Mostrando postagens com marcador Triste. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Triste. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Domingo Sombrio

O domingo é sombrio
As minhas horas sem sono
Queridas as inúmeras sombras
Com as quais convivo
Pequenas flores brancas
Não te acordarão
Não onde o treinador negro
Da dor te levou
Os anjos não pensam
Em te devolver jamais
Será que eles ficariam zangados
Se eu me juntasse a ti?

O domingo é sombrio
Passados nas sombras
O meu coração e eu
Decidimos acabar com tudo
Daqui a pouco haverão flores
E orações que dizem saber
Mas não os deixem chorar
Deixem saber
O quão feliz estou por partir
A morte não é um sonho
Pois na morte eu te acaricio
Com o último suspiro da minha alma
Eu te abençoarei
Domingo sombrio

Sonhando
Eu estava apenas sonhando
Acordo e te encontro dormindo
No fundo do meu coração
Querida, eu espero
Que o meu sonho nunca te persiga
O meu coração está te dizendo
O quanto eu te quero
Domingo sombrio
Domingo sombrio

- Ferdinandi

Flor branca ao centro

domingo, 8 de janeiro de 2017

A Ineficiência do Mal e o Estoicismo dos Bons

De todos os males que ousam vaguear pelos homens do mundo, a falsidade fora aquele que transformara seus melhores em mananciais de uma humanidade pútrida.
Reduziram os homens a um apanhado de sentimentos e medo - principalmente medo - enquanto proclamavam o quanto isto seria o suficiente para que se entorpecessem com uma falsa aceitação perante os outros medrosos sentimentais.
Fora poderoso o método utilizado, pois, em pouco tempo, seus locutores transformaram aqueles que ousaram se opor de alguma forma.
- "Nem só de medo vive o homem" - bradaram os opositores.
- "Seus sentimentos não servem de nada" - insistiram.
Mas a oposição sabia que seus membros voltariam sozinhos. Sabia que estes se deitariam, solitários, sobre suas camas e que encarariam o céu criado pelos covardes. O mal achou que isto seria o suficiente para derrotar a oposição - e enganou-se.
O mal se julgava a última reforma a ser criada, julgando-se definitivo, pois, somente aqueles que pudessem encara-lo saberiam que este era o mal em sua forma mais perturbadora, enquanto seus sacerdotes e devotos acreditariam piamente que praticavam a mais pura das benignidades.
Então, algo aconteceu.
Em seu interior, algo empertigava as entranhas da estranha maldade que assolava a maioria dos homens. Encarou o próprio modus operandi e encontrou uma realidade avassaladora.
Reduzira-os a parasitas sem hospedeiros que logo morreriam de inanição, pois aqueles que tinham suas veias tragadas pelos covardes rapidamente excluíram-se da presença da pútrida humanidade que criara.
E em seguida, deparara-se com um evento aterrador:
A solitária oposição, que supostamente deveria suicidar-se perante a exclusão, tornara-se mais forte e intragável.
Seus números cresceram e seus membros tornaram-se maiores e sustentáveis. Não precisariam da aceitação dos covardes corrompidos pela ilusória satisfação oferecida pela degradação.
Os solitários descobriram que trabalhavam melhor quando sozinhos.
E a solidão transformara-se em liberdade.
E a liberdade transformara-se em força.
Em pouco tempo, a maldade se tornaria ineficiente e seus seguidores, reduzidos a rostos raquíticos, cairiam no esquecimento, junto a ela.

- Lágrimas de Gasolina

Homem de mármore puxando pano
The fight of man against evil by Gaetano Cellini


quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O Paraíso e a Prisão

Dentro da minha mente, a maior jaula, grande como o universo.
Deuses e demônios habitam meus pensamentos. Estendo minhas mãos e
Alcanço as nuvens, o meu salto chega ao infinito do céu.
Será que ainda expulsam do paraíso os que sentem desejos?
Pois, a intensidade do desejo e que nos leva a fé.
Será que ainda expulsam do paraíso os que sentem desejos?
Bênçãos e maldições, em minha mente, são irmãs.
O sofrimento abre as portas para o amor, e o amor o sopro para a vida, e a vida sem a dor, não se faz sentir.
A dor é esposa, o amor é a amante.
Habitam os vivos e os mortos, enxergo na escuridão, o negro da vida, na luz, o brilho da morte.
Vem comigo, prova do fruto proibido, vamos fugir. O paraíso é uma prisão.

- Luis Fernando Lançoni


Sombra sob mão segurando grade
Imagem Ilustrativa



quinta-feira, 6 de outubro de 2016

O Culto dos Amantes da Lua

Você sabe por onde tenho andado.
Você sabe quem ouvido os meus segredos.
Você sabe sobre o que estou falando.
Eu não me sinto só!
Eu não me sinto só!
Tenho seguido o rastro, o rastro das almas perdidas.
E você se sente só!
E você se sente só!
Então, garota, conheça o culto dos amantes da lua, oculto dos amantes da lua.
A vida e a morte.
Não existem segredos, quando a lua sorri.
As estrelas iluminam a noite e, sob o doce luar,
nossas almas brindam o fim, nossas almas brindam o fim.
E você se sente só!
E você se sente só!
Então, garota, conheça o culto dos amantes da lua, oculto dos amantes da lua.

- Luis Fernando Lançoni

Homem em barco sob o luar
Imagem Ilustrativa


sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Exílio

Minhas mãos tentam me livrar,
Pregos e cruzes causam tanta dor,
Em meus olhos lágrimas de sangue.
Quando estou ao alto, vejo a vergonha dos homens.
Quando estou a baixo, vejo a vergonha de Deus.
Meus pés não pisam o chão,
Minha mente alada.
Sou o que voa sem rumo, sou o que voa sem rumo.
Minhas asas incendeiam.
ícaro não foi um anjo, tampouco foi um homem.
Minha morada - o exílio.
O pecado doce mel.
Quando estou ao alto, vejo a vergonha dos homens.
Quando estou a baixo, vejo a vergonha de Deus.

- Luís Fernando Lançoni

Icaro despencando dos céus
Fallen Icarus by phamngocthang

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Lágrimas da Noite

Lágrimas caem enquanto a noite
Espalha o teu encanto,
Enquanto a noite cura as feridas.
Antes do sol nascer, todas as dores terão partido.
Não se esqueça que os anjos visitam os teus sonhos
E que teus pesares serão leves como pluma
O abismo do medo não irá se alimentar
De suas leves esperanças.
Os anjos estarão aqui nesta noite
Lágrimas caem enquanto a noite
Espalha o teu encanto,
Alegra-te pois não estará sozinho
Os anjos estarão ao seu lado
Teus ombros serão cobertos
Por manto divino,
Terá os teus olhos o brilho da esperança
Teu sorriso será belo
E andará pelas montanhas das dores
Pelos vales sombrios.

- Luís Fernando Lançoni

Homem sozinho em floresta escura
Imagem Ilustrativa

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Eternas Lembranças

Ensine algo aos teus filhos
Diga a eles que Davi venceu Golias,
Não trajava armaduras de ouro,
Não usava espadas de duro metal,
Davi venceu Golias,
Vestia trapos e tinha em punho uma pedra.
Pedra de tiro certeiro.
Não deixe o ouro guiar os teus passos,
Pois teu peso é severo,
Teus braços não irão suportar.
Segue leve como os flamingos
Voando rumo ao sol.
Ensine algo aos teus filhos
Os dias passam
Cada vez mais caminhamos
Para o último de nossos dias.
Não espere ser o último à partir
Permita que chorem por você,
E que as tuas histórias vivam  para sempre
Que teu sorriso não morra
Porque para alguns
Serão boas e eternas lembranças.

