Mostrando postagens com marcador Terror. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Terror. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Pirofagia


Sentado em minha cama, apreciando os gritos ecoados vindos dos outros cômodos.
Sinto um arrepio enquanto brinco com a fumaça, o calor começa a tomar conta do aposento.
Os gritos estão altos. Ouço o fogo estalar.
Uma cinza cai no teclado onde datilografo os meus contos. As janelas estão trancadas. 
Me deito, paciente. Este conto não precisa de um fim mesmo.
Sinto uma brisa quente, a porta de madeira reluz a luz agradável e aconchegante do fogo.
Não ouço mais os gritos. A casa está em completo silencio, exceto pelo estalar contínuo das chamas.
Não preciso de cobertas, cruzo as pernas e olho para o teto.
De fato, aquele conto não precisava de um final decente mesmo.
Seria apenas mais um texto.
Agora, é só mais um monte de cinzas em meio aos escombros.
Destranco a janela.
Outras pessoas precisam conhecer meus contos.
- Lágrimas de Gasolina

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Samael


Apontaram para mim e desabaram em risadas.

Lá estava meu corpo, esticado e destruído. Minha boca tinha o gosto ferroso do sangue e meu rosto a dolorosa dor da humilhação.

“Morte, Morte, Morte…” As vozes ecoavam, furiosas. Tão furiosas quanto as figuras que as proferiam.

O fogo atingiu meus pés. Sim, Ele sabia tão bem quanto eu, fui derrotado.

As criaturas que formavam a grande roda estabilizaram-se, mudas.

A grande forma pálida aproximou-se e com suas mãos magras retirou o capuz que envolvia seu crânio. Proferiu algumas palavras inaudíveis e disse:
“Dessa vez, sua hora chegou, Sr. Robins. Ninguém pode viver por tanto tempo.”

Meus joelhos queimaram e caí.

Gritei pela Morte, mas ela se recusou à descer.

Gritei por Deus, mas Ele me ignorou.

Gritei pelo Diabo, o Pastor Negro, que me acolheu de braços abertos.

- Lágrimas de Gasolina

Requien


O ventilador abafava o choro comunitário.

Os presentes olhavam para cima, como se o incrível fosse iminente.

O que fazer, o que dizer? Coisas assim são sempre inevitáveis. Fatais.

Um homem se aproximou, arrumando o capuz negro e ajeitando as mangas longas, também negras.

O homem não era um homem. Era um velho senhor, com uma curta barba longa. Curta e branca, e um sorriso sincero.

Apanhando a pequena arma sentenciadora que jazia no peito da sua roupa, proferiu algumas palavras para aqueles que conseguiam ouvir.

E de repente o estrondo metálico da enorme cruz sendo desfragmentada. O velho olhou assustado para o anjo de luz que desceu para atrapalhar sua missão.

Aquilo deixara de ser uma missão há muito. Agora era uma batalha entre os opostos.

Enquanto as duas entidades desafiavam-se, os espectadores permaneciam ali, imóveis, ignorantes ao que ocorria. Era só mais um funeral.

Com exceção de Aline. Aline, com seus grandes olhos caramelos, via muito mais que o normal, muito mais que o real. Ela absorvia o universo com seus grandes olhos caramelos.

Ela sabia a que lado pertencia, onde gostaria de passar toda a eternidade. As entidades afrontavam-se aos olhos de Aline, eram poderosas, mas não tão poderosas quanto a escolha da observadora.

Seus olhos caramelos sorriam, e por um singelo momento eufórico, a garota de sete anos esqueceu que era seu pai que jazia deitado em meio ao salão.

Não pôde fazer nada, apenas observar a vitória daquele cujo traria o terror à alma de seu falecido papai.

- Cold Clown

domingo, 19 de maio de 2013

Necrofilía


Nunca havia reparado naquela garota antes; O rosto

virado para o outro lado, as mãos cruzadas no colo. As pernas

a mostra por debaixo da saia. Vi o ônibus 3.85 e estiquei o braço.

