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terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Código de Conduta

Correu até uma das gavetas da cômoda de madeira que descansava sutilmente no canto mais escuro do aposento. Era um móvel sagrado, trancado a duas chaves, uma escondida na gaveta logo abaixo e a outra carregada consigo ao redor do pescoço, pendendo através de um fino cordão de ouro dado por sua falecida progenitora.
Num rápido movimento de dedos o destrancou, o abriu e arrancou uma pequena caixa de madeira isolada por entre as sombras do fundo da gaveta, os estalidos produzidos pelo momento em que apanhou o objeto não foram suficientes para esconder as sirenes que emanavam das ruas ao redor da casa.
- "Quando foi que as coisas fugiram de controle?" - pensou, enquanto abria a caixa, retirando um pequeno amontoado de guardanapos negros enrolados sobre uma peça metálica - "Quando as pessoas fugiram de controle?" - completou aquele vago pensamento, olhando para aquela ferramenta.
Sabia que as armas haviam perdido o significado, por isso as pessoas encontraram outras formas de matar e controlar, formas ainda mais poderosas do que aquelas que disparavam contra um único alvo. Desenvolveram algo pior, como uma espécie de arma que transforma alvos em armas, vítimas em homicidas e carneiros em lobos.
Nem sabia por que pensara em correr até aquele objeto, uma ferramenta que escondera de todas as formas possíveis, na tentativa de evitar que fosse manipulada por algum de seus filhos ou que os colocasse em risco de alguma forma.
Esticou os guardanapos sobre a cama desarrumada, formando um quadrado negro sobre o lençol branco, colocou a peça no centro e uma pequena caixa de pequenos projéteis ao lado e os encarou por alguns segundos. Ouviu um curto e violento baque vindo da janela, acovardado pelos gritos e súplicas dos pobres infelizes que correram para as ruas quando perceberam que havia algo de errado.
- "Sentiram medo e correram para as igrejas e mesquitas da cidade" - pensou ao encarar a janela que sofria com os pequenos intervalos de batidas uniformes - "Foram para as ruas e se esqueceram do mal que vive nelas" - completou ao se dar conta de que as batidas e o pedido de socorro haviam cessado.
Delicadamente passou os dedos sobre as cabeças dos projéteis como se acariciasse o rosto de um sobrinho que não via há anos, com as pontas dos dedos apanhou cada um deles e os dispôs ordenadamente ao lado da pistola. Caminhou por vales mentais, voltando algumas décadas de sua mente e a estacionando numa época aos arredores de sua juventude, quando seu pai o ensinara a atirar. Tentou se lembrar dos movimentos que aqueles velhos dedos de atirador faziam e como suas mãos seguravam aquele objetivo que atiçava sua mente juvenil. Como um trabalhador que se levanta automaticamente e se prepara para mais um longo dia de trabalho, apanhou aquelas peças que descansavam folgadamente sobre os guardanapos negros e iniciou uma montagem semiautomática, quase inconsciente, de um quebra-cabeça assassino.
Sem nenhuma dificuldade, apenas sua mente trabalhava enquanto seus músculos se moviam, encaixando bala após bala, assim como seu falecido pai o ensinara.

- "Só use quando não houver mais o que ser dito nem feito, pois a palavra pode ser esquecida e a ação, remediada. Já um tiro, não é tão fácil assim de se esquecer, e muito menos, remediar." - as palavras de seu pai ecoavam pelas paredes de sua mente. A mãe só lhe dissera uma coisa, uma única vez:
- "Não faça nenhuma besteira!”.


Lembrava-se daquelas palavras sentado ao pé da cama, iluminado pela única lâmpada do quarto e segurando a arma com as duas mãos, realizando o movimento daqueles que estão prestes a orar, apoiando os dedos indicadores na testa e os polegares no queixo, com a cabeça abaixada e com o cano da pistola direcionado para o centro de sua testa.
- "Pai, não há nada que possa ser dito ou feito. Mãe, eu não farei nenhuma besteira" - disse em voz baixa para, deslizou a mão até a cintura e guardou a arma.
Aproximou-se da porta da frente, os gritos estavam silenciosos, ecoando com os tilintares das chaves em seu pescoço e o som de seus passos, preparou-se para abrir, agarrando a maçaneta com a força de sua expectativa e sua curiosidade latente projetada nas batidas de seu coração. Nunca soube o que esperar rastejando pelas ruas, apenas sabia o quanto os noticiários suplicavam para que as pessoas não deixassem suas casas naqueles dias.

- "Tranquem as portas, a situação está sob controle, estoquem alimentos e água, a situação está sob controle" - repetiam incessantemente, para apagar qualquer dúvida que insistia na mente das pessoas, numa tentativa de dar uma segurança que já havia sido perdida há muito tempo - "A situação está sob controle!”.

Quando ouvira nos rádios que as mesmas autoridades responsáveis por assegurar a segurança da população haviam se virado contra ela, percebeu a natureza do monstro e as consequências daquela poderosa arma transformadora, porém nunca havia enfrentado nenhum deles ou visto alguma delas em ação, tudo que lhe restara era uma especulação covarde, realizada nas noites em que se lembrava de sua esposa e filhos.


Os garotos estavam na casa dos avós e Marta estava no trabalho quando as coisas ameaçaram fugir do controle, ligou para o escritório de advocacia onde trabalhava e ordenou para que fosse para a casa de seus pais e cuidasse das crianças.
- "Mas por que, Bruno? Meu expediente acaba daqui três horas, não podemos esperar?" - lembrou-se das palavras que fugiam daquele dispositivo celular naquela noite - "Não se preocupe com as crianças, elas estão com seus pais e estão bem, acabei de falar com eles, acalme-se!" – ouviu um curto estrondo e uma pequena gritaria – “O que hou-“ - o telefone ficou mudo e a partir daquele momento, percebeu que não havia mais nada a ser dito.
- "Eu te amo" - respondeu para o som robótico e uniforme que soava em seus ouvidos, soltou o telefone e ajoelhou.

Suas mãos ainda abraçavam a maçaneta quando aquelas lembranças dominaram sua mente, foi como um lapso espasmódico causado pelo toque dado naquela peça metálica, uma descarga elétrica causada pela mais pura certeza. Podia sentir as vibrações em seu ouvido direito, causadas pela memória do ruído telefônico daquele dia, fechou os olhos, apertando com mais força a maçaneta, e ouvindo as palavras não proferidas pela esposa ao telefone, girou o punho e sentiu as vistas escurecerem.

- "Eu te amo”.
A casa parecia deformada quando se levantou e olhou à volta, fitou as cortinas cuidadosamente escolhidas por Marta, as fotos e os quadros nas paredes haviam perdido o sentido, as figuras não tinham mais rostos e as paredes estavam achatadas. Cambaleou até a cozinha e abriu a gaveta de talheres, onde um conjunto de facas gritava para ser selecionado, aquele conjunto lindo de materiais brilhantes escolhidos a dedo pelo casal seria utilizado por ele naquela tarde, como desculpa para evitar que qualquer um ficasse entre ele e seus filhos. Foi até uma pequena bancada no centro e pegou a chave do carro, o relógio na parede, desajustado para o horário de verão, marcava duas e meia.
Trancou as portas e correu até a garagem, o carro não estava lá. Esquecera que o estacionara do lado de fora quando entrou apressadamente em casa, lembrou-se de seu chefe perguntando o porquê de tanta pressa para abandonar o trabalho, mas não se lembrou de tê-lo respondido, simplesmente deu de ombros e atravessou as portas do edifício. Quando se ajoelhou perante o telefone mudo na hora passada, ainda estava com o terno utilizado naquela manhã de serviço, não se preocupou com suas roupas enquanto corria pela calçada de sua casa em direção ao carro e nem com a sua segurança quando acelerou em direção ao horizonte, a caminho da casa de seus pais.

Sua força de vontade era a única coisa capaz de concluir aquela simples ação de abrir a porta, porém sua mente, constantemente oprimida pela avalanche de lembranças, era incapaz de ignorar os lapsos de memórias convulsivas que explodiam sem aviso prévio, impossibilitando-o de focar em sua decisão. Por alguns minutos, ficou parado, esperando pela terceira torrente de imagens do passado, como um condenado que conta os segundos precedentes à sua execução, tentando inutilmente se preparar para o inevitável.