- Luís Fernando Lançoni

Davi levantando a cabeça decepada de Golias
David and Goliath by Trevone David

segunda-feira, 14 de março de 2016

O Homem que Tinha Tudo

Bocht era seu nome, mas entre os moradores de sua antiga rua, era conhecido como “o menino que tinha de tudo”. Tudo, talvez fosse uma tênue hipérbole, mas não a ponto caricato, longe de ser um exagero de proporções colossais. Bocht tinha mais do que muitos, mais do que todos que o conheciam, e nunca teve constrangimento algum em demonstrar isto.
Além de ser um garoto extremamente belo e que atraía olhares por onde passava, também era um jovem gênio, que demonstrava fácil aprendizagem e compreensão com o mínimo de esforço aplicado. Seus pais eram donos de uma pequena fortuna, e gabavam-se aos amigos pelo filho que ainda tinha os quatro avós vivos. Falta de amigos nunca foi um problema, vez que Bocht estava sempre rodeado por crianças das mais variadas idades, além dos sempre presentes admiradores seniores. Animais de todas as espécies e tipos preenchiam sua pequena mansão, desde gatos e cachorros até pássaros e pequenos roedores. Por último, mas não final, pois o tudo é grande demais para resumi-lo em um parágrafo, ele tinha o que muitos batalham por toda a vida e nunca conseguem; Bocht era sincera e honestamente feliz.

Os anos passaram, as estações mudaram e o mundo acinzentou-se. O ar tornou-se mais pesado e difícil de respirar, a comida perdeu o gosto, o dinheiro perdeu o significado. A vida por vezes ameaçava perder o sentido. O menino que tinha de tudo acabou tornando-se o homem que tinha de tudo, e se alguma vez em sua vida, até agora, podemos dizer que Bocht perdeu algo, foi a felicidade que trazia em seu peito quando criança. Mas para este homem, a felicidade não representava nenhuma força estrutural para abalar seu contexto de todo, e, mesmo não sendo mais feliz, ainda acreditava ter tudo. Como esta é uma narrativa de sua vida, por seu subjetivo acreditar que ele ainda tinha tudo, trataremos desta forma até segunda instância.
Após o conhecimento da perda, esta se mostrou mesquinha outra vez, e cada vez mais frequente; seus avós, seus amores, seus admiradores, seus amigos, seus pais. A última perda que Bocht sofreu foi a de seus sentimentos, e, desde então, parou de notar o que mais perdia.
Em contraponto, cada vez sua fortuna tornava-se maior, dobrando, triplicando, em um ritmo exponencial humanamente inacreditável. Dedicava-se aos estudos com tamanha voracidade que os resultados eram diplomas atrás de diplomas, títulos, prêmios, reconhecimentos, mais fortuna. Suas conquistas anestesiaram suas perdas, a ponto de passarem despercebidas e tornarem-se cada vez mais superficiais. Para Bocht, ele ainda era o homem que tinha de tudo, então ainda assimilaremos isto como verdade absoluta.

Já faz tempo, tanto tempo que é difícil buscar a data exata, mas acredito que foi em meados de seu trigésimo aniversário. Ele admirava seu reflexo esbelto em seu espelho Guardian quando notou o pequeno fio branco que descansava sobre seu Armani risca-de-giz. Com os dedos em pinça, trouxe a poucos centímetros do nariz e inspecionou-o com afinco.
Efemeridade.
Foi esta a palavra que ecoou em sua cabeça. Foi esta palavra que o atormentou nos anos seguintes. Foi esta palavra que trouxe de volta um sentido para a sua vida, um significado para o seu dinheiro. Bocht precisava descobrir como contornar a morte.
Dedicou-se e investiu em diferentes campos de pesquisa, contratou cientistas de todos os cantos do mundo, apostou em pesquisas pioneiras em universidades estrangeiras e abriu mão do cargo de CEO de sua empresa. Estudou os supercentenários, os atletas que competiram nos Jogos Olimpícos. Viajou aos cantos mais remotos do mundo para compreender a chave da imortalidade dos vermes, assim como o impacto dos alimentos no organismo. Apostou uma parcela de seu dinheiro na recuperação de células e tecidos através da impressão 3D, fez inúmeras pesquisas ilegais em células-tronco e, quando a razão fraquejou, cogitou subornar Deus.
Turritopsis dohrnii, foi este o nome responsável pelas suas insônias. A espécie de água-viva que driblava seu destino e rejuvenescia suas células indefinidamente, não podendo morrer por causas naturais.
“É isso”, gritava Bocht em seu subconsciente. “É isso”. E, tamanha era sua convicção, que no dia em que recebeu a mensagem, avisando que a última amostra tinha morrido por causas naturais, Bocht sentiu medo. Foi a primeira vez, a primeira de duas vezes em que o homem que tinha de tudo sentiu medo.

A chuva gelada caia em sua cabeça, mas ele não ligava. O stress dos últimos anos, movido pelo primeiro fio branco apenas resultou na multiplicação exponencial do mesmo. Ele já era um jovem senhor, com a cabeleira completamente grisalha. Em pontos que ele nunca ousou olhar, constava-se até o início de uma calvície.
Bocht, apesar de ter tudo, não tinha mais rumo. Andava durante horas por ruas vazias, por vielas sem fim. Cruzava bairros, pontes, pessoas, e quando a fadiga o dominava, pegava um taxi e voltava para casa. Só conhecia o escuro, o limite, o frio e a dor.
Naquela noite, na noite da chuva gelada, Bocht foi por um caminho novo. Já fazia três horas e meia que estava em sua caminhada taciturna. Estava perdido, mas ele se perdia todas as noites. Estava sozinho, mas ele estava sozinho todas as noites.
Cansado, desmotivado, letárgico, levantou os olhos, pousando-os na única luz daquela rua negra sem fim. Lentamente decifrou a palavra que aquele conglomerado de letras luminosas formava: VIDENTE. Bocht suspirou, e a noite suspirou junto. Um vento fraco e asmático parecia empurrar-lhe para dentro da loja.
- Eu quero ver meu futuro! – gritou, empurrando a porta com seu sapato Dolce & Gabbana esfarrapado.
A velha senhora assustou com tamanho frenesi, soltando palavras aleatórias e desconexas, enquanto levava a mão ao coração.
- Meu deus, rapaz! Eu tenho pressão alta!
- Eu quero ver meu futuro! – repetiu Bocht, em um tom acima do que o necessário para se fazer ouvir, trazendo em sua voz uma embriaguez psicológica. Pela sua aparência física acaba, as roupas em frangalhos, não era de duvidar-se que realmente estava embriagado.
- Pois bem – disse a idosa – daqui a quanto tempo o senhor gostaria de se ver? Cinco anos? Dez?
Bocht gaguejou, mas não conseguiu dizer nada. Estava apreensivo. Com passos arrastados, começou a mover-se para fora da loja.
- Vou fazer-lhe uma proposta, desde que o pagamento seja gordo – riu a vidente – E se eu enxergar a sua morte? Sim, sim, este assunto parece atrai-lo mais, dado ao espanto em seu rosto. Pois bem, sente-se.
E assim Bocht o fez.
- Encoste sua testa com a minha – e esperou o homem seguir as instruções – cruze os dedos com os meus – disse, estendendo as mãos – agora sopre dentro de minha boca – e assim Bocht o fez.
Segundos que pareciam anos, que arranhavam a garganta do homem com unhas afiadas, fazendo sentir como se afogasse em seu próprio sangue. Então com uma voz rouca, claramente diferente da proferida alguns segundos antes, a senhora disse:
- Não existe futuro, para o homem sem futuro. Não existe morte, para aquele que a muito já moreu. Não existe nada, para o homem que não tem nada.
Bocht jogou-se para trás, recebendo aquilo como um soco na boca do estômago. Sentiu o choro quente escorrendo por seu rosto. Sentiu saudades, sentiu paixão, sentiu remorso. E, pela segunda e última vez em sua vida, sentiu medo.
Mas, quebrando completamente o ambiente de pânico gerado, uma gargalhada ecoou pelo recinto. Não uma gargalhada colossal, sinistra, tenebrosa, e sim uma gargalhada de divertimento sincero.
- Ai, rapaz, você me faz rir! – gargalhou a idosa – estou só tirando uma onda com a sua cara! A Vidente Margô já está em seus aposentos, eu sou apenas a faxineira! – e assim, deu mais uma gargalhada estridente – agora saia daqui, seu mendigo sujo!
Bocht levantou de sobressalto, com o rosto claramente perturbado. Sem dizer uma palavra, saiu da loja.

