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sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Exílio

Minhas mãos tentam me livrar,
Pregos e cruzes causam tanta dor,
Em meus olhos lágrimas de sangue.
Quando estou ao alto, vejo a vergonha dos homens.
Quando estou a baixo, vejo a vergonha de Deus.
Meus pés não pisam o chão,
Minha mente alada.
Sou o que voa sem rumo, sou o que voa sem rumo.
Minhas asas incendeiam.
ícaro não foi um anjo, tampouco foi um homem.
Minha morada - o exílio.
O pecado doce mel.
Quando estou ao alto, vejo a vergonha dos homens.
Quando estou a baixo, vejo a vergonha de Deus.

- Luís Fernando Lançoni

Icaro despencando dos céus
Fallen Icarus by phamngocthang

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Código de Conduta

Correu até uma das gavetas da cômoda de madeira que descansava sutilmente no canto mais escuro do aposento. Era um móvel sagrado, trancado a duas chaves, uma escondida na gaveta logo abaixo e a outra carregada consigo ao redor do pescoço, pendendo através de um fino cordão de ouro dado por sua falecida progenitora.
Num rápido movimento de dedos o destrancou, o abriu e arrancou uma pequena caixa de madeira isolada por entre as sombras do fundo da gaveta, os estalidos produzidos pelo momento em que apanhou o objeto não foram suficientes para esconder as sirenes que emanavam das ruas ao redor da casa.
- "Quando foi que as coisas fugiram de controle?" - pensou, enquanto abria a caixa, retirando um pequeno amontoado de guardanapos negros enrolados sobre uma peça metálica - "Quando as pessoas fugiram de controle?" - completou aquele vago pensamento, olhando para aquela ferramenta.
Sabia que as armas haviam perdido o significado, por isso as pessoas encontraram outras formas de matar e controlar, formas ainda mais poderosas do que aquelas que disparavam contra um único alvo. Desenvolveram algo pior, como uma espécie de arma que transforma alvos em armas, vítimas em homicidas e carneiros em lobos.
Nem sabia por que pensara em correr até aquele objeto, uma ferramenta que escondera de todas as formas possíveis, na tentativa de evitar que fosse manipulada por algum de seus filhos ou que os colocasse em risco de alguma forma.
Esticou os guardanapos sobre a cama desarrumada, formando um quadrado negro sobre o lençol branco, colocou a peça no centro e uma pequena caixa de pequenos projéteis ao lado e os encarou por alguns segundos. Ouviu um curto e violento baque vindo da janela, acovardado pelos gritos e súplicas dos pobres infelizes que correram para as ruas quando perceberam que havia algo de errado.
- "Sentiram medo e correram para as igrejas e mesquitas da cidade" - pensou ao encarar a janela que sofria com os pequenos intervalos de batidas uniformes - "Foram para as ruas e se esqueceram do mal que vive nelas" - completou ao se dar conta de que as batidas e o pedido de socorro haviam cessado.
Delicadamente passou os dedos sobre as cabeças dos projéteis como se acariciasse o rosto de um sobrinho que não via há anos, com as pontas dos dedos apanhou cada um deles e os dispôs ordenadamente ao lado da pistola. Caminhou por vales mentais, voltando algumas décadas de sua mente e a estacionando numa época aos arredores de sua juventude, quando seu pai o ensinara a atirar. Tentou se lembrar dos movimentos que aqueles velhos dedos de atirador faziam e como suas mãos seguravam aquele objetivo que atiçava sua mente juvenil. Como um trabalhador que se levanta automaticamente e se prepara para mais um longo dia de trabalho, apanhou aquelas peças que descansavam folgadamente sobre os guardanapos negros e iniciou uma montagem semiautomática, quase inconsciente, de um quebra-cabeça assassino.
Sem nenhuma dificuldade, apenas sua mente trabalhava enquanto seus músculos se moviam, encaixando bala após bala, assim como seu falecido pai o ensinara.

