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terça-feira, 10 de setembro de 2013

4, 8, 15, 16, 23, 42

Abri os olhos, desbravando um novo mundo.
Porém, mais torturante do que a sádica luz que rasgava minhas retinas, era o toque do gélido metal em minha pele.
Olhei para meus pulsos magros, machucados, rasgados. Pendendo como uma coleira, algemas enferrujadas me imobilizavam. Segui sua extensão metálica até o fim, para deparar-me com uma tubulação de pia horrivelmente suja.
O chão ao redor estava repleto de sangue, lama e banha. No centro da cozinha abandonada, uma mesa de mogno jazia com um gigantesco porco estripado em cima. Moscas banqueteavam-se enquanto grossas camadas de vermes caiam no chão, em uma disputa sangrenta pelo cadáver em putrefação.

Gritei.

Desesperado, tentei soltar as algemas, urrando enquanto o metal esfolava minha pele.
O sangue, agora encrustado, começava a endurecer, mas novas levas escorriam por entre meus dedos. Em súbito desespero, forcei minha mão em um ângulo descomunal. Uma dor errônea preencheu minha garganta, somada ao desespero do membro recém-fraturado.
Vomitei em meu colo. Continuei urrando em desespero, coberto de fluídos e com os braços em carne viva.

Foi quando eu ouvi.

- 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42...

Procurei o som, arfando.
 Meus olhos casou com a luz refletida na esbranquiçada pele de uma pequena garota. 8, talvez 9 anos. Parada, na soleira da porta da cozinha. Cabelos louros tão brancos que mesclavam-se uniformemente com sua pele sedosa. Olhos grandes, brilhantes, e apavorados.
 Sua pequena boca curvado em um ângulo de súplica, sempre repetindo:

- 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42...

E de repente, a sequência parou. Tudo ficou quieto, como se todo o som do mundo acabara de ser sugado por um gigantesco ar condicionado. Ela levantou o pequeno dedo em riste à frente da boca, e sibilou, pedindo não verbalmente para que eu ficasse calado. Caminhou a passos curtos e rápidos a minha direção, ajoelhou-se ao meu lado e destrancou as algemas em minha mão, com uma pequena chave que trazia ao pescoço. Levantou-me desajeitadamente, e forçou-me a correr, apoiando as pequenas mãos em minhas costas.
As dores e os cheiros nostálgicos deram espaços para a euforia da oportunidade. Corri por entre a porta, saindo em um gigantesco corredor. Inúmeras portas preenchiam ambos os lados da passagem.
Olhei confuso para a garota, que estava atrás de mim, e ela apontou para qual deveria ser meu destino. Corri para a porta, abri, e me deparei com mais um corredor.
Continuei correndo, indo sempre em direção ao destino cedido pelo pequeno dedo da garota. Inúmeros corredores passaram-se, inúmeras portas.
Um sorriso começou a abrir-se em meu rosto.
 - Vou sair daqui, vou sair daqui... - comecei a sussurrar, extasiado.
Mais um corredor. Virei-me e olhei para trás.
A garota apontou para outra porta.
Forcei-me contra a soleira e continuei meu caminho, correndo para a ... Um estrondo metálico preencheu o ambiente, quando meu joelho chocou-se colossalmente com alguma superfície dura. Cai no chão, urrando de dor.

Foi quando eu ouvi:

- 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42...

A garota parada na soleira apenas sorriu, e eu pude ver; um corte que estendeu-se de orelha a orelha, atravessando completamente seu rosto na horizontal. Aberto de tal modo bruto que todo o seu maxilar ficou exposto, a lateral de sua boca, um opaco febril ósseo mesclado ao sangue enegrecido da carne em putrefação. Seu dentes, pequenas fileiras de caninos que se estendiam e multiplicavam-se desumanamente. Centenas de minúsculos dentes afiados e tortos que preenchiam aquela visão. Sangue seco escorria por entre eles e pelo seu queixo.
Abriu a boca, e pude ver aquele buraco. Um negrume colossal que revelava a ausência de língua. Apenas um buraco, apenas um buraco.

As luzes se acenderam. Olhei ao meu redor. Olhei para meu pulso. Algemado no chão de uma velha cozinha imunda com sangue e vomito ressecados.

Meu sangue e meu vomito ressecados.

Mas agora, na mesa, não jazia um porco. Deitado, com a barriga voltada para cima, estava meu corpo, estripado. E eu ali ao lado, assistindo à tudo aquilo como um filme de sessão da tarde.  

- Dedos Azuis

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Portas e Buracos

A rua prolongava-se em uma gigantesca serpente solitária e escura. Luzes perdidas intercaladas entre postes queimados e postes amarelados traçavam um caminho que poucos gostariam de seguir. Becos abandonados, lixões em putrefação, paredes tomadas por pichações vulgares. O mundo real.

Caminhava a passos apressados, subindo a velha rua, fugindo de minha própria sombra, vez que não havia uma única alma vagando por entre as paredes maltratadas.

Exitei. Agora havia.