Não existe nada, para o homem que não tem nada.

Bocht morreu atropelado uma semana depois.

- Dedos Azuis


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O Adulto Infeliz

Tirou uma folha amassada do bolso e a desdobrou com cuidado, alisando suas partes violadas pela violência do caminhar e da pressão exercida por suas roupas, levantou os olhos e disse:
- "Sabe, eu cresci com uma cabeça cheia de opiniões de pessoas vazias".
Um homem estava em pé em frente ao banco em que um pequeno adolescente de cabelos escuros estava sentado, uma garoa fina caia sobre os ombros das duas figuras e algumas gotas escorriam pelo nariz choroso daquela criança crescida e desolada.
- "Ora essa" - pensou o homem - "mas você não passa de uma criança".
Olhou para aquelas pequenas mãos que dobravam um papel e o protegiam do vento e da chuva. Respondeu:
- "Como assim, cresceu? Você ainda é muito jovem para se lamentar por sua infância" - o garoto não o olhava - "você está vivendo a droga da sua infância" - o garoto olhou para cima, encarava os botões da camisa social branca em sua frente - "quantos anos você tem? Dez? Nove?" - Completou.
- "Onze." - Cochichou o garoto - "você não entenderia" - abaixou os olhos - "e nem precisa" - disse para si.
Eram quase seis horas da tarde, a garoa tornara-se tão fina quanto uma tênue neblina serrana, os pássaros haviam parado de cantar e não havia pessoas no parque, apenas algumas cadeiras vazias e lixeiras cheias de lixo.
- "Está ficando tarde, garoto." - Comentou após alguns segundos de silêncio - "os seus pais virão te buscar ou você esta pensando em ficar por aqui esta noite?" - Arriscou, não aguentou e sorriu.
Era indiferente, não importasse a pergunta que fosse feita, nada o atingia, sua cabeça estava em outro lugar.
- "Eu não tenho pais" - disse, indiferente - "bom, na realidade eu tenho, mas quase não os vejo, eles trabalham demais." - Complementou.
- "O problema não era esse" - pensou o homem - "afinal todos temos problemas com nossos pais durante a adolescência, alguns adolescentes gritam e se revoltam contra tudo e todos enquanto outros preferem sobrecarregar o departamento de tristezas incubadas do cérebro, porém os dois crescem e se tornam adultos tristes" - sua mente prosseguiu - "Assim como eu" - e sua boca concluiu.
O garoto o encarava sentado com as mãos no bolso sobre um banco de madeira envelhecido.
"Assim como você, o que?" - Perguntou calmamente.
Não havia percebido que teria proferido quaisquer palavras audíveis, correu uma das mãos até o queixo, mas não conseguiu evitar que as palavras que já havia dito chegassem aos ouvidos do garoto.
- "Disse que trabalho demais, garoto." - Lembrou-se das crianças em casa - "temo que meus filhos se sintam assim" - fez um movimento com o rosto -  "como você" - esperou - "não consigo suportar a ideia de que algumas crianças estão largadas pelas ruas ou sozinhas por ai" - suspirou, olhava para o garoto sentado a sua frente - "foi por isso que me tornei o que sou hoje." - Concluiu levantando as mãos num gesto indefeso.
O garoto o olhava, podia ver uns pequenos fios saindo das narinas e do queixo do homem em sua frente, jurou para si que não mencionaria este fato, percebeu que a chuva cessara e perguntou:
- "E o que você é hoje?”
Um sorriso triunfal serpenteou pelos lábios do homem, fez a expressão que os adultos fazem quando conseguem encaixar as falas de uma vítima numa piada de mau gosto, como se houvesse previsto a pergunta e tivesse uma resposta preparada desde a noite do dia anterior. Respondeu de olhos cerrados e de sobrancelhas levantadas:
- "Um adulto infeliz" - disse recitando uma música embutida numa fala de criança.
O garoto o encarou por um ou dois segundos.
- "O senhor não me parece infeliz" - disse - "até acho que você foi uma criança bem alegre." - Concluiu.
O homem tinha afundado o rosto na blusa para evitar o vento.
- "Sabe, garoto" - emergiu o rosto - "o que faz os adultos serem chamados de adultos infelizes não tem nada a ver com ser ou não ser feliz, mas com o fato de você conseguir fazer os outros serem felizes." - Falou como se desse uma lição de moral em um de seus filhos. - "E sim, eu fui uma criança alegre." - Respondeu ao se lembrar da afirmação.
O garoto abaixou a cabeça e pensou por alguns segundos, pegou o papel do bolso e deu uma risadinha, o guardou de volta.
- "Então isso quer dizer que eu vou ser um adulto feliz?" - Perguntou, olhando para o rosto mal-humorado em sua frente. Riu, insolente.
- "Como assim?" - Perguntou o homem ao perceber que sua lição de moral nem sequer atingiu os ouvidos do garoto.
- "Veja bem, se você era uma criança alegre e se tornou um adulto infeliz, eu que sou uma criança infeliz serei um adulto alegre, certo?" - O homem o encarava rindo.
- "Não necessariamente" - respondeu irônico.
O sorriso do rosto do menino desapareceu.
- "Como assim?" - Gaguejou.
Queria ter piedade, mas sempre fora um realista incurável.
- "Garoto, não é assim que funciona" - começou - "não é só porque eu fui de um jeito e terminei de outro exatamente contrario, que vai acontecer o mesmo com você. Nem todas as crianças ou adultos são iguais" - esperou, o garoto o olhava atento - "você vai conhecer crianças tristes que se tornarão adultos tristes, conhecerá crianças felizes que se tornarão adultos felizes e conhecerá pessoas como eu, que nascem de um jeito e terminam de outro" - continuou - "você vai pra escola, vai crescer e vai pra faculdade, vai fazer escolhas, vai arranjar um emprego, vai comprar um carro, vai encontrar uma garota que te aceite infeliz ou feliz, vai ter filhos, vai fazer mais escolhas, vai comprar uma casa, vai escolher um bichinho e todas essas coisas vão dizer se você vai ser um adulto feliz ou infeliz." - Concluiu.
Estava de cabeça baixa, tinha um papel na mão. Levantou e perguntou:
- "Se é a gente que escolhe tudo isso, por que existem pessoas tristes?" - O garoto triste estava mais triste. - "É por causa do que os outros adultos dizem, não é?" - Sua cabeça estava abaixada.
O homem reconheceu.
- "Sim, é por causa do que os outros adultos dizem." - Abaixou a cabeça.
O garoto levantou a cabeça.
- "E as crianças?" - Perguntou.
O homem abaixou, dobrando os joelhos na altura do banco.
- "O que tem as crianças?”
O garoto puxou o braço do homem e colocou um pedaço de papel em sua mão.
- "Elas podem fazer crianças felizes serem infelizes?" - Perguntou, ainda segurava o braço do homem.
Ele se aproximou um pouco, ainda de joelhos e viu os olhos lacrimosos do menino.
- "Não sei, acho que sim." - Disse.
No mesmo instante, o garoto pulou no peito dele, eram dois estranhos, nunca haviam se visto e o garoto o abraçava e soluçava. O homem ainda estava de joelhos enquanto o garoto molhava a camisa úmida pela chuva com suas lágrimas, ele passou os braços ao redor do garoto e o levantou no colo. Lembrou-se do papel em sua mão e o desdobrou, o leu em voz baixa, o garoto não o ouviu.
- "Feioso" - deu uma risadinha ao ler, mas parou, pois se lembrou de todas as vezes que ouvira palavras de mesmo efeito.
- "Você não deveria se preocupar com o que os outros pensam." - Suspirou o homem.
O garoto soluçou.
- "Eu sei".
O homem respondeu.
- "Não, não é pra você. Estou falando isso para me lembrar mais tarde".
 
