Por que as coisas devem se limitar ao que são?
Levantou mais uma vez o bastão de madeira e atingiu o para-brisa do automóvel elegantemente estacionado na frente daquele gigantesco condomínio de escritórios. O dia estava nublado e um alarme rouco e metálico soava cada vez mais alto, interrompendo o cantar dos pássaros e atraindo a atenção de alguns olhares do alto do prédio.
- "O desgraçado surtou!" - Todos da sala de cópias começaram a gargalhar enquanto assistiam à cena pela janela - "Aquele era um belo carro!" - Disse o mesmo homem, com um ar de tristeza e ironia.
Era um carro lindo, disso ninguém duvidaria, pois bastava olhar para ele para ver que se tratava de um modelo do ano passado, completo, tinha as rodas cromadas, uma lataria encoberta por um tom cinza que tendia para o preto dependendo do anglo em que fosse visto. De fato, um belo carro.
- "Quer saber de uma coisa, Anderson?" - Gritou para todos que passavam, desferindo outro golpe, dessa vez atingindo o retrovisor externo - "Eu não preciso da droga desse emprego! Eu não preciso de uma promoção! Eu não preciso de você e nem de nenhum de seus parasitas! Eu não preciso de ninguém!" - Destruiu o que restara da janela lateral do carro, em seguida dirigindo um chute na porta do motorista.
As dezenas de olhos se posicionavam nas janelas do edifício, todos voltados para aquela figura que gritava para as paredes da fortaleza do Sr. Anderson. Alguns funcionários podiam ser vistos atrás das janelas pelo lado de fora, uns estavam rindo e comentando alguma piada com os colegas de trabalho, outros seguravam xícaras de café ou chá enquanto abafavam um olhar de admiração e uma minoria que permanecia sentada em suas mesas, trabalhando.
- "Aquele ali é o Sr. Anderson" - Disse o gerente financeiro apoiado à janela do terceiro andar, apontando para uma figura baixa e gorducha que se aproximava do louco destruidor de carros - "Ele vai ficar louco quando puder ver o que esse maluco fez com o teto solar do carro dele" - Completou ironicamente e soltando uma risadinha de canto de boca.
As nuvens estavam ficando cada vez mais escuras, as passivas e cinzentas nuvens que preenchiam os céus transformaram-se em massas disformes e agitadas cinza chumbo e as primeiras gotas começaram a cair sobre o assento descoberto do carro.
- "O que você está fazendo?" - O gorducho balançava as mãos ferozmente - "Você ficou louco?" - Gritou junto a uma trovoada distante.
O homem estava em pé sobre o capô do carro, balançava os sapatos sociais, espalhando os cacos que insistiam em descansar ao lado de seus pés. Soltou o taco e o deixou rolar em direção ao solo, estava digerindo as palavras proferidas pelo antigo homem que comandava seus afazeres.
- "Você não imagina o quanto este carro me custou!" - Esbravejou Anderson - "Este carro vale mais do que a quantia em dinheiro que você ganharia de salário e comissão em 10 anos de trabalho, seu imundo!" - Fez uma pausa - "Onde estava meu bom senso quando contratei um lunático como você?" - Completou, balançando negativamente a cabeça.
O homem girou o pescoço e apertou os dedos inchados pela grande pressão com que pressionara a haste do taco, formando um punho fechado, sentindo que poderia simplesmente esticar os dedos e esmagar facilmente a traquéia de seu antigo chefe.
- "Você era um bom funcionário, mas depois daquele incidente com a máquina de café você ficou estranho" - Continuou, seus ombros estavam molhados devido à garoa que se transformava aos poucos em chuva - "A policia já está a caminho!" - Disse roucamente após alguns segundos avaliando todos os gastos que teria com o seguro.
O homem pulou do automóvel e caiu em pé sem demonstrar qualquer centelha de esforço, se aproximou naturalmente daquela figura bem vestida, medindo sutilmente cada passo. As dezenas de faces os assistiam através das janelas embaçadas, ninguém mais estava trabalhando, o prédio parecia um gigantesco organismo único formado por pequenas faces cinzentas e curiosas.
Anderson olhou para cima, vendo seus funcionários o encarando e esboçou uma pequena fagulha de raiva somada ao medo do que poderia vir a seguir, afrouxou os joelhos, caminhando para trás, enquanto aquela figura movimentava as mãos e as esticava em sua direção - Um raio cortou os céus - E o homem as levantou, soltando um intenso rugido confundido pela trovoada que veio logo em seguida. Teve a mesma sensação que se tem ao encarar algum animal feroz e desconhecido, afrouxou demais os joelhos e escorregou para trás, sentando no chão molhado, sentiu as calças molhadas, se virou e correu pateticamente em direção às portas fechadas do edifício.
- "Mas que merda!" - Gritou quando percebeu que empurrava a porta com uma placa que dizia para realizar o processo inverso. Entrou, deixou a porta entreaberta e encostou o peito na maçaneta de forma que pudesse colocar a grande cabeça para fora e proteger os membros da ventania, deixando amostra apenas o rosto e parte dos dedos e pescoço.
- "Você é um escroto, Dante!" - Gritou mais alto que o ruído causado pela chuva - "Farei algumas ligações! Você não conseguirá emprego nesta cidade!" - Finalizou gaguejando e fechando a porta metálica.
Dante pôde ver através dos vidros das portas que conduziam para o salão de entrada, uma figura embaralhada e gorda falando com duas outras figuras uniformizadas, não conseguiria ouvi-las, mas sabia que faziam parte da segurança patrimonial do edifício. Olhou para cima e notou que alguns ainda o assistiam do alto das janelas, mas a grande maioria já havia voltado ao trabalho. Ouviu as sirenes ao longe e o ranger das portas metálicas, correu pelas ruas e nunca mais foi visto.
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quarta-feira, 26 de agosto de 2015
sexta-feira, 14 de agosto de 2015
O Ônibus 3.85 #7 - O Atractor Estranho
A realidade é um tanto quanto estranha. A maioria esmagadora das pessoas tende a acreditar que a razão e o conhecimento são suficientes para traçar e prever todo e qualquer acontecimento que as rodeia. Quantas vezes nós não tivemos nossos planos frustrados por consequência de um misero acontecimento aleatório e totalmente imparcial? Um dia de chuva, um carro que quebra ou uma câimbra em momento inoportuno. Afinal, quais outros fatores norteiam estes fatores? Fatores menores? De que adianta anos de treinamento e preparação quando estes forem frustrados por um momento de azar, de acaso?
No fim das contas, todos estão à mercê do acaso e de toda a gama de fatores que o estabelece. Talvez, se o motorista soubesse da teoria e não somente da prática, deduziria que todas as ações que tomaria daquele momento em diante não surtiriam efeito nenhum no futuro.
Estava ofegante – “Não posso perder a calma, estou no controle” – Repetia mentalmente para si – “Ainda estou no controle” – Disse em voz alta, apanhando uma pequena haste metálica logo ao lado do pequeno extintor de incêndio repousado sob o assento do motorista.
Andou na direção de Dante, balançando a barra metálica e contornando passageiros inertes que insistiam em ficar em pé no corredor. Seu rosto ainda estava sujo de sangue, um vermelho escuro sobre a textura jeans da jaqueta e os longos cabelos desobedientes lhe tapava parte dos olhos.
O ônibus mantinha velocidade constante dando alguns pequenos saltos, dirigindo-se a um destino desconhecido por todos os passageiros.
- “Eu não vou perder meu posto” – Rosnou em voz baixa.