Na outra extremidade da rua, parada sobre um colossal poste, iluminada pela luz amarelada lusco-fusco que descia sadicamente sobre seu pequeno corpo, uma criança jazia parada. Fitando o chão, a criança permanecia ali, alternando o peso entre os pés. Para cá, para lá, e de novo para cá.

Continuei andando, subindo a rua, alheio a pequena criatura, até o momento em que ela levantou seus olhos.
Inundados por um branco leitoso, seu olhar arrancou todo o calor de meu corpo, deixando-me com um abraço gélido de desespero. Calmamente desencostou do poste e começou a andar em minha direção, mancando, soltando pequenos sons estranhos de todas as articulações de seu corpo.

Tec. Tec. Tec. Um estralo a cada novo movimento.

Tec.

Tec.

Tec.

Não diminui meu ritmo em momento algum, mas quanto mais andava, mais próximo dela eu ficava.

Com a proximidade, percebi sua pele. Branca, translúcida, dominada por veias estouradas que seguiam até as orbitas brancas de sues olhos.

E então ela parou. E o som do mundo parou.

As cores pararam, assim como o gosto de bile em minha boca deixou de existir.


Agora era um mundo preto e branco, abafado, surdo, e com ela parada em minha frente.

E seu sorriso. Um corte que estendeu-se de orelha a orelha, atravessando completamente seu rosto na horizontal. Aberto de tal modo bruto que todo o seu maxilar ficou exposto, a lateral de sua boca, um opaco febril ósseo mesclado ao sangue enegrecido da carne em putrefação.
Seu dentes, pequenas fileiras de caninos que se estendiam e multiplicavam-se desumanamente. Centenas de minúsculos dentes afiados e tortos que preenchiam aquela visão. Sangue seco escorria por entre eles e pelo seu queixo.

Abriu a boca, e pude ver aquele buraco. Um negrume colossal que revelava a ausência de língua. Apenas um buraco, apenas um buraco.

Apenas um buraco.

E disse:

- Vejo você em breve.

Joguei meu capuz sob minha cabeça, fechando-me em meu casulo de moletom. Puxei meus fones a minha orelha e isolei o mundo. The Strokes.

"Last night she said
Oh, Baby, I feel so down
Oh, and turned me off
When I feel left out"


Quando cheguei no cruzamento ao final da rua, olhei para trás, para ver se a criança continuava ali.

Ao fazer isso, subitamente não percebi o ônibus 3.85 que vinha em minha direção.

"So I, I turned around
Oh, baby, I don't care no more
I know this for sureI'm walking out that door"

E percebi, tarde demais, que aquela boca não era apenas um buraco, e sim uma porta.


Uma porta para o inferno.


Dedos Azuis

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Forte

Tentei gritar, mas o sangue transbordou por minha boca.
O maldito corria muita a frente, com a bolsa balançando ao seu lado. Mas deixou, além de gritos grosseiros, uma faca cravada em minha jugular.
"Otária, por que foi tentar reagir?"
"Otária"
"Otária"
"Otária"

Os joelhos tornaram-se fracos, e meu corpo cedeu para frente. Com a queda, senti a faca penetrando mais e mais, destroçando toda minha placa óssea, minha clavícula.
Engraçado; espancada, cortada, fraturada, e eu estava morrendo afogada. Afogada em meu próprio sangue.

Gostaria de ter ouvido harpas, mas todo o som do mundo sumiu, dando espaço a um seco som de pedra quebrada, de chão se partindo. Uma mão magra desvirginou o novo espaço, seguida por um braço em terno cinza risca de giz. Em pouco, um homem magro estava parado, encarando-me. 
Logo acima de sua gravata verde limão, um cavanhaque comprido finalizava o fino perfil de seu rosto.

O Tinhoso sorriu. Caminhou em minha direção à passos lentos. Pegou-me em seu colo e murmurou em meu ouvido:

- Vamos, querida?

Olhei no fundo de seus olhos sem pupila, sem íris; poços leitosos de desolação e sofrimento.

- Não - respondi calmamente, e cravei minhas unhas em seu rosto, rasgando pele e olhos.

Ele urrou de dor e me largou, enquanto meus dedos se embebedavam em viscosidade sanguínea.

Bati com o ombro no velho ah minha frente, e com um balançar inútil, seu corpo caiu na fenda recém aberta, voltando para a escuridão.

Olhei para baixo; não havia faca nem ossos fraturados. Apenas sangue e roupas rasgadas.

Baixei os olhos, para a fenda, e mostrei o dedo do meio. Olhei para cima e repeti o gesto.

- Eu vou viver, babacas - E após dito, caminhei a passos calmos na direção do ladrão.

Hoje a noite alguém iria sofrer muito.

- Dedos Azuis

terça-feira, 30 de julho de 2013

Aborto

Estava sentada. Havia uma garota de uns 16 anos de idade na minha frente.
A fila de espera era extensa.