Algumas crianças imploraram para que parasse, agitaram as mãos sujas de poeira e balançaram os rostos marcados pelas lágrimas escorridas, mas não obtiveram respostas e o carro passou por entre elas. Há alguns metros, em frente a uma casa de portas escancaradas, a imagem de uma mãe enlouquecida balançando uma das mãos e segurando uma pequena criança com a outra, também passara despercebida.
A maioria das casas estava com as portas arrombadas, o desespero alheio não passou despercebido por sua mente, que se agarrara às visões assustadoras concebidas através de sombras violentas, projetadas nos cantos de dentro das casas e janelas quebradas.
O automóvel cortava as ruas habilmente, controlado por um condutor em perfeito estado de alerta, nenhuma curva, manobra ou frenagem era em vão, tudo milimetricamente calculado para que o destino fosse atingido o mais depressa possível.
Vira dois homens arrastando um sofá para a calçada e um terceiro encarando seu carro, as três figuras estavam fardadas, pequenas cruzes desenhadas sobre os distintivos em seus peitos.
Havia percorrido dezessete quilômetros quando se deu conta de que o ponteiro de combustível estava na reserva, provavelmente suficiente para atingir seu objetivo, mas insuficiente para fugir dele em seguida.
Inclinou os olhos um pouco, virando-os para o painel que revelava sombriamente as horas através de um display digital - eram quatro horas. Quando levantou os olhos, fitou uma pequena mercearia que tomava forma no horizonte de casas saqueadas, ponto de referencia para a velha casa de seus pais, virou a direita nas ruas gastas e ouviu os primeiros estalos involuntários dados por um motor sem combustível. Aquela pequena somatória de motor, lataria e rodas imploravam por alimento, assim como as crianças que deixara para trás, forçou o automóvel por mais alguns metros e girou a chave, desligando o carro e deslizando através do declive da rua até a última casa do quarteirão, seu destino.


Continua 1/ 2

- Lágrimas de Gasolina




domingo, 1 de novembro de 2015

Arrependimento

Uma das vozes veio do alto, deslizando sobre meus ouvidos e ombros como uma garoa fina.
- "Mas, por que tens esta paixão horrenda pela tristeza e pela morte?”.
Recostei-me sobre o epitáfio áspero de letras gastas e em relevo, onde apenas passagens vagas, escritas pela própria propriedade sem sentimento, repousavam. Tirei a rolha da garrafa de vinho e afastei algumas flores mortas que descansavam sobre o concreto velho, experimentando a dor de não ver nenhuma alma viva rondando por entre aqueles blocos que serviam para materializar a lembrança do que um dia fora vida.
- "É o que me resta." - respondi enquanto direcionava o bico da garrafa para meus lábios sem vida.
A voz tornou-se tempestade.
- "Você sabe que eu não estou falando de agora!" - esbravejou.
As coisas sempre foram assim, sempre pensando no fim. Uma afobação implacável para concluir as coisas. Em qualquer viagem ou plano que fazia, acabava por não concluir porcaria nenhuma, porque sempre pensava no que fazer quando atingisse o resultado, sem mesmo antes atingi-lo de fato. Morria aos poucos a cada projeto ou aspiração, não se preocupara com relacionamentos por temer pelos seus devidos fins, nunca visitara os pais por medo de qualquer dia ter de assistir suas devidas partidas, nunca disse - "Olá, como vai?" - por receio de dizer - "Adeus, se cuida".
Fez em vida o que não aprendera com a morte, sentado sobre a cova de algum estranho, presenciando o fim absoluto de qualquer coisa - a morte. Até pensara, enquanto sentava-se sobre o concreto e apoiava a garrafa de vinho lacrada sobre um dos joelhos - "Como irei voltar para casa quando ficar bêbado?" - fez todos os planos antes mesmo das consequências o afligi-lo de fato, mas não confunda com preparo a afobação pela conclusão, que descarta cada passo de uma caminhada até a padaria que for. Preparo é não sair de casa sem dinheiro, armado para não ser assaltado e de pés calçados para não serem feridos. Afobação é pensar no pão em seu estomago e se sentir saciado com isso.
- "Eu não sei do que você está falando!" - gritei para os céus neblinados pela chuva que se revelava através das luzes dos postes. - "Não sei, não sei!" - mas sabia.
A voz se tornou áspera e camuflou-se por entre meu ombro direito, materializando-se numa mão negra repousada sobre meu ombro e um cochicho no ouvido esquerdo.
- "Estou falando da viagem nunca feita por medo da chuva no ultimo dia que não aconteceu, falo da ligação que não fizera, falo dos planos que descartara quando jovem.”
Abaixei a cabeça enquanto o peso de dedos imateriais se dissipava, coloquei a garrafa intocada de lado e a tampei - "Algum arrependimento?" - me perguntei.
- "Vários, centenas!" - a voz respondeu em seguida.
Nunca pensei nos arrependimentos.

No restante daquela noite,  apenas uma garrafa cheia fizera companhia ao epitáfio, provavelmente algum funcionário do cemitério faria bom uso na manhã que surgia.

- Lágrimas de Gasolina


Imagem por Sandro Fortunato
Imagem por @Sandro Fortunato

domingo, 25 de outubro de 2015

A Criança sem Nariz

Os preguiçosos raios de sol rosa-alaranjados já tinham se despedido do céu há muito tempo. O negrume lusco-fusco de um crepúsculo mal-resolvido começava a se expandir, anunciando com trombetas infernais a vinda da noite.
"Maldito Rogério e sua infinidade de planilhas à ser contabilizadas", pensei. Nesta hora, eu provavelmente já estaria logado na Netlfix, tomando uma sopa instantânea enquanto meu maltês já alimentado me acompanhava no oitavo episódio de Narcos. Mas não, graças ao maldito Rogério, cá estou eu, indo para o ponto de ônibus duas horas mais tarde do que meu horário normal.

- Não, não, não!! - gritei. E lá se foi o último ônibus 3.85. Sangue, excremento, suor, lágrimas, detritos, dejetos decompostos. Três quilómetros percorridos a pé, pelo bairro mais sujo desta imunda cidade. Uma hora de caminha infernal, através do próprio inferno. 

Maldito Rogério. 
Maldito 3.85. 

Puxei meu iPod do bolso e desenrolei os earpods. A sujeira acumulada nas pontas dos fones só davam-me menos aflição do que os fios rachados. O cordão que uma vez já fora branco estava amarelado, desfazendo-se em meus dedos. Maldição, maldição. 

Hello darkness, my old friend 

Enquanto eu andava, olhando para o chão e chutando garrafas vazias, Simon e Garfunkel cuidava de minha depressiva trilha sonora. Se eu não poderia desfazer a visão desprazerosa ou o cheiro desgostoso daquele caminho, pelo menos poderia transportar meus ouvidos para longe dali.

I've come to talk with you again 

E, de repente, uma terrível sensação. A incomoda presença que aparenta te seguir, te vigiar. Olhei para trás, sobre o ombro direito e deparei-me com duas silhuetas que me acompanhavam.
Maldição, só faltava eu ser assaltado agora. Fui mais rápido. 
Meu coração acelerou, ouvia os passos a trás de mim tornando-se mais intensos, mais pesados. Comecei a correr. Maldição, maldição.

Because a vision softly creeping 

 Quase gritei quando um vulto cortou minha frente. Parei de súbito, pronto para vomitar minhas vísceras. Olhei para trás, mas não havia mais ninguém.
Tirei os fones dos ouvidos, mas Simon e Garfunkel continuaram cantando.

- QUEM ESTÁ AI? - gritei.

Left its seeds while I was sleeping 

- Vocês querem me roubar? Que assim seja, porra! Venham, levem toda essa merda! Atirei o iPod no chão com força, mas o aparelho não se quebrou. 

And the vision that was planted in my brain 

O silêncio predominava, e a única coisa que eu conseguia ouvir era minha respiração pesada, meu coração explodindo em meu peito e a fraca música que cantarolava no fundo.