Dante, ainda tentava se soltar dos três passageiros que o seguravam, balançando de um lado para o outro e grunhindo cada vez mais alto à medida que o motorista se aproximava. O homem não deixara claro o que faria com aquela barra de ferro, mas os olhos e a intensidade raivosa com que encarava o prisioneiro explicitavam o que aconteceria com o rosto daquele pobre infeliz.
- “Você está louco!” – Gritou enquanto lutava contra as forças sobre-humanas de seus carcereiros.
Olhou para os lados, buscando alguma forma de ajuda, algum apelo que pudesse ser feito, mas todos os assentos à sua volta estavam vazios, exceto pelas cadeiras à sua esquerda, que abrigavam parte do corpo do garoto que aprisionava teus punhos. Lembrou-se da garotinha apática que repousava em algum dos bancos de trás, fora de seu campo de visão e gritou:
- “Garota! Ei, garota!” – Girou o pescoço ao máximo que pôde para ver se conseguia atrair sua atenção, porém a jovem ainda encarava friamente o vidro que compunha a janela do ônibus. Tentou outra vez.
- “Garota! Gar...” – E sentiu uma forte dor no centro do abdome. Olhou para frente e trombou com os olhos do motorista pregados aos seus, sentiu os tecidos abdominais começarem o processo de rompimento. Abaixou os olhos e viu toda a vermelhidão que escorria através da camisa social perfurada. Soltou um longo suspiro e sentiu a barra de ferro que se alojava acima de seu umbigo e entre suas costelas.
A pressão e a dor diminuíram por um momento, enquanto o motorista recuava o objeto e se preparava para repetir o movimento, uma tentativa de encravamento improvisado.
Ele olhou para o ferimento por alguns segundos e percebeu o quão superficial parecia. A laceração tinha apenas uns dois centímetros de profundidade, porém a barra tinha uma marca avermelhada uniforme por toda a sua circunferência e atingia um pouco menos de um quinto do comprimento total do objeto, resultando em aproximadamente uns dez centímetros de sangue.
Estava perplexo, esticou os dedos na direção do buraco e Dante se contorceu. Estranhamente, o diâmetro do machucado também estava um pouco menor do que deveria.
- “O raio da barra é de pelo menos uns cinco centímetros” - Concluiu após analisar por um curto período a ponta do objeto que segurava - “E o raio deste ferimento tem um pouco mais que a espessura do meu dedo” – Completou mentalmente, enquanto corria o dedo indicador por toda a circunferência da laceração.
Levantou os olhos, boquiaberto. Estava presenciando uma espécie de recuperação espontânea.
- “Mas que raio de divindade é você?” – Disse, se levantando e esboçando um leve sorriso de incredulidade.
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No fim das contas, todos estão à mercê do acaso e de toda a gama de fatores que o estabelece. Talvez, se o motorista soubesse da teoria e não somente da prática, deduziria que todas as ações que tomaria daquele momento em diante não surtiriam efeito nenhum no futuro.
Estava ofegante – “Não posso perder a calma, estou no controle” – Repetia mentalmente para si – “Ainda estou no controle” – Disse em voz alta, apanhando uma pequena haste metálica logo ao lado do pequeno extintor de incêndio repousado sob o assento do motorista.
Andou na direção de Dante, balançando a barra metálica e contornando passageiros inertes que insistiam em ficar em pé no corredor. Seu rosto ainda estava sujo de sangue, um vermelho escuro sobre a textura jeans da jaqueta e os longos cabelos desobedientes lhe tapava parte dos olhos.
O ônibus mantinha velocidade constante dando alguns pequenos saltos, dirigindo-se a um destino desconhecido por todos os passageiros.
- “Eu não vou perder meu posto” – Rosnou em voz baixa.
Dante, ainda tentava se soltar dos três passageiros que o seguravam, balançando de um lado para o outro e grunhindo cada vez mais alto à medida que o motorista se aproximava. O homem não deixara claro o que faria com aquela barra de ferro, mas os olhos e a intensidade raivosa com que encarava o prisioneiro explicitavam o que aconteceria com o rosto daquele pobre infeliz.
- “Você está louco!” – Gritou enquanto lutava contra as forças sobre-humanas de seus carcereiros.
Olhou para os lados, buscando alguma forma de ajuda, algum apelo que pudesse ser feito, mas todos os assentos à sua volta estavam vazios, exceto pelas cadeiras à sua esquerda, que abrigavam parte do corpo do garoto que aprisionava teus punhos. Lembrou-se da garotinha apática que repousava em algum dos bancos de trás, fora de seu campo de visão e gritou:
- “Garota! Ei, garota!” – Girou o pescoço ao máximo que pôde para ver se conseguia atrair sua atenção, porém a jovem ainda encarava friamente o vidro que compunha a janela do ônibus. Tentou outra vez.
- “Garota! Gar...” – E sentiu uma forte dor no centro do abdome. Olhou para frente e trombou com os olhos do motorista pregados aos seus, sentiu os tecidos abdominais começarem o processo de rompimento. Abaixou os olhos e viu toda a vermelhidão que escorria através da camisa social perfurada. Soltou um longo suspiro e sentiu a barra de ferro que se alojava acima de seu umbigo e entre suas costelas.
A pressão e a dor diminuíram por um momento, enquanto o motorista recuava o objeto e se preparava para repetir o movimento, uma tentativa de encravamento improvisado.
Ele olhou para o ferimento por alguns segundos e percebeu o quão superficial parecia. A laceração tinha apenas uns dois centímetros de profundidade, porém a barra tinha uma marca avermelhada uniforme por toda a sua circunferência e atingia um pouco menos de um quinto do comprimento total do objeto, resultando em aproximadamente uns dez centímetros de sangue.
Estava perplexo, esticou os dedos na direção do buraco e Dante se contorceu. Estranhamente, o diâmetro do machucado também estava um pouco menor do que deveria.
- “O raio da barra é de pelo menos uns cinco centímetros” - Concluiu após analisar por um curto período a ponta do objeto que segurava - “E o raio deste ferimento tem um pouco mais que a espessura do meu dedo” – Completou mentalmente, enquanto corria o dedo indicador por toda a circunferência da laceração.
Levantou os olhos, boquiaberto. Estava presenciando uma espécie de recuperação espontânea.
- “Mas que raio de divindade é você?” – Disse, se levantando e esboçando um leve sorriso de incredulidade.
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quarta-feira, 12 de agosto de 2015
O Ônibus 3.85 #6 - Início
Você alguma vez já parou e se perguntou o que teria acontecido se tivesse se atrasado alguns minutos para algum evento do passado?
E se seus pais tivessem atrasado algumas horas para se conhecer? Talvez algum terceiro elemento tivesse tomado partido antes de um deles e se apaixonado, impedindo o seu futuro nascimento e, conseqüentemente, eu perderia um leitor.
E se você tivesse atrasado alguns minutos hoje de manhã? Talvez tivesse perdido o ônibus e o emprego.
E se você tivesse atrasado alguns segundos na semana passada? Talvez você pegasse aquele semáforo da esquina fechado, atrasando mais alguns segundos e impedindo a colisão que envolveu o seu carro na esquina seguinte.
Consegue perceber como os pequenos acontecimentos em um curto espaço de tempo podem gerar diferentes conseqüências?
Colocou os talheres, delicadamente, sobre a mesa, enquanto analisava os desenhos em forma de ondas dos mesmos. Apoiou os cotovelos sobre a superfície de madeira cuidadosamente feita a mão por algum artesão colonial renomado. Deixou os ares de satisfação entrar pelas suas narinas. Sua mãe não era a pessoa mais afável do mundo, mas cozinhava como uma deusa.