"264"

O meu numero era o 267. Apenas mais três números e logo chegaria a minha vez.
Algumas das outras garotas, estavam de cabeças baixas, outras choravam. Um homem saiu correndo pelas portas, usava uma camisa suja de sangue velho.

Como eu podia estar naquele lugar, mas que merda. Na hora tudo foi tão bom. Onde eu estaria neste momento se eu tivesse sido um pouco mais cautelosa? Em casa, talvez. Jantando com meus pais.

"265"

Uma maca com alguns restos de carne decolou pelas portas de correr.
A segunda menina se levantou, dolorida.
Mancava em direção a porta.
Eu não era diferente daquelas garotas e mulheres. Algumas eram jovens demais, outras eram velhas demais.
Suas idades pareciam inversamente proporcionais ao grau de seus respectivos arrependimentos. As mais jovens choravam e tremiam. As mais velhas aparentavam uma estranha tranquilidade.

"266"

Eu sou um monstro, como posso pensar em fazer uma coisa dessas com alguém que faz parte de mim? E se eu não fizer, o que vou fazer?

A garota de numero 266 saiu correndo, indo embora. O homem correu a porta enferrujada, olhou para a porta de saída, a mascara cobria parte de seu rosto, suspirou.

"267"

Me levantei, cautelosa. Adentrei a sala de cirurgia.
"Tire a roupa e deite-se."
Tirei toda a roupa, fazia frio. Deitei sobre a maca avermelhada e ele introduziu uma gigantesca agulha na minha vagina. Naquele momento senti o arrependimento.
Ele perfurou meu ventre e o sangue escorreu pelas minhas pernas. Pequenos volumes de carne deslizavam pelas minhas nádegas e caiam. "PLOFT"

Foi quando o instrumento cirúrgico do homem emperrou, dentro da minha vagina.
"Mas que porra é essa?"
Um filamento escamoso saia de dentro de mim e tomava conta da mão do medico, que agonizava de olhos arregalados, suplicando para que aquilo largasse seu braço e o deixasse livre para correr.

"Está quebrando! Está quebrando, porra!"

Pude ouvir um estalo e seu ossos saindo da sua pele. Um grito de dor.
O suposto medico caiu contra o solo, sem consciência.
O tentáculo o fitou por alguns instantes. Eu quis me mexer, mas não pude.
Ele se virou, sem pressa alguma. Dessa vez ele me fitava e eu a ele.
Em sua haste carregava o que restava do braço e da mão do cirurgião, que ainda segurava a agulha.
Soltou o membro, que caiu contra o solo.
E apanhou o objeto para dar continuidade a cirurgia.

- Lágrimas de Gasolina

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Estupro Espiritual

Fuja Ana.
Corra para bem longe, leve seu corpo daqui.

Não deixe que os monstros te alcancem e caso alcancem, leve sua mente daqui.
Leve-a para bem longe, para o lugar mais feliz que encontrar em suas memorias.

Não deixe que os monstros adentrem tua mente, nem em teu local sagrado e caso adentrem, liquide teu espirito e deixe-o escorrer pelo ralo.

Deixe-o correr pelos encanamentos do mundo, para o mais profundo dos esgotos.
E quando alcança-lo assegure-se de clareá-los, pois as profundezas dos esgotos são repletos de escuridão. Clareia-os, Ana.

Para que teu espirito não seja corrompido pela escuridão, assim como aconteceu com estes monstros que agora correm atrás de teu corpo nu.

Não, Ana.
Você não correu o suficiente.

Não, Ana.
Você não encontrou teu lugar feliz, nem mesmo em tua própria mente.

Agora só lhe resta deixar teu espirito escorrer. Escorrer para o mais profundo dos esgotos e reze para que os monstros não saibam nadar.

Pois caso os monstros sejam exímios nadadores espirituais. Não existirá onde mais se esconder.

E tua alma será corrompida e você fará parte da corrupção.
Uma corrupção que irá destroça-la pelo o resto de tua vida. 

- Lágrimas de Gasolina




segunda-feira, 15 de julho de 2013

Alef

"Papai, quem são eles? Para onde estão nos levando?"
"Ele são nossos amigos, filho. Eles vão nos levar para um lugar melhor, querido."

Pai e filho andavam de mãos dadas em meio àquela multidão de faces pálidas. Já fazia algum tempo que a comida estava escassa e o solo estava morto.
As criaturas observavam de cima todo aquele emaranhado de humanos. Estavam armados, trajavam armaduras e empunhavam armamento de ponta. Os humanos haviam perdido a guerra.
Algumas das naves pairavam por de trás do muro. Outras vinham dos céus.

"Papai, o que são essas casinhas?"

Os humanos faziam filas para adentrar as câmaras. O homem apanhou seu filho e o segurou em seus braços.

"Estas são as nossas novas casas, onde iremos morar e seremos muito felizes, querido."

Um homem careca que estava na frente deles, se recusou por alguns instantes a entrar na câmara. Uma das criaturas que guardavam suas portas o empurrou para dentro. As portas se fecharam, um raio de luz cortou as frestas da porta. A porta se abriu novamente.
Um cheiro de queimado adentrou as narinas do pequeno Alef.