Então, quebrando a calmaria efêmera, das sombras formadas pelas ruelas sinuosas e tortas que margeavam a rua, saiu uma estranha garotinha. As luzes amarelas dos postes velhos deixavam seu aspecto um tanto quanto sombrio, sinistro. Um vestido branco rasgado adornava seu corpo e, escondendo a face, uma máscara de cirurgião finalizava o incomum conjunto. 

Still remains 

Fiquei olhando aquela figura, atônito, com calafrios percorrendo todo o meu corpo. Por fim, murmurei:
- O que você quer?
Ela não respondeu.
- O QUE VOCÊ QUER? - gritei.
- Você me acha bonita? - ela perguntou. 
A voz era a mais pura e inocente que eu já ouvira. Adocicada e angelical. Era suave, era tênue. 
Mas eu não sabia o que responder.

- S-s-sim - menti. 

Ela então fez algo que parou o meu antes explosivo coração; removeu a máscara, revelando o buraco no meio de seu pequeno rostinho. A ferida havia removido completamente seu nariz, deixando no lugar um aglomerado de carne exposta, sangue, pus, tecido adiposo e traços do que parecia ser osso. 

Engasguei em minha própria saliva, tomado por um refluxo irracional. Virei para o lado e comecei a vomitar, enquanto e pequena garota caminhava em minha direção. 

- Você ainda me acha bonita? - ela perguntou novamente. Era a mesma voz doce de antes, era a mesma voz. Mas eu não conseguia nem olhar para seu rosto, pois sabia que seria inundado novamente pelo acesso de ânsia. 
- S-sim, sim, ainda acho.
Ela sorriu. Cruelmente, não posso dizer que era um sorriso bonito, pois a ferida chorava lágrimas de sangue sobre sua pequena boca, mas ainda assim era inocente e puro. 
E então ela começou a gargalhar, e naquele instante toda a doçura se desfez. Aquilo era a personificação do mal.
Ela era a forma mais pura de maldade que eu já presenciei.

Um negrume abriu em meu coração, e todo meu peito foi tomado por um vácuo desesperador.
Tentei correr, mas o cimento tinha cedido e incorporado meu pé em sua fundação. Meus braços tornaram-se pesados como chumbo e movimentá-los mostrou-se impossível. 
A garota aproximou-se mais, ainda gargalhando. Tirou um pequeno bisturi da faixa que prendia seu vestido e disse:

- Moço, não se preocupe, eu vou te deixar bonito também!

Within the sound of silence

- Dedos Azuis

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Dor, Sofrimento e Outras Coisas Terrorosas

Deitou-se. Tentou erroneamente dormir.
Não conseguiu se quer fechar os olhos, ficou encarando o teto angular de seu quarto, esperando uma cantiga de ninar que desconhecia a letra. Esperou por mais alguns segundos e se levantou, olhou para o primeiro andar através das grades que rodeavam o mezanino, onde jazia sua cama, analisou a noite e as horas que ainda restavam, analisou o dia que ainda viria e caiu de costas na cama, deitando-se novamente.
Uma pontada de consciência ecoava por suas paredes mentais lhe dizendo que deveria dormir, que amanha seria sexta-feira e que somente na noite do dia de amanhã poderia passá-la em claro.
Uma pequena força se rebelou dentro de si e mais uma vez soltou um grito corporal de liberdade, se livrando do adiantamento do dia de amanhã. Todas as noites quando caminhava atrasadamente até a cama, se recusava a aceitar que estava à mercê do cansaço de seus membros, se recusava a acreditar na implacabilidade do tempo e de como nenhum ser vivente poderia escapar de suas garras.
Desceu os degraus o mais rápido que pôde, queria aproveitar cada momento, produzir a cada segundo e adiar o resto dos dias de sua vida. Pensou no que deveria escrever, nos trabalhos que o deixava insone. Abriu a tela do computador, esticou os dedos e os posicionou sobre as teclas clareadas pelas luzes do monitor, iniciaria o que seria o maior de todos os textos já escritos e historias contadas se não houvesse sido interrompido. Escreveu:
"Quando dos espinhos de uma pútrida flor deslizar uma gota de orvalho e esta atingir o fértil solo de"
Parou bruscamente quando ouviu o som emitido através dos corredores de sua casa e encarou a porta fechada, à espera de alguém que pudesse entrar sem emitir um ruído se quer. Até mesmo a porta de madeira maciça não apresentava empecilho para o som que escorria pelas frestas e adentravam o quarto, atingindo-lhe os tímpanos nus e trementes. Empurrou a cadeira para trás num gesto cuidadoso, sem emitir nenhum barulho, nem mesmo as rodinhas do assento que sempre insistiam em estalar se manifestaram, parecia que todo o quarto estava focado em tornar a percepção do estranho som ainda mais nítido. Pôs-se de pé e caminhou sobre uma espécie de campo minado imaginário, onde qualquer estalido pudesse desencadear a maior de todas as explosões e dilacerar os membros daquele que as provocara.
À medida que se aproximava, o som se tornava cada vez mais orgânico, mas somente quando colocou as mãos na maçaneta pudera ouvir todos os detalhes que passaram despercebidos por seus ouvidos. Eram como a espécie de um ruído causado por uma dilaceração realizada por um animal, onde repentinamente estalares de ossos brotavam, sobrepondo sons semelhantes àqueles causados por uma massa de carne sendo devorada por algum ser desdentado, um animal que fizesse questão de remoer o alimento triturado em sua boca escancarada.
Juntou as forças e os resquícios de coragem dos quais tanto fizera menção em seus contos, e girou a maçaneta, revelando um corredor abismático e de dimensões irreconhecíveis quando admiradas através da perspectiva de um observador cego. Esticou os dedos com a mesma precisão que usava para escrever e pressionou o interruptor na parede, preparando-se para atingir um alvo invisível e desconhecido. Porém no lugar de uma criatura desdentada e de dimensões monstruosas, encontrou uma névoa malcheirosa somada à atenuação dos sons que adentravam com ainda mais força e infligiam ainda mais dor aos seus ouvidos. Forçou-se a caminhar pelo corredor, tapando as narinas e desviando das sequenciais ondas de mau cheiro nauseante, que utilizavam de seu nariz como via de transporte para passageiros só de ida para seu cérebro e dominavam suas lembranças, fazendo-o lembrar das queimadas de esterco velho, que seu falecido avô realizava nas periferias de sua fazenda.
Como grande observador que era, notou as luzes que irradiavam através das frestas de uma porta trancada no final daquele corredor mal cheiroso. Caminhou como um peregrino que rasteja contra os ventos hostis e arenosos do deserto, empurrando cada som mal cheiroso e cada nevoa auditiva, lutava contra um inimigo invisível porém presente e como o fim de toda a sua demonstração de força para telespectadores onipresentes, debruçou-se sobre a porta e deixou que as luzes que escorriam pelas frestas dominassem as solas de seus pés desnudos. Como uma torcida composta por torcedores fanáticos, sua mente gritava frases encorajadoras, embora todos os seus sentidos estivessem entorpecidos, uma fagulha mental de coragem e ímpeto o fez com que girasse a maçaneta e adentrasse o desconhecido e o inefável. Uma onda de podridão em forma gasosa destruiu todos os pelos do seu nariz enquanto debruçava-se sobre a porta e admirava a vil criatura, mais conhecida como "Vovó", sentada sobre um trono formado por porcelana e restos humanos. Sua vista se tornou turva e o chão se tornou próximo, os ruídos cessaram por uma fração de segundo e apenas uma frase ecoou por seus ouvidos:
- "Amorzinho, pega o papel higiênico pra vovó, vai querido!”