A mulher estava terminando a sua refeição, tinha os olhos cansados e desapontados, com uma das mãos dirigia uma garfada após a outra, sem proferir um ruído se quer, enquanto a outra repousava sobre o avental amarrotado e disposto sobre o colo encoberto pela parte inferior do vestido.
Terminou de comer e se levantou logo em seguida. Desamarrou o avental das costas, passou a pequena alça pelos cabelos castanhos, retirando-a por completo, dobrou o tecido ao meio e o dispôs sobre o balcão. Olhou por alguns segundos para suas mãos cansadas e envelhecidas, fechou os olhos. Igor a olhava por trás, ainda sentado a mesa, direcionando os olhinhos para a parede, pôde ver a silhueta que dançava, projetada pela soma de corpo e luz de velas.
- "As sombras não envelhecem" - pensou enquanto debruçava sobre os bracinhos.
Voltou a observar a movimentação de sua mãe, que apontava para a mesa e para as louças, a analisou por alguns segundos e entendeu, se levantou e começou a recolher os vestígios do que foi um delicioso jantar.
Soltou um som quase inaudível, proferido através dos dentes, como se queimasse a língua com algum tipo de fluido quente e invisível. Caminhou de cabeça baixa em direção ao velho sofá estacionado no cômodo ao lado, elegantemente disposto em frente a uma pequena tela televisiva de vinte polegadas. Passou os dedos sobre um dos botões agrupados no painel integrado ao lado da tela e o dispositivo se acendeu, fazendo rosnar um chiado de intensidade baixa e irritante.
Os sons do noticiário invadiam a cozinha, onde o jovem lavava as louças e enxugava alguns pratos. O programa começava sempre às sete horas da noite e sua mãe sempre o assistia. A noite já havia tomado conta do lado de fora e a casa estava tomada pelas luzes de velas e pela coloração cinzenta da velha televisão.
- "Um estranho fenômeno acontecerá às vinte e duas horas da noite de amanhã e poderá ser visto de toda a América do Sul, os cientistas dizem tratar de uma gigantesca massa de nuvens estratosféricas polares causadas pelas conseqüências da emissão de gases poluentes na atmosfera, dominando os céus da noite de quarta-feira, atingindo seu ápice na madrugada de quinta-feira. Os mais esotéricos acreditam ser um presságio para o fim do mundo" - Dizia o homem de penteado brilhante com suas mãos sobre a mesa, enquanto algumas imagens rodavam pela tela ao seu lado.
- "Nos dias de hoje" - A imagem pulou para um senhor de corpo franzino e cabelos calvos esbranquiçados - "Esse tipo de fenômeno meteorológico costuma ser corriqueiro nas regiões mais frias do planeta, chamadas de regiões polares. É extraordinário que estes aconteçam em regiões como o Brasil e Argentina" - Disse o meteorologista.
- "O que o senhor acha das teorias?" - Perguntou a repórter.
- "As conspirações? Sobre o fim dos tempos?" - Olhava incrédulo para a câmera - "As pessoas não estão acostumadas com o extraordinário, o que justifica todo esse misticismo alvoroçado." - E desligou.
O garoto estava recostado no batente da porta entre a sala e a cozinha, havia terminado seus afazeres e pôde ouvir toda a notícia. Andou até o sofá, deu umas palmadas na almofada e se sentou.
A televisão estava desligada, via-se apenas o reflexo das velas nos olhos de sua mãe e na tela escura. A mulher estava perplexa, como alguém que acabara de presenciar um atropelamento.
- "Eu" - Os olhos do garoto pareceram saltar - "Esperei por tanto tempo" - Disse a matriarca.
Esticou-se para entender enquanto não acreditava que escutava as primeiras palavras já proferidas pela mãe.
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E se seus pais tivessem atrasado algumas horas para se conhecer? Talvez algum terceiro elemento tivesse tomado partido antes de um deles e se apaixonado, impedindo o seu futuro nascimento e, conseqüentemente, eu perderia um leitor.
E se você tivesse atrasado alguns minutos hoje de manhã? Talvez tivesse perdido o ônibus e o emprego.
E se você tivesse atrasado alguns segundos na semana passada? Talvez você pegasse aquele semáforo da esquina fechado, atrasando mais alguns segundos e impedindo a colisão que envolveu o seu carro na esquina seguinte.
Consegue perceber como os pequenos acontecimentos em um curto espaço de tempo podem gerar diferentes conseqüências?
Colocou os talheres, delicadamente, sobre a mesa, enquanto analisava os desenhos em forma de ondas dos mesmos. Apoiou os cotovelos sobre a superfície de madeira cuidadosamente feita a mão por algum artesão colonial renomado. Deixou os ares de satisfação entrar pelas suas narinas. Sua mãe não era a pessoa mais afável do mundo, mas cozinhava como uma deusa.
A mulher estava terminando a sua refeição, tinha os olhos cansados e desapontados, com uma das mãos dirigia uma garfada após a outra, sem proferir um ruído se quer, enquanto a outra repousava sobre o avental amarrotado e disposto sobre o colo encoberto pela parte inferior do vestido.
Terminou de comer e se levantou logo em seguida. Desamarrou o avental das costas, passou a pequena alça pelos cabelos castanhos, retirando-a por completo, dobrou o tecido ao meio e o dispôs sobre o balcão. Olhou por alguns segundos para suas mãos cansadas e envelhecidas, fechou os olhos. Igor a olhava por trás, ainda sentado a mesa, direcionando os olhinhos para a parede, pôde ver a silhueta que dançava, projetada pela soma de corpo e luz de velas.
- "As sombras não envelhecem" - pensou enquanto debruçava sobre os bracinhos.
Voltou a observar a movimentação de sua mãe, que apontava para a mesa e para as louças, a analisou por alguns segundos e entendeu, se levantou e começou a recolher os vestígios do que foi um delicioso jantar.
Soltou um som quase inaudível, proferido através dos dentes, como se queimasse a língua com algum tipo de fluido quente e invisível. Caminhou de cabeça baixa em direção ao velho sofá estacionado no cômodo ao lado, elegantemente disposto em frente a uma pequena tela televisiva de vinte polegadas. Passou os dedos sobre um dos botões agrupados no painel integrado ao lado da tela e o dispositivo se acendeu, fazendo rosnar um chiado de intensidade baixa e irritante.
Os sons do noticiário invadiam a cozinha, onde o jovem lavava as louças e enxugava alguns pratos. O programa começava sempre às sete horas da noite e sua mãe sempre o assistia. A noite já havia tomado conta do lado de fora e a casa estava tomada pelas luzes de velas e pela coloração cinzenta da velha televisão.
- "Um estranho fenômeno acontecerá às vinte e duas horas da noite de amanhã e poderá ser visto de toda a América do Sul, os cientistas dizem tratar de uma gigantesca massa de nuvens estratosféricas polares causadas pelas conseqüências da emissão de gases poluentes na atmosfera, dominando os céus da noite de quarta-feira, atingindo seu ápice na madrugada de quinta-feira. Os mais esotéricos acreditam ser um presságio para o fim do mundo" - Dizia o homem de penteado brilhante com suas mãos sobre a mesa, enquanto algumas imagens rodavam pela tela ao seu lado.
- "Nos dias de hoje" - A imagem pulou para um senhor de corpo franzino e cabelos calvos esbranquiçados - "Esse tipo de fenômeno meteorológico costuma ser corriqueiro nas regiões mais frias do planeta, chamadas de regiões polares. É extraordinário que estes aconteçam em regiões como o Brasil e Argentina" - Disse o meteorologista.
