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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Rotina

Sabe, eu nunca andei de ônibus.
Nunca vi tantas pessoas andando pela rua.
Vejo um mendigo jogado no frio. Vejo uma briga no meio dos carros.
Uma matilha de cães de rua tomam conta do asfalto, ouço uma batida oca sob meus pés.
Olho para trás e vejo um dos cães deitados no chão.
Talvez alguém devesse falar algumas coisa, é talvez alguém devesse.

Por que ninguém diz nada? Parecem tão apáticos perante o caos que chega aos meus olhos pela janela.

Sera que apenas eu assisto de verdade o que acontece lá fora? Será que eles não vêem? Sera que eles não sofrem?
Será que um dia me tornarei um ser humano tão cansado da vida que vou simplesmente ignorar os problemas alheios e apenas remoer os meus?
Será que me tornarei um escravo apático do sistema, que vai olhar para um mendigo de rua e cuspir na tua palma carente?

O ônibus para. Segunda-feira.
Eu tenho a semana toda para descobrir.

"Ou o resto da vida."
Uma voz rouca. Ouço um tiro.

Este é o terceiro suicídio este mês.
- Lágrimas de Gasolina no ônibus 3.85

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Post Mortem

Sento em minha cama. Uma tragada após a outra.
Sinto tua falta.
Me levanto, visto uma calça e apago as luzes.
Posso ver apenas a cor dos teus olhos e a chama que incendeia o cigarro em meus dedos.

Ouço o bater das cortinas contra o vidro da janela.
Teus olhos estão mais perto, sinto tua respiração.
Um pedido de socorro, não teu, mas meu.
Tão perto em meus sonhos, mas tão longe no mundo real.
Sinto teu toque em meu braço. Teus dedos gelados.
Como doi, não consigo diferenciar a dor. Se ela provem de teus dedos mortos ou da sua ausência.

Teu corpo se materializa a minha frente. Sinto tua respiração.
Um beijo seco, quase morto. Uma palavra de adeus, não proferida pelos teus lábios sombrios, mas pela vida.
A vida nos separou, meu anjo.
Não posso sentir meu braço, muito menos o sangue que escorre de meus pulsos.

Sinto teu corpo sobre o meu, trocando caricias vindas do alem tumulo.
Um toque sobre o peito e um beliscão.

Fecho os olhos, as luzes se acendem.
O cigarro se apaga.

Te abraço com força. Enfim juntos.
Enfim juntos, meu amor.

- Lágrimas de Gasolina

terça-feira, 30 de julho de 2013

Aborto

Estava sentada. Havia uma garota de uns 16 anos de idade na minha frente.
A fila de espera era extensa.

"264"

O meu numero era o 267. Apenas mais três números e logo chegaria a minha vez.
Algumas das outras garotas, estavam de cabeças baixas, outras choravam. Um homem saiu correndo pelas portas, usava uma camisa suja de sangue velho.

Como eu podia estar naquele lugar, mas que merda. Na hora tudo foi tão bom. Onde eu estaria neste momento se eu tivesse sido um pouco mais cautelosa? Em casa, talvez. Jantando com meus pais.

"265"

Uma maca com alguns restos de carne decolou pelas portas de correr.
A segunda menina se levantou, dolorida.
Mancava em direção a porta.
Eu não era diferente daquelas garotas e mulheres. Algumas eram jovens demais, outras eram velhas demais.
Suas idades pareciam inversamente proporcionais ao grau de seus respectivos arrependimentos. As mais jovens choravam e tremiam. As mais velhas aparentavam uma estranha tranquilidade.

"266"

Eu sou um monstro, como posso pensar em fazer uma coisa dessas com alguém que faz parte de mim? E se eu não fizer, o que vou fazer?

A garota de numero 266 saiu correndo, indo embora. O homem correu a porta enferrujada, olhou para a porta de saída, a mascara cobria parte de seu rosto, suspirou.