- Lágrimas de Gasolina.

terça-feira, 21 de julho de 2015

O Ônibus 3.85 #2 - Sem Futuro

Igor estava brincando no jardim quando sua mãe bateu na parede e fez sinal para que entrasse.
Correu em direção à humilde casinha da viúva, chorando, quase implorando para não ser esbofeteado.
Chorou em vão, pois quando cruzou o batente, sua mãe já estava em pé sobre o tapete da sala, trajando um vestido azul claro, um avental que escorria até os joelhos e em uma das mãos, uma longa e grossa cinta de seu falecido marido.
O garoto apanhou como um cachorro naquele dia. Igor estava no auge de seus 12 anos e já havia apanhado mais que qualquer outro garoto da rua, mas disso o pobre garoto não sabia, pois não conversava com as outras crianças, afinal, sua mãe não permitia que saísse para brincar.
Quando a mãe o soltou, correu pelo piso de madeira, com o rosto inchado de tanto gritar e chorar. Não entendeu o porquê daquelas cintadas desferidas contra seu corpo. Na verdade, Igor nunca compreendeu nenhuma das punições dadas pela mãe, ela nunca lhe disse uma simples palavra, seja de aprovação ou de censura, se a mãe permitisse que ele fosse à escola, provavelmente Igor poderia supor que o caso dela tratava-se de uma deficiência auditiva e que nunca aprendera a falar.
Enrolou a cinta e jogou sobre a velha poltrona. O garoto estava encostado no canto escuro da sala ao lado de uma peça rústica, que compunha parte da decoração da casa, seguiu sua mãe com os olhos, que caminharam em direção à mesa de jantar. O cheiro de carne moída com molho de tomate impregnava o ar e adentrava as narinas do garoto, sua barriga estava roncando.
Apanhando um pequeno sino de estanho, descansado sobre a mesa, e fazendo-o tilintar, a mulher deu sinal para que aqueles que jaziam na casa se aproximassem para o jantar.
O garoto deu alguns passos sobre o piso de madeira que seguia até a sala de jantar, caminhando, com os pés ainda sujos de terra, na direção da mesa. Puxou uma cadeira e se sentou. Sua mãe estava sentada logo à frente, com as mãos cobrindo parte do rosto e proferindo sons ininteligíveis em voz rouca e baixa. O garoto abaixou a cabeça e fez o mesmo, se pondo a orar sem saber, conversando com uma entidade da qual nunca ouvira falar e nem saber do por que de fazê-lo.
Tinha muitas perguntas não respondidas, que eram apenas saciadas pela sua vã imaginação somadas a sua visão de mundo infantil e sem embasamento familiar. Para ele, o mundo se resumia ao quintal de sua casa, sua mãe e os pássaros que voavam por cima do muro.
Estes momentos antes das refeições tinham um brilho intenso de reflexão e autoconhecimento que Igor jamais se daria liberdade de calcular, assim, os fazendo, simplesmente porque gostava da sensação e nunca se dando ao trabalho de questionar, seja a si ou a sua mãe.


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- Lágrimas de Gasolina

quarta-feira, 1 de julho de 2015

O Ônibus 3.85 #1 - Fim da Linha

Fez um daqueles barulhos de gás escapando, como se alguma coisa estivesse com defeito, e parou.
Um bêbado caminhou em direção a entrada do ônibus, apoiou-se na porta traseira e puxou o próprio corpo contra a escada.
Entrou sem pagar, como de costume. Ninguém falou nada, nem mesmo o cobrador.
Sentou-se em uma das cadeiras, olhou para o lado e viu um rosto cinza. Eram nove horas da manhã.
A face não fizera questão de se mover, seus olhos cerrados, quase mortos, somados a uma boca cinza e sem vida. Bocejou.
Assustado, levantou-se, cuidadosamente, e mudou para o assento de trás. A face não ousou observar sua movimentação, permanecendo apático, admirando a rua com seus olhos sonolentos.
Sentou-se próximo a janela e o ônibus começou a se mover. Ainda estava zonzo devido à noite de ontem, que passara no bar. Encostou a cabeça no vidro e tentou lembrar.
Chegou às dez horas da noite anterior, encontrou alguns amigos, caminhou até o bar, pediu algumas doses e acordou recostado no meio fio. Levantou-se, caminhou até o ponto.
Bateu a cabeça no vidro, o ônibus passara sobre uma lombada, voltou a si. Olhou em volta e notou que cada vez mais assentos ocupados, alguns estavam em pé, todos mantinham a mesma expressão vazia, acinzentada. Olhou para o outro lado do ônibus, viu uma garota uniformizada, estava apoiada, encarando o lado de fora, como um animal em uma jaula, que encara seus espectadores.
Decidiu mudar de lugar e se sentar ao lado da garota. Realizou a proeza entre as chacoalhadas do ônibus para que ninguém notasse a sua movimentação. Só estava preocupado em não ser notado, enquanto os outros passageiros nem faziam questão de se preocupar. Colocou o pé direito no corredor do ônibus e em seguida pulou para o assento vazio ao lado da estudante. Ninguém percebeu.
Acomodou-se na cadeira e admirou, por alguns segundos, o acolchoado traseiro do banco à sua frente. Olhou para baixo, analisou as próprias roupas, suas mãos azuis sobre o colo e suas pernas tensionadas, não se sentia mais anestesiado pelo efeito da bebida e da noite mal dormida. Virou o rosto para a direita, em direção a garota, esticou os dedos sobre o ombro da jovem e cutucou.
A garota não se moveu, nem reagiu ao impacto do dedo contra o ombro, o único movimento notável provinha de seus cabelos castanho-escuros, que se movimentavam devido à brisa que adentrava pela janela, possibilitando ver apenas parte de seu rosto adormecido e apático.
Olhos congelados. Não admiravam a paisagem, olhavam fixamente para o próprio reflexo, impressionados e arregalados, como os de quem vê um fantasma refletido no espelho.
Levantou o pescoço, se levantando e apoiando as mãos sobre a cadeira da frente, tentou notar algo de estranho naquele ônibus, algo que não tivesse notado antes, que passara em branco.
Foi quando se lembrou das feições. Todos olhavam pela janela, mas não admiravam a paisagem. O que eles observavam com tanta intensidade eram os próprios reflexos. Estavam tão extasiados pela própria aparência refletida que não conseguiam desviar o olhar.
Notou que nem todos tinham olhos impressionados, alguns estavam com os olhos entreabertos, como os olhos de alguém que assiste ao mesmo programa de televisão durante horas sem poder mudar de canal.
Estava pasmo. Estava enlouquecendo, pensou, apoiando-se e voltando a se sentar em seguida. Percebeu que os ares estavam esfriando, mesmo que pudesse sentir a brisa provinda das janelas do ônibus em movimento, sabia que a repentina queda de temperatura não se tratava de um fator ambiental, muito menos natural.
O ônibus parou, ressonando aquele som gaseificado. Trombou o peito contra a cadeira da frente, os outros passageiros dançaram um pouco, mas se recolocaram na posição anterior logo em seguida.
O bêbado começou a ficar inquieto, estava tudo muito estranho. Colocou a cabeça no corredor e pôde ver, por entre os corpos cinza, que ocupavam o ônibus, uma movimentação vinda da cabine do motorista, que se levantara e vinha caminhando, lentamente, desviando dos corpos paralisados. Parou a duas poltronas de distancia, apontou e disse:
- "Que raios você está fazendo aqui?"
O rapaz, não mais embriagado, já aflito, ficou ainda mais angustiado. Não sabia se o motorista falava do dinheiro da passagem, aquele que não fora pago, ou se referia a alguma outra coisa. Por que ele sairia de seu posto e levantaria justamente agora, 15 pontos depois de sua entrada, parando o ônibus e adiando os compromissos dos outros passageiros, apenas para lhe dar uma bronca?
- "Você pegou o ônibus errado, meu amigo. Sugiro que saia. Agora!"


Continua

- Lágrimas de Gasolina

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Steve, o filho da puta - Quadrinho


terça-feira, 12 de maio de 2015

Moscas

Largou a faca ensanguentada.
- "Olha esse apanhado de moscas que eu recolhi no jardim" - narrou para si mesmo - "estavam sobrevoando a estátua de mármore do meu pai." - Parou por um momento - "Algumas ainda estavam no corpo sem vida de minha mãe".