- Lágrimas de Gasolina 




terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Código de Conduta

Correu até uma das gavetas da cômoda de madeira que descansava sutilmente no canto mais escuro do aposento. Era um móvel sagrado, trancado a duas chaves, uma escondida na gaveta logo abaixo e a outra carregada consigo ao redor do pescoço, pendendo através de um fino cordão de ouro dado por sua falecida progenitora.
Num rápido movimento de dedos o destrancou, o abriu e arrancou uma pequena caixa de madeira isolada por entre as sombras do fundo da gaveta, os estalidos produzidos pelo momento em que apanhou o objeto não foram suficientes para esconder as sirenes que emanavam das ruas ao redor da casa.
- "Quando foi que as coisas fugiram de controle?" - pensou, enquanto abria a caixa, retirando um pequeno amontoado de guardanapos negros enrolados sobre uma peça metálica - "Quando as pessoas fugiram de controle?" - completou aquele vago pensamento, olhando para aquela ferramenta.
Sabia que as armas haviam perdido o significado, por isso as pessoas encontraram outras formas de matar e controlar, formas ainda mais poderosas do que aquelas que disparavam contra um único alvo. Desenvolveram algo pior, como uma espécie de arma que transforma alvos em armas, vítimas em homicidas e carneiros em lobos.
Nem sabia por que pensara em correr até aquele objeto, uma ferramenta que escondera de todas as formas possíveis, na tentativa de evitar que fosse manipulada por algum de seus filhos ou que os colocasse em risco de alguma forma.
Esticou os guardanapos sobre a cama desarrumada, formando um quadrado negro sobre o lençol branco, colocou a peça no centro e uma pequena caixa de pequenos projéteis ao lado e os encarou por alguns segundos. Ouviu um curto e violento baque vindo da janela, acovardado pelos gritos e súplicas dos pobres infelizes que correram para as ruas quando perceberam que havia algo de errado.
- "Sentiram medo e correram para as igrejas e mesquitas da cidade" - pensou ao encarar a janela que sofria com os pequenos intervalos de batidas uniformes - "Foram para as ruas e se esqueceram do mal que vive nelas" - completou ao se dar conta de que as batidas e o pedido de socorro haviam cessado.
Delicadamente passou os dedos sobre as cabeças dos projéteis como se acariciasse o rosto de um sobrinho que não via há anos, com as pontas dos dedos apanhou cada um deles e os dispôs ordenadamente ao lado da pistola. Caminhou por vales mentais, voltando algumas décadas de sua mente e a estacionando numa época aos arredores de sua juventude, quando seu pai o ensinara a atirar. Tentou se lembrar dos movimentos que aqueles velhos dedos de atirador faziam e como suas mãos seguravam aquele objetivo que atiçava sua mente juvenil. Como um trabalhador que se levanta automaticamente e se prepara para mais um longo dia de trabalho, apanhou aquelas peças que descansavam folgadamente sobre os guardanapos negros e iniciou uma montagem semiautomática, quase inconsciente, de um quebra-cabeça assassino.
Sem nenhuma dificuldade, apenas sua mente trabalhava enquanto seus músculos se moviam, encaixando bala após bala, assim como seu falecido pai o ensinara.

- "Só use quando não houver mais o que ser dito nem feito, pois a palavra pode ser esquecida e a ação, remediada. Já um tiro, não é tão fácil assim de se esquecer, e muito menos, remediar." - as palavras de seu pai ecoavam pelas paredes de sua mente. A mãe só lhe dissera uma coisa, uma única vez:
- "Não faça nenhuma besteira!”.


Lembrava-se daquelas palavras sentado ao pé da cama, iluminado pela única lâmpada do quarto e segurando a arma com as duas mãos, realizando o movimento daqueles que estão prestes a orar, apoiando os dedos indicadores na testa e os polegares no queixo, com a cabeça abaixada e com o cano da pistola direcionado para o centro de sua testa.
- "Pai, não há nada que possa ser dito ou feito. Mãe, eu não farei nenhuma besteira" - disse em voz baixa para, deslizou a mão até a cintura e guardou a arma.
Aproximou-se da porta da frente, os gritos estavam silenciosos, ecoando com os tilintares das chaves em seu pescoço e o som de seus passos, preparou-se para abrir, agarrando a maçaneta com a força de sua expectativa e sua curiosidade latente projetada nas batidas de seu coração. Nunca soube o que esperar rastejando pelas ruas, apenas sabia o quanto os noticiários suplicavam para que as pessoas não deixassem suas casas naqueles dias.

- "Tranquem as portas, a situação está sob controle, estoquem alimentos e água, a situação está sob controle" - repetiam incessantemente, para apagar qualquer dúvida que insistia na mente das pessoas, numa tentativa de dar uma segurança que já havia sido perdida há muito tempo - "A situação está sob controle!”.

Quando ouvira nos rádios que as mesmas autoridades responsáveis por assegurar a segurança da população haviam se virado contra ela, percebeu a natureza do monstro e as consequências daquela poderosa arma transformadora, porém nunca havia enfrentado nenhum deles ou visto alguma delas em ação, tudo que lhe restara era uma especulação covarde, realizada nas noites em que se lembrava de sua esposa e filhos.


Os garotos estavam na casa dos avós e Marta estava no trabalho quando as coisas ameaçaram fugir do controle, ligou para o escritório de advocacia onde trabalhava e ordenou para que fosse para a casa de seus pais e cuidasse das crianças.
- "Mas por que, Bruno? Meu expediente acaba daqui três horas, não podemos esperar?" - lembrou-se das palavras que fugiam daquele dispositivo celular naquela noite - "Não se preocupe com as crianças, elas estão com seus pais e estão bem, acabei de falar com eles, acalme-se!" – ouviu um curto estrondo e uma pequena gritaria – “O que hou-“ - o telefone ficou mudo e a partir daquele momento, percebeu que não havia mais nada a ser dito.
- "Eu te amo" - respondeu para o som robótico e uniforme que soava em seus ouvidos, soltou o telefone e ajoelhou.

Suas mãos ainda abraçavam a maçaneta quando aquelas lembranças dominaram sua mente, foi como um lapso espasmódico causado pelo toque dado naquela peça metálica, uma descarga elétrica causada pela mais pura certeza. Podia sentir as vibrações em seu ouvido direito, causadas pela memória do ruído telefônico daquele dia, fechou os olhos, apertando com mais força a maçaneta, e ouvindo as palavras não proferidas pela esposa ao telefone, girou o punho e sentiu as vistas escurecerem.