No dia seguinte lá estava ela de novo. Sentei ao seu lado.

Dirigia-lhe olhares furtivos, mas não abri a boca. Seu rosto

permaneceu fitando o oposto, e lá veio o 3.85.

No ônibus comecei a refletir. Como passamos horas, dias, anos

próximos a pessoas que nem mesmo dignamos um ‘bom dia’?

Como nos sujeitamos a viver em casulos sociais e rejeitar tudo

aquilo que é novo? Será que isto incube a noção de um tal de

‘Belo Incerto’? Era simples, tão simples. É simples.

Um ‘bom dia’ de vez em quando. Um ‘como você está?’ em uma

preguiçosa manhã. Simples.

No dia seguinte iria conversar com a garota.

Ela estava lá, sentada com o rosto virado para o outro lado.

As mãos cruzadas sobre o colo. Sentei ao seu lado.

- Bom dia!

Esperei, sorrindo. Não houve resposta.

Toquei seu ombro. Sua cabeça pendeu para trás, revelando o

branco que totalizara seus olhos.

Ela estava morta. Morta.

Há dias, apenas parada, esperando o ônibus certo vir buscá-la.

Sorri.

- Como você está?

- Dedos Azuis

Instinto


“Por que você voltou?”

“Eu não voltei, pois nunca parti. Eu faço parte de você.”

“Não, eu não sou assim. Você não pode me dizer o que fazer.”

“Sim, eu posso e vou. Você precisa de mim e você vai fazer exatamente o que eu disser.”

“Não, não vou.”

“Está sentindo esta dor, Adam? Isso é fome, algo que um rapaz tão bem de vida como você nunca sentiu.”

“Eu já senti fome, mas não dessa maneira, não nessa intensidade.”

“Só restam vocês três, Adam. Você sabe que você não pode sair daqui. A cidade está um caos. A comida acabou. A ajuda abandonou os necessitados. Me aceite.”

“NÃO”

“Natalie está no outro quarto e aquele rapaz está logo ali, qual é mesmo o nome dele? Não importa. Mate-o.”

“NÃO”

“Vá, Adam. Natalie não vai ouvir nada. Mate-o e sobreviva ou a dor só vai aumentar e você perecerá.”

“N-NÃO”

“ADAM. Você morrerá e Natalie ficará sozinha. Ou pior, com ele. Mate-o.”

“Isso, Adam. Aproxime-se. Mate-o e alimente a sua dor. Sua fome.”

“Saboroso, não é mesmo? Coma. Coma até que sua fome seja saciada.”

“Satisfeito?”

“S-sim.”

“Está sentindo isso, Adam? Esta sentindo isso? É algo que precisamos saciar, não é mesmo?”

“Talvez Natalie possa ajudar.”

- Lágrimas de Gasolina

Cíclico


Aquele corredor infinito e branco, e infinitamente branco, se estendia

em uma gigantesca cobra, ondulando sem parar. Enquanto eu corria,

as criaturas transitavam de um lado para outro. As cabeças de animais

pendendo dos corpos pálidos.

Patos e Porcos. Cães e Cabras. Macacos e Mamões. Cabeças que

terminavam em camisetas e shorts brancos. E corriam para todos os

lados, grunhindo e zumbindo.

Aquele corredor comprido e claro. Tremia como um gigantesco celular

vibrando. Pessoas com feições animalescas caminhavam ao meu lado.

Por cima das camisetas e shorts branco, pessoas com orelhas de

macaco e bocas de pato, com nariz de cachorro e olhos de cobra.

Aquele corredor iluminado. As luzes brancas piscavam. Ao meu lado

caminhava meus colegas internos. Com suas roupas de manicômio,

até pareciam animais.

O enfermeiro trouxe o pequeno copo transparente com as duas

pílulas avermelhadas dentro. Tristemente tomei o seu conteúdo.