- "Melhor levá-las para dentro, não quero perder parte da herança que me deixaram" - pensou enquanto subia as escadas. Se trancou em seu quarto e as soltou enquanto trancava as janelas.
Por um momento, um aroma familiar se misturou com o cheiro de sangue e podridão que adentrava pelas frestas da janela.
-"É o cheiro da torta que mamãe deixou no forno" - falei para as moscas - "Está quase pronta" - completou assistindo-as dançar pelos ares.
- "Adoro o som que as moscas fazem quando estão prestes a morrer de velhice." - pensou - "Sua asas ficam pesadas e quando batem, quebram qualquer silêncio ou tentativa de paz. Poderia observá-las pelo resto da minha vida."
Uma das moscas voou em direção à porta, zumbindo pelo caminho tortuoso que fazia, atingiu uma das quatro paredes e aterrissou no chão, estava morta. Se aproximou da pequena criatura e estendeu o dedo indicador na direção daquela casca sem vida, tocou suas perninhas e as balançou um pouco, imaginou o que aconteceria se esmagasse seu cadáver, o som que faria e o sabor que teria. A pressionou com uma pequena quantidade de força e as periferias de seu dedo se preencheram com o muco amarronzado da criatura.
Observou a face manchada de seu dedo indicador e o correu até os lábios, o raspando contra seus dentes como um fazendeiro que raspa o estrume seco das botas contra uma pedra encravada no solo. No primeiro movimento da mandíbula, sentiu um pequeno estalido, no segundo, a deliciosa amargura da morte que dominava seus sentidos, e no terceiro, um terrível som ecoou pelos corredores, um ruido ensurdecido pelas paredes de madeira, semelhante à uma chaleira.
Quando destrancou a porta, as moscas voaram por cima de seus ombros, se deu conta da semelhança entre o som agudo que ouvia e o grito de alguma criança ranhosa.
- "Adoraria descer e afundar uma lâmina no peito de quem fosse que estivesse atrapalhando minha observação" - gritou para os corredores, no intuito de atingir os cômodos abaixo.
"Melhor não" - disseram as moscas.
"Isto pode ser interessante" - respondeu.
Correu pelo corredor enquanto sentia a presença do dia de verão e do sol do lado de fora, a maldita casa nunca esteve tão quente. Novamente, ecoou pelos cômodos, aquele grito infantilizado, desta vez não lhe restava dúvidas, era um pequeno resto de ser humano e estava do lado de fora, no térreo.
As moscas o seguiam como conseguiam, voando por entre seus membros apressados, focados em apanhar o objeto cortante que havia deixado do lado de fora e afundá-lo no peito daquela pobre e infeliz invasora.
"Isto é loucura, garoto!" - disse uma das moscas.
Por um instante, as moscas pousaram sobre os ombros do garoto quando este exitou para dar o próximo passo, parou e encarou a gigantesca porta que descansava imponente no fim do corredor.
Caminhou em sua direção, ignorando as nuvens embaçadas que passavam pelas frestas, o cheiro de torta estragada e a maçaneta incandescente.
Esticou os dedos, esquecendo-se completamente dos sequenciais gritos que o atraíram até ali e acariciou a maçaneta. Estava sedento para saber o que se escondia por detrás daquela tabua de madeira maciça. - "Poderia ser o próprio demonio respirando do outro lado?" - pensou, esboçando um sorriso.  A maçaneta estava fervendo, mas sua curiosidade infantil jamais seria silenciada pelos sinais de perigo que seus instintos gritavam.
- "Abra-a, afinal, você não quer ver o que há do outro lado?" -  cochichou uma das moscas.
- "É loucura, garoto! Saia daqui." - disse outra.
Girou o punho e a porta se abriu como se estivesse dominada, não pela força de seu punho, mas pela possessão de uma entidade catastrófica, uma entidade alimentada pela curiosidade.
Uma luz estrondosa adentrou suas retinas, sentiu as carícias de uma meretriz incandescente, que deslizava as mãos por seu rosto e ouviu pela ultima vez aquele grito agudo.
Sentou-se sobre uma cadeira de praia, sentiu o sol sobre seus ombros e as queimaduras subsequentes.


- Lágrimas de Gasolina

quarta-feira, 4 de março de 2015

Onze

Hoje faz onze anos.

Nesses aniversários esperamos uma lembrança, uma flor que seja.

Hoje faz onze anos
E creio que ela nem mesmo reparou em mim

O quarto é escuro, a poltrona fica no canto

Hoje faz onze anos e ela não sabe que observo-a

Ela entrou de mãos dadas com outro homem
E deitou ao seu lado na cama

Gostaria de ter um cigarro, cara

Hoje faz onze anos
É a vadia está transando com outro

Onze, que maldito número 
Tão romântico e tão pútrido
Onze anos
Onze traições
Onze mulheres
Onze assassinatos
E uma, não onze, mas apenas uma mísera fração digitada de onze
Uma amaldiçoou-me

Onze vezes puta

E estou aqui
Comemorando meu aniversário de falecimento há onze anos

Hoje faz onze anos


E o sexo durou pouco mais de onze segundos

- Dedos Azuis

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

O Dia que Contaram a História da Criança que tinha Braços de Porco


O tão esperado dia 16 de fevereiro finalmente havia chegado. Era uma segunda feira chuvosa, e não trazia sinais aparentes de mudanças climáticas.

Ao soar do primeiro sinal, às 7h30 pontualmente, todas as crianças correram agitadas para o grande ônibus estacionado do outro lado da rua. Pouco ligando para a chuva, pouco ligando para os avisos de "cuidado", a manada de pequenas criaturinhas apostavam a corrida decisiva pelo lugar ao fundo.

Após a contagem da turma, o professor deu o sinal para o motorista. Com um som intergalático a porta se fechou, e o estudo do meio iniciava-se.
O destino era Brotas, no interior de São Paulo. O percurso pode ser facilmente percorrido em 1h45, se o trajeto for feito de carro. Agora, em um ônibus lotado de crianças, em pleno feriado de carnaval, e com uma chuva que cada vez tornava-se mais aterrorizante, seis horas de viagem era um pensamento otimista.

No começo todos cantavam, e a felicidade era algo contagiante. Com o tempo alguns foram parando, ao passo que todos estavam em silêncio absoluto antes da primeira hora. O professor emendou algumas atividades, que perduravam por não mais de vinte minutos. Tentou cantar novamente, e até jogos foi uma de suas artimanhas.

Na terceira hora, muitos alunos reclamavam da demora. Alguns gritavam insultos e o ânimo do ambiente estava negativo. O professor precisava tentar novamente fazer desta viagem algo prazeroso. Então, persistindo, tentou novamente uma seleção de piadas, músicas, jogos. Tudo em vão. Mandaram-no calar a boca e, sem conseguir saber de onde veio o insulto, o professor explodiu.

Como cartada final, decidiu contar uma história de terror. Encheu os pulmões de ar e soltou um berro gigantesco, antecipando o que estava por vir. Todos pararam, mudos, imóveis, olhando atentamente para o mestre que com dificuldade tentava ficar em pé.

Quando notou ter conseguido a atenção de todos, começou a conta a história da "Criança que tinha braços de porco". Conforme contava, começou a envolver-se com a trama, e animar-se em conseguir prender a atenção de todos. Subiu em um dos bancos, e elevou sua voz em um tom.

As crianças começaram a chorar, a suplicar que parasse com a tenebrosa história. Muitos gritaram e entraram em pânico, urrando para que aquilo parasse. Mas não parou.

O professor ficou vidrado, em estado de transe hipnótico e, quando chegou ao fim, recomeçou a contar. Seguidamente, de novo e de novo, em um ciclo infinito, o professor contou e recontou a história horrível da "Criança que tinha braços de porco".

No final, quando deu por si, o ônibus estava parado no meio da pista, com vários carros cortando-o e buzinando enfaticamente. O motorista não encontrava-se em lugar algum, e as portas e janelas estavam todas lacradas. As crianças, por sua vez, estavam em convulsão coletiva com todos os pequenos corpinhos tremendo, enquanto espuma escorria de suas bocas e sangue de suas orelhas.

A policia chegou junto com o resgate. O professor estava em estado catatônico quando foi levado para a delegacia. Enforcou-se no banheiro ao lado da sala do interrogatório antes que descobrissem qual era o conteúdo da história.

Os jovens tiveram surtos de frio ao longo de alguns dias. Em uma semana todos estavam mortos.

- Dedos Azuis





quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

4:19 a.m.