- "Só use quando não houver mais o que ser dito nem feito, pois a palavra pode ser esquecida e a ação, remediada. Já um tiro, não é tão fácil assim de se esquecer, e muito menos, remediar." - as palavras de seu pai ecoavam pelas paredes de sua mente. A mãe só lhe dissera uma coisa, uma única vez:
- "Não faça nenhuma besteira!”.


Lembrava-se daquelas palavras sentado ao pé da cama, iluminado pela única lâmpada do quarto e segurando a arma com as duas mãos, realizando o movimento daqueles que estão prestes a orar, apoiando os dedos indicadores na testa e os polegares no queixo, com a cabeça abaixada e com o cano da pistola direcionado para o centro de sua testa.
- "Pai, não há nada que possa ser dito ou feito. Mãe, eu não farei nenhuma besteira" - disse em voz baixa para, deslizou a mão até a cintura e guardou a arma.
Aproximou-se da porta da frente, os gritos estavam silenciosos, ecoando com os tilintares das chaves em seu pescoço e o som de seus passos, preparou-se para abrir, agarrando a maçaneta com a força de sua expectativa e sua curiosidade latente projetada nas batidas de seu coração. Nunca soube o que esperar rastejando pelas ruas, apenas sabia o quanto os noticiários suplicavam para que as pessoas não deixassem suas casas naqueles dias.

- "Tranquem as portas, a situação está sob controle, estoquem alimentos e água, a situação está sob controle" - repetiam incessantemente, para apagar qualquer dúvida que insistia na mente das pessoas, numa tentativa de dar uma segurança que já havia sido perdida há muito tempo - "A situação está sob controle!”.

Quando ouvira nos rádios que as mesmas autoridades responsáveis por assegurar a segurança da população haviam se virado contra ela, percebeu a natureza do monstro e as consequências daquela poderosa arma transformadora, porém nunca havia enfrentado nenhum deles ou visto alguma delas em ação, tudo que lhe restara era uma especulação covarde, realizada nas noites em que se lembrava de sua esposa e filhos.


Os garotos estavam na casa dos avós e Marta estava no trabalho quando as coisas ameaçaram fugir do controle, ligou para o escritório de advocacia onde trabalhava e ordenou para que fosse para a casa de seus pais e cuidasse das crianças.
- "Mas por que, Bruno? Meu expediente acaba daqui três horas, não podemos esperar?" - lembrou-se das palavras que fugiam daquele dispositivo celular naquela noite - "Não se preocupe com as crianças, elas estão com seus pais e estão bem, acabei de falar com eles, acalme-se!" – ouviu um curto estrondo e uma pequena gritaria – “O que hou-“ - o telefone ficou mudo e a partir daquele momento, percebeu que não havia mais nada a ser dito.
- "Eu te amo" - respondeu para o som robótico e uniforme que soava em seus ouvidos, soltou o telefone e ajoelhou.

Suas mãos ainda abraçavam a maçaneta quando aquelas lembranças dominaram sua mente, foi como um lapso espasmódico causado pelo toque dado naquela peça metálica, uma descarga elétrica causada pela mais pura certeza. Podia sentir as vibrações em seu ouvido direito, causadas pela memória do ruído telefônico daquele dia, fechou os olhos, apertando com mais força a maçaneta, e ouvindo as palavras não proferidas pela esposa ao telefone, girou o punho e sentiu as vistas escurecerem.