Aquele corredor infinito e branco, e infinitamente branco…



- Dedos Azuis

Crianças


Eu odiava crianças.

“Parem de gritar. Parem de bagunçar as coisas.”

Meu deus, como eu as odiava.

“Esses garotos ficam brincando na frente de casa. Não param um segundo, ficam gritando e gritando.”

“Saiam daqui, seus delinquentes.”

“Eles não respeitam os mais velhos, nunca.”

Como eu odiava crianças.

“Vão embora.”

A noite caía.

“Preciso descansar um pouco…”

“O que você está fazendo aí? Saia do meu gramado, muleque estúpido.”

“Não me faça descer aí. Vá embora.”

“Ai meu deus, o que eu fiz pra merecer isso. Essas crianças me enchendo á essa hora da noite.”

Corri pelas escadas, revoltado.

“Ei, muleque. Você sabe que horas são? Saia daqui, seu baderneiro.”

“Olhe para mim quando estiver falando com você.”

Naquela noite, ele olhou para mim.

“O que houve com o teu rosto? Que brincadeira é essa?”

“Como assim? Meu rosto está normal é o seu que é estranho.”

Lembro da sua língua escorrendo por entre seus lábios e saliva deslizava pelas suas orbitas.

“Que brincadeira de mau gosto, rapaz. Pare logo com isso!”

“Só é brincadeira se você também estiver participando.”

Todas as noites eu brinco com o garoto.

Eu adoro crianças.

- Lágrimas de Gasolina

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Desenhos


Deslizei o lápis 2B lentamente pela folha, fazendo malabarismos

com grafite. O brilho translúcido da lua invadia meu quarto pela

janela que jazia aberta. E em frente a janela, a outra casa.

Aquela casa; escura, velha, triste. Sem vida. Uma casa vazia,

escura, velha, triste. E vazia.

Apoiei o lápis sobre o papel e olhei para a casa.

Na janela, uma criança pálida me encarava. As feições distorcidas,

a boca escancarada em um grito infernal, as órbitas negras, vazias.

Vazia que nem a casa, só que não mais.

No dia seguinte, tentei terminar meu desenho. Mas algo me

assombrava, algo me perseguia. Algo obsessor começou a

apoderar-se de mim.

Olhei para a casa, mas fui surpreendido quando minha visão fora

cortada previamente. A criança pálida agora me observava de minha

janela. Sua boca, suas órbitas, sempre um resumo de uma galáxia

infinitamente negra. E ali estava ela. Parada, na janela.

Ainda continuava o desenho no terceiro dia. O ambiente estava gelado.

Não havia como respirar de tão denso. A criança esperava em pé

logo atrás de minha cadeira, sugando meus resquícios de felicidade.

No quarto dia ela não estava na casa, nem na janela. Não estava

no meu quarto.



Ela estava dentro de mim.



O desenho estava pronto.

- Dedos Azuis

Recaída


“É apenas uma gripe.” ela disse.

“Não é nada demais.” ela acrescentou.

“Não pode ser.” eu insisti.

“Gripe não dói tanto.” expliquei.

A porta abriu violentamente.

“Parados.” o policial gritou.

“Você está infectado.” afirmou.

Corri na direção dele.

O policial atirou.

Mordi seu pescoço e arranquei um pequeno pedaço.

“Apenas estou gripado.” informei ao oficial caído.

O policial se levantou.

“Eu também.” respondeu.

Olhamos para a garota.

“Acho que a senhorita doutora vai ter uma recaída.”

- Lágrimas de Gasolina

terça-feira, 14 de maio de 2013

Abismo


Uma das três crianças segurou a minha mão e apontou para frente.

Olhei para sua face e em seguida, para frente.

Contemplei a visão que a criança me 
direcionava.

Vi crianças brincando, sorrindo e gritando. 
Pássaros voando, cantando e fazendo piruetas no ar. Vi a grama e as flores. Vi a vida em seu estado mais puro e inocente.

A visão desapareceu.