- "Eu te amo”.
A casa parecia deformada quando se levantou e olhou à volta, fitou as cortinas cuidadosamente escolhidas por Marta, as fotos e os quadros nas paredes haviam perdido o sentido, as figuras não tinham mais rostos e as paredes estavam achatadas. Cambaleou até a cozinha e abriu a gaveta de talheres, onde um conjunto de facas gritava para ser selecionado, aquele conjunto lindo de materiais brilhantes escolhidos a dedo pelo casal seria utilizado por ele naquela tarde, como desculpa para evitar que qualquer um ficasse entre ele e seus filhos. Foi até uma pequena bancada no centro e pegou a chave do carro, o relógio na parede, desajustado para o horário de verão, marcava duas e meia.
Trancou as portas e correu até a garagem, o carro não estava lá. Esquecera que o estacionara do lado de fora quando entrou apressadamente em casa, lembrou-se de seu chefe perguntando o porquê de tanta pressa para abandonar o trabalho, mas não se lembrou de tê-lo respondido, simplesmente deu de ombros e atravessou as portas do edifício. Quando se ajoelhou perante o telefone mudo na hora passada, ainda estava com o terno utilizado naquela manhã de serviço, não se preocupou com suas roupas enquanto corria pela calçada de sua casa em direção ao carro e nem com a sua segurança quando acelerou em direção ao horizonte, a caminho da casa de seus pais.

Sua força de vontade era a única coisa capaz de concluir aquela simples ação de abrir a porta, porém sua mente, constantemente oprimida pela avalanche de lembranças, era incapaz de ignorar os lapsos de memórias convulsivas que explodiam sem aviso prévio, impossibilitando-o de focar em sua decisão. Por alguns minutos, ficou parado, esperando pela terceira torrente de imagens do passado, como um condenado que conta os segundos precedentes à sua execução, tentando inutilmente se preparar para o inevitável.

Algumas crianças imploraram para que parasse, agitaram as mãos sujas de poeira e balançaram os rostos marcados pelas lágrimas escorridas, mas não obtiveram respostas e o carro passou por entre elas. Há alguns metros, em frente a uma casa de portas escancaradas, a imagem de uma mãe enlouquecida balançando uma das mãos e segurando uma pequena criança com a outra, também passara despercebida.
A maioria das casas estava com as portas arrombadas, o desespero alheio não passou despercebido por sua mente, que se agarrara às visões assustadoras concebidas através de sombras violentas, projetadas nos cantos de dentro das casas e janelas quebradas.
O automóvel cortava as ruas habilmente, controlado por um condutor em perfeito estado de alerta, nenhuma curva, manobra ou frenagem era em vão, tudo milimetricamente calculado para que o destino fosse atingido o mais depressa possível.
Vira dois homens arrastando um sofá para a calçada e um terceiro encarando seu carro, as três figuras estavam fardadas, pequenas cruzes desenhadas sobre os distintivos em seus peitos.
Havia percorrido dezessete quilômetros quando se deu conta de que o ponteiro de combustível estava na reserva, provavelmente suficiente para atingir seu objetivo, mas insuficiente para fugir dele em seguida.
Inclinou os olhos um pouco, virando-os para o painel que revelava sombriamente as horas através de um display digital - eram quatro horas. Quando levantou os olhos, fitou uma pequena mercearia que tomava forma no horizonte de casas saqueadas, ponto de referencia para a velha casa de seus pais, virou a direita nas ruas gastas e ouviu os primeiros estalos involuntários dados por um motor sem combustível. Aquela pequena somatória de motor, lataria e rodas imploravam por alimento, assim como as crianças que deixara para trás, forçou o automóvel por mais alguns metros e girou a chave, desligando o carro e deslizando através do declive da rua até a última casa do quarteirão, seu destino.


Continua 1/ 2

- Lágrimas de Gasolina




sábado, 14 de novembro de 2015

O Lobo e O Rato

Aproximou-se de um dos espelhos do quarto e admirou o próprio resto de existência enquanto arrumava o colarinho. Tentou imaginar os dias que se seguiriam e moveu os olhos em direção a uma gota que escorrera de algum orifício facial, provavelmente um dos olhos. Levou uma das mãos até o rosto e tocou aquela lágrima, que grudou em seu dedo indicador como uma criança que abraça o pai que vai viajar. Por alguns segundos, encarou a figura refletida, um homem bem vestido segurando uma gota de água pelos dedos. Em seguida, dirigiu o dedo úmido em direção aos lábios, fazendo-o percorrer toda a extensão de sua boca. Secou os olhos, se virou, apanhou uma pequena pasta cinzenta que descansava ao pé da cama e saiu.
Por um momento, parou em frente à porta de saída, um dos braços estava estendido e alguns dos dedos acariciavam a maçaneta e pensou em cada pequena mudança que fizera até aquele momento, e em como todas elas haviam se transformado em um amontoado de ações sem qualquer valor.
Lembrou-se de todas as vezes que acordara para trabalhar e correra até o banheiro para um curto banho, das vezes que escovara os dentes e atentamente girava o registro, obstruindo o desperdício, das vezes em que chupara alguma bala e guardara as embalagens no bolso. Tudo aquilo só serviu para resgatar a lembrança de seus pais que sempre diziam:
-"Se vai deixar algo para as outras pessoas, que não seja uma pilha de lixo. Se quiser levar algo consigo, que não seja a oportunidade dos outros verem as arvores como são hoje”.
Tentou girar a maçaneta, percebeu que estava travada e se deu conta de que a mesma estava trancada. Olhou para as letras vermelhas marcadas em sua pasta - Curriculum Vitae - Direcionou o rosto para o molho de chaves dependurado sobre um gancho ao lado da porta, ao lado de uma máscara branca de médico. Pegou a chave, percorreu todas numa seleção cirúrgica e colocou a correta na fechadura, e girou, retirou-a e guardou em um dos bolsos. Dirigiu uma das mãos até a maçaneta e assim ficou por alguns segundos, aquela figura estática, inconsolável e bem vestida, em pé, segurando uma pasta cinza, tão cinza quanto teus olhos e pele, dirigindo um olhar infeliz para a entrada de um mundo que tanto lutara para que não se materializasse. Forçou-se para girar o pulso impotentemente fragilizado e franzino, mas parou e virou os olhos para a atual tendência de vestuário que pendia ao lado da porta. Esticou os dedos e agarrou a máscara, uma existência raivosamente cega e inocente, comparou-se a um rato rodeado pelo fogo e o muro de concreto, a um lobo de olhos furados que consome a própria pata para fugir de uma armadilha de urso, mas que se dá conta de que quando liberto, não saberá para onde ir e nem o que fará com o ferimento. Seus olhos ficaram molhados mais uma vez quando se lembrou da impossibilidade de ter filhos, uma lágrima escorreu quando se deu conta que se um dia viesse à possibilidade de ter herdeiros e os tivesse, não poderiam fazer aquele tipo de comparação. A gota deslizou até seus lábios secos, que a tragou de volta para dentro de seu corpo.
Tirou uma goma de mascar do bolso, abriu delicadamente o doce que a muito havia substituído sua escovação diária, observou a volta feita quando ele puxava as extremidades da embalagem, o pegou e o jogou na boca. Dirigiu a máscara até o nariz e contornou suas orelhas com os laços, fixando-a em seu rosto.
Girou o punho e abriu a porta de uma vez. Seus lábios se tornaram secos e seu rosto empoeirado, caminhou até o meio fio e gritou pelo taxista. Seus olhos enchidos pela maré amarelada dos céus e pelos jornais e restos de papel que caminhavam pelas ruas. Não chorou.
-"Distrito Industrial" - respondeu, enquanto limpava a poeira da camisa.
Em algum canto escuro de suas vestimentas, uma pequena embalagem amassada verde e de letras rosadas, estampava na escuridão os dizeres:
- "Bolong-Long, goma de mascar. Muito mais tempo de hálito fresco. Desde 2017.”