"267"

Me levantei, cautelosa. Adentrei a sala de cirurgia.
"Tire a roupa e deite-se."
Tirei toda a roupa, fazia frio. Deitei sobre a maca avermelhada e ele introduziu uma gigantesca agulha na minha vagina. Naquele momento senti o arrependimento.
Ele perfurou meu ventre e o sangue escorreu pelas minhas pernas. Pequenos volumes de carne deslizavam pelas minhas nádegas e caiam. "PLOFT"

Foi quando o instrumento cirúrgico do homem emperrou, dentro da minha vagina.
"Mas que porra é essa?"
Um filamento escamoso saia de dentro de mim e tomava conta da mão do medico, que agonizava de olhos arregalados, suplicando para que aquilo largasse seu braço e o deixasse livre para correr.

"Está quebrando! Está quebrando, porra!"

Pude ouvir um estalo e seu ossos saindo da sua pele. Um grito de dor.
O suposto medico caiu contra o solo, sem consciência.
O tentáculo o fitou por alguns instantes. Eu quis me mexer, mas não pude.
Ele se virou, sem pressa alguma. Dessa vez ele me fitava e eu a ele.
Em sua haste carregava o que restava do braço e da mão do cirurgião, que ainda segurava a agulha.
Soltou o membro, que caiu contra o solo.
E apanhou o objeto para dar continuidade a cirurgia.

- Lágrimas de Gasolina

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Estupro Espiritual

Fuja Ana.
Corra para bem longe, leve seu corpo daqui.

Não deixe que os monstros te alcancem e caso alcancem, leve sua mente daqui.
Leve-a para bem longe, para o lugar mais feliz que encontrar em suas memorias.

Não deixe que os monstros adentrem tua mente, nem em teu local sagrado e caso adentrem, liquide teu espirito e deixe-o escorrer pelo ralo.

Deixe-o correr pelos encanamentos do mundo, para o mais profundo dos esgotos.
E quando alcança-lo assegure-se de clareá-los, pois as profundezas dos esgotos são repletos de escuridão. Clareia-os, Ana.

Para que teu espirito não seja corrompido pela escuridão, assim como aconteceu com estes monstros que agora correm atrás de teu corpo nu.

Não, Ana.
Você não correu o suficiente.

Não, Ana.
Você não encontrou teu lugar feliz, nem mesmo em tua própria mente.

Agora só lhe resta deixar teu espirito escorrer. Escorrer para o mais profundo dos esgotos e reze para que os monstros não saibam nadar.

Pois caso os monstros sejam exímios nadadores espirituais. Não existirá onde mais se esconder.

E tua alma será corrompida e você fará parte da corrupção.
Uma corrupção que irá destroça-la pelo o resto de tua vida. 

- Lágrimas de Gasolina




segunda-feira, 15 de julho de 2013

Alef

"Papai, quem são eles? Para onde estão nos levando?"
"Ele são nossos amigos, filho. Eles vão nos levar para um lugar melhor, querido."

Pai e filho andavam de mãos dadas em meio àquela multidão de faces pálidas. Já fazia algum tempo que a comida estava escassa e o solo estava morto.
As criaturas observavam de cima todo aquele emaranhado de humanos. Estavam armados, trajavam armaduras e empunhavam armamento de ponta. Os humanos haviam perdido a guerra.
Algumas das naves pairavam por de trás do muro. Outras vinham dos céus.

"Papai, o que são essas casinhas?"

Os humanos faziam filas para adentrar as câmaras. O homem apanhou seu filho e o segurou em seus braços.

"Estas são as nossas novas casas, onde iremos morar e seremos muito felizes, querido."

Um homem careca que estava na frente deles, se recusou por alguns instantes a entrar na câmara. Uma das criaturas que guardavam suas portas o empurrou para dentro. As portas se fecharam, um raio de luz cortou as frestas da porta. A porta se abriu novamente.
Um cheiro de queimado adentrou as narinas do pequeno Alef.

"É a nossa vez papai, vamos."

O homem sabia que era e também sabia o que aconteceria em seguida. Aquele cheiro de queimado era o cheiro embuçado da morte.
Segurou o pequeno Alef com força e deu um passo a frente.
Uma das criaturas deu-lhe um tapa no peito, outra o segurou pelos ombros e uma terceira arrancou Alef de seus braços.

Gritou, mas era tarde. E com um pontapé, foi empurrado para dentro da câmara. A porta se fechou e tudo que pôde ouvir foram os gritos de terror de seu filho, vindos do lado de fora da câmara.

Um raio de luz cortou as frestas da porta.