"É a nossa vez papai, vamos."

O homem sabia que era e também sabia o que aconteceria em seguida. Aquele cheiro de queimado era o cheiro embuçado da morte.
Segurou o pequeno Alef com força e deu um passo a frente.
Uma das criaturas deu-lhe um tapa no peito, outra o segurou pelos ombros e uma terceira arrancou Alef de seus braços.

Gritou, mas era tarde. E com um pontapé, foi empurrado para dentro da câmara. A porta se fechou e tudo que pôde ouvir foram os gritos de terror de seu filho, vindos do lado de fora da câmara.

Um raio de luz cortou as frestas da porta.

- Lágrimas de Gasolina

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Profundezas

Há muito tempo, nos mais profundos mares da Terra.
Caminhavam pelos solos aquáticos de calcário e ecossistemas marinhos, uma pequena civilização de peixes primitivos, dotados de uma inteligencia sobre humana e de uma força tão descomunal que hoje, seria endeusada pelos humanos.

Foi no começo daqueles tempos, posteriormente chamados de Cambriano, que Agnus nasceu.
Sua família o concebeu como uma ótima cria e sabiam que aquela criaturinha um dia se tornaria muito, se não a mais, importante criatura de toda a especie.

Foi nesse período, que as civilizações marinhas cresceram e se multiplicaram. Agnus se tornou forte e grandioso como já havia sido prescritos por teus pais. E com o tempo, Agnus avançou pelos patamares da sociedade, cresceu forte e com pouco tempo, já estava ocupando os importantes degraus políticos da sua cidade.
Construiu um centro tecnológico, onde estudavam os astros e a matemática. Construiu um teatro submerso, onde a arte e a felicidade reluziam. Criou um exercito e fez-se um portão, para proteger seu povo.
Se tornou um ser destemido e temido. Amado e aclamado.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Rodoviária

Me lembro da primeira vez que o vi. Sobretudo negro, barba longa. Carregava um pequeno livro de couro no colo.
Estava sentado na rodoviária, queixo direcionado para frente, os óculos escuros tapavam-lhe os olhos.
Me lembro de sentar ao seu lado.
A figura escura inquietou-se perante minha presença. Parecia desconfortável, coçava a barba e remexia os ombros.
Foi quando apanhou o livro e o abriu em uma página, repleta de escritas, indecifráveis. Caligrafia horrenda.
"Qual é o seu nome?" - perguntou, sem ao menos mover o pescoço.
"Samuel." - respondi, hesitante.
"De que?"
Jamais responderia a um estranho, mas as palavras saíram, mais fortes do que minha vontade.
"Guimarães Rosa"
Ele correu os dedos finos pelas linhas deformadas de seu livro negro, continuava igualmente estático.
"Você deve pegar o próximo ônibus, Samuel."
No mesmo instante, dois ônibus cruzaram a esquina.
"Me acompanhe." - Proferiu, adentrando ao primeiro dos ônibus. A rodoviária estava vazia, exceto por mim, a estranha figura e um pedinte apoiado em uma das vigas.
Meu bom senso falou pelos meus ombros. Permaneci sentado.

Me lembro da segunda vez que o vi. Ele estava sentado, na mesma poltrona, da mesma rodoviária.
"Ola, Samuel."
Me contive em responder.
"Hoje, definitivamente, você deve pegar o próximo ônibus."
No mesmo instante, dois ônibus cruzaram a esquina.
"Me acompanhe." - Proferiu, desta vez sem olhar para trás.
Cruzei os braços, virei o pescoço e gritei em minha mente.
"Não, velho escroto."
O ônibus fechou tuas portas e partiu.
O pedinte sentou-se ao meu lado, pediu por algumas moedas. Dei-lhe três moedas de real.
Entrou no outro ônibus e partiu.

Foi neste momento que o vi pela terceira vez.
"Ola, Samuel."
Estava cansado, estressado e com raiva daquilo. Quando fui abrir meus lábios para proferir alguma maldição para aquele homem, ele me interrompeu.
"Olhe teus bolsos, Samuel. Estão vazios. Parece que você doou teus últimos trocados para aquele pobre maltrapilho. Não terás dinheiro para o próximo ônibus."
Olhei a volta, o homem desaparecera. Uma voz ecoou em minha mente.
"Veremos se terás a mesma sorte."
A volta da rodoviária se tornara negra, abismática. Nenhum homem se aventuraria em tamanha escuridão.
Me apoderei dos cobertores largados daquele maltrapilho e ali permaneci, e ali permaneço.

Já fazem quatro dias.

- Lágrimas de Gasolina





sexta-feira, 28 de junho de 2013

Monstros e Humanos

Ela ouviu um pequeno sussurro em baixo de sua cama.

Abriu os olhos, mas a escuridão preencheu-os tão violentamente que precisou processar por alguns segundos se realmente estava de olho aberto ou fechado.