- Lágrimas de Gasolina
Reciclar formado de agua

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

João e os Pés Abençoados

João segurou o solo com seus dedos, depositando toda a sua energia nas solas dos tênis de corrida. Esperou pelo estrondo que deveria vir em seguida, fechando os olhos e fazendo uma pequena prece que nunca aprendera, implorando para uma entidade invisível, para que esta fosse a ultima vez que corresse pela necessidade. Jurou a algumas pequenas frações de tempo que jamais voltaria a correr, independente do motivo, nem que sua vida dependesse disso.
Disparou em linha reta, antes que o som do tiro ecoasse pelos teus tímpanos, percorrendo como um raio uma quantidade considerável de espaço em pouquíssimo tempo. Em tuas pupilas dilatadas, apenas o reflexo de seu objetivo podia ser visto e o objetivo, era a única coisa que era vista por seus olhos. Tudo que fosse irrelevante ao destino que ele mesmo havia imposto a si, fora descartado inconscientemente por seu cérebro, tornando aquele ilusório alcance muito mais tangível do que talvez fosse.
O garoto havia percorrido um pouco mais de vinte e cinco metros quando ouviu o disparo de uma arma de fogo e os primeiros gritos, dando a ele uma vantagem absurda sobre seus adversários. O som fez com que uma sequela de seus dias passados retornasse num lapso momentâneo, fazendo-o com que se lembrasse da promessa que fizera e dos motivos que o levaram a fazê-la.

Aprendeu a andar muito novo, aprendeu a correr nos meses que se seguiram, nunca fora suficientemente desengonçado para cair em nenhuma das tentativas, foi uma criança com joelhos abençoados e o mais veloz entre os garotos do bairro, mas houve uma vez, que ao entrar pelas portas da biblioteca pública do colégio em que estudava, encontrou um pequeno livro de bolso que descansava sobre a mesa. Devorou aquelas páginas como conseguira, com uma leitura precariamente aprendida através do precário ensino público e foi a partir daquele momento, que percebeu uma severa semelhança entre aquelas páginas, o personagem e ele mesmo. Percebeu que o garoto da estória, corria como o vento, assim como ele, mas sempre que corria, era para fugir de algum problema ou consequência. Então, percebera que ele, João, fazia o mesmo.
Jurou que nunca mais correria para se livrar de quaisquer problemas, consequências ou medos e os enfrentaria em um suave caminhar, se privando da maior de suas habilidades: Correr.

- "Correr" - foi o que pensou, quando viu o corpo do seu irmão mais velho caído no chão.
- "Correr" - foi o que pensou enquanto aguardava pelo segundo tiro.
- "Correr" - foi o que pensou quando colocou os dedos no chão e direcionou o queixo para frente, depositando toda a sua energia nas solas dos tênis de corrida.
Correr foi o que fizera parar. Por um instante, quando se lembrou da promessa feita, após segundos que iniciara a corrida, o garoto frenou por entre as sombras noturnas de seu bairro e caminhou por entre o breu e com a suavidade de uma leve brisa marítima, passou por entre as sombras e restos de concreto que provavelmente passariam despercebidos por seus olhos caso estivesse correndo. Alguns tiros voaram pela noite, enquanto barracos ribeirinhos acendiam as luzes e abriam as janelas, despertados pelos estrondosos projeteis.
Algumas figuras cruzaram as ruas em grande velocidade, não dando importância a uma figura pequenina que caminhava em direção ao ponto de ônibus.

João permaneceu ali durante o resto da noite, não pegou nenhum ônibus e caminhou até a escola do outro lado da cidade, onde provavelmente caminharia até a sala do diretor e seria encaminhado ao conselho tutelar.

- Lágrimas de Gasolina


domingo, 1 de novembro de 2015

Arrependimento

Uma das vozes veio do alto, deslizando sobre meus ouvidos e ombros como uma garoa fina.
- "Mas, por que tens esta paixão horrenda pela tristeza e pela morte?”.
Recostei-me sobre o epitáfio áspero de letras gastas e em relevo, onde apenas passagens vagas, escritas pela própria propriedade sem sentimento, repousavam. Tirei a rolha da garrafa de vinho e afastei algumas flores mortas que descansavam sobre o concreto velho, experimentando a dor de não ver nenhuma alma viva rondando por entre aqueles blocos que serviam para materializar a lembrança do que um dia fora vida.
- "É o que me resta." - respondi enquanto direcionava o bico da garrafa para meus lábios sem vida.
A voz tornou-se tempestade.
- "Você sabe que eu não estou falando de agora!" - esbravejou.
As coisas sempre foram assim, sempre pensando no fim. Uma afobação implacável para concluir as coisas. Em qualquer viagem ou plano que fazia, acabava por não concluir porcaria nenhuma, porque sempre pensava no que fazer quando atingisse o resultado, sem mesmo antes atingi-lo de fato. Morria aos poucos a cada projeto ou aspiração, não se preocupara com relacionamentos por temer pelos seus devidos fins, nunca visitara os pais por medo de qualquer dia ter de assistir suas devidas partidas, nunca disse - "Olá, como vai?" - por receio de dizer - "Adeus, se cuida".
Fez em vida o que não aprendera com a morte, sentado sobre a cova de algum estranho, presenciando o fim absoluto de qualquer coisa - a morte. Até pensara, enquanto sentava-se sobre o concreto e apoiava a garrafa de vinho lacrada sobre um dos joelhos - "Como irei voltar para casa quando ficar bêbado?" - fez todos os planos antes mesmo das consequências o afligi-lo de fato, mas não confunda com preparo a afobação pela conclusão, que descarta cada passo de uma caminhada até a padaria que for. Preparo é não sair de casa sem dinheiro, armado para não ser assaltado e de pés calçados para não serem feridos. Afobação é pensar no pão em seu estomago e se sentir saciado com isso.
- "Eu não sei do que você está falando!" - gritei para os céus neblinados pela chuva que se revelava através das luzes dos postes. - "Não sei, não sei!" - mas sabia.
A voz se tornou áspera e camuflou-se por entre meu ombro direito, materializando-se numa mão negra repousada sobre meu ombro e um cochicho no ouvido esquerdo.
- "Estou falando da viagem nunca feita por medo da chuva no ultimo dia que não aconteceu, falo da ligação que não fizera, falo dos planos que descartara quando jovem.”
Abaixei a cabeça enquanto o peso de dedos imateriais se dissipava, coloquei a garrafa intocada de lado e a tampei - "Algum arrependimento?" - me perguntei.
- "Vários, centenas!" - a voz respondeu em seguida.
Nunca pensei nos arrependimentos.

No restante daquela noite,  apenas uma garrafa cheia fizera companhia ao epitáfio, provavelmente algum funcionário do cemitério faria bom uso na manhã que surgia.