- "O que o senhor acha das teorias?" - Perguntou a repórter.
- "As conspirações? Sobre o fim dos tempos?" - Olhava incrédulo para a câmera - "As pessoas não estão acostumadas com o extraordinário, o que justifica todo esse misticismo alvoroçado." - E desligou.
O garoto estava recostado no batente da porta entre a sala e a cozinha, havia terminado seus afazeres e pôde ouvir toda a notícia. Andou até o sofá, deu umas palmadas na almofada e se sentou.
A televisão estava desligada, via-se apenas o reflexo das velas nos olhos de sua mãe e na tela escura. A mulher estava perplexa, como alguém que acabara de presenciar um atropelamento.
- "Eu" - Os olhos do garoto pareceram saltar - "Esperei por tanto tempo" - Disse a matriarca.
Esticou-se para entender enquanto não acreditava que escutava as primeiras palavras já proferidas pela mãe.
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segunda-feira, 3 de agosto de 2015
O Ônibus 3.85 #5 - Infinitos Vazios
As faces contorceram-se. Os que não estavam encarando as ações de Dante, agora estavam.
Até mesmo àqueles estacionados sobre as cadeiras, contorciam o pescoço de forma pouco natural na direção do homem que destruía o rosto do motorista.
Ouviam-se os gemidos ecoando, algumas respirações e um baque surdo de carne contra ossos, de segundos em segundos, por toda a dimensão metálica do ônibus.
O homem estava dominado por um tranqüilo frenesi, que misturava uma raiva desmedida e incompreendida com uma calmaria de fim de tarde. Não apresentava pressa para desferir mais outro soco, atingia-lhe a face e o encarava por alguns segundos, sentia uma fagulha de pensamento dominando a sua mente - Por que estou sentindo tanta raiva deste homem? - E em seguida, o atingia mais uma vez. Repetiu esta ordem por mais três vezes.
Levantou a mão direita pela quinta vez, preparando-se para aplicar a primeira lei de Newton nos ossos faciais do motorista. Girou o punho e ela foi aplicada, não por Dante, mas pelos dedos e mãos de um terceiro, que o inertizava, segurando seu pulso. Olhou para trás e viu aquele que o impedira de continuar. Era um passageiro. Aquele cujo Dante havia se sentado ao lado horas atrás, que não se dispôs a percebê-lo quando se levantara.
O passageiro, com ares funéreos, segurava seu punho levantado, sem demonstrar qualquer sinal de humanidade, parecendo uma casca humana vazia. Trajava um terno caro de gerente de banco e olhava indiferente para a nuca do homem a sua frente.
Dante estava de pé e de costas, olhando por cima do ombro, segurando o motorista inconsciente pela jaqueta jeans com a mão esquerda. Seus olhos, arregalados, não entendiam o que estava acontecendo, tremendo e procurando por uma solução, soltou o motorista, que atingiu o chão sujo de sangue e poeira. Tentou levar a mão esquerda até o punho direito para arriscar uma soltura e tomar espaço, mas falhou, outros dedos e mãos seguravam seu punho e braço esquerdo. Girou o crânio e os olhos para procurar por seu segundo limitador e encontrou. Outros dois passageiros, um adolescente de camisa escura e uma pré-adulta de vestido vermelho, ambos com faces mortas e apáticas.
Balançou os ombros, tentando desesperadamente se soltar, enquanto observava o motorista se levantar. O viu arrumar a jaqueta jeans e ajeitar as luvas antes de acertar-lhe um soco no nariz.
- "Meu deus, eu só queria ir para casa" - Falou em voz rouca e baixa - "Como tudo isso foi acontecer?"
O motorista riu.
- "Você realmente não está entendendo nadinha de nada, mesmo? Você realmente acredita em acaso, seu verme inútil? Você ainda não" - Um barulho gaseificado soou, o ônibus começou a se mover segundos depois. A feição de deboche do motorista mudou para uma expressão de dúvida.
Olhou para trás, na direção do pára-brisa, com os lábios entreabertos de incredulidade, apenas para confirmar se a movimentação que estava sentindo era verdade e não fruto do espancamento que sofrera.
De fato, o ônibus estava se movendo, soltou um grito e correu para o assento, deixando o homem e os passageiros para trás. Sentou-se e apanhou o volante.
- "Algo está errado, o ônibus não deveria se mover sem mim" - Pensou - "Só se" - E se virou para encarar um homem aprisionado pelos seus servos.
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- Lágrimas de Gasolina
Até mesmo àqueles estacionados sobre as cadeiras, contorciam o pescoço de forma pouco natural na direção do homem que destruía o rosto do motorista.
Ouviam-se os gemidos ecoando, algumas respirações e um baque surdo de carne contra ossos, de segundos em segundos, por toda a dimensão metálica do ônibus.
O homem estava dominado por um tranqüilo frenesi, que misturava uma raiva desmedida e incompreendida com uma calmaria de fim de tarde. Não apresentava pressa para desferir mais outro soco, atingia-lhe a face e o encarava por alguns segundos, sentia uma fagulha de pensamento dominando a sua mente - Por que estou sentindo tanta raiva deste homem? - E em seguida, o atingia mais uma vez. Repetiu esta ordem por mais três vezes.
Levantou a mão direita pela quinta vez, preparando-se para aplicar a primeira lei de Newton nos ossos faciais do motorista. Girou o punho e ela foi aplicada, não por Dante, mas pelos dedos e mãos de um terceiro, que o inertizava, segurando seu pulso. Olhou para trás e viu aquele que o impedira de continuar. Era um passageiro. Aquele cujo Dante havia se sentado ao lado horas atrás, que não se dispôs a percebê-lo quando se levantara.
O passageiro, com ares funéreos, segurava seu punho levantado, sem demonstrar qualquer sinal de humanidade, parecendo uma casca humana vazia. Trajava um terno caro de gerente de banco e olhava indiferente para a nuca do homem a sua frente.
Dante estava de pé e de costas, olhando por cima do ombro, segurando o motorista inconsciente pela jaqueta jeans com a mão esquerda. Seus olhos, arregalados, não entendiam o que estava acontecendo, tremendo e procurando por uma solução, soltou o motorista, que atingiu o chão sujo de sangue e poeira. Tentou levar a mão esquerda até o punho direito para arriscar uma soltura e tomar espaço, mas falhou, outros dedos e mãos seguravam seu punho e braço esquerdo. Girou o crânio e os olhos para procurar por seu segundo limitador e encontrou. Outros dois passageiros, um adolescente de camisa escura e uma pré-adulta de vestido vermelho, ambos com faces mortas e apáticas.
Balançou os ombros, tentando desesperadamente se soltar, enquanto observava o motorista se levantar. O viu arrumar a jaqueta jeans e ajeitar as luvas antes de acertar-lhe um soco no nariz.
- "Meu deus, eu só queria ir para casa" - Falou em voz rouca e baixa - "Como tudo isso foi acontecer?"
O motorista riu.
- "Você realmente não está entendendo nadinha de nada, mesmo? Você realmente acredita em acaso, seu verme inútil? Você ainda não" - Um barulho gaseificado soou, o ônibus começou a se mover segundos depois. A feição de deboche do motorista mudou para uma expressão de dúvida.
Olhou para trás, na direção do pára-brisa, com os lábios entreabertos de incredulidade, apenas para confirmar se a movimentação que estava sentindo era verdade e não fruto do espancamento que sofrera.
De fato, o ônibus estava se movendo, soltou um grito e correu para o assento, deixando o homem e os passageiros para trás. Sentou-se e apanhou o volante.