- "Eu te amo”.
A casa parecia deformada quando se levantou e olhou à volta, fitou as cortinas cuidadosamente escolhidas por Marta, as fotos e os quadros nas paredes haviam perdido o sentido, as figuras não tinham mais rostos e as paredes estavam achatadas. Cambaleou até a cozinha e abriu a gaveta de talheres, onde um conjunto de facas gritava para ser selecionado, aquele conjunto lindo de materiais brilhantes escolhidos a dedo pelo casal seria utilizado por ele naquela tarde, como desculpa para evitar que qualquer um ficasse entre ele e seus filhos. Foi até uma pequena bancada no centro e pegou a chave do carro, o relógio na parede, desajustado para o horário de verão, marcava duas e meia.
Trancou as portas e correu até a garagem, o carro não estava lá. Esquecera que o estacionara do lado de fora quando entrou apressadamente em casa, lembrou-se de seu chefe perguntando o porquê de tanta pressa para abandonar o trabalho, mas não se lembrou de tê-lo respondido, simplesmente deu de ombros e atravessou as portas do edifício. Quando se ajoelhou perante o telefone mudo na hora passada, ainda estava com o terno utilizado naquela manhã de serviço, não se preocupou com suas roupas enquanto corria pela calçada de sua casa em direção ao carro e nem com a sua segurança quando acelerou em direção ao horizonte, a caminho da casa de seus pais.

Sua força de vontade era a única coisa capaz de concluir aquela simples ação de abrir a porta, porém sua mente, constantemente oprimida pela avalanche de lembranças, era incapaz de ignorar os lapsos de memórias convulsivas que explodiam sem aviso prévio, impossibilitando-o de focar em sua decisão. Por alguns minutos, ficou parado, esperando pela terceira torrente de imagens do passado, como um condenado que conta os segundos precedentes à sua execução, tentando inutilmente se preparar para o inevitável.

Algumas crianças imploraram para que parasse, agitaram as mãos sujas de poeira e balançaram os rostos marcados pelas lágrimas escorridas, mas não obtiveram respostas e o carro passou por entre elas. Há alguns metros, em frente a uma casa de portas escancaradas, a imagem de uma mãe enlouquecida balançando uma das mãos e segurando uma pequena criança com a outra, também passara despercebida.
A maioria das casas estava com as portas arrombadas, o desespero alheio não passou despercebido por sua mente, que se agarrara às visões assustadoras concebidas através de sombras violentas, projetadas nos cantos de dentro das casas e janelas quebradas.
O automóvel cortava as ruas habilmente, controlado por um condutor em perfeito estado de alerta, nenhuma curva, manobra ou frenagem era em vão, tudo milimetricamente calculado para que o destino fosse atingido o mais depressa possível.
Vira dois homens arrastando um sofá para a calçada e um terceiro encarando seu carro, as três figuras estavam fardadas, pequenas cruzes desenhadas sobre os distintivos em seus peitos.
Havia percorrido dezessete quilômetros quando se deu conta de que o ponteiro de combustível estava na reserva, provavelmente suficiente para atingir seu objetivo, mas insuficiente para fugir dele em seguida.
Inclinou os olhos um pouco, virando-os para o painel que revelava sombriamente as horas através de um display digital - eram quatro horas. Quando levantou os olhos, fitou uma pequena mercearia que tomava forma no horizonte de casas saqueadas, ponto de referencia para a velha casa de seus pais, virou a direita nas ruas gastas e ouviu os primeiros estalos involuntários dados por um motor sem combustível. Aquela pequena somatória de motor, lataria e rodas imploravam por alimento, assim como as crianças que deixara para trás, forçou o automóvel por mais alguns metros e girou a chave, desligando o carro e deslizando através do declive da rua até a última casa do quarteirão, seu destino.