- Lágrimas de Gasolina


Imagem por Sandro Fortunato
Imagem por @Sandro Fortunato

sábado, 31 de outubro de 2015

Cigarros de Palha e Fósforos

"Toda vez que chovia, meu avô levantava de sua cama, fosse o horário que fosse. Caminhava a passos calmos e se dirigia até a porta do quintal, a abria e logo se sentava na cadeira de balanço do lado de fora.
Eu sempre o acompanhava, fosse o horário que fosse. Algumas vezes eu ficava de espreita, esperando ouvir o arrastar de chinelos, só para segui-lo e me sentar ao seu lado na varanda. Olhava maravilhado para toda aquela personificação de experiências e vivências acumuladas em um único ser que eu amava assistir.
Lembro-me da elegância com que preparava seu cigarro de palha, enrolando delicadamente com as pontas dos dedos, numa doce valsa entre palha e fumo. Assistia com meus pequenos olhos de criança, o acender de um dos fósforos que apanhara sem rodeios de uma caixinha especial que ele mesmo construíra quando mais moço. Incendiava os próprios dedos e em seguida acendia o cigarro recém-manufaturado.
Ali ficávamos por alguns minutos, admirando a chuva que se estendia por detrás das cercas nos horizontes da fazenda, enquanto ele balançava em sua cadeira de balanço e me dizia o quanto meus pais me amavam e dos motivos pelos quais nunca vieram me visitar, como eram pessoas ocupadas e a gratidão que lhes devíamos por garantirem o nosso conforto.
Essas eram as nossas noites, regadas ao cheiro de fumo e palha queimada e alguns rangeres de cadeira de balanço.
Sempre que me lembro de meu falecido avô, meu coração bate mais forte, aquele velho sempre fora como um pai para mim. Nunca lhe pedi nada, pois nunca me faltara nada.
É engraçado - e um pouco triste - quando essas lembranças aparecem por entre essas paredes vazias e sobre estes lençóis que meu avô utilizava para se cobrir, como se mesmo após sua partida, alguma coisa me dissesse que a qualquer momento em alguma noite, eu ouviria o arrastar de chinelos, o ranger da porta e o cheiro de fumaça.
Eu descobri a verdade a respeito de meus pais, muito tempo depois da morte do meu velho, e quando soube, não fiz alarde algum, pois em algum canto silencioso da minha alma, uma voz amordaçada sempre gritou escandalosamente:
- "Eles nunca virão!”
Hoje, completo sessenta e seis anos. Trabalho para o meu próprio sustento, utilizando dos recursos da fazenda. Às vezes vou até a cidade comprar alguns suprimentos, volto e me tranco em casa com meus cigarros de palha e fósforos.
Você já fumou um cigarro de palha alguma vez? Não?! É delicioso. Sento na cadeira de balanço nos dias de chuva e olho para o horizonte, esperando por alguma criança para iludir e servir de herói, o que é impossível, já que nunca me casei ou me preocupei com herdeiros. Tudo o que me resta são as lembranças que cultivo comigo mesmo e com as chamas de meus dedos - e como dói."

- Lágrimas de Gasolina


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Lembranças

Hoje eu decidi arrumar o meu quarto.
Pensei em começar pelas gavetas, mas comecei pelos armários.
Terminei de colocar alguns documentos no lugar e os ordenei por nome e data, tipo e tamanho.
Cheguei nas gavetas e comecei com as de cima e fui descendo.
Folhei cada objeto que descansava ali, demorei muito tempo.
Eram gavetas que não deveriam ser abertas.
Gavetas antigas, imóveis há cinco anos.
Seu conteúdo, embora estivesse logo ao meu lado durante as horas vagas, nunca me dei ao trabalho de movimentá-las.
Elas simplesmente estavam ali, esperando.
Uma lembrança embaixo de alguma apostila velha do ensino médio;
Algum passado alojado por entre fio velhos e fones quebrados;
Fotos escondidas por entre folhas de caderno;
Um convite para um baile de debutante;
Uma carta;
Uma foto de meus pais;
Um maço de cigarros vazio;
Adornos utilizados em épocas de escola;
Carregadores para celulares ultrapassados;
Apostilas do ensino fundamental;
Um presente sem valor;
Uma foto 3x4;
Chaves do meu antigo quarto; e
Um cofre vazio.
Ali dentro das gavetas, nada mais tem o valor que teve.
O valor se perdeu com o tempo e com as pessoas que se perderam.
No fim das contas, nós é quem agregamos valores às coisas.
A foto 3x4 não tem a barba que tenho hoje, as apostilas não sanam as dúvidas da faculdade, as antigas chaves não abrem porta alguma, não utilizo mais adornos, a carta não tem mais o amor, a debutante se mudou e nunca mais a vi.
Preparo o saco de lixo e jogo a gaveta toda lá dentro.
O mais engraçado é que na época, eu não jogaria nada daquilo no lixo.
Preciso descansar. São duas horas da manhã e o tempo não nos espera tomar fôlego.
A vida é rápida demais para termos lembranças.

- Lágrimas de Gasolina

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

O Beijo da Desilusão

O beijo da desilusão, fez estraçalhar
Um milhão de sorrisos perdidos
Em uma noite em que a lua engoliu o céu
Ao sabor de um velho vinho, azedo como vinagre
E as bruxas sangram os seus pés, dançando ao redor do fogo
Música da desgraça humana, do pranto dos mortais
Do pranto dos mortais.

- Ferdinando

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Influência

Hoje eu tive um sonho.
Já fazia algum tempo que eu não sonhava com algo tão real.
Lembro-me de uma face cinzenta que dizia que os finais estavam por vir.
Começou com uma tarde na praia.
Estávamos todos sentados em cadeiras disformes e plásticas sobre as areias do litoral e conversávamos sobre algo que abrigava os confins do passado, riamos como uma família.
Como uma grande esfera índigo-carmim o sol escorria sobre as águas de um mar calmo e acolhedor, alguns pássaros voavam sobre ele, grasnando um som surdo enquanto pareciam fugir e alertar de algo que estava por vir.
Todos estavam envolvidos numa conversa que eu não conseguia mais entender, seus lábios se mexiam sem proferir qualquer ruído. Lembro-me dos muitos círculos de pessoas entretidas nas próprias conversas-surdas que nos rodeavam, mas que só pude notar naquele momento.
Podia ouvir o som das raras ondas quebradiças, do mar que se afastava sutilmente como uma criança que acabara de roubar uma guloseima e o som dos pássaros.
As águas se recolhiam cada vez mais, a cada instante de forma mais explícita, ninguém as notara além de mim. Logo um cume de águas salgadas tomava forma no horizonte, como se o próprio estivesse vivo e erguendo um de seus membros para se arrastar em direção à praia.
As pessoas continuavam falando comigo, demonstrando que de alguma forma eu ainda as estava respondendo e meus gritos de pavor não às atingiam de forma alguma.
- "Você se lembra daquele dia em que fomos à praia e sua mãe ficou gritando para você sair do fundo?”.
Apontei para o horizonte e para a coluna horizontal de água que crescia e tapava o sol, deixando apenas um fio de luz azulado estendido verticalmente, riscando os céus.
- "Olhe lá no fundo!" - disse, apontando e mexendo os braços.
- "É verdade, é sempre assim com a sua mãe." - respondeu a uma afirmação não feita e soltou uma risadinha.
Alguns longos períodos de tempo se passaram, momentos que somente os sonhos podem nos proporcionar, falo daquela falsa sensação de passagem de tempo onde ficamos estáticos e somos apenas vistos por nós mesmos como atores de uma peça de teatro.
A coluna de água correu por toda a extensão das areias, engoliu tudo e todos, ocupando o local onde banhistas conversavam com seus filhos e onde as mulheres tomavam banho de sol. Fui engolido pela violência das águas como todos aqueles daquela praia, porém fui o único a sofrer pelos malefícios da falta de oxigênio, percebi isto quando procurei pelas pessoas que estavam sentadas ao meu lado e notei que elas continuavam conversando entre si como se nenhuma delas houvesse se quer sentido a força que a onda usara para arremessá-las contra as paredes. Afoguei-me e a visão escureceu.

- "Você tem outra chance." - uma voz ecoou pela escuridão.
Sentei-me sobre o concreto de algum quiosque e uma silhueta engravatada repousou a mão sobre meu ombro. Dali podia-se ver os diversos círculos de pessoas, inclusive o meu e a mim, todos sentados e conversando. As pessoas estavam dispostas da mesma forma que se encontravam antes da onda as atingir. Ao longe, podia-se ver a coluna de mar tapando o sol pressagiando o que eu acabara de vivenciar.
- "Você pode tentar avisá-los novamente, mas deve ser de outra forma." - a voz era da figura bem vestida ao meu lado - "De forma que entendam".
Em seguida, o mar consumia todas as pessoas à minha frente. Fechei os olhos.