- "Algo está errado, o ônibus não deveria se mover sem mim" - Pensou - "Só se" - E se virou para encarar um homem aprisionado pelos seus servos.
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segunda-feira, 27 de julho de 2015
O Ônibus 3.85 #4 - A Graciosa e a Cheia de Graça
O sinal para o intervalo soou, ouviram-se alguns gritares e assovios. As crianças levantaram-se das cadeiras, deixando o professor que implorava por atenção.
Saíram correndo na direção da porta, não dando a mínima atenção para o professor, que soltou um leve som de insatisfação regado com alivio.
Em poucos segundos a sala estava vazia. Olhou para os lados à procura de alguma alma compadecida e lá estava ela, no canto direito, próximo a janela, no fundo.
Ana, ainda sentada, aguardava o professor dar o sinal para se levantar.
Apoiando-se na mesa com ambos os palmos, olhou para a garota de olhos verdes.
- "Ei, Ana. Você pode sair, é hora do intervalo."
Ainda sobre a mesa, repousava um caderno com todo o conteúdo da aula, devidamente anotado.
Graciosamente, prestando total atenção nos lábios do professor, se levantou, arrumou a mochila e saiu.
Os olhos do professor a seguiram enquanto cruzava a porta e perguntou-se a razão de as outras crianças não serem iguais a aquela garotinha.
Uma mochila cor-de-rosa com alguns chaveiros dispostos de forma simples pendia sobre um dos ombros. Caminhava a passos rápidos, como se não quisesse ser incomodada, mas, na verdade, sua mente ainda trabalhava e Ana estava perdida em meio a tantos papeis mentais.
Colocando um pé na frente do outro, olhando para baixo. Este era o seu andar.
Puxou a manga que cobria o braço esquerdo, revelando um delicado relógio dourado e esticou os olhinhos para ver as horas. Estava atrasada e o corredor parecia infinito, talvez mais alguns passos e chegaria até o refeitório. Apertou ainda mais a corrida, entendendo perfeitamente o motivo de tanta correria feita pelas outras crianças, o intervalo é curto demais e não daria tempo para fugir da escola.
Sua mente vagueava pelas decisões que, mesmo ainda indevidamente medidas, já haviam sido tomadas. Para sua cabecinha de criança, seria o que chamamos de um grande feito. Talvez, um pequeno passo para qualquer pré-adolescente, mas um grande salto para uma criança de nove anos.
Quando se deu conta, já havia chego ao refeitório e dali já pôde ver o limiar de seu plano:
As portas de saída, que ainda estavam abertas.
Olhou para os arredores, como quem procura um fruto maduro em uma arvore. Não encontrou nenhum e correu na direção da porta. Atravessou-a utilizando-se de um salto, caindo com ambos os pés na calçada.
Correu em direção à esquina, ouvindo o sinal que gritava ao fundo, chamando os alunos para entrarem em sala, mas ela não, pois aquela garotinha de cabelos longos e castanho-escuros estava livre para fazer o que queria e nada a impediria.
Ana olhou para trás por um momento e viu uma face familiar e feminina vindo na direção dela, correndo a uma velocidade envelhecida, pós-adulta. Não havia tempo para pensar, simplesmente ergueu os pequenos pés e colocou-se em movimento.
Chegou ao meio fio e olhou para os lados em busca de esperança e para averiguar se nenhum automóvel viria em sua direção, pois iria atravessar a rua sozinha pela primeira vez.
Olhou para a esquerda e as ruas estavam desertas, alongou o pescoço para a direita e arrepiou-se. Não era um automóvel que acelerava em sua direção, mas sim uma ponta de esperança. Era o 3.85.
Rapidamente o ônibus parou à sua frente e abriu as portas como um super-herói-automóvel que veio justamente para salvar o dia. Colocou os pés sobre os primeiros degraus e sentiu um puxão, que provinha das hastes que prendiam suas costas e ombros à mochila.
A monitora segurava a alça superior da mochila e puxava a garota. Ana gritou e soltou a mochila, gritando mais uma vez enquanto as portas se fechavam. A monitora abraçou a mochila.
Ana nunca mais foi vista.
Continua
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-Lágrimas de Gasolina
Saíram correndo na direção da porta, não dando a mínima atenção para o professor, que soltou um leve som de insatisfação regado com alivio.
Em poucos segundos a sala estava vazia. Olhou para os lados à procura de alguma alma compadecida e lá estava ela, no canto direito, próximo a janela, no fundo.
Ana, ainda sentada, aguardava o professor dar o sinal para se levantar.
Apoiando-se na mesa com ambos os palmos, olhou para a garota de olhos verdes.
- "Ei, Ana. Você pode sair, é hora do intervalo."
Ainda sobre a mesa, repousava um caderno com todo o conteúdo da aula, devidamente anotado.
Graciosamente, prestando total atenção nos lábios do professor, se levantou, arrumou a mochila e saiu.
Os olhos do professor a seguiram enquanto cruzava a porta e perguntou-se a razão de as outras crianças não serem iguais a aquela garotinha.
Uma mochila cor-de-rosa com alguns chaveiros dispostos de forma simples pendia sobre um dos ombros. Caminhava a passos rápidos, como se não quisesse ser incomodada, mas, na verdade, sua mente ainda trabalhava e Ana estava perdida em meio a tantos papeis mentais.
Colocando um pé na frente do outro, olhando para baixo. Este era o seu andar.
Puxou a manga que cobria o braço esquerdo, revelando um delicado relógio dourado e esticou os olhinhos para ver as horas. Estava atrasada e o corredor parecia infinito, talvez mais alguns passos e chegaria até o refeitório. Apertou ainda mais a corrida, entendendo perfeitamente o motivo de tanta correria feita pelas outras crianças, o intervalo é curto demais e não daria tempo para fugir da escola.
Sua mente vagueava pelas decisões que, mesmo ainda indevidamente medidas, já haviam sido tomadas. Para sua cabecinha de criança, seria o que chamamos de um grande feito. Talvez, um pequeno passo para qualquer pré-adolescente, mas um grande salto para uma criança de nove anos.
Quando se deu conta, já havia chego ao refeitório e dali já pôde ver o limiar de seu plano:
As portas de saída, que ainda estavam abertas.
Olhou para os arredores, como quem procura um fruto maduro em uma arvore. Não encontrou nenhum e correu na direção da porta. Atravessou-a utilizando-se de um salto, caindo com ambos os pés na calçada.
Correu em direção à esquina, ouvindo o sinal que gritava ao fundo, chamando os alunos para entrarem em sala, mas ela não, pois aquela garotinha de cabelos longos e castanho-escuros estava livre para fazer o que queria e nada a impediria.
Ana olhou para trás por um momento e viu uma face familiar e feminina vindo na direção dela, correndo a uma velocidade envelhecida, pós-adulta. Não havia tempo para pensar, simplesmente ergueu os pequenos pés e colocou-se em movimento.
Chegou ao meio fio e olhou para os lados em busca de esperança e para averiguar se nenhum automóvel viria em sua direção, pois iria atravessar a rua sozinha pela primeira vez.
Olhou para a esquerda e as ruas estavam desertas, alongou o pescoço para a direita e arrepiou-se. Não era um automóvel que acelerava em sua direção, mas sim uma ponta de esperança. Era o 3.85.
Rapidamente o ônibus parou à sua frente e abriu as portas como um super-herói-automóvel que veio justamente para salvar o dia. Colocou os pés sobre os primeiros degraus e sentiu um puxão, que provinha das hastes que prendiam suas costas e ombros à mochila.