Continua 1/ 2

- Lágrimas de Gasolina




domingo, 1 de novembro de 2015

Arrependimento

Uma das vozes veio do alto, deslizando sobre meus ouvidos e ombros como uma garoa fina.
- "Mas, por que tens esta paixão horrenda pela tristeza e pela morte?”.
Recostei-me sobre o epitáfio áspero de letras gastas e em relevo, onde apenas passagens vagas, escritas pela própria propriedade sem sentimento, repousavam. Tirei a rolha da garrafa de vinho e afastei algumas flores mortas que descansavam sobre o concreto velho, experimentando a dor de não ver nenhuma alma viva rondando por entre aqueles blocos que serviam para materializar a lembrança do que um dia fora vida.
- "É o que me resta." - respondi enquanto direcionava o bico da garrafa para meus lábios sem vida.
A voz tornou-se tempestade.
- "Você sabe que eu não estou falando de agora!" - esbravejou.
As coisas sempre foram assim, sempre pensando no fim. Uma afobação implacável para concluir as coisas. Em qualquer viagem ou plano que fazia, acabava por não concluir porcaria nenhuma, porque sempre pensava no que fazer quando atingisse o resultado, sem mesmo antes atingi-lo de fato. Morria aos poucos a cada projeto ou aspiração, não se preocupara com relacionamentos por temer pelos seus devidos fins, nunca visitara os pais por medo de qualquer dia ter de assistir suas devidas partidas, nunca disse - "Olá, como vai?" - por receio de dizer - "Adeus, se cuida".
Fez em vida o que não aprendera com a morte, sentado sobre a cova de algum estranho, presenciando o fim absoluto de qualquer coisa - a morte. Até pensara, enquanto sentava-se sobre o concreto e apoiava a garrafa de vinho lacrada sobre um dos joelhos - "Como irei voltar para casa quando ficar bêbado?" - fez todos os planos antes mesmo das consequências o afligi-lo de fato, mas não confunda com preparo a afobação pela conclusão, que descarta cada passo de uma caminhada até a padaria que for. Preparo é não sair de casa sem dinheiro, armado para não ser assaltado e de pés calçados para não serem feridos. Afobação é pensar no pão em seu estomago e se sentir saciado com isso.
- "Eu não sei do que você está falando!" - gritei para os céus neblinados pela chuva que se revelava através das luzes dos postes. - "Não sei, não sei!" - mas sabia.
A voz se tornou áspera e camuflou-se por entre meu ombro direito, materializando-se numa mão negra repousada sobre meu ombro e um cochicho no ouvido esquerdo.
- "Estou falando da viagem nunca feita por medo da chuva no ultimo dia que não aconteceu, falo da ligação que não fizera, falo dos planos que descartara quando jovem.”
Abaixei a cabeça enquanto o peso de dedos imateriais se dissipava, coloquei a garrafa intocada de lado e a tampei - "Algum arrependimento?" - me perguntei.
- "Vários, centenas!" - a voz respondeu em seguida.
Nunca pensei nos arrependimentos.

No restante daquela noite,  apenas uma garrafa cheia fizera companhia ao epitáfio, provavelmente algum funcionário do cemitério faria bom uso na manhã que surgia.