Puxou, calmamente, o edredom acima do nariz, deixando apenas os olhos de fora. Aos poucos suas pálpebras ganharam densidade, e seus olhos começaram a se fechar. O mundo começou a perder a cor, a perder forma. A escuridão começou a tornar-se clara, e sua consciência a ...

E novamente o sussurro puxou-a de volta. Abriu os olhos, assustada.

Sabia que não fora sonho, que não fora estado de dormência.

Sabia o que tinha ouvido.

E sabia que estava em baixo de sua cama.


Lentamente tirou o edredom de cima de seu pequeno corpo, e apoiou o os bracinhos na beirada da cama.

Em seus cinco anos, a única coisa que realmente era clara para ela era que em baixo da cama havia monstros.  No escuro havia monstros.

Mas... Se todo o quarto é escuro, então há monstros em todo o quarto?

Se ela está no quarto, então ela é um monstro?

Mas e a noite, que assola o mundo em escuridão? Seremos todos monstros vagando em um escuro com medo de nossa própria sombra?  Existe uma sombra então?

Será que o real escuro é a nossa sombra? O monstro real? A outra parcela de nossa personalidade que filtra tudo aquilo que em nós nos deturpa da humanidade?

Ou será que nos tornamos monstros no escuro pelo simples fato de nossa sombra fundir-se ao nosso integro, tornando um só, monstro e humano?


Seus cachos loiros tocaram o chão quando ficou de cabeça para baixo, fitando fielmente o chão em baixo de sua cama.

E ali, olhando de volta, e sorrindo, estava ela mesma.

Sorrindo e sussurrando, segurando uma pequena ampulheta, enquanto gotas de sangue escorriam por seu nariz.

- Dedos Azuis

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Cria-Criatura

A criatura contorcia todos os teus braços em resposta à dor infligida.
O homem sorria. Os outros ao teu lado sorriam e gritavam.

Tirando o ferro da brasa, apontou para a pobre criatura.
A criatura enrolou teus tentáculos e suplicou por misericórdia. Chorou pela misericórdia e pelo remorso que os homens desconhecem.

O homem esticou o braço e afundou, triunfante, o ferro quente contra a pele escamosa da criatura.
Uma lágrima roxa deslizou pelas pálpebras da criatura.

Por um momento, pensou em suas crias e na sua fêmea que logo deixaria para trás. A morte era iminente.
A criatura fechou todos os seus olhos e deitou-se no solo, vencido pela desumanidade dos humanos.

Os homens se apressaram em chuta-lo e esmurra-lo pelo resto da noite.

A noite caiu.
Os homens cansaram.
A criatura se fora.
Suas crias e tua fêmea, dilatadas e apodrecidas em sua toca. Impreparadas para morrerem de fome à espera de um pai que nunca voltará para o lar.

Talvez se a história tivesse sido diferente... 
Vamos corrigir as coisas.

A criatura estremeceu. Os humanos, descrentes, recuaram. Viram o que tinham provocado.
Todo o ódio, toda a raiva, todo o medo. Canalizados e transformados no mais puro exemplo de força.

Com seus tentáculos ele quebrou teus pescoços e arrancou tuas linguás. Com suas garras ele dilacerou teus abdomes e furou teus olhos.

E com os teus olhos ele causou o medo, o panico e a dor que nenhum homem naquela noite jamais havia sentido.
A criatura se tornou humana e desumana.

E naquela noite, ela alimentou suas crias.
- Lágrimas de Gasolina



segunda-feira, 24 de junho de 2013

04 (Quatro)

Escamas cresceram sobre minha pele, que escorreu como piche pelos meus músculos.
Cuspi a brasa que ocupava meus pulmões.

Minhas escapulas saltaram das minhas costelas verdadeiras. Minhas clavículas contorceram-se.
Urrei. Não gritei, gritar é para os fracos.
Gritar a para aqueles que não cospem fogo como eu.

Coloquei as mãos no solo. As unhas saltaram de meus dedos e garras rasgaram meus nervos.
Urrei e os gritos vieram junto ao eco.
Eram os fracos, aqueles que não cuspiam o fogo, aqueles que não tinham seus membros eviscerados.

Contorci-me junto a poderosa dor. Dolorosamente poderoso.
Olhei para o solo e escarrei um pedaço do tártaro, a voz de cima veio grave montada sobre o Coliseu Romano.

Explodiu o planeta em caos e redenção. Sua voz ecoou pelos continentes e pelos mares, passou pelos campos e cidades e todos que a ouviram foram destroçados, lançados para o alto.

Eu direcionei meus olhos para uma de suas frontes, mas não pude aguentar mais do que segundos. O Dragão Romano esticou teus dez chifres para os céus, uma viscosidade luminosa desceu para o solo terreno.

Ao lado das luzes que caiam, levantaram-se outras criaturas. O Leviathan que adentrou os mares do Oeste. A segunda criatura dividiu-se e aterrissou no solo terreno como duas criaturas. Uma correu para o Sul e a outra se escondeu no Leste.