A criança soltou a minha mão, fez um gesto de repugnância e saiu de perto.

A segunda criança se aproximou e segurou a minha mão, porem desta vez ela não fez gesto algum, não tive visão alguma. As coisas continuaram da maneira como estavam. Uma sensação de comodidade me dominou.

Senti um leve arrepio e a sensação desapareceu.

Uma lágrima escorreu do rosto do garoto e fazendo um gesto para a terceira criança, pediu que ela se aproximasse.

Ela se aproximou e as outras duas crianças se foram, desapareceram.

O garoto sorriu, olhou para meu rosto. Ele segurou a minha mão e apontou.

Senti uma leve dor, como se parte de mim estivesse me abandonando, um vazio se aproximava.

Uma visão veio logo em seguida.

Não havia pássaros, nem flores. Apenas a escuridão e o abismo que se aproximava.

- Lágrimas de Gasolina

Influência

Ele sentou sobre meu ombro esquerdo.

Palavras opositoras eram sussurradas em meu ouvido.

Estalei o pescoço. Eu sabia o que devia ser feito.

Segurei a garota pelo pescoço e apertei com força.

As palavras de incentivo ecoavam dentro do meu ouvido esquerdo.

Foi quando a garota soltou um leve grito de dor, que a pequena criatura apareceu. 
Pousando sobre meu ombro direito e dizendo palavras repressoras.

Soltei a garota que caiu ofegante sobre o solo.

A criatura avermelhada batia os pés com força, pulava e esperneava, mostrando ser uma criatura mimada. Meu ombro esquerdo doía. 

O avermelhado cerrou seus atos e levantou, assumindo uma postura ameaçadora e ao mesmo tempo, decidida. Esboçou um sorriso maléfico e cochichou.

Não pude pensar duas vezes. Coloquei a mão sobre o ombro direito e apanhei a criatura esbranquiçada que ali se alojava.

Abri a palma e a pequena criatura me encarou, duvidosa. Segurei seus pés e com a outra mão, seu pescoço.

A garota estava agachada, tremendo.

O vermelhinho sussurrou novamente no meu ouvido.

Soltei pequena criatura branca de pescoço quebrado, que em poucos segundos atingiu o solo.

A garota me olhou com medo e ela estava certa em temer.

Eu era o mal, apenas.

- Lágrimas de Gasolina

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Diário


[09.03.93 - 1:43am] A filha mais nova de John morre. Acidente de carro.

[09.03.93 - 17:32pm] O médico responsável por Maria, confirma sua morte.

[10.03.93 - 13:00pm] Reunião na casa de John. Despedida de Maria, a filha mais nova.

[11.03.93 - 3:00am] Inicio do processo de cremação do corpo de Maria.

[11.03.93 - 7:00am] Fim do processo de cremação do corpo de Maria.

[13.03.93 - 17:00pm] Instalação do sistema de gravação e monitoramento noturno no quarto do medico á pedido do mesmo.

[14.03.93 - 1:43am] Passos são capturados pelo sistema de monitoramento.



[SOM DISTANTE]

[15.03.93 - 3:01am] Gritos são capturados pelo sistema de monitoramento.




[15.03.93 - 3:02am] O sistema de monitoramento é destruído.

[16.03.93 - 7:00am] O dono do sistema é encontrado em estado grave pela camareira.

[17.03.93 - 17:32pm] Confirmada a morte do médico.

[19.03.93 - 18:22pm] Abertura do caixão de Maria.

[19.03.93 - 19:00pm] A pericia é acionada. Constata-se ausência de cinzas no caixão.

[20.03.93 - 14:25pm] Maria é dada como desaparecida.

[21.03.93 - 15:55pm] Averiguação do material contido na câmera de segurança.

image


[NÃO HÁ MAIS DADOS]

- Lágrimas de Gasolina

domingo, 12 de maio de 2013

1, 2, 3


Papai está no fundo de casa. Está chovendo muito.

Cadê a mamãe? E o meu irmãozinho?