- Lágrimas de Gasolina


Imagem por Sandro Fortunato
Imagem por @Sandro Fortunato

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Fui Joio e Voltei Trigo

O que eu sentia naquele banco, nem com mil palavras eu poderia descrever, algo me apertava a alma e me dizia que levantasse. Meu coração acelerou-se como se eu estivesse à beira de um ataque, minhas pernas estavam bambas e tremiam feito duas finas varas de bambu sozinhas ao vento, minha cabeça, aérea, parecia estar no topo daquele prédio. Eu apenas implorava para que não fosse a minha hora.
Já cansado de todo meu esforço espiritual, tentando resistir à vontade de ir até lá, deixei-me às vontades das sensações que me tomavam. Minhas pernas então, contra qualquer instinto que eu já tivera, enrijeceram-se e começaram a caminhar. Era como se um fantasma me dominasse o corpo e me fizesse apenas caminhar, me sentia uma marionete à mercê dos fios que lhe guia.
Quando me deparei com a água da pia batismal, declarei que não era minha hora, rejeitei ao Senhor e Sua bênção. Pedi a Deus que esperasse o meu tempo, pedi que me poupasse da salvação, mesmo que por enquanto.
No momento em que meu corpo entrava na água gelada pelo frio de agosto, declarei a Deus que naquele momento, Ele me matava. Declarei a Deus que se me lavasse de todos os meus pecados, perderia de vez a minha alma. Disse a Ele que no instante em que eu pisasse fora da igreja, me entregaria a todos os tipos de vícios, me deleitaria nos braços de todas as mulheres e também nos braços de homens, jogaria a mim mesmo na sarjeta, declararia repúdio ao Seu nome. Blasfemaria e exaltaria Satã.
Depois que levantei das águas, nada do que prometi a Deus fazer me foi possível, no instante em que pisei no degrau da pia batismal, ouvi uma voz forte e grave:
- "Você conhece o seu tempo?"
No momento em que sai, renascido e puro, de dentro daquela pia, nada me foi possível fazer. Apenas ouvi a música que se cantava dentro daquela igreja de teto branco abobadado, durou meia hora, do meu tropeço ao encontro do chão, ainda assim não foi possível nem mesmo um pensamento que me desviasse dos propósitos do divino.
Nas águas entrei joio, delas saí trigo, limpo e maduro, então, por Deus fui colhido.

- Wendy Cho

segunda-feira, 29 de junho de 2015

A Curiosidade Matou o Gato

O que?
Então quer dizer que não posso mais pensar?
Novamente?
Vamos fazer assim: Você fica com os teus pecados e eu fico com os meus!
Você guarda os teus defeitos e eu enfrento os meus!
Que tal eu pegar meus demônios e leva-los comigo para a igreja?
Eles iriam me apedrejar em praça publica!
Chamem as mulheres do passado e diga-as para que não lutem pelo que querem.
Diga aos negros que não deveriam ter atingido o patamar de seres humanos.
Vai lá, volta! Regresse!
"Mas cara, isso esta errado, todos o dizem. Algo de errado deve haver!"
Cale a sua boca seu pedaço de rocha imutável.
Atire em todas as direções. Existem alvos que não conseguimos ver.
Eles estão disfarçados de tabus e crimes.
Traga Satan, traga os Homens-bomba, traga o Egoísmo, o Preconceito, a Autodefesa.
Eu digo para os meus filhos serem livres!
Venham comigo crianças, carreguem teus fuzis e apontem para o inalvejavel. Atirem!
Acertem alvos jamais imaginados.
Prever é o mesmo que deixar de prever.
Se prender a previsões é o pior de todos os pecados!
A curiosidade não matou o gato! A curiosidade é a verdadeira vitima e ela não foi simplesmente morta!
Ela foi espancada e estuprada, esquartejada e posta dentro de um moedor de carne.
Seu autor? A comodidade de acreditar cegamente naquilo que te contaram.
Então, você leu em um livro que o que eu ando fazendo deve ser rotulado como errado?
Bom, eu li em vários livros, inclusive no teu, vivenciei e experimentei. Minhas experiências gritam que estou certo!
O chão sob meus pés diz que não devo sossegar!
A curiosidade deve agir como uma força da natureza, indomável e destruidora. Destruidora de filosofias.
Quer saber o que eu sou para a tua filosofia?
Eu sou um maço de cigarros! Sim, isso mesmo!
Estou explicitamente gritando o quão tóxico posso ser para ela, mas no fim das contas, quando você me tragar, sentirá um êxtase e uma calma tão profunda que quando menos perceber, estará viciado!
E no final, assassinarei tua vã filosofia!