Acordei com a insana gritaria.
No começo achei que era chuva, mas quando ouvi os distantes barulhos deduzi ser granizo.
Os barulhos aumentavam, abafando o som dos gritos. Eram sons inconstantes com uma frequência absurdamente alta. Os antes pequenos barulhos agora parecia séries de explosões desordenadas.
Corri pelo quarto escuro, usando ambas palmas das mãos para arremeter contra as janelas fechadas.
Na antes tranqüila cidade, agora incêndios coloridos preenchiam toda minha visão, e constantemente formavam se outros, conforme as estrelas continuavam caindo.
Não, não estou louco.
TODAS estavam caindo, derretendo do céu, vindo para a Terra com a velocidade de cometas.
Era o fim aproximando.

Acordei com o som de meu despertador, dando um grito agoniado. Estava empapado em meu próprio suor, e tremia como o celular que vibrava.
Antes que pudesse desligá-lo, ouvi uma enorme explosão do lado de fora da janela.
Corri pelo quarto escuro, usando ambas palmas das mãos para arremeter contra as janelas fechadas.
Na antes tranqüila cidade, agora incêndios coloridos preenchiam toda minha visão, e constantemente formavam se outros, conforme as estrelas continuavam caindo.
Não, não estou...

Acordei com o som de meu despertador, dando um grito agoniado. Estava empapado em meu próprio suor, e tremia como o celular que vibrava.
Antes que pudesse...

Acordei com a insana gritaria.
No começo achei que era chuva, mas quando ouvi os distantes barulhos deduzi ser granizo.
Os barulhos aumentavam, abafando o som dos gritos. Eram sons inconstantes com uma frequência absurdamente alta. Os antes pequenos barulhos agora parecia séries de explosões desordenadas.
Corri pelo quarto escuro, usando ambas palmas das mãos para arremeter contra as janelas fechadas.
Na antes tranqüila cidade, agora incêndios coloridos preenchiam toda minha visão, e constantemente formavam se outros, conforme as estrelas continuavam caindo.
Não, não estou louco.
TODAS estavam caindo, derretendo do céu, vindo para a Terra com a velocidade de cometas.
Era o fim aproximando.

Esperei pelo despertador tocar, para acordar deste maravilhoso espetáculo apocalíptico. Ao mesmo tempo que era belo, era fatal, aterrorizante.
Era questões de segundo até... Até o despertador tocar...
Em breve...
As explosões aproximavam-se, as estrelas caiam cada vez mais próximas.

Colocando a cabeça para fora, olhei para cima em direção vertical, observando o grande astro que aproximava-se.

O despertador nunca chegou a tocar.

- Dedos Azuis




quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

.9mm

 Popin Jack tragou seu narguilé, aspirando aos dezoito céus que compõe nosso universo uma fumaça tênue, com aroma de menta.
 Sentado no parapeito de um gigantesco arranha-céu, desfrutava de mais um por do sol. Mesclando-se com sua sombra, as cordas que prendiam seu pulso alongavam-se, terminando em algum infinito que  Popin nunca havia chegado.
 Hoje ele tem 35, mas descobriu que era uma marionete aos seis. Não foi difícil, na verdade. Sem pais, invisível às outras pessoas, com cordas em cada extremidade de seu corpo e, fundamentalmente, sem livre-arbítrio.
 Popin Jack não podia escolher se ia ou vinha, ou até mesmo se dormia ou acordava. Nem mesmo o trago do narguilé era sua escolha, e sim uma esticada de corda de algum Ser que estava acima.
Ele era uma marionete, pois bem, sem escolha alguma de sua vida. Apenas ia vivendo conforme lhe era designado.

 Ontem, dia 14 de Janeiro, enquanto os últimos raios de sol se despediam para deixar suas enteadas nuvens trazerem a chuva, Popin observou um acidente no centro da cidade. Dotado de onisciência e onipresença, conseguiu acompanhar todo o destrinchamento do horrível drama.

 Maria chegou em casa, encontrou seu marido Roberto traindo-a com outra, Ana, em sua própria cama.
 Maria furiosa sai de casa e vai para um boteco qualquer, afogar seu sofrimento enquanto observa o mundo por trás de um fundo de copo.
 Enquanto isso Roberto perde o controle, motivado pelo nível de estresse da situação e mata Ana com uma .9mm que guardava na gaveta da cozinha.
 Maria sai do bar dirigindo, perde o controle do carro, atropela duas garotinhas, Nicky e Lara, e destrói a loja do Arthur, revendedor de eletrodomésticos.

 Horas depois, o pai de Nicky e Lara, Matheus, entra na delegacia com uma .9mm recém adquirida e mata Maria com três tiros.
 Arthur colocou sua casa como fiadora de sua nova loja, que estava aberta a apenas uma semana, e todo o investimento feito foi fruto do montante de sua aposentadoria. Desejou ter uma arma, seria menos doloroso. Todo seu dinheiro, toda sua esperança, tudo destruído por uma garota mimada que decidiu beber apenas por fazer farra, sem motivo algum. Como não tinha uma arma, Arthur jogou-se do vigésimo segundo andar de seu prédio.
 Matheus foi preso.
 Roberto usou a última bala de sua .9mm quando viu o noticiário.
 O dinheiro que Matheus pagou por sua .9mm ilegal foi o mesmo dinheiro que Cláudio, traficante de armas, injetou em suas veias e morreu de overdose na madrugada do dia 15 de Janeiro.



Popin Jack tragou mais uma vez seu narguilé, e, não por vontade própria, pegou um pequeno caderno que jazia ao seu lado, no topo do prédio.

Os caminhos que as pessoas trilham, as decisões que tomam, é tudo um grande efeito borboleta. As vezes uma decisão sábia se mostra estúpida. As vezes o seu investimento te deixa na miséria. As vezes o seu amor parte seu coração em mais pedaços do que sua alma é capaz de juntar. As vezes, ou melhor, sempre, as escolhas erradas estarão presentes. E é nelas que encontraremos as maiores frustrações, os maiores sofrimentos e, muitas vezes, o nosso ponto final.

Com uma caneta esferográfica azul que falhava em 20% de seu uso, escreveu nas páginas amareladas:

" Será que nosso livre-arbítrio é a razão de nossos sofrimentos?"

Sem mais, tirou uma .9mm que estava atado à seu cinto e disparou contra sua têmpora, deixando as cordas frouxas caírem junto com seu corpo sobre uma cidade preta e branca.

- Dedos Azuis





terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Presença

"Engraçado..."
"O que é engraçado, filho?"
"Ah, nada. É que simplesmente esse era o lugar que ele passava a maior parte do tempo, sabe?"
"É, é verdade."
"Ele ficava aqui conversando com as flores, regando-as o dia todo. Parecia que ele gostava mais delas do que de mim. Sei lá."
"Ah, filho, isso não é verdade, seu pai te amava e ele ficaria orgulhoso do homem que você se tornou."
"Não é isso, mãe. É que tá passando tanta coisa comigo, a escola, os amigos e tem essa garota, agora."
"Ah, tem uma garota? E ela é bonita?"
"Ela é linda, engraçada, inteligente e tal, mas é que não sei."
"Você pode contar qualquer coisa para a sua mãe, querido."
"Ah..."
"Vamos, pode falar."
"É que eu não sei se ela aceitaria o nosso estilo de vida."
"Se ela gosta de você com certeza vai te aceitar do jeito que você é."
"As pessoas me olham engraçado na escola. Ontem, o nosso mascote de sala, Billy, morreu e ninguém compreendeu nada do que tinha acontecido, só eu. A professora até chamou a psicologa para conversar comigo e disse que queria conversar com meus pais."
"E você?"
"Eu disse que vocês estavam viajando."
"Fez bem, meu querido. Desculpe não ser a mãe mais presente do mundo."
"Desculpas aceitas. Acho que ouvi a campainha, mãe. Quando o papai acordar você me avisa, ok?"
"Aviso sim, meu lindo."
"Descanse um pouco. Tchau, te amo."
"Tambem te amo e Ah! Não esqueça o hamster."
"Ah, sim. Vamos, Billy."

