, frios e meticulosos. Pega a velha Glock e aponta para as têmporas.
As flautas começaram a cantar, como anjos vindo buscar alguém. Destravou o gatilho.
Um grande Tambor.
O maestro agradece e as cortinas se fecham. Para sempre.
- Dedos Azuis
Real
Batucava os dedos no chão de mármore frio quando a madeira da porta rangeu, e com um grito silencioso arrancou minha paz.
Minha cabeça latejou instantâneamente, e a sensação de vazio se apoderou de todo meu pequeno corpo. Meus dedos esfriaram, minha garganta secou.
Parado, na soleira, meu avô me encarava. Com uma máscara de dor atravessando o seu rosto como uma cicatriz de guerra, as mãos grossas e calejadas desabotoando as calças, ele pigarreou. Não algo para eu entender. Não. Não nos comunicávamos, a não ser pelos breves ruídos e grunhidos que emitiamos um para o outro.
Ele deu um passo para a frente, em minha direção. Ao longo dos anos de sofrimento e dor, minha mente criou uma proteção, um casulo. Minha mente criou Loráx. Meu mundo particular que me acolhia em situações de medo. Bastava fechar os olhos, era só fechar os olhos, e o real se transformava em irreal, e ao mesmo tempo ideal.
Apertei os olhos com força.
Abri. Ele continuava com seus passos mancos em minha direção, deslizando o zíper para baixo. E continuava, continuava. Eu olhei, com receio, mas me lembrei que em Loráx eu era corajoso, em Loráx eu poderia ser meu próprio super herói. Pulei por cima da cama empoeirada, com meus pés descalços estalando no mármore do chão, até alcançar a pequena comoda à direita. Puxei a velha gaveta, e de dentro tirei a antiga beretta de meu pai.
Sem exitar, levantei meu fino braço e apertei o gatilho. Seguinte ao estrondoso rugido de liberdade, o silêncio predominante invadiu todo meu ser, entrelaçado a paz. E por fim sorri; este irreal é tão saboroso que disputa espaço em minha cabeça. Mas era hora de voltar para o real.
Apertei os olhos com força.
Abri. Estava em Loráx.
- Dedos Azuis
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