-Lágrimas de Gasolina

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Como o Vento

Existe um espirito?
Se existe ei de escrever sobre!
Por que escrever a respeito de algo que não posso tocar?
Se posso senti-lo, posso traduzi-lo em letras? Ou quem sabe... Pelo menos tentar.
Hoje foi uma das vezes em que senti a chamada paz de espirito.
Uma arvore retorcida logo ali.
Um caminho que acabasse em um sinal fechado.
A falta de pressa, ou melhor, vontade de andar. Caminhar, apenas.
Ir logo ali e voltar.
Ficar em silencio.
Ficar quieto. Não me expressar.
Dizer o que sinto, mas não como.
Dizer o que fiz, mas não o porque.
Não dever satisfações, apenas estar satisfeito.
Os problemas vieram, ah, e como vieram. Vieram como a brisa, pois eu reagi como a brisa.
Não esbravejei e nem bati de frente. Não peguei um resfriado ou nada do tipo.
Simplesmente, dancei conforme a musica.
Duas massas de ar, vulneráveis, se tocando e girando, valseando pelo espaço da existencia.
Pregando por aquilo que faz mais sentido, pelo menos para a mim, para minha vida.
Fazendo a diferença sem impor nada. Sem dizer uma simples palavra.
Eles vieram, foram vistos, sem analise, e resolvidos. Os chamados problemas, os chamados impasses.
Passaram.
Esperei o sinal abrir. Não superei expectativas, pois não as criei. Fui contemplado por uma satisfação absoluta.
Como satisfazer aquilo que se não buscou sanar?
Isso é o espirito e é para isso que vivemos.
Eu não posso dizer qual é o sentido da vida, mas posso dizer qual é o meu sentido de existir.
Fazer a diferença pelo simples fato de existir.
Satisfazer o que não se busca sanar.
Não criar pretensões ou dilemas.
O vento contorna os muros, mas para que precisamos de muros, afinal?

- Lágrimas de Gasolina

sexta-feira, 13 de junho de 2014

O Príncipe do Nada

Apoiei a sola de meus pés descalço no parapeito do edifício. 

Se era o mais alto da cidade, eu não sei. O que sei é que precisava remar para longe.

Mas qualquer passo, qualquer direção, eu cairia.  

Garota, você não sabe o quão o céu é pesado, quando você está aqui

Aqui, tão perto, tão próximo. Tão azul e tão pesado. 

Senti a pressão no peito. Tristeza, desapontamento, fracasso. 

Toda a emoção de uma vida medíocre, preta e branca, branca e preta.

Algo quente na mão, uma gota de sangue. Tampo o nariz, culpado branco. 

Sinto o pensamento longe, a dor de cabeça crônica. Meus olhos pesados estão nublados. 

Meu braço dói. Outra gota de sangue, mas não escorreu do nariz. 

Um vergão roxo, picadas de agulha, picadas de mosquito.

Olho para os seus. Onde está você, onde estão vocês? 

Cada dia, cada mês. Em todos estes anos. Tantas ligações, tantas mortes. 

Tantos amigos. Atropelamentos, assaltos, câncer, infarto. Suicídio. 

Uma vez fui príncipe. Hoje meu reino é pó e ácaro. 

Olho para baixo, para os carros, para a rua. Tristeza, desapontamento, fracasso. 

E então o céu tornou-se mais leve e as nuvens abriram-se

E Deus desceu. 

Desceu e disse

Nada. 

E o parapeito tornou-se canja

E o Nada tornou-se meu reino.

- Dedos Azuis 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

04 (Quatro)

Escamas cresceram sobre minha pele, que escorreu como piche pelos meus músculos.
Cuspi a brasa que ocupava meus pulmões.

Minhas escapulas saltaram das minhas costelas verdadeiras. Minhas clavículas contorceram-se.
Urrei. Não gritei, gritar é para os fracos.
Gritar a para aqueles que não cospem fogo como eu.

Coloquei as mãos no solo. As unhas saltaram de meus dedos e garras rasgaram meus nervos.
Urrei e os gritos vieram junto ao eco.
Eram os fracos, aqueles que não cuspiam o fogo, aqueles que não tinham seus membros eviscerados.

