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terça-feira, 20 de outubro de 2015

Mergulho em Águas Rasas #3 - Eu Sei Me Cuidar!

Senti-me absurdamente zonzo quando sacudi a cabeça e coloquei uma das mãos sobre a beirada da escada. É um tanto quanto impressionante essa resistência que eu sempre tive, sabe? É até engraçado eu sentir somente tontura e nem estar vomitando sangue como qualquer outra pessoa. Cômico mesmo é ter percebido essa resistência extraordinária só agora, afinal já aconteceram tantas coisas que teoricamente deveriam ter me matado, às vezes penso que a morte já está prescrita e que aqueles não eram os momentos dela vir, sei lá.
Subi as escadas e andei, medindo cada passo dado em direção à cerca para apanhar a toalha da minha prima, ela não se importaria que eu me enxugasse ou limpasse o sangue que escorria da minha cabeça, sou o primo mais velho e ela me adora. Além de que a toalha era rosa e não mancharia de nenhuma cor que não pudesse facilmente passar despercebida – foda-se. O importante mesmo era que ninguém percebesse que eu tinha acabado de fazer besteira, pois isso daria munição para as pessoas falarem qualquer merda e todo mundo sabe como as pessoas adoram falar, dar munição para elas me fuzilarem com suas palavras seria o inferno para mim.
Sentei sobre um degrau de concreto nos arredores de uma churrasqueira escondida da chácara e ali fiquei, tentando estancar o sangue e impelindo o pensamento de que qualquer desgraçado poderia me ver e rir. O ferimento minava sangue como um daqueles frascos de ketchup sem vergonha que quando a gente aperta, sai bem mais do que a gente espera. A toalha estava ficando num tom escroto de vermelho rosado, dando a impressão que o sangue que a preenchia era proveniente de alguma boca manchada de batom.
Não demorou muito para o primeiro arrombado ver e alertar todas as pessoas possíveis da festa, a maldita da minha prima havia gritado para meu tio, que desceu correndo com um saco de gelo na mão. Ele ficou lá por alguns minutos me olhando, achando que eu ia deslizar a qualquer momento e começar a estrebuchar no concreto. Eu até poderia passar mal, sentir minhas pernas formigarem e vomitar, mas não diria nada á ninguém, não queria que a atenção fosse desviada para os meus erros. Afinal as pessoas não estavam lá pelos meus pais? Por que elas não ficaram lá sentadas e assistiram à droga da cerimônia? Eu não chamei ninguém e nem pedi ajuda. – Eu sei me cuidar!
Algumas pessoas são tão obcecadas por desgraças alheias, que muitas vezes preferem desviar do seu destino e assistir mais alguns segundos de algum paramédico praticando algum procedimento em algum corpo frio, do que simplesmente dirigir para a porcaria do trabalho. Para mim, isso só pode ser algum tipo de doença, já me disseram todo tipo de coisa para tentar ofuscar essa natureza delas, mas nada pode justificar esse sadismo. A pior parte é que quando essas mesmas pessoas chegam a suas casas, elas abraçam suas esposas e maridos, beijam seus filhos e filhas, vão para o Facebook e escrevem alguma frase de impacto a respeito da vida e do real valor dela.
Isso é demais para mim, cara! A pessoa gasta a porcaria do tempo de vida dela se masturbando mentalmente para um cadáver no caminho para o trabalho e quando chega em casa, quer dar lição de moral.
Eu nunca fiz algo desse tipo. Tá, tá certo, estou mentindo, aconteceu uma vez, sim. Mas foi só dessa vez e a situação era completamente outra, eu não estava lá para ficar apenas observando e lamentando pela vida do pobre infeliz. E a gente acabou se envolvendo sem perceber e foi tudo tão de repente que parecia que alguma atitude imediata devia ser tomada. Bom, numa manhã de algum dia das férias escolares, dois dos meus primos decidiram que deviam vir passar algum tempo na minha casa, comer minha comida e usar as minhas coisas.