- Lágrimas de Gasolina




quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Pré-Natal

"Agora você aparece de novo! Como vou explicar para os meus pais?"
"Idiota! Idiota!"
"Como isso foi acontecer? "
"As vezes as coisas não são como esperamos e é isso, só isso."
"Como assim? Do que você tá falando?"
"É, você sabe. De tudo isso que tá acontecendo. Seu esposo morto na banheira, sua gravidez inesperada, esse tipo de coisa."
"As coisas fugiram do controle. Agora, eu não sei o que eu faço."
"Você devia começar pelo corpo."
"Do Pedro? Não, eu não posso!"
"Não, sua boba! O outro corpo, esse dai que você carrega contigo já fazem alguns meses, afinal, não é por isso que Pedro está morto?"
"N-Não, na verdade, sim. É por isso mesmo."
"Então, muito bem, vá ao banheiro e tire isso de dentro de você. Já começaria bem."
"Eu não posso, ele é meu filho, minha criança. Eu não posso simplesmente retira-lo. Ele não é uma sujeira que esfrego dos meus pés e em alguns minutos está fora."
"Eu sei, use a arma."
"Usar a arma? Você está louca? Como eu vou abortar uma criança usando um revolver?"
"Eu não estou falando com.você, eu estou falando com a criança."

"Dois disparos. Uma cabeça suja. Um chão sujo de sangue. Passos, pequenos passos. Uma banheira. Dois cadáveres"
"Não há ninguém por aqui. Quem é essa? Parece que essa pobre infeliz atirou no esposo e depois se matou."
"Pouco provável, olhe para a pernas dela. Estão mutiladas."
"Nessa cidade, só acontecem coisas loucas, cara. Na verdade, eu já to de saco cheio disso tudo."
"Como assim?"
"Ah, você sabe, todas esses crimes sem solução aparente. Mulheres mutiladas, mortos nas banheiras. Tô cansado. Sei lá, minha vida anda uma merda também, a Mari disse que está gravida. Já fez o pré-natal e tudo, sem eu saber."
"Poxa, cara. Que bacana."
"É, é, seria bacana se eu não fosse um fodido. E pra piorar ela disse que talvez sejam gêmeos."
"Chega disso, vamos comer alguma coisa. Porra, fique feliz pela gravidez de sua mulher, é o minimo que ela espera de você."
"É, pode ser."

- Lágrimas de Gasolina

domingo, 1 de junho de 2014

Rede Social

O clique do mouse tornou-se tão repetitivo que passei a processá-lo de forma mecânica.

Enquanto as janelas iam abrindo e fechando, iluminando meu rosto, meus olhos acompanhavam cada movimento com um frenesi doentio.


- Allan, não vou te chamar de novo! Desça agora! 


Ignorei o chamado de minha mãe completamente, e continuei imerso em minha rede social. 


Meu pai então abriu a porta com uma força brutal, precipitou-se sobre meu macbook e socou seu teclado, berrando:

- Saia disso agora!

Saindo de meu quarto com a mesma velocidade que entrou, meu pai deixou-me sozinho.


Gritei ao ver a tela de meu computador oscilando de forma penosa. Cliquei diversas vezes e tentei digitar, mas nada. O note estava quebrado.


- Não, não, não...


Era inútil. Minha vida tinha acabado.


Com o coração apertado e uma náusea monstruosa, precipitei-me para descer e jantar, mas algo estranho aconteceu.


Não conseguia soltar a mão do mouse. Não, não era por vontade. A minha mão realmente não se soltava, como se uma força maior a puxasse. Como um vetor, de mesma força e intensidade porém de direção oposta, o teclado quebrado sugou minha outra mão. 


Estraçalhando todas as peças, senti a eletricidade percorrer meu punho quando toquei na placa mãe do notebook. 


O mouse rachou também, dando abertura para minha outra mão preencher seu interior.


Antes que eu pudesse gritar, a tela sugou meu rosto, e todo o meu corpo foi parar dentro do espaço virtual.


E então, finalmente senti paz. Estava ali, em baixo da foto que escolhi para minha capa, em um pequeno quadrado com a borda branca na superfície esquerda da tela, sorrindo para todos aqueles que clicassem em Allan de' Lucca. Agora eu não era só um operador, e sim meu próprio perfil.


- Dedos Azuis

domingo, 12 de janeiro de 2014

Noite de Pesadelos

O celular vibrou, e depois reproduziu um som; Um assobio familiar denunciou a música "Three Little Birds", que se estendia vagarosamente, enquanto Sandman corria para alcançar o aparelho.

- Alô? Alô?!
- Sandman...?
- Sim, sim. Quem fala?
- Amaân, meu velho. Não se lembra mais de mim?
- Amaân, quanto tempo! Desculpe a falta de atenção... Esta tudo tão corrido ultimamente...
- Podemos nos ver hoje? Quem sabe tomar uma cerveja ou apenas uma porção de batata frita.
- Claro, podemos. Vou apenas chamar um taxi.
- Estou no Fritz. Até logo.


- SANDMAN, quanto tempo! - Disse Amaân, andando até o amigo com os braços abertos.
Após um apertado comprimento, os dois trocaram olhares e sorrisos, e entre um tudo bem tudo bom confuso sentaram-se na mesa do canto.
- Amaân, Amaân... Quem diria que voltaríamos a nos ver ainda este século? Sei que durante a Idade das Trevas nos víamos todo mês, mas, ual! Quem diria...
- Ah, Sandman! Você continua todo meloso e sentimental! - Disse, dando um grosso gole em seu chopp - Mas conte-me, como vai Martha?
- Martha, aquela vadia? - Sandman soltou uma forte gargalhada - Foi embora com Roberto, meu vizinho, assim que descobriu que eu estava pegando sua prima!
Amaân se contorceu de rir, e após arfar algumas vezes, completou:
- Don Sand, você é um imprestável! Garçom, por favor, mais dois chopps!


- Hm... Amaân... você tem certeza que consegue voltar para sua casa sozinho? - Perguntou Sandman, coçando a nuca enquanto o companheiro subia de forma atrapalhada nos degraus do ônibus.
- Para de mi mi mi, Sand. São só alguns quarteirões. O trato de hoje ainda está de pé?
- Sim, claro! - Ficou feliz pelo amigo ter tocado no assunto - Por esta noite, nada de sonhos!
 - Sim, sim! Nada de sonhos bons, nada de pesadelos! Você descansa, eu descanso, a humanidade descansa.
- Eles merecem uma noite, após tanto tempo, certo? Faz mais de dois mil anos que lutamos pelo sono deles todas as noites...
- Sim... - Murmurou Amaân - Hoje eles não sentirão medo, não sentirão esperança, apenas dormirão. A gente se vê, velho amigo!
Sandman balançou a mão, enquanto o ônibus 3.85 levava seu amigo para casa.

Esticou o braço alguns metros a frente, para chamar o taxi que passava. Iria para casa, depois de dois mil anos, e poderia tomar um banho quente e assistir um pouco de futebol. Hoje não faria ninguém sonhar. Hoje a noite era dos humanos.

Mal sabia Sandman que Amaân não cumpriria sua promessa. Esta noite, a humanidade iria sangrar.

- Dedos Azuis

sábado, 23 de novembro de 2013

Voar

Aquele bando de pré adultos uniformizados
Desgraçados
Andei pelos corredores e vi todos eles amontoados.
Filhos da puta
Gostaria de criar asas metálicas, giléticas.
Passar e cortar todos aqueles pescoços.
Desgraçados, saiam  do meu caminho
Morram
Sangrem pelos corredores e deslizem em vossos sangues.
Corri
Se assustaram
Mais um louco atrasado para alguma aula
Gritei
Morram
Tais asas apareceram em minha costas
Cortei tuas têmporas e vossos braços
Corri por todo o corredor
Fiz que o sangue deles jorrassem pelas paredes
Sangrem filhos das putas
Fodam-se tuas famílias e os teus velórios
Sangro-os e não dou a minima
Filhos de papai e patrícias.
Vão tomar no cu, desgraçadas.
Agora morram
O sinal bate, o sangue escorre
Bato nas paredes, as asas somem
O sangue desaparece
A porra das asas estão dentro de mim
E eu estou dentro delas
Que sangrem como os desgraçados ingratos que são
Fodam-se vossas famílias
Estou atrasado para a porcaria da aula de Ética.