Me contorci. A luz cessou. O Dragão Romano voou para o Norte.
E o mundo adentrou em Discórdia, Corrupção, Caos e Escuridão.

- Lágrimas de Gasolina



domingo, 23 de junho de 2013

Luvas Rosas

Há um par de luvas em minha mesa de cabeceira 
Mas não é qualquer par de luvas, são luvas rosas 
Me pergunto como foram parar aqui
Faz meses que uma mulher não entra em meu apartamento 
 Guardo as luvas no fundo de uma velha gaveta 
 E na manhã seguinte lá esta ela novamente, na minha mesa de cabeceira a me fitar 
 Os dias se seguiram assim 
 Cansado da brincadeira, decidi joga-la no lixo 
 Mal sabia que ela retornaria, desta vez acompanhada 
 E no meio da noite acordo assustado 
 Há alguém sentado ao pé da minha cama 
 Esta escuro demais para ver quem é 
 Antes mesmo de conseguir alcançar o abajur a criatura pula em cima de mim 
 Colocando suas fortes mãos em meu pescoço 
 Sinto o ar se esvaindo de meus pulmões
Já não consigo mais lutar 
 Meus olhos estão se fechando lentamente  
E a ultima coisa que vejo é o par de luvas rosas 
 Em minha mesa de cabeceira 

- Dama da noite

domingo, 16 de junho de 2013

Vidas Obssessoras

O árido mármore arranhou minhas costas. Os recentes ferimentos ainda incomodavam  Mal cicatrizada e mais fina do que seda, minha pele gritou.
Todo o mundo que me adornava começou a tornar-se preto e branco, conforme iniciava minha aventura no passado. Um hábito comum à todos aqueles que buscavam entender suas falhas.
Novamente no parque, novamente no banco, porém há muito tempo atrás. Giovanni ali, com suas curtas perninhas balançando no ar. As pequenas mãos entrelaçadas a fria corrente do balanço, enquanto sua cabeça pendia para baixo.
A tristeza era seu melhor amigo de infância. 
Foi então que me apresentei. Sorri, e ele sorriu para mim. Foi o suficiente para uma efetiva aprovação. Nos tornamos inseparáveis. 

Sua infância foi monótona, mas satisfatória. Solitária, porém feliz. Giovanni conversava pelos desenhos, sorria rabiscos. E dava todos para mim.

Porém isto começou a mudar. Sua adolescência, seu sucesso profissional, sua vida social. Não havia espaço para fé em meio a tantas garotas. Não havia deixas para crenças bobas, para anjos da guarda.
Giovanni alcançou a tudo e todos pelos seus próprios esforços, pelo seu próprio carisma. Aos 17 Giovanni era ateu.

Seguiu toda uma vida, ou uma desvida.
Ele foi promovido e casou. Teve um filho e chamou-o de Vitor.
Foi demitido e abandonado. Seu filho adoeceu aos 6.

Pela primeira vez em 9 anos, Giovanni chorou de verdade. Pela primeira vez, rezou.

Penso se as coisas teriam sido diferentes.

Penso se as coisas teriam sido diferentes se eu tivesse feito Giovanni abaixar a voz naquela reunião. Bater o carro antes de chegar no motel. Se eu tivesse salvado Vitor.
Mas meu ego não me permitiu-me. Ó caro leitor, não. Desculpe se passei-lhe uma impressão errada. Não sou um anjo da guarda, não.
Sou mais… como meu amigo gosta de dizer, de um departamento mais profundo.
Realmente as coisas teriam sido diferentes, se eu não tivesse ajudado Giovanni a pressionar o gatilho.

- Dedos Azuis

sábado, 8 de junho de 2013

Toluene

O pequeno bonsai sobre a escrivaninha continuava me encarando.

Pedi para ele parar, pedi para ele parar. Ele não parou. Ele sabia o que eu tinha feito.

Mesmo limpas, minhas mãos estavam incrustadas com sangue seco, sangue inocente.

Toda uma vida que deveria ser, e não foi. Não para mim, mas para a pequena criança.

Não foi minha culpa, não foi. Ela permanecia ali, encarando-me, não tive alternativas.

Agora a sombra fria da noite penetra pelo meu quarto, refletindo nas paredes brancas todos os pecados de uma pobre criatura vil. Mas ele ainda está ali, parado, me encarando. Robusto em sua forma grotesca, retorcida. Um juiz imponente.

Empurrei a cadeira para trás, levantei e caminhei até a janela. Minhas mãos suavam, o ar tornava-se rarefeito. Andei de volta para a escrivaninha, peguei alguma coisa para me distrair.

As luzes estavam apagadas, como que parar manter o segredo que elas juraram não contar. Mas a noite fria revelava tudo a todos, e meu bonsai sabia. Ele sabia.

Abri a pia do banheiro com um forte tranco, afundando minha cabeça na gélida corrente que por ela transcendia. Afundo meus problemas na gélida corrente que por ela transcendia. Mas afundar não é afogar. Eles ainda estavam ali, ainda estavam ali.