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- Lágrimas de Gasolina

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Mergulho em Águas Rasas #2 - O Boneco de Pano

Acho engraçado como são as coisas, me lembro que certa vez, eu e um grupo de amigos tivemos a brilhante e trágica ideia de adentrar as dependências de um retiro de aidéticos localizado à algumas centenas de metros de minha vizinhança. Reunimos somente as mais conhecidas e renomadas figuras do bairro para executar uma missão formada pelo mais alto grau de ingenuidade, imprudência e imbecilidade, é claro que eu fui escalado como líder do bando, eles não me elegeram, mas era explicito em seus rostos o quanto minha presença seria importante. A nossa meta era invadir o retiro através das matas compostas por arvores, córregos e bambus apodrecidos que cercavam toda a propriedade. A entrada da trilha de acesso à mata se desbocava em um descampado maldito de fácil acesso, que ao passar por ela e caminhar alguns metros por folhas podres e animais peçonhentos, podia-se ver, ouvir e sentir um sutil amontoado de águas escuras formado pelo mais puro odor de bosta, sobre o córrego havia uma das vigas da extinta cerca de arame descansando de atravessado, essa ponte era por onde - é claro - passávamos como formiguinhas.
O plano era simples, nos reuniríamos na entrada da trilha, caminharíamos até o córrego, cruzaríamos a ponte, nos esconderíamos em meio às arvores e correríamos como soldados em meio a guerra pela grama a céu aberto até a grade que contornava toda a piscina.
Sim, exatamente isso que você está pensando, toda a droga do plano era para simplesmente darmos algumas poucas braçadas em uma porcaria de piscina, correndo o risco de sermos pegos por invasão e receber uma senhora surra quando chegássemos a nossas casas, mesmo assim não tire a razão da gente, embora fosse um ato de extrema ousadia diluída numa dose gigantesca de burrice, estávamos em janeiro e estava calor pra caralho.
Corremos um de cada vez pela grama durante impressionantes cinco segundos - fiz em quatro -, tendo os corpos freados pela grade quando atingíamos individualmente o objetivo. Um dos meninos preparou e abriu a mochila, retirou um pequeno alicate e abriu a cerca depois de alguns cortes, não fomos vistos nem ouvidos.
Quando nos aproximamos da piscina, notamos que as águas se assemelhavam àquelas vistas correndo pelo córrego há alguns minutos atrás, a partir desse momento eu tinha percebido que adentrar a agua fétida da mata seria muito mais saudável e teria poupado muito mais esforço do que mergulhar na lama esverdeada daquela piscina. No fim das contas, éramos crianças e para a maioria de nós o destino não vale de nada, sendo o caminho ou a viagem o aspecto mais importante, por isso chegar até ali, cortar a grade, simplesmente parar e encarar a piscina com aquele ar de sucesso já seria o suficiente. Porém, em todos os grupos de crianças, sempre existe um elemento que é um pouco mais retardado que os demais.
Então, como uma espécie de iluminação divina ou como se um pequeno diabrete houvesse se apossado do corpo daquele garoto magro e de dentição torta, ouvimos uma risada seguida por grito, vimos um vulto rosa-amarronzado voando num mortal sobre a piscina, girando como um boneco de pano jogado ao ar. Lembro-me de seus membros balançando, digo no sentido literal e integral da coisa, pois o rapaz estava nu, e caindo na piscina. Em seguida, todos nós estávamos lá dentro, não dávamos à mínima para o que aconteceria se alguém chegasse ou se houvesse alguma espécie de contaminação naquela água, éramos crianças e ter preocupações é coisa de adulto.
De vez em quando, me pego pensando em coisas que não fazem o menor sentido e quando me lembro daquela molecada, vejo como cada um era e tinha uma personalidade totalmente única e sabe, pensando nisso, acho que em algum lugar exista uma divisão de entidades responsáveis por organizar os círculos sociais das pessoas. É, algo assim - deve ser. - Não sei se me expressei bem, mas você já percebeu que em todo grupo de amigos, nenhum deles são parecidos e quando são, é porque são irmãos? Por isso eu penso que exista esse tal de recursos humanos celestial, justamente para aquele seu amigo gordinho não ficar sozinho. Sei lá, as coisas são engraçadas e é isso, a gente às vezes se pega pensando em como as coisas aconteceram e no dia seguinte acordamos jurando que não repetiremos os mesmos erros, mas às vezes nossa cabeça é meio atemporal, sabe? A gente esquece com muita facilidade das coisas e o aprendizado vai para o vinagre também.
Foi até engraçado eu lembrar esse tipo de coisa no instante seguinte em que bati a cabeça, porque foi depois daquele momento em que saí da piscina que as coisas ficaram estranhas, afinal eu estava com a cabeça toda inchada e sangrando, minha prima gritava - não ria - como uma hiena e meus pais comemoravam os vinte e cinco anos de casados deles na cobertura de fundo com mais outros cem convidados e parentes.