Papai balançava a cabeça com muita força, de um lado para o outro.

Ele balbuciava alguma coisa. Cheguei mais perto e pude ouvir.
“1 e 2, 1 e 2, 1 e 2…”

Mamãe e meu irmão mais novo estavam deitados na chuva.

Papai estava com uma cara muito triste.

As suas lágrimas misturavam-se com a chuva e o barro.

Papai parou de cavar, colocando a pá de lado.

Eu olhava o dois grandes buracos no jardim, quando ele olhou para o lado e percebeu minha presença.

Papai apanhou novamente a pá, voltando a cavar.

Só que desse vez, ele contava até três.

- Lágrimas de Gasolina

Ponto de Vista


Ele olhava dentro dos meus olhos.

“Maldito, canalha estupido.”

Como ele ousa entrar na minha casa dessa maneira?

Ele terá o que merece.

Me posicionei para apanhar a pistola de cima da mesa.

Apanhei a arma e a direcionei á sua cabeça.

Ele fez o mesmo.

As luzes apagaram e ouvi um disparo.

Tudo ficou muito claro, minha visão estava ofuscada.

Uma picada percorria meu corpo.

Abri os olhos, sangue por todo meu corpo.

Caí no piso gelado. Não sentia meus braços.

Ele largou a arma, deixando-a cair contra o solo.

Outro disparo.

Por acidente, o projetil atingiu seu maxilar inferior. Perfurando seu cranio.

Seu corpo caiu ao lado do meu.

“Canalha estupido.”

A noite estava fria. Muito fria.

 - Lágrimas de Gasolina


Eu adoro o barulho que a igreja faz depois que o sol se põe.

Perguntei para vovó:
“Por que, vovó? Por que a igreja faz esse barulho tão alto?”

E vovó disse:
“Este som é para proteger a todos aqueles que o ouvem, meu querido.”
“Por isso que ele é alto, para proteger até aqueles que estão longe.”

Seu rosto estava embaçado.

Acordei no escuro, não conseguia respirar. Sentia duas palmas em minha garganta, apertando com força.

O sino da igreja tocou e estremeceu todo o quarto, senti a cama tremer e as luzes acenderam.

Vovó estava sobre mim, ofegante. Seus olhos murcharam. Ela deslizou as mãos pelo meu pescoço e apanhou o cobertor, empurrando sobre meu peito.

A sombra dos seus olhos desapareceram, escorrendo como piche quente numa rocha. Sorriu.

Olhou para o vovô que aguardava na porta, igualmente ofegante, e fazendo um gesto doce para meu avô disse apenas cinco palavras:
“Amanhã, preciso ir á igreja.”

- Lágrimas de Gasolina

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Coragem



- Mamãe! Mamãe! – Giovanni gritou, antes de sair correndo para o quarto de seus pais.


- O que foi querido? – perguntou a mãe, em meio a um bocejo sonolento.

- Tem alguma coisa em baixo da minha cama, mamãe.

- Faça assim querido: tampe os olhos, conte até dez e então abra eles. Se continuar com medo, você volta correndo para cá, combinado?

Giovanni voltou andando para o quarto. A luz azulada da lua forçava o vidro da janela, marchando para dentro da casa, enquanto os passos do pequeno garoto retumbavam no carpete de madeira como bumbos de guerra.

Passou pela porta do quarto, e com seus pequenos dedinhos puxou o edredom, para depois se jogar na cama e enrolar-se todo nele, simulando um casulo.

Ele olhava vidrado para a porta do guarda-roupa, esperando o monstro sair dali.
E saiu.

Uma silhueta masculina, gemendo coisas ininteligíveis em meio a espasmos de urros, com um cheiro terrível de carne podre.

Giovanni tapou os olhos com as duas mãozinhas, fazendo o que a mãe havia lhe ensinado.

Ele nunca mais foi para o quarto da mãe, nunca mais contou até dez.

Ele nunca mais abriu os olhos.