Contorci-me junto a poderosa dor. Dolorosamente poderoso.
Olhei para o solo e escarrei um pedaço do tártaro, a voz de cima veio grave montada sobre o Coliseu Romano.

Explodiu o planeta em caos e redenção. Sua voz ecoou pelos continentes e pelos mares, passou pelos campos e cidades e todos que a ouviram foram destroçados, lançados para o alto.

Eu direcionei meus olhos para uma de suas frontes, mas não pude aguentar mais do que segundos. O Dragão Romano esticou teus dez chifres para os céus, uma viscosidade luminosa desceu para o solo terreno.

Ao lado das luzes que caiam, levantaram-se outras criaturas. O Leviathan que adentrou os mares do Oeste. A segunda criatura dividiu-se e aterrissou no solo terreno como duas criaturas. Uma correu para o Sul e a outra se escondeu no Leste.

Me contorci. A luz cessou. O Dragão Romano voou para o Norte.
E o mundo adentrou em Discórdia, Corrupção, Caos e Escuridão.

- Lágrimas de Gasolina



segunda-feira, 10 de junho de 2013

Prós e Contras

Tocou sua testa.
A luz piscou, os anjos cantaram no céu. Seu corpo flutuou.

Seus pés desenraizados do solo terreno. Sua alma estava em paz.

Um pequeno anjo o puxou pelas mãos, levando-o ao longínquo por do sol que derretia no horizonte.

O anjo olhou em seus olhos e deu-lhe um beijo amargo.
O pequeno ser alado tomou distancia, fez um gesto de repugnância e cuspiu a brasa que queimava dentro de seu pequeno corpo.

Sua face, antes angelical, apodrecia diante tantos males. Males enformados pela face humana em sua fronte.
O pequeno ser alado soltou suas mãos.

Ele caiu, oh pobre humano. Atravessou o céu e atravessou o solo, atravessou os mares e atravessou o tártaro.

Em pouco tempo alcançou a escuridão, e a paz que antes dominava a sua alma, transformou-se no vazio e na tristeza já conhecida pelos homens.

E toda a sua ciência, toda a sua consagrada bondade, toda sua vida escrita em solo terreno. Todos os males, todos os prós e todos os contras foram abraçados pelo verdadeiro anjo merecedor de tal iguaria.

Lúcifer esticou os braços e o pobre humano caiu sobre eles.

Lúcifer sorriu, o homem estremeceu.
Samael sorriu em concordância.

O homem deixou de existir.

- Lágrimas de Gasolina



quinta-feira, 23 de maio de 2013

Fim


Eu sempre pensei como seria o final.
Quem estaria comigo, como eu encararia este momento fatídico.  E aqui estou como achei que estaria, sozinho e aterrorizado.
Não pense que eu me assusto com a dor. Não me importo com nada disso.  O que me aterroriza agora é a mesma pergunta que me perseguiu a minha vida inteira, que tirava o meu sono.
Pra onde eu vou?
Aqui nesse minuto final da minha vida eu me pego pensando se ela valeu a pena. Vou para o céu? Inferno? Quem me dera acreditar, nem que fosse em inferno. Meu destino é pior. Meu destino é morrer, sem ser nada ou ter feito nada importante.  É ter desperdiçado uma vida única, que jamais vai voltar.
Ninguém nunca vai entender o quão desesperador é nascer já consciente que seu destino é um só: morrer.
Mas por um lado eu tenho sorte, pois não me apeguei a nada, à ninguém. Pior ainda seria ter amado a vida toda, ter tido uma vida perfeita, e ser arrancado dela à força. Ter ouvido uma frase feita como “todo mundo morre um dia” sair da boca de quem você ama, e se pegar pensando o quanto isso é cruel, não poder ser feliz pra sempre.
Ninguém nunca vai entender.
De todos os medos do mundo, todas as assombrações, assassinos sádicos, estupradores, esse é o maior de todos.
Porque não importa o quanto você se esforce
O quanto você corra.
A morte é a única certeza da sua vida.
- Amandarke

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Samael


Apontaram para mim e desabaram em risadas.