A monitora segurava a alça superior da mochila e puxava a garota. Ana gritou e soltou a mochila, gritando mais uma vez enquanto as portas se fechavam. A monitora abraçou a mochila.
Ana nunca mais foi vista.
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-Lágrimas de Gasolina
quarta-feira, 22 de julho de 2015
O Ônibus 3.85 #3 - O Duradouro
- "Por quê?"
O motorista o encarava com olhos arregalados de incredulidade. Nunca, até aquele momento, alguém havia lhe feito qualquer tipo de indagação. Não podia acreditar que o dia que tanto temia chegaria tão rápido.
O rapaz se levantou e perguntou novamente, porém com o tom um pouco mais eloqüente:
- "Por quê?"
O motorista cerrou os olhos, apertando os punhos, mas conseguiu se conter. Não poderia deixar que o medo o dominasse, seria certo que perderia o posto. Olhou para os passageiros, que mantinham a mesma posição, como peões de estanho em um tabuleiro de xadrez, indiferentes e desinteressados.
- "Que bom" - pensou - "ainda estou no comando."
Voltou o olhar para o homem na sua frente, que o encarava com olhos de fornalha e fedia álcool.
- "Qual é o seu nome?"
O homem afrouxou os olhos, sentindo-se mais seguro, pois sabia que não perderia a carona.
- "Dante, mas pode me chamar pelo meu segundo nome" - E recebeu um soco no canto esquerdo do rosto, atingindo a face no ombro da garota que residia ao seu lado, obrigando-o a se sentar.
Em estado de semi-lucidez, se perguntou o que estava acontecendo e recebeu outro golpe, dessa vez atingindo-lhe a têmpora esquerda. Ninguém moveu um membro ou esboçou alguma reação. Nada.
Olhou para o próprio peito, onde abrigava uma camisa amarrotada de coloração vinho e a viu ficando ainda mais vinho. Estava sangrando. Voltou o rosto para cima e levantou os braços, obstruindo a passagem de um terceiro ataque.
Levantou-se e olhou para os olhos do seu agressor, que gargalhava enquanto atingia-lhe os braços com os pulsos encobertos por uma fina luva de motorista.
Uma gota de sangue escorreu de seu rosto e atingiu a manga da camisa, contraiu o ombro direito e, em seguida, esticou o braço, em um movimento cruzado, cortando o ar na direção da face do motorista. Lembrou-se dos dias de glória, dos bares e das festanças, quando algum de seus amigos participava de alguma briga por engano.
O motorista tropeçou para trás, devido o golpe que lhe fora dado no queixo e caiu zonzo.
- "Os dias passaram rápido demais, não houve tempo suficiente para treinar" - pensou, enquanto via um corpo vinho e de calças sociais voando na sua direção, pronto para esbofeteá-lo por mais alguns segundos.
Soltando um grito de ajuda, quase ordenando, se encolheu cobrindo o rosto com as mãos e encolhendo os joelhos na direção do peito, em posição fetal.
- "Alguém faça alguma coisa!"
Dante soltou uma risada e esticou as mãos na direção da jaqueta jeans do motorista. Piscou depressa para retirar um cisco do olho e disse:
- "Eu nem sei o que está acontecendo aqui! O senhor levantou do seu posto, perguntou meu nome, me deu alguns socos e ninguém na droga desse ônibus fez porcaria nenhuma, mas que droga de mundo é esse em que vivemos? Olha para todas estas pessoas aqui!" - disse apontando para todos e percebendo que todos o encaravam de volta, sentiu um leve calafrio. Dando um soco na face do motorista, continuou:
- "Venham e façam alguma coisa!"
Continua
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- Lágrimas de Gasolina
O motorista o encarava com olhos arregalados de incredulidade. Nunca, até aquele momento, alguém havia lhe feito qualquer tipo de indagação. Não podia acreditar que o dia que tanto temia chegaria tão rápido.
O rapaz se levantou e perguntou novamente, porém com o tom um pouco mais eloqüente:
- "Por quê?"
O motorista cerrou os olhos, apertando os punhos, mas conseguiu se conter. Não poderia deixar que o medo o dominasse, seria certo que perderia o posto. Olhou para os passageiros, que mantinham a mesma posição, como peões de estanho em um tabuleiro de xadrez, indiferentes e desinteressados.
- "Que bom" - pensou - "ainda estou no comando."
Voltou o olhar para o homem na sua frente, que o encarava com olhos de fornalha e fedia álcool.
- "Qual é o seu nome?"
O homem afrouxou os olhos, sentindo-se mais seguro, pois sabia que não perderia a carona.
- "Dante, mas pode me chamar pelo meu segundo nome" - E recebeu um soco no canto esquerdo do rosto, atingindo a face no ombro da garota que residia ao seu lado, obrigando-o a se sentar.
Em estado de semi-lucidez, se perguntou o que estava acontecendo e recebeu outro golpe, dessa vez atingindo-lhe a têmpora esquerda. Ninguém moveu um membro ou esboçou alguma reação. Nada.
Olhou para o próprio peito, onde abrigava uma camisa amarrotada de coloração vinho e a viu ficando ainda mais vinho. Estava sangrando. Voltou o rosto para cima e levantou os braços, obstruindo a passagem de um terceiro ataque.
Levantou-se e olhou para os olhos do seu agressor, que gargalhava enquanto atingia-lhe os braços com os pulsos encobertos por uma fina luva de motorista.
Uma gota de sangue escorreu de seu rosto e atingiu a manga da camisa, contraiu o ombro direito e, em seguida, esticou o braço, em um movimento cruzado, cortando o ar na direção da face do motorista. Lembrou-se dos dias de glória, dos bares e das festanças, quando algum de seus amigos participava de alguma briga por engano.
O motorista tropeçou para trás, devido o golpe que lhe fora dado no queixo e caiu zonzo.
- "Os dias passaram rápido demais, não houve tempo suficiente para treinar" - pensou, enquanto via um corpo vinho e de calças sociais voando na sua direção, pronto para esbofeteá-lo por mais alguns segundos.
Soltando um grito de ajuda, quase ordenando, se encolheu cobrindo o rosto com as mãos e encolhendo os joelhos na direção do peito, em posição fetal.
- "Alguém faça alguma coisa!"
Dante soltou uma risada e esticou as mãos na direção da jaqueta jeans do motorista. Piscou depressa para retirar um cisco do olho e disse:
- "Eu nem sei o que está acontecendo aqui! O senhor levantou do seu posto, perguntou meu nome, me deu alguns socos e ninguém na droga desse ônibus fez porcaria nenhuma, mas que droga de mundo é esse em que vivemos? Olha para todas estas pessoas aqui!" - disse apontando para todos e percebendo que todos o encaravam de volta, sentiu um leve calafrio. Dando um soco na face do motorista, continuou:
- "Venham e façam alguma coisa!"
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- Lágrimas de Gasolina
terça-feira, 21 de julho de 2015
O Ônibus 3.85 #2 - Sem Futuro
Igor estava brincando no jardim quando sua mãe bateu na parede e fez sinal para que entrasse.
Correu em direção à humilde casinha da viúva, chorando, quase implorando para não ser esbofeteado.
Chorou em vão, pois quando cruzou o batente, sua mãe já estava em pé sobre o tapete da sala, trajando um vestido azul claro, um avental que escorria até os joelhos e em uma das mãos, uma longa e grossa cinta de seu falecido marido.