- Lágrimas de Gasolina

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Profundezas

Há muito tempo, nos mais profundos mares da Terra.
Caminhavam pelos solos aquáticos de calcário e ecossistemas marinhos, uma pequena civilização de peixes primitivos, dotados de uma inteligencia sobre humana e de uma força tão descomunal que hoje, seria endeusada pelos humanos.

Foi no começo daqueles tempos, posteriormente chamados de Cambriano, que Agnus nasceu.
Sua família o concebeu como uma ótima cria e sabiam que aquela criaturinha um dia se tornaria muito, se não a mais, importante criatura de toda a especie.

Foi nesse período, que as civilizações marinhas cresceram e se multiplicaram. Agnus se tornou forte e grandioso como já havia sido prescritos por teus pais. E com o tempo, Agnus avançou pelos patamares da sociedade, cresceu forte e com pouco tempo, já estava ocupando os importantes degraus políticos da sua cidade.
Construiu um centro tecnológico, onde estudavam os astros e a matemática. Construiu um teatro submerso, onde a arte e a felicidade reluziam. Criou um exercito e fez-se um portão, para proteger seu povo.
Se tornou um ser destemido e temido. Amado e aclamado.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Rodoviária

Me lembro da primeira vez que o vi. Sobretudo negro, barba longa. Carregava um pequeno livro de couro no colo.
Estava sentado na rodoviária, queixo direcionado para frente, os óculos escuros tapavam-lhe os olhos.
Me lembro de sentar ao seu lado.
A figura escura inquietou-se perante minha presença. Parecia desconfortável, coçava a barba e remexia os ombros.
Foi quando apanhou o livro e o abriu em uma página, repleta de escritas, indecifráveis. Caligrafia horrenda.
"Qual é o seu nome?" - perguntou, sem ao menos mover o pescoço.
"Samuel." - respondi, hesitante.
"De que?"
Jamais responderia a um estranho, mas as palavras saíram, mais fortes do que minha vontade.
"Guimarães Rosa"
Ele correu os dedos finos pelas linhas deformadas de seu livro negro, continuava igualmente estático.
"Você deve pegar o próximo ônibus, Samuel."
No mesmo instante, dois ônibus cruzaram a esquina.
"Me acompanhe." - Proferiu, adentrando ao primeiro dos ônibus. A rodoviária estava vazia, exceto por mim, a estranha figura e um pedinte apoiado em uma das vigas.
Meu bom senso falou pelos meus ombros. Permaneci sentado.

Me lembro da segunda vez que o vi. Ele estava sentado, na mesma poltrona, da mesma rodoviária.
"Ola, Samuel."
Me contive em responder.
"Hoje, definitivamente, você deve pegar o próximo ônibus."
No mesmo instante, dois ônibus cruzaram a esquina.
"Me acompanhe." - Proferiu, desta vez sem olhar para trás.
Cruzei os braços, virei o pescoço e gritei em minha mente.
"Não, velho escroto."
O ônibus fechou tuas portas e partiu.
O pedinte sentou-se ao meu lado, pediu por algumas moedas. Dei-lhe três moedas de real.
Entrou no outro ônibus e partiu.

Foi neste momento que o vi pela terceira vez.
"Ola, Samuel."
Estava cansado, estressado e com raiva daquilo. Quando fui abrir meus lábios para proferir alguma maldição para aquele homem, ele me interrompeu.
"Olhe teus bolsos, Samuel. Estão vazios. Parece que você doou teus últimos trocados para aquele pobre maltrapilho. Não terás dinheiro para o próximo ônibus."
Olhei a volta, o homem desaparecera. Uma voz ecoou em minha mente.
"Veremos se terás a mesma sorte."
A volta da rodoviária se tornara negra, abismática. Nenhum homem se aventuraria em tamanha escuridão.
Me apoderei dos cobertores largados daquele maltrapilho e ali permaneci, e ali permaneço.

Já fazem quatro dias.

- Lágrimas de Gasolina





quinta-feira, 27 de junho de 2013

Cria-Criatura

A criatura contorcia todos os teus braços em resposta à dor infligida.
O homem sorria. Os outros ao teu lado sorriam e gritavam.

Tirando o ferro da brasa, apontou para a pobre criatura.
A criatura enrolou teus tentáculos e suplicou por misericórdia. Chorou pela misericórdia e pelo remorso que os homens desconhecem.