Lá estava meu corpo, esticado e destruído. Minha boca tinha o gosto ferroso do sangue e meu rosto a dolorosa dor da humilhação.

“Morte, Morte, Morte…” As vozes ecoavam, furiosas. Tão furiosas quanto as figuras que as proferiam.

O fogo atingiu meus pés. Sim, Ele sabia tão bem quanto eu, fui derrotado.

As criaturas que formavam a grande roda estabilizaram-se, mudas.

A grande forma pálida aproximou-se e com suas mãos magras retirou o capuz que envolvia seu crânio. Proferiu algumas palavras inaudíveis e disse:
“Dessa vez, sua hora chegou, Sr. Robins. Ninguém pode viver por tanto tempo.”

Meus joelhos queimaram e caí.

Gritei pela Morte, mas ela se recusou à descer.

Gritei por Deus, mas Ele me ignorou.

Gritei pelo Diabo, o Pastor Negro, que me acolheu de braços abertos.

- Lágrimas de Gasolina

terça-feira, 14 de maio de 2013

Abismo


Uma das três crianças segurou a minha mão e apontou para frente.

Olhei para sua face e em seguida, para frente.

Contemplei a visão que a criança me 
direcionava.

Vi crianças brincando, sorrindo e gritando. 
Pássaros voando, cantando e fazendo piruetas no ar. Vi a grama e as flores. Vi a vida em seu estado mais puro e inocente.

A visão desapareceu.

A criança soltou a minha mão, fez um gesto de repugnância e saiu de perto.

A segunda criança se aproximou e segurou a minha mão, porem desta vez ela não fez gesto algum, não tive visão alguma. As coisas continuaram da maneira como estavam. Uma sensação de comodidade me dominou.

Senti um leve arrepio e a sensação desapareceu.

Uma lágrima escorreu do rosto do garoto e fazendo um gesto para a terceira criança, pediu que ela se aproximasse.

Ela se aproximou e as outras duas crianças se foram, desapareceram.

O garoto sorriu, olhou para meu rosto. Ele segurou a minha mão e apontou.

Senti uma leve dor, como se parte de mim estivesse me abandonando, um vazio se aproximava.

Uma visão veio logo em seguida.

Não havia pássaros, nem flores. Apenas a escuridão e o abismo que se aproximava.

- Lágrimas de Gasolina

Influência

Ele sentou sobre meu ombro esquerdo.

Palavras opositoras eram sussurradas em meu ouvido.

Estalei o pescoço. Eu sabia o que devia ser feito.

Segurei a garota pelo pescoço e apertei com força.

As palavras de incentivo ecoavam dentro do meu ouvido esquerdo.

Foi quando a garota soltou um leve grito de dor, que a pequena criatura apareceu. 
Pousando sobre meu ombro direito e dizendo palavras repressoras.

Soltei a garota que caiu ofegante sobre o solo.

A criatura avermelhada batia os pés com força, pulava e esperneava, mostrando ser uma criatura mimada. Meu ombro esquerdo doía. 

O avermelhado cerrou seus atos e levantou, assumindo uma postura ameaçadora e ao mesmo tempo, decidida. Esboçou um sorriso maléfico e cochichou.

Não pude pensar duas vezes. Coloquei a mão sobre o ombro direito e apanhei a criatura esbranquiçada que ali se alojava.

Abri a palma e a pequena criatura me encarou, duvidosa. Segurei seus pés e com a outra mão, seu pescoço.

A garota estava agachada, tremendo.

O vermelhinho sussurrou novamente no meu ouvido.

Soltei pequena criatura branca de pescoço quebrado, que em poucos segundos atingiu o solo.

A garota me olhou com medo e ela estava certa em temer.

Eu era o mal, apenas.

- Lágrimas de Gasolina