Estávamos todos sentados em cadeiras disformes e plásticas sobre as areias do litoral e conversávamos sobre algo que abrigava os confins do passado, riamos como uma família.
Como uma grande esfera índigo-carmim o sol escorria sobre as águas de um mar calmo e acolhedor, alguns pássaros voavam sobre ele, grasnando um som surdo enquanto pareciam fugir e alertar de algo que estava por vir.
- "Não estou me sentindo bem." - gemi.
- "Aconteceu alguma coisa?" - olhavam para mim com olhos de empatia.
- "Acho que vai acontecer algo muito ruim, só isso." - respondi - "Provavelmente acontecerá nos próximos minutos”.
Imediatamente todos se colocaram de pé e começaram a juntar suas coisas.
- "Poderíamos simplesmente ficar em algum quiosque no alto, até esta sensação passar." - continuei e todos acenaram em concordância.
Subimos no mais alto quiosque e observamos o horizonte, esperando pela previsão, mas não acontecera nada fora do normal, nenhuma onda maior que dois metros ou mortes desastrosas.
Senti uma ânsia inominável, uma frustração arrasadora conhecida apenas por aqueles que já tiveram suas maiores certezas refutadas. No fundo, a vaga chama do alívio.
Senti uma mão sobre meu ombro e uma voz ecoou pela escuridão.

- "Às vezes somos mais culpados do que imaginamos".

- "E hoje, mais do que algumas vidas foram salvas" – prosseguiu.

Acordei e estava na praia.

- Lágrimas de Gasolina

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

O Pedido da Morte #1 - Novos Amigos

I.

Foi durante a noite. A hora exata, o dia exato ou até mesmo o mês exato eu não posso afirmar, pelo simples fato de não lembrar-me.
Uma tempestade forte ameaçava quebrar os vidros das antigas janelas de madeira, que rangiam e debatiam-se em movimentos insanos e desconexos. Os gritos ecoavam pela casa velha, atravessando portas e corredores. Em alguns momentos, eram mais altos que os trovões que retumbavam do lado de fora.
Não consigo lembrar-me de quadros ou móveis para descrever e enriquecer a história, estes detalhes eram muito superficiais na época, e por isso nunca tiveram lugar em minha jovem memória. Mas eu me lembro de uma cor: vermelho.
Vermelho sangue.
Esperava sentado na sala, em algum sofá, poltrona ou cadeira que não sei ao certo definir. Agarrava a manta que me cobria com um anseio paternal, tremendo de medo, frio e angústia. Mais trovões. Mais gritos. As luzes piscavam em um brilho fraco, imitando o lusco-fusco.
Um forte trovão. A janela estourou, arremessando cacos de vidro por toda a sala. Eu gritei, minha mãe gritou. E depois o vendaval cortou o cômodo, silenciando todo o resto.
Foi a última vez que ouvi a sua voz.
Depois de alguns segundos, um choro fraco ecoou. Um choro de bebê.
Uma senhora robusta, com os ombros largos, braços fortes e um pescoço ausente atravessou o corredor em minha direção. Seus passos pareciam marteladas no frágil piso de madeira. Em seus grandes braços, um pequeno manto sujo, manchado de vermelho sangue, emitia um grunhido inocente.
A mulher depositou o pequeno pacote em meus braços, rugiu alguma palavra incompreensível e me deu as costas. Com um forte empurrão, arremeteu contra a porta de entrada, e partiu.
Deixando-a escancarada, fiquei sentado em algum móvel indefinido, observando a tempestade devastadora do lado de fora. Em meus braços, meu pequeno irmão reclamava de alguma coisa.

         
E assim, naquele momento confuso e caótico, enquanto o corpo de minha mãe esfriava em seu quarto, uma grande borboleta negra atravessou o batente da porta aberta. Movimentando-se em semicircunferências, pousou em meu joelho. Depois, com um aceno de antenas, como se cumprimentassem um velho amigo, ela decolou e dirigiu-se para o quarto de minha mãe.

Foi a primeira vez que vi a Morte.

Continua

- Dedos Azuis

Os Passos da Bailarina

Seus dedos bailavam como se tocassem instrumentos imaginários, e talvez realmente o fizesse, pés flutuando, olhos cerrados. Decerto visitava um de seus mundos particulares. Caso pudesse defini-la em uma característica principal - permita-me ou não, o farei -, diria que é cárcere da própria ilusão. Flores nascem em seu peito num único gesto doce, que é sua morte também. A moça baila num romance e sobrevive nele, ainda que esteja fadado ao fracasso, ainda que ela seja o borrão de tinta que pinta o final. Seria, talvez, causadora do próprio mal, a destruidora de seu mundo, e de outros também. Quem a via tornava-se cárcere da doçura que transitava livremente no assoalho de madeira. Sequer imagina que há tantos observadores da cena se julgando oniscientes, tão transparente se parece. Ou talvez saiba e ri de cada espectador assim que a cortina se fecha. A bailarina se parece com o personagem de um livro que ainda não foi escrito, é certo que não recordo de nenhum capaz de se encaixar em passos milimetricamente ensaiados para parecerem naturais. Dança como se fosse uma dessas pessoas que precisam do amor para sobreviver. Na falta de um, o inventa. Como se dispusesse das palavras além do papel.
De tanto imaginar, escreve em passos de dança. De tanto escrever, se guia pelas palavras que lhe invadiam o âmago, então acreditava. De tanto acreditar, vivia - ainda que dentro de si -, e assim por diante. A verdade é que cada etapa era um passo para o abismo. Foram tantos os abismos que o último passo era dado com os braços abertos.
- "Algum dia" – pensava – "algum dia voarei" – e mergulhava na escuridão.
A plateia aplaude em júbilo.

- Maia

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Voltas do Mundo

Se minha biografia amorosa fosse escrita, o autor seria Hitchcock.

Frio e entediado.

Viciado em ironia, quase como um remédio diário usado para combater a frustração.

Amores, aqueles, que vêm e duram até a eternidade, eterno por uma semana ou dois anos.

A minha certeza de ter o controle sobre tudo era quase arrogante.

Uma tentativa de independência.

Mas não existem razões para coisas feitas pelo coração.

É Renato... Seu subversivo, seu maluco "seu" sábio.

Aquela troca de olhares, o convite para o café .

Aqueles olhos azuis, aqueles olhos...

Um beijo e de novo me vi naquela situação que pensei ser eterna.

Pasmem! Eu não estava no controle.

Uma marionete seduzida por aqueles olhos azuis, uma feição angelical com um gênio demoníaco.

Meses se passaram, promessas que nunca havia feito e atitudes que nunca havia tomado.

Sacrifiquei meu orgulho, paguei meus pecados, fui substituído.

Falava sozinho, arquitetava conversas de reencontro, imaginava nossa viagem de lua de mel.

Mesmo sabendo que nunca mais seria minha, qualquer assunto uma esperança me arrancava gestos humilhantes.

Era sádico, era gostoso.

Meus conflitos ou meus demônios?

Talvez apenas meu ser...

Aquele desejo de suicídio após cada frustração.

Estava sendo castigado?

Por sorte ou azar o meu inverno chegou.

Agora é pra valer.

Frio e entediado.

Viciado em ironia, quase como um remédio diário usado para combater a frustração.

[...]

Aqueles olhos castanhos, aqueles olhos...

- J.A