O homem esticou o braço e afundou, triunfante, o ferro quente contra a pele escamosa da criatura.
Uma lágrima roxa deslizou pelas pálpebras da criatura.

Por um momento, pensou em suas crias e na sua fêmea que logo deixaria para trás. A morte era iminente.
A criatura fechou todos os seus olhos e deitou-se no solo, vencido pela desumanidade dos humanos.

Os homens se apressaram em chuta-lo e esmurra-lo pelo resto da noite.

A noite caiu.
Os homens cansaram.
A criatura se fora.
Suas crias e tua fêmea, dilatadas e apodrecidas em sua toca. Impreparadas para morrerem de fome à espera de um pai que nunca voltará para o lar.

Talvez se a história tivesse sido diferente... 
Vamos corrigir as coisas.

A criatura estremeceu. Os humanos, descrentes, recuaram. Viram o que tinham provocado.
Todo o ódio, toda a raiva, todo o medo. Canalizados e transformados no mais puro exemplo de força.

Com seus tentáculos ele quebrou teus pescoços e arrancou tuas linguás. Com suas garras ele dilacerou teus abdomes e furou teus olhos.

E com os teus olhos ele causou o medo, o panico e a dor que nenhum homem naquela noite jamais havia sentido.
A criatura se tornou humana e desumana.

E naquela noite, ela alimentou suas crias.
- Lágrimas de Gasolina



segunda-feira, 24 de junho de 2013

04 (Quatro)

Escamas cresceram sobre minha pele, que escorreu como piche pelos meus músculos.
Cuspi a brasa que ocupava meus pulmões.

Minhas escapulas saltaram das minhas costelas verdadeiras. Minhas clavículas contorceram-se.
Urrei. Não gritei, gritar é para os fracos.
Gritar a para aqueles que não cospem fogo como eu.

Coloquei as mãos no solo. As unhas saltaram de meus dedos e garras rasgaram meus nervos.
Urrei e os gritos vieram junto ao eco.
Eram os fracos, aqueles que não cuspiam o fogo, aqueles que não tinham seus membros eviscerados.

Contorci-me junto a poderosa dor. Dolorosamente poderoso.
Olhei para o solo e escarrei um pedaço do tártaro, a voz de cima veio grave montada sobre o Coliseu Romano.

Explodiu o planeta em caos e redenção. Sua voz ecoou pelos continentes e pelos mares, passou pelos campos e cidades e todos que a ouviram foram destroçados, lançados para o alto.

Eu direcionei meus olhos para uma de suas frontes, mas não pude aguentar mais do que segundos. O Dragão Romano esticou teus dez chifres para os céus, uma viscosidade luminosa desceu para o solo terreno.

Ao lado das luzes que caiam, levantaram-se outras criaturas. O Leviathan que adentrou os mares do Oeste. A segunda criatura dividiu-se e aterrissou no solo terreno como duas criaturas. Uma correu para o Sul e a outra se escondeu no Leste.

Me contorci. A luz cessou. O Dragão Romano voou para o Norte.
E o mundo adentrou em Discórdia, Corrupção, Caos e Escuridão.

- Lágrimas de Gasolina



sábado, 22 de junho de 2013

O pensamento

E foi naquele fútil pensamento.
Ah, os pensamentos.
Foi naquele pequeno pensamento, naquela fria noite, naquele malcheiroso quarto, onde tudo aconteceu.
Onde tudo fora desmantelado em espaços de tempo. Em frações de espaço.
Onde tudo caia para o alto e subia para baixo.

O rapaz flutuava, inerte em seus pensamentos, nem caia nem subia. Flutuava, apenas.

O mundo que conhecia se transformava à sua fronte, as paredes amassadas e o chão distorcido, frutos de seu pensamento.

Pensamento daquele rapaz, naquele quarto, naquela noite.

Mas era só um pensamento e quando estava perto de encontrar a resposta que tanto procurava, as coisas tomavam as formas anteriores, revelando aquele mundo já conhecido.

Aquilo nunca aconteceu para mais ninguém, apenas para o garoto.
Para aquele garoto a mente era a resposta fugaz para a realidade e seu intendimento. Não só a mente, mas sim àquele que provém desta, o pensamento.