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- Lágrimas de Gasolina

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Mergulho em Águas Rasas #1 - O Sapo-Deus Monge de Pernas Grossas

Porra, cara! Você não sabe o que me aconteceu nessa ultima semana, para você ter noção, tinha uma caralhada de gente dizendo o quanto eu tinha sorte e como eu deveria ser grato a alguma entidade que não permitiu que nada de pior acontecesse.
Como sempre fui o melhor de todos em tudo que já fiz, pensei que seria uma grande ideia demonstrar o quanto meu salto ornamental seguido pelo meu mergulho Ponta de Girafa - batizado assim por mim mesmo - era imensamente superior a tudo já visto pelos olhos da minha prima de dez anos de idade. Preparei-me como um campeão e saltitei elegantemente até a borda da piscina, parecia um magnata, o Magnata da Piscina, sem dúvida alguma, esse seria o titulo ideal.
Apontei para aquela cara ranhosa de criança e disse em voz alta como deveria ser um verdadeiro mergulho, ela me olhava com aquele olhar de admiração que somente as crianças são capazes e começou a gritar de euforia, parecia uma gargalhada deformada, mas não era, disseram que era, mas é tudo mentira, ela jamais riria do primo mais velho. Isso me irrita muito, todo esse bafafá que as pessoas fazem, estão sempre falando o que dá na cabeça e nunca pesam o quanto isso pode ferir os outros, são um bando de hipócritas essa é a verdade, sempre pregando o quanto você deve ser humilde e o quanto você deve praticar o bem, mas no fim das contas, estão sempre compartilhando imagens de suas conquistas ou alguma porcaria envolvendo estupro, mutilação ou qualquer outra besteira nojenta nas redes sociais. Desgraçados hipócritas!
Arregacei a bermuda para favorecer o ângulo do meu salto, dobrei os joelhos artisticamente enquanto pressionava as palmas uma contra a outra, numa espécie de posição de sapo monge ou um louva-deus de pernas grossas, depende do ponto de vista, acho que estava mais para o louva-deus do que para sapo - sei lá. - Acho um pouco complicado essa comparação entre sapo e louva-deus, embora o sapo seja um animal viscoso e nojento, ele ainda é bem superior ao louva-deus pelo fato de estar acima na cadeia alimentar, eu até diria que sou um sapo-deus monge de pernas grossas. É, esse seria o nome ideal para a posição pré-salto.
Então, na posição sapo-deus monge de pernas grossas, disse mais algumas palavras, apenas para deixar bem claro o quanto aquele salto mudaria toda a percepção de realidade daquela criança e o quanto ela deveria correr na direção dos pais e dizer o quanto o primo dela era embaçado, o rei - o rei, não - o magnata da piscina.
O engraçado é que tudo o que eu disse para minha prima até aquele momento antes do salto, aconteceu de verdade nos minutos que se seguiram, pois realmente abalou toda a minha percepção de realidade e a garota correu - como o vento - para chamar os meus pais. Às vezes eu me surpreendo com o meu poder de adivinhação, alguns diriam ser sorte ou coincidência, mas eu acho que não, deve ser algo maior, alguma espécie de habilidade não compreendida.
Pois é, eu pulei, mas não foi por falta de habilidade que atingi o meu crânio no fundo daquela piscina, na verdade, foi um instante absurdo de azar. Foi até interessante perceber o quanto - até mesmo os mais habilidosos - estão à mercê dos múltiplos fatores do ambiente, como o vento, as ondas sonoras dos pássaros e outras micro-variações incompreensíveis. Acontece que não foi minha culpa, alguma coisa fez com que a minhas pernas deslocassem trinta centímetros para frente e fizessem com que eu ficasse com o corpo perfeitamente reto, realizando um mergulho que só seria considerado seguro se fosse feito numa piscina de três metros de profundidade, que não foi o caso.
Minha cabeça projetava um curta-metragem de uma balada dentro de um trem desgovernado que colidia com uma tela de pintura vazia - não peguei ninguém - quando voltei ao mundo real, percebi que havia se passado pouco menos de dois segundos e eu ainda estava flutuando por entre as águas avermelhadas da piscina, me ergui com minhas próprias pernas e sai da água, suspirando como um guerreiro aquático ferido.
A menina apontava para a minha testa e gritava eufórica - não eram risos, eram gritos -, dizendo que eu estava sangrando e por isso já havia me tornado uma mocinha, eu não entendi muito bem a colocação dela, mas provavelmente era alguma gíria usada na escolinha.

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- Lágrimas de Gasolina