- Dedos Azuis

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Morte


A Morte o saudou, fazendo um gesto com as mãos.

“Nunca encontrei um jovem como você.”

“E eu, uma amiga como você.”

A Morte tocou o peito do garoto e ele caiu no chão.

A Morte deixou uma lágrima deslizar pela pálpebra inferior.

Ela apanhou o garoto e segurando-o sobre seus braços, voou para longe.

O garoto abriu os olhos pela ultima vez:

“Você é minha primeira e unica amiga.”

O garoto fechou os olhos e abraçou a morte.

- Lágrimas de Gasolina

Real


Batucava os dedos no chão de mármore frio quando a madeira da porta rangeu, e com um grito silencioso arrancou minha paz.

Minha cabeça latejou instantâneamente, e a sensação de vazio se apoderou de todo meu pequeno corpo. Meus dedos esfriaram, minha garganta secou.

Parado, na soleira, meu avô me encarava. Com uma máscara de dor atravessando o seu rosto como uma cicatriz de guerra, as mãos grossas e calejadas desabotoando as calças, ele pigarreou. Não algo para eu entender. Não. Não nos comunicávamos, a não ser pelos breves ruídos e grunhidos que emitiamos um para o outro.

Ele deu um passo para a frente, em minha direção. Ao longo dos anos de sofrimento e dor, minha mente criou uma proteção, um casulo. Minha mente criou Loráx. Meu mundo particular que me acolhia em situações de medo. Bastava fechar os olhos, era só fechar os olhos, e o real se transformava em irreal, e ao mesmo tempo ideal.

Apertei os olhos com força.

Abri. Ele continuava com seus passos mancos em minha direção, deslizando o zíper para baixo. E continuava, continuava. Eu olhei, com receio, mas me lembrei que em Loráx eu era corajoso, em Loráx eu poderia ser meu próprio super herói. Pulei por cima da cama empoeirada, com meus pés descalços estalando no mármore do chão, até alcançar a pequena comoda à direita. Puxei a velha gaveta, e de dentro tirei a antiga beretta de meu pai.

Sem exitar, levantei meu fino braço e apertei o gatilho. Seguinte ao estrondoso rugido de liberdade, o silêncio predominante invadiu todo meu ser, entrelaçado a paz. E por fim sorri; este irreal é tão saboroso que disputa espaço em minha cabeça. Mas era hora de voltar para o real.

Apertei os olhos com força.

Abri. Estava em Loráx.

- Dedos Azuis

terça-feira, 7 de maio de 2013

Amar


Ah, Ligia…
Pobre Ligia…

“O que fizeram com você?”

Eu posso consertar isso…
Ah, Ligia…
Por que você teve que ir com aqueles caras?

“Onde estão suas roupas, Ligia?”

Por que você não veio comigo?

“POR QUÊ VOCÊ NÃO FALAVA COMIGO?”

Agora, olhe para você. Jogada no chão. Como se ninguém se importasse com você.

“NÃO.”

Eu me importava.

“NÃO.”

Eu ainda me importo. Eu te amo, Ligia.
Talvez eu deva te tirar daqui.
Ou talvez.
UM BEIJO. Aqui mesmo.

Nossa Ligia, como seu corpo esta quente.

“Não me olhe dessa forma.”
-Lágrimas de Gasolina

Borboletas


Ah, quantas borboletas. Lindas borboletas.
Me lembro bem da minha infância, sempre gostei de insetos, das borboletas em especial.
Me lembro também do meu pai e das coisas que ele sempre dizia.

“Ah, não faça isso com a pobre borboleta, Samuel.”
“Não as machuque, Samuel.”

 Meu pai era tão engraçado. Tão legal.
É triste estar aqui, ao lado do corpo dele.
Mas pensando bem.
Ele não pode mais me dizer o que fazer. Não é mesmo papai?
E sabe de uma coisa?
Ultimamente tenho visto muitas borboletas.
-Lágrimas de Gasolina