Para o rapaz o quarto servia de ateliê para a sua existência enquanto para os outros, o quarto era apenas o local onde o jovem rapaz se isolava.

- Lágrimas de Gasolina

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Limitações

Apontaram para mim, disseram que meus contos eram um ultraje aos bons costumes.
Disseram que eu não podia continuar de tal maneira sem sofrer as consequências impostas pelos alienados.

Tranquei-me por dezessete horas em meu quarto, abstinente de qualquer resquício da vida terrena.
Refletindo sobre mim e meus atos. Me pus de castigo.
Eu e meus textos, contra o mundo e os malditos alienados, os verdadeiros zumbis da realidade.

Não sou uma pessoa fantasiosa, sei da realidade e como as coisas são.
Não sou prepotente, sei dos meus limites.

"Limites."
Isso é o que me prende.

Coloquei as mãos no espelho e fitei aquela face obstinada pela eternidade e pelas ilimitações que ela propunha.

Soquei o espelho, espancando o meu ser e o reflexo dele. Eu odeio aquilo.
Soquei tudo e todos. Soquei os bons costumes na boca do estomago. Escarrei na face dos alienados. Deixei meu sangue pingar sobre a cara da sociedade e a sociedade sorriu em aprovação.

Riram, brindaram e gritaram sobre a queda de outro ilimitante e consagraram em aceitação pelo mais novo membro da sociedade alienada.

Apanhei os cacos do chão. O mundo me limitava.
Cortei ambos os pulsos e senti a eternidade me preencher.

Venha, oh eternidade.

E foi no ultimo instante do ultimo suspiro em que aquele pensamento surgiu.
"E quando a não-alienação se torna uma especie de alienação?"

Mas era tarde.

E fui abraçado pela a eternidade e suas outras limitações:
A morte.

- Lágrimas de Gasolina

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Prós e Contras

Tocou sua testa.
A luz piscou, os anjos cantaram no céu. Seu corpo flutuou.

Seus pés desenraizados do solo terreno. Sua alma estava em paz.

Um pequeno anjo o puxou pelas mãos, levando-o ao longínquo por do sol que derretia no horizonte.

O anjo olhou em seus olhos e deu-lhe um beijo amargo.
O pequeno ser alado tomou distancia, fez um gesto de repugnância e cuspiu a brasa que queimava dentro de seu pequeno corpo.

Sua face, antes angelical, apodrecia diante tantos males. Males enformados pela face humana em sua fronte.
O pequeno ser alado soltou suas mãos.

Ele caiu, oh pobre humano. Atravessou o céu e atravessou o solo, atravessou os mares e atravessou o tártaro.

Em pouco tempo alcançou a escuridão, e a paz que antes dominava a sua alma, transformou-se no vazio e na tristeza já conhecida pelos homens.

E toda a sua ciência, toda a sua consagrada bondade, toda sua vida escrita em solo terreno. Todos os males, todos os prós e todos os contras foram abraçados pelo verdadeiro anjo merecedor de tal iguaria.

Lúcifer esticou os braços e o pobre humano caiu sobre eles.

Lúcifer sorriu, o homem estremeceu.
Samael sorriu em concordância.

O homem deixou de existir.

- Lágrimas de Gasolina



sábado, 8 de junho de 2013

Operação

Estava dando inicio a mais um procedimento complicado.

Diagnostico?
Tumor no fígado.

Me aproximei do rapaz sedado, silencioso.

A instrumentadora preparava as ferramentas para a cirurgia.

Coloquei minhas luvas. Hora de começar o procedimento.

Respirava com dificuldade através da máscara. Apanhei o bisturi.

Comecei o procedimento. Aproximei o bisturi do seu abdome.

O rapaz gemeu. Como? Ele estava inteiramente inconsciente.

Recuei o bisturi, com medo. Um pequeno volume se acumulava no centro da barriga do rapaz.

Gritei assustado pela enfermeira e disse para chamar por ajuda, algo estava querendo sair do corpo do rapaz.

A enfermeira saiu, me deixando à sós com o rapaz.

Uma lamina perfurou o abdome do rapaz. Era um bisturi. Em seguida vi dedos seguidos por uma palma.

Um homem saia de dentro do rapaz. Outro cirurgião.

Uma mascara de coloração clara tapava a boca do medico.