O garoto apanhou como um cachorro naquele dia. Igor estava no auge de seus 12 anos e já havia apanhado mais que qualquer outro garoto da rua, mas disso o pobre garoto não sabia, pois não conversava com as outras crianças, afinal, sua mãe não permitia que saísse para brincar.
Quando a mãe o soltou, correu pelo piso de madeira, com o rosto inchado de tanto gritar e chorar. Não entendeu o porquê daquelas cintadas desferidas contra seu corpo. Na verdade, Igor nunca compreendeu nenhuma das punições dadas pela mãe, ela nunca lhe disse uma simples palavra, seja de aprovação ou de censura, se a mãe permitisse que ele fosse à escola, provavelmente Igor poderia supor que o caso dela tratava-se de uma deficiência auditiva e que nunca aprendera a falar.
Enrolou a cinta e jogou sobre a velha poltrona. O garoto estava encostado no canto escuro da sala ao lado de uma peça rústica, que compunha parte da decoração da casa, seguiu sua mãe com os olhos, que caminharam em direção à mesa de jantar. O cheiro de carne moída com molho de tomate impregnava o ar e adentrava as narinas do garoto, sua barriga estava roncando.
Apanhando um pequeno sino de estanho, descansado sobre a mesa, e fazendo-o tilintar, a mulher deu sinal para que aqueles que jaziam na casa se aproximassem para o jantar.
O garoto deu alguns passos sobre o piso de madeira que seguia até a sala de jantar, caminhando, com os pés ainda sujos de terra, na direção da mesa. Puxou uma cadeira e se sentou. Sua mãe estava sentada logo à frente, com as mãos cobrindo parte do rosto e proferindo sons ininteligíveis em voz rouca e baixa. O garoto abaixou a cabeça e fez o mesmo, se pondo a orar sem saber, conversando com uma entidade da qual nunca ouvira falar e nem saber do por que de fazê-lo.
Tinha muitas perguntas não respondidas, que eram apenas saciadas pela sua vã imaginação somadas a sua visão de mundo infantil e sem embasamento familiar. Para ele, o mundo se resumia ao quintal de sua casa, sua mãe e os pássaros que voavam por cima do muro.
Estes momentos antes das refeições tinham um brilho intenso de reflexão e autoconhecimento que Igor jamais se daria liberdade de calcular, assim, os fazendo, simplesmente porque gostava da sensação e nunca se dando ao trabalho de questionar, seja a si ou a sua mãe.
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- Lágrimas de Gasolina
Correu em direção à humilde casinha da viúva, chorando, quase implorando para não ser esbofeteado.
Chorou em vão, pois quando cruzou o batente, sua mãe já estava em pé sobre o tapete da sala, trajando um vestido azul claro, um avental que escorria até os joelhos e em uma das mãos, uma longa e grossa cinta de seu falecido marido.
O garoto apanhou como um cachorro naquele dia. Igor estava no auge de seus 12 anos e já havia apanhado mais que qualquer outro garoto da rua, mas disso o pobre garoto não sabia, pois não conversava com as outras crianças, afinal, sua mãe não permitia que saísse para brincar.
Quando a mãe o soltou, correu pelo piso de madeira, com o rosto inchado de tanto gritar e chorar. Não entendeu o porquê daquelas cintadas desferidas contra seu corpo. Na verdade, Igor nunca compreendeu nenhuma das punições dadas pela mãe, ela nunca lhe disse uma simples palavra, seja de aprovação ou de censura, se a mãe permitisse que ele fosse à escola, provavelmente Igor poderia supor que o caso dela tratava-se de uma deficiência auditiva e que nunca aprendera a falar.
Enrolou a cinta e jogou sobre a velha poltrona. O garoto estava encostado no canto escuro da sala ao lado de uma peça rústica, que compunha parte da decoração da casa, seguiu sua mãe com os olhos, que caminharam em direção à mesa de jantar. O cheiro de carne moída com molho de tomate impregnava o ar e adentrava as narinas do garoto, sua barriga estava roncando.
Apanhando um pequeno sino de estanho, descansado sobre a mesa, e fazendo-o tilintar, a mulher deu sinal para que aqueles que jaziam na casa se aproximassem para o jantar.
O garoto deu alguns passos sobre o piso de madeira que seguia até a sala de jantar, caminhando, com os pés ainda sujos de terra, na direção da mesa. Puxou uma cadeira e se sentou. Sua mãe estava sentada logo à frente, com as mãos cobrindo parte do rosto e proferindo sons ininteligíveis em voz rouca e baixa. O garoto abaixou a cabeça e fez o mesmo, se pondo a orar sem saber, conversando com uma entidade da qual nunca ouvira falar e nem saber do por que de fazê-lo.
Tinha muitas perguntas não respondidas, que eram apenas saciadas pela sua vã imaginação somadas a sua visão de mundo infantil e sem embasamento familiar. Para ele, o mundo se resumia ao quintal de sua casa, sua mãe e os pássaros que voavam por cima do muro.
Estes momentos antes das refeições tinham um brilho intenso de reflexão e autoconhecimento que Igor jamais se daria liberdade de calcular, assim, os fazendo, simplesmente porque gostava da sensação e nunca se dando ao trabalho de questionar, seja a si ou a sua mãe.
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- Lágrimas de Gasolina
sexta-feira, 17 de julho de 2015
Ensaio para um Mundo Melhor
Fizeram algumas marcas no chão, como se estivessem se preparando para algo.
Um dos participantes tropeçou, atingindo o solo e foi assim que tudo começou.
A platéia soltou um grito de dor, cantarolando com a sonoridade do baque feito pela colisão entre o palco e o rapaz.
Um dos participantes saiu de posição e se pôs a ajudar o companheiro. Parou ao seu lado e estendeu uma das mãos.
Ouviu-se alguém gritar ao fundo:
-Meu deus! Que lindo!
O ator caído levantou uma das mãos e agarrou o braço do companheiro de palco, que o ajudou a levantar, contraindo os ombros.
A platéia estava eufórica. Alguns gritavam, enquanto outros estavam em pé, batendo palmas.
Os dois amigos, de mãos dadas e levantadas para que todos pudessem ver, estavam no centro do palco e completamente iluminados pelo show de luzes que o palco proporcionava.
Todos lutavam para ver o que acontecia, não queriam perder um segundo daquele sentimento que absorviam dos atores.
Por fim, o rapaz dirigiu uma das mãos ao bolso e dele tirou uma flor, entregando ao companheiro, que aceitou de bom grado, expressando a completa e fugaz sensação de ajudar alguém.
A platéia delirou por alguns segundos, bateram palmas, assoviaram, bateram nas cadeiras e assoviaram mais um pouco.
As cortinas se fecharam.
Apagaram as luzes.
Os rapazes soltaram as mãos.
Um deles amassou a flor e jogou no chão escuro.
Removeram as marcas do chão.
Era apenas um ensaio.
- Lágrimas de Gasolina
Um dos participantes tropeçou, atingindo o solo e foi assim que tudo começou.
A platéia soltou um grito de dor, cantarolando com a sonoridade do baque feito pela colisão entre o palco e o rapaz.
Um dos participantes saiu de posição e se pôs a ajudar o companheiro. Parou ao seu lado e estendeu uma das mãos.
Ouviu-se alguém gritar ao fundo:
-Meu deus! Que lindo!
O ator caído levantou uma das mãos e agarrou o braço do companheiro de palco, que o ajudou a levantar, contraindo os ombros.
A platéia estava eufórica. Alguns gritavam, enquanto outros estavam em pé, batendo palmas.
Os dois amigos, de mãos dadas e levantadas para que todos pudessem ver, estavam no centro do palco e completamente iluminados pelo show de luzes que o palco proporcionava.