Na escrivaninha, o bonsai me fitava. Se recusava a trocar palavras, apenas olhares.

Meu coração ameaçava sair pela minha boca, titubeando ferozmente por um peito agora fraco. Não tinha mais forças, não tinha mais forças. Quando eles viessem, eu não poderia fazer nada.

Eles não virão, eles não virão, eles não virão.

Eles vieram.

A sirene tocou alta na rua torta que cruzava a passagem de minha casa. Meu quarto foi invadido por luzes azuis e vermelhas, rajadas furiosas que mordiscavam todo o meu corpo em busca de indícios de fraqueza.

Joguei me ao chão, gritando, e me rastejei para baixo da cama.

A polícia gritava no portão, mas não havia ninguém em casa, não havia ninguém em casa.

Ah menos que…

Olhei para o bonsai; ele estava prestes a gritar, a chamar pelos policiais, me denunciar. Ele iria acabar com a minha vida.

Me joguei para cima dele, insanamente. Com braços machucados, lutamos no chão. Rolamos por entre poeira e roupas, seringas e sangue. Nos debatíamos, esganiçávamos, mas sem emitirmos o menor som.

Bati em seu pequeno rosto com o cotovelo. Coloquei os joelhos em seu pequeno peito. A faca que estava sobre a escrivaninha, agora deslizava por sua fina garganta. Tudo isso se passou em milésimos de segundo.

 Agora a polícia entrava em minha casa, e eu sabia que tinha de fugir. Mas não sem antes limpar as mãos, limpar as marcas.

O pequeno bonsai sobre a escrivaninha continuava me encarando.

- Dedos Azuis

terça-feira, 4 de junho de 2013

Independencia

Meus miolos, já podres, escorrem pelos meus ouvidos.

Os vermes comem o que resta da minha força de vontade e o resto de comida que prende-se por entre meus dentes.

Os ratos roem os estilhaços do meu bom senso e defecam alienação e estupidez.

As baratas marcham entre minhas entranhas apodrecidas devido a claridade exalada pela televisão.

Meus globos deslizam pelas orbitas e atingem o chão, tentando evitar mais alguns segundos de sofrimento.

A luz acende. Minha mãe entra no quarto. Abre a janela.

“Vamos, vá viver brincar lá fora.”

E saiu.

Apaguei a luz. Fechei a janela.

“Eu não preciso sair. Eu tenho meus vermes programas, minhas baratas noticias, minha sujeira novela e a minha podridão própria diversão.”

Me sentei e continuei assistindo à televisão.

Meus dedos necrosavam deliciosamente, minhas pernas atrofiavam e meus dentes putrificados, despencavam da minha boca e atingiam o solo seguido por gotas de sangue negras e mal cheirosas.

“É lindo não acha?”

“O que?”

“Não depender de ninguém para se divertir.”

- Lágrimas de Gasolina

domingo, 2 de junho de 2013

O Garoto e A Escuridão

Eu estava pronto para me deitar.
Hoje seria o dia em que venceria o meu mais profundo e secreto medo.
Eu sempre tive medo do escuro.
Mas não mais. Um garoto da quinta serie não deveriia ter medo do escuro.
Eu levantei da cama e fechei a porta, delicadamente.
Sentei no centro do quarto, a chuva caia forte. Um raio cortou os céus e tudo se apagou.
Pensativo, levantei a cabeça e perguntei:
“Por que eu tenho medo de você?”
A escuridão tomou forma de um garoto e tocando meu ombro, respondeu serenamente:
“Eu não faço ideia, amigo. Eu não sou nenhum vilão.”
Abaixei a cabeça, duvidoso. Eu cresci aprendendo a temer o desconhecido.
“Você não deve temer.” - Continuou. - “Eu sou aquele que esconde a realidade, que omite o medo. Eu sou aquele que esconde o que a luz insiste em escancarar em vossa face. Você não deveria temer a mim. Você deveria me agradecer, amigo.”
Eu ergui a cabeça e sorri para aquele garoto de rosto negro.
Me levantei. As luzes voltaram à acender. Meus olhos doíam.
Me deitei e apaguei as luzes.
“Boa noite.”
-Lágrimas de Gasolina

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Proteger

Eu detesto ficar sozinho.
Eu sempre fico sozinho, sabe?
Não é que eu não goste da sua companhia, é só que eu quero conhecer pessoas de verdade, sabe?
“Hoje eles virão aos montes, só pra te ver. Isso pode ser um pouco incomodo para você. Você não esta pronto.”
Não, eu sou sociável. Não sou um animal que precise ser preso e mantido em observação.
“Você é uma aberração, Logan.”
NÃO.
“Você deve permanecer aqui para proteger as pessoas ao seu redor.”
Eu não sou um monstro. Eu quero melhorar.
“Você é perigoso, Logan. Você vai ficar preso aqui;”
NÃO.
Eu sou um bom filho e um bom marido. Eu quero voltar. Hoje é o dia de visitas e eu vou mostrar para todos.
“Você vai falhar.”
Eu estou melhor. Eu estou melhor. Eu quero melhorar.
“Não você não quer, Logan. O horário de visitas já passou. Você ficou falando sozinho o tempo todo.”
NÃO.
“Seus pais viram o quanto você está melhor.”
Não pode ser. Eu queria tanto melhorar.
“Você falhou, Logan.”
Eu nem sequer vi seus rostos.
Eu não aguento mais essa sala. Essa cama. Tudo isso.
Logan foi encontrado morto na sala de observação, uma hora antes do horário de visitas.
- Lágrimas de Gasolina