Ele retirou a mascara. Era o mesmo rapaz. Meu deus.

Ele operando ele mesmo? Como pode ser? Que? Loucura.

Jogou a mascara no chão e disse:

“Fique calmo, doutor. Estou operando. A melhor das operações são aquelas que fazemos em nós mesmos.”

A enfermeira abriu a porta, com força. O rapaz abriu os olhos e se levantou. Sua barriga estava cicatrizada.

“Nossa, doutor. Me sinto bem melhor.”

Que porra acabou de acontecer aqui?

- Lágrimas de Gasolina

terça-feira, 4 de junho de 2013

Guerra

A face destruída.

A faca feita de mármore.

A espada envolta por couro.

Vermes deslizam pelo meu rosto.

Meus olhos sendo perfurados por polegares opositores.

Fico cego perante a televisão.

A faca perfura meu coração.

Continuo respirando.

A fumaça cai sobre meu queixo,

Meu maxilar formiga, meus dentes rangem de raiva.

Me levanto e destruo a todos.

Os vermes caem sobre meu inimigo.

Caio ao seu lado como se fossemos velhos amigos.

Me sinto a vontade. A morte ao meu lado.

Respiro a fumaça da guerra.

A espada cai da mão do derrotado.

O derrotado se levanta e aperta minha mão.

Seguro sua garganta com força.

Punho sobre as cabeças.

Mãos sobre os peitos.

A face destruída urra com força.

A vitoria derrotada.

Ninguém vence numa luta, todos perdem.

Todos têm suas faces destruídas e seus pulmões arrasados.

Ninguém vence.

Todos e tudo destruído.

- Lágrimas de Gasolina

Independencia

Meus miolos, já podres, escorrem pelos meus ouvidos.

Os vermes comem o que resta da minha força de vontade e o resto de comida que prende-se por entre meus dentes.

Os ratos roem os estilhaços do meu bom senso e defecam alienação e estupidez.

As baratas marcham entre minhas entranhas apodrecidas devido a claridade exalada pela televisão.

Meus globos deslizam pelas orbitas e atingem o chão, tentando evitar mais alguns segundos de sofrimento.

A luz acende. Minha mãe entra no quarto. Abre a janela.

“Vamos, vá viver brincar lá fora.”

E saiu.

Apaguei a luz. Fechei a janela.

“Eu não preciso sair. Eu tenho meus vermes programas, minhas baratas noticias, minha sujeira novela e a minha podridão própria diversão.”

Me sentei e continuei assistindo à televisão.

Meus dedos necrosavam deliciosamente, minhas pernas atrofiavam e meus dentes putrificados, despencavam da minha boca e atingiam o solo seguido por gotas de sangue negras e mal cheirosas.

“É lindo não acha?”

“O que?”

“Não depender de ninguém para se divertir.”

- Lágrimas de Gasolina

domingo, 2 de junho de 2013

O Garoto e A Escuridão

Eu estava pronto para me deitar.
Hoje seria o dia em que venceria o meu mais profundo e secreto medo.
Eu sempre tive medo do escuro.
Mas não mais. Um garoto da quinta serie não deveriia ter medo do escuro.
Eu levantei da cama e fechei a porta, delicadamente.
Sentei no centro do quarto, a chuva caia forte. Um raio cortou os céus e tudo se apagou.
Pensativo, levantei a cabeça e perguntei:
“Por que eu tenho medo de você?”
A escuridão tomou forma de um garoto e tocando meu ombro, respondeu serenamente:
“Eu não faço ideia, amigo. Eu não sou nenhum vilão.”
Abaixei a cabeça, duvidoso. Eu cresci aprendendo a temer o desconhecido.
“Você não deve temer.” - Continuou. - “Eu sou aquele que esconde a realidade, que omite o medo. Eu sou aquele que esconde o que a luz insiste em escancarar em vossa face. Você não deveria temer a mim. Você deveria me agradecer, amigo.”
Eu ergui a cabeça e sorri para aquele garoto de rosto negro.
Me levantei. As luzes voltaram à acender. Meus olhos doíam.
Me deitei e apaguei as luzes.
“Boa noite.”
-Lágrimas de Gasolina