- Lágrimas de Gasolina

domingo, 20 de outubro de 2013

Amor Piscopata

Ah, o nosso amor, você me disse que estava escrito nas estrelas.

Mas e me deixar, estava escrito nas mesmas estrelas ou em outras galáxias?

Como pôde, depois de tudo?

Com essa cara rubro escarlate, simplesmente partir?

Falava que me amava, conversávamos sobre o futuro.

Mas enquanto eu estava sentado na cama, olhando você dormir, ouvia dizer coisas que nunca me disse.

Ouvia seus planos. Você planejava partir a muito tempo.

Cruel. Malévola. Vaca.

Simplesmente criou uma faca emocional, e cravou-a em meu coração, deixando-me afogar em meio ao sangue que transbordava da ferida recentemente aberta.

Vaca.

Vaca.

E agora, está mais feliz?

Independente de onde estiver, longe daqui, está simplesmente satisfeita? Era o que você esperava?

Espero que não. Espero que esteja sofrendo horrores.

Se for um décimo do que sofri, será insuportavelmente doloroso. O suficiente para fazer-me voltar a sorrir.


Eu tinha planos para você, sabia?

Sim, eu tinha.

Sempre que você passava, olhava sua nuca, sua espessura. Enquanto dormia, passava horas te observando, vacilando o olhar do travesseiro ao lado para sua boca semi aberta. Olhava para o topo da escada sempre que a via descendo.

Ó, minha querida, de tantas diferentes maneiras pensei em te matar.

Mas você, simplesmente, morre.

Óh, merda! Que vaca absurda que você foi! Maldita! Maldita! Vaca!

Como pôde, eventualmente, morrer?

Uma porra de acidente de carro, pelo amor de Deus!

À anos, culmino em meu interior o melhor jeito, o mais prazeroso de te matar, e você morre casualmente?

Óh, Deus!

Como suportar isso? Insensível você para deixar de lado todo e qualquer sentimento que jamais tive.

Você simplesmente partiu.

Partiu, deixando em meu coração uma facada emocional, que só será curada se preenchida por uma faca do mesmo tamanho, com o mesmo peso, com a mesma lâmina, só que real.

Espero te ver em breve.



Vaca.

- Dedos Azuis



segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Espelhos

Acendi um cigarro empoeirado e apoiei a cabeça no encosto do banco do carro. Com a janela aberta, soprei a fumaça para a negritude da noite. Malditos. Malditos.

Com um braço apoiado na porta, e o outro segurando o Hollywood, aguardava dentro do veículo, olhando fixamente para a janela iluminada. Malditos, puta que pariu, como estes filhos da merda eram malditos.

Há dois dias, quando abri a porta do apartamento, deparei-me com o corpo de minha mulher  estirado no chão, com o rosto inteiramente coberto em sangue, disforme. Agachei ao seu lado, segurei seu frágil corpo, e urrei em desespero. Foram infinitos momentos de sofrimento. Não conseguia dormir, apenas gritar.

Com uma gélida faca, rasguei minha mão, deixando sangue cair no carpete. Em pouco, uma criatura apareceu, e me saudou. Cumprimentei o espírito sombrio de volta, e lhe fiz minha proposta. Minha alma em troca de uma volta no tempo, para matar o assassino que fez aquilo com minha amada. O trato estava feito. E aqui estou eu.

Traguei novamente o cigarro empoeirado, quando vi as silhuetas na janela. Ela em um vai e vem inabalável, e atrás, uma outra silhueta, irreconhecível, que acompanhava seu ritmo, mexendo os braços enfaticamente. Em um ato sexual inescrupuloso, apoiados na janela, minha esposa e um outro homem continuavam imersos em seus prazeres. Até que ele olhou assutado em direção do carro. Mas que malditos!

Abri mão de minha alma, por esta filha da puta, para encontrá-la me traindo? 

Em estase, desci do carro, e corri a passos firmes até o prédio. Subi as escadas correndo, bufando. Com um violento chute, arrombei a porta do apartamento e corri para a sala. 

E lá estava ela. Sentada, no sofá, lendo um jornal, apenas de roupão, como se nada tivesse acontecido.

- Meu amor - ela sussurrou, tirando o óculos e caminhando em minha direção - já voltou?

- Sua puta! - Gritei, e joguei-me violentamente para cima dela, socando-a inúmeras vezes.

Quando o seu corpo caiu no parapeito da janela, eu não parei. Sentei apoiei-me em sua cintura e continuei socando-a, socando-a. Até seu corpo sem vida cair aos meus pés.

Olhei para fora, para a janela. 

Ali, parado no carro do outro lado da rua, estava eu mesmo, com um olhar de puro ódio nos olhos.

Olhei desesperado, para o corpo morto de minha esposa, para minha versão de mim mesmo que corria pela rua como um louco. Olhei para o lado.

E lá estava ele, o espírito sombrio, apenas rindo, com o braço em riste, a palma aberta, cobrando aquilo que eu estava lhe devendo.

- Dedos Azuis

sábado, 21 de setembro de 2013

Horror

Certa vez folhando pelos velhos livros de meu falecido pai, li em algum texto doentio sobre uma gigantesca criatura que vivia nas colinas nos arredores da cidade. Ela caminhava, ou melhor, rastejava sobre grandes tentáculos terminados em bocas. Seu cheiro era horrível, algo assim.
No inicio fui cético, tantas anotações, tantos recortes de papel. Meu pai era um velho babão que quando não estava trabalhando na biblioteca, estava trancado no quarto. Não me impressiona o quanto Kin, minha mãe, o odiava.
As montanhas das reportagens faziam contato com a parte mais periférica da minha cidade. Os recortes, sempre de jornais locais, mostravam sempre as consequências dos avistamentos, os desaparecimentos, mas nunca se quer tinham falado da forma física da suposta criatura. Adoraria saber como meu pai a havia visto e descrito suas dimensões e formas.
Certa noite, peguei no sono em meio os dizeres de meu pai.
"Vá até o topo da colina."
"Venha me encontrar."
As vozes dominavam minha mente, tão altas quanto um trovão e tão inumanas quanto possível.
Meu corpo estava leve e podia vê-lo, mas não conseguia senti-lo. Era como se eu não estivesse ali, mas estava. O chão estremeceu e dele saiu uma gigantesca nuvem prateada de inomináveis dimensões.
Um cheiro horrível e um estalar repugnante de órgãos faziam parte do coro que caracterizava os sons vindos do interior da criatura.
"Vá até o topo da montanha e lá você me encontrará. Teu pai me serviu bem, agora é você quem o deve fazer."
Me levantei e vesti meu sobretudo como se uma força maior estivesse a me controlar. O cheiro pairava no ar, forte, porem aceitável. Como se meu corpo estivesse adaptado aquilo. Uma pessoa comum com certeza teria náuseas.
Abri a portas e corri para o pé da montanha. As arvores estremeceram e um som trovoento percorreu o alto da montanha central.
Uma massa disforme se arrastava em meio a escuridão, não pude vê-la mas ela pôde a mim. Só podia ver a areia, a terra e as pedras sendo empurradas e as arvores sendo derrubadas. Ela era imensa, assustadoramente imensa. Senti uma pontada na minha insanidade e comecei a chorar. E depois rir.
Meu pai não estava louco, eu estava. Uma pedra tocou meu sapato. Pude ver a terra se mexendo, e o cheiro nauseante.
Senti uma pontada no estomago e senti meu peito dilacerar-se. Um trovão.
"Os outros o aguardam. Eles querem um pedaço de ti também"
Que outros?
"Os outros como eu. Aqueles que vivem alem do espaço, aqueles que caminham pelo tempo. Aqueles que estão aqui antes de vocês."
"Todos querem um pedaço da raça humana e você, por ora vai servir como consolo."
Fui arrastado para o nada, rodeado por nuvens metálicas e sons orgânicos, não eram vozes. Um som digestivo. E um trovão.
"Sorria, humano. Hoje você salvou a humanidade."
- Lágrimas de Gasolina