domingo, 26 de maio de 2013

Terror

Sutilmente o ar tonou-se seco, frio, agonizante.
Cada canto do comodo se transformava. O terror tomava conta do meu ser. As paredes, antes imoveis, adquiriam aparência gélida.
O terror. Ah, o terror.
Cigarro e suor, eram os gostos que preenchiam a minha boca. Cigarro e suor. No chão a pequena seringa de vidro. Nas paredes um movimento constante. Jamais estou sozinho.
A pequena lampada do meu quarto, anteriormente amarelada, reluzia intensamente uma luz azul, ofuscante. Meu ombro formigava, senti teu toque. Arrepiei-me.
Olhei para cima. Lá estava ele, sorrindo.
O terror. Ah, o terror. Cheirando a cigarro e suor. Sorrindo. O frio, e um insano azul. Minha respiração estava densa, meu peito subia vagarosamente, minhas mãos tremiam. E ele sorria.
Esticou os dedos negros e tocou meu peito. Perdi o folego por um instante. Ah, a deliciosa sensação de medo, agoniante.
Esticou o pescoço, senti seus lábios secos encostando em minha bochecha. O terror percorria meu ventre.
As paredes estavam cada vez mais próximas, pressionando, pressionando. O ar estava se tornando escasso. Uma brisa azul pairava no ar, enquanto ele deslizava sua língua por meu pescoço.
Meu corpo estremeceu, aquilo era o terror ou o prazer?
Senti sua língua mais profunda.
Ah, o terror.
- Cold Clown

Mariposas

Sempre gostei de mariposas.
Leves, tênues. Sempre voando, fugindo da escuridão.
Sempre aparecendo à noite. Elas vinham e pousavam na cabeceira da cama.
Mariposas me lembram a minha infância. A televisão ligada, planando sobre a tela, assistindo comigo. Minhas eternas companheiras.
Elas estavam lá, quando esbocei meu primeiro sorriso. Elas estavam lá, quando chorei pela primeira vez.
Elas fazem parte de mim e eu, faço parte delas.
Hoje, minhas pernas doem. Meus rosto, envelhecido. Mas elas estão aqui comigo. Elas nunca envelheceram.
Tranco a porta. Me deito com as minhas amigas. Únicas, queridas.
O velho se arrumou na cama e suspirou, sereno, aliviado. As mariposas, estáticas, aguardavam.
Na manhã seguinte,a camareira bateu na porta. Sem resposta, adentrou o quarto, espantou as milhares de borboletas que lá estavam e deu inicio ao processo de limpeza.
Nenhuma mariposa, nenhum hospede.
Apenas borboletas. Coloridas e felizes borboletas.
Leves, tênues. Sempre voando, fugindo da escuridão.
- Lágrimas de Gasolina

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Muriel


Olhei para Muriel e sorri.
- Espera eu abrir a porta, aí você aperta o botão, ok?
- Sim! - E assim foi. Escancarei a pesada porta corta-fogo da escada de incêndio enquanto ela fechava o elevador. Uma pequena corrida.
Descia ofegante por aquela incansável espiral de cimento. As paredes amareladas me perseguiam„ rodando, rodando, rindo.
5º Andar, indicava a placa verde. Minha mão escorrendo pelo corre-mão enferrujado, as paredes amarelas atrás de mim.
4º Andar. O ambiente começou a ficar monocromático, os degraus eram menores.
3º Andar. Corria cada vez mais rápido, em uma espiral infinita. Minha visão escureceu. Flashs. Uma parede amarela e um corre-mão enferrujado.
Toc, Toc. Passos atrás de mim. Sorri, devia ser Muriel tentando me alcançar.
2º Andar. Aspirais infinitas preenchiam as amareladas paredes. Minha visão escureceu novamente. Devia ter ido de elevador. Estava ficando zonzo.
Subsolo. Droga! Passei o primeiro andar e nem me dei conta! Parei, ofegante, e subi correndo. Subi um lance. Depois dois, depois três, porém não havia plaquinha alguma. nem de 1º, nem de 2º andar. Nem porta, só aspirais amareladas e paredes enferrujadas.
Desci correndo, procurando insanamente a placa de subsolo, mas não havia nada. Só corre-mãos amarelados e paredes em aspirais.
Continuei descendo, insanamente. Desci, desci, desci. Por fim, a luz de emergência estourou acima de mim, abraçando-me com um colossal escuro sombrio.
- Muriel, é você?
- Não, não é a Muriel.
- Dedos Azuis