Hipocrisia

Os joelhos que aguentam o peso do trabalho árduo.
A criança que grita sozinha no escuro implorando por socorro.
A mãe que se levanta aflita.
O pai que se remexe na cama, desgostoso.
O irmão que acorda em meio à noite.
O vizinho que bebe água na cozinha.
O mendigo que vagueia pelas ruas frias.
A lua que clareia as ideias na escuridão da noite.
O sol que nasce no horizonte.
Os joelhos cansados que vão para o trabalho.
A fome que assola o mundo.
A tristeza que pesa nos desempregados.
A infelicidade que cada um carrega.
A morte que aguarda pacientemente pelo fim.
O fim que carrega consigo o fardo de todas as soluções.
Os meios que justificam os fins.
Os fins que justificam os meios.
Os tristes e os felizes.
Os felizes e os tristes.
O racionais e os emotivos.
O instinto e a razão.
A palavra dita e a flecha lançada.
Todos juntos. Cantando. Uma linda canção de natal.
Todas as religiões contraditórias. Todas as contradições da religião.
Todos os religiosos e os céticos.
Todos cantando.
Cantando uma linda canção de natal.
-Lágrimas de Gasolina

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Humanos

Eles botam o dedo na sua cara. Escarram no chão, ignoram qualquer critica construtiva e cospem de volta, em resposta, uma palavra de destruição.
Mas você é forte. Teu ego é inflado. Tua consciência, mesmo em chamas, é tão limpa quanto a mais pura água da mais límpida fonte. 
Eles são podres. Não amam a si próprios. Desejam o pior ao próximo.
Mas que porra é essa afinal?
Não podemos desliga-los do mundo? Estes seres podres que ecoam pelo solo terreno.
Não amigo, não podemos. Somos apenas espectadores e tem mais, este não é o nosso departamento. O máximo que podemos fazer é observar e dar conselhos. Nada mais, nada menos.
Mas como eu os odeio, Mestre.
Sim, eu também os odeio, meu Subordinado. Mas não há nada que possamos fazer. Esta é a missão que nos foi concedida, assim como àqueles antes de nós.
Malditos humanos.
Sim, malditos sejam.
- Lágrimas de Gasolina

Proteger

Eu detesto ficar sozinho.
Eu sempre fico sozinho, sabe?
Não é que eu não goste da sua companhia, é só que eu quero conhecer pessoas de verdade, sabe?
“Hoje eles virão aos montes, só pra te ver. Isso pode ser um pouco incomodo para você. Você não esta pronto.”
Não, eu sou sociável. Não sou um animal que precise ser preso e mantido em observação.
“Você é uma aberração, Logan.”
NÃO.
“Você deve permanecer aqui para proteger as pessoas ao seu redor.”
Eu não sou um monstro. Eu quero melhorar.
“Você é perigoso, Logan. Você vai ficar preso aqui;”
NÃO.
Eu sou um bom filho e um bom marido. Eu quero voltar. Hoje é o dia de visitas e eu vou mostrar para todos.
“Você vai falhar.”
Eu estou melhor. Eu estou melhor. Eu quero melhorar.
“Não você não quer, Logan. O horário de visitas já passou. Você ficou falando sozinho o tempo todo.”
NÃO.
“Seus pais viram o quanto você está melhor.”
Não pode ser. Eu queria tanto melhorar.
“Você falhou, Logan.”
Eu nem sequer vi seus rostos.
Eu não aguento mais essa sala. Essa cama. Tudo isso.
Logan foi encontrado morto na sala de observação, uma hora antes do horário de visitas.
- Lágrimas de Gasolina

domingo, 26 de maio de 2013

Males

Você já parou para pensar o que seria do bem se não existisse o mal?
Da luz sem a escuridão?
Da ordem sem o caos?
Do certo sem o errado?
Sempre duas forças estarão se atritando, á todo momento. Uma positiva e outra negativa. A harmonia aflora quando estas forças estão em equilíbrio.
Pense, amigo. Pare e analise a sua vida. Ela anda escura? Caótica?
Talvez seja um aviso. Talvez falte um pouco de luz e ordem.
Os males são como avisos. Avisos que nos apontam o que está escasso.
E quanto mais escasso, maior é o aviso que os males colocam nas nossas vidas.
Alguns males vêm para o bem.
Só que lembre-se, amigo. Esta é uma via de mão dupla.
- Lágrimas de Gasolina