Todos lutavam para ver o que acontecia, não queriam perder um segundo daquele sentimento que absorviam dos atores.
Por fim, o rapaz dirigiu uma das mãos ao bolso e dele tirou uma flor, entregando ao companheiro, que aceitou de bom grado, expressando a completa e fugaz sensação de ajudar alguém.
A platéia delirou por alguns segundos, bateram palmas, assoviaram, bateram nas cadeiras e assoviaram mais um pouco.
As cortinas se fecharam.
Apagaram as luzes.
Os rapazes soltaram as mãos.
Um deles amassou a flor e jogou no chão escuro.
Removeram as marcas do chão.
Era apenas um ensaio.
- Lágrimas de Gasolina
quarta-feira, 1 de julho de 2015
O Ônibus 3.85 #1 - Fim da Linha
Fez um daqueles barulhos de gás escapando, como se alguma coisa estivesse com defeito, e parou.
Um bêbado caminhou em direção a entrada do ônibus, apoiou-se na porta traseira e puxou o próprio corpo contra a escada.
Entrou sem pagar, como de costume. Ninguém falou nada, nem mesmo o cobrador.
Sentou-se em uma das cadeiras, olhou para o lado e viu um rosto cinza. Eram nove horas da manhã.
A face não fizera questão de se mover, seus olhos cerrados, quase mortos, somados a uma boca cinza e sem vida. Bocejou.
Assustado, levantou-se, cuidadosamente, e mudou para o assento de trás. A face não ousou observar sua movimentação, permanecendo apático, admirando a rua com seus olhos sonolentos.
Sentou-se próximo a janela e o ônibus começou a se mover. Ainda estava zonzo devido à noite de ontem, que passara no bar. Encostou a cabeça no vidro e tentou lembrar.
Chegou às dez horas da noite anterior, encontrou alguns amigos, caminhou até o bar, pediu algumas doses e acordou recostado no meio fio. Levantou-se, caminhou até o ponto.
Bateu a cabeça no vidro, o ônibus passara sobre uma lombada, voltou a si. Olhou em volta e notou que cada vez mais assentos ocupados, alguns estavam em pé, todos mantinham a mesma expressão vazia, acinzentada. Olhou para o outro lado do ônibus, viu uma garota uniformizada, estava apoiada, encarando o lado de fora, como um animal em uma jaula, que encara seus espectadores.
Decidiu mudar de lugar e se sentar ao lado da garota. Realizou a proeza entre as chacoalhadas do ônibus para que ninguém notasse a sua movimentação. Só estava preocupado em não ser notado, enquanto os outros passageiros nem faziam questão de se preocupar. Colocou o pé direito no corredor do ônibus e em seguida pulou para o assento vazio ao lado da estudante. Ninguém percebeu.
Acomodou-se na cadeira e admirou, por alguns segundos, o acolchoado traseiro do banco à sua frente. Olhou para baixo, analisou as próprias roupas, suas mãos azuis sobre o colo e suas pernas tensionadas, não se sentia mais anestesiado pelo efeito da bebida e da noite mal dormida. Virou o rosto para a direita, em direção a garota, esticou os dedos sobre o ombro da jovem e cutucou.
A garota não se moveu, nem reagiu ao impacto do dedo contra o ombro, o único movimento notável provinha de seus cabelos castanho-escuros, que se movimentavam devido à brisa que adentrava pela janela, possibilitando ver apenas parte de seu rosto adormecido e apático.
Olhos congelados. Não admiravam a paisagem, olhavam fixamente para o próprio reflexo, impressionados e arregalados, como os de quem vê um fantasma refletido no espelho.
Levantou o pescoço, se levantando e apoiando as mãos sobre a cadeira da frente, tentou notar algo de estranho naquele ônibus, algo que não tivesse notado antes, que passara em branco.
Foi quando se lembrou das feições. Todos olhavam pela janela, mas não admiravam a paisagem. O que eles observavam com tanta intensidade eram os próprios reflexos. Estavam tão extasiados pela própria aparência refletida que não conseguiam desviar o olhar.
Notou que nem todos tinham olhos impressionados, alguns estavam com os olhos entreabertos, como os olhos de alguém que assiste ao mesmo programa de televisão durante horas sem poder mudar de canal.
Estava pasmo. Estava enlouquecendo, pensou, apoiando-se e voltando a se sentar em seguida. Percebeu que os ares estavam esfriando, mesmo que pudesse sentir a brisa provinda das janelas do ônibus em movimento, sabia que a repentina queda de temperatura não se tratava de um fator ambiental, muito menos natural.
O ônibus parou, ressonando aquele som gaseificado. Trombou o peito contra a cadeira da frente, os outros passageiros dançaram um pouco, mas se recolocaram na posição anterior logo em seguida.
O bêbado começou a ficar inquieto, estava tudo muito estranho. Colocou a cabeça no corredor e pôde ver, por entre os corpos cinza, que ocupavam o ônibus, uma movimentação vinda da cabine do motorista, que se levantara e vinha caminhando, lentamente, desviando dos corpos paralisados. Parou a duas poltronas de distancia, apontou e disse:
- "Que raios você está fazendo aqui?"
O rapaz, não mais embriagado, já aflito, ficou ainda mais angustiado. Não sabia se o motorista falava do dinheiro da passagem, aquele que não fora pago, ou se referia a alguma outra coisa. Por que ele sairia de seu posto e levantaria justamente agora, 15 pontos depois de sua entrada, parando o ônibus e adiando os compromissos dos outros passageiros, apenas para lhe dar uma bronca?
- "Você pegou o ônibus errado, meu amigo. Sugiro que saia. Agora!"
Continua
- Lágrimas de Gasolina
Um bêbado caminhou em direção a entrada do ônibus, apoiou-se na porta traseira e puxou o próprio corpo contra a escada.
Entrou sem pagar, como de costume. Ninguém falou nada, nem mesmo o cobrador.
Sentou-se em uma das cadeiras, olhou para o lado e viu um rosto cinza. Eram nove horas da manhã.
A face não fizera questão de se mover, seus olhos cerrados, quase mortos, somados a uma boca cinza e sem vida. Bocejou.
Assustado, levantou-se, cuidadosamente, e mudou para o assento de trás. A face não ousou observar sua movimentação, permanecendo apático, admirando a rua com seus olhos sonolentos.
Sentou-se próximo a janela e o ônibus começou a se mover. Ainda estava zonzo devido à noite de ontem, que passara no bar. Encostou a cabeça no vidro e tentou lembrar.
Chegou às dez horas da noite anterior, encontrou alguns amigos, caminhou até o bar, pediu algumas doses e acordou recostado no meio fio. Levantou-se, caminhou até o ponto.
Bateu a cabeça no vidro, o ônibus passara sobre uma lombada, voltou a si. Olhou em volta e notou que cada vez mais assentos ocupados, alguns estavam em pé, todos mantinham a mesma expressão vazia, acinzentada. Olhou para o outro lado do ônibus, viu uma garota uniformizada, estava apoiada, encarando o lado de fora, como um animal em uma jaula, que encara seus espectadores.
Decidiu mudar de lugar e se sentar ao lado da garota. Realizou a proeza entre as chacoalhadas do ônibus para que ninguém notasse a sua movimentação. Só estava preocupado em não ser notado, enquanto os outros passageiros nem faziam questão de se preocupar. Colocou o pé direito no corredor do ônibus e em seguida pulou para o assento vazio ao lado da estudante. Ninguém percebeu.
Acomodou-se na cadeira e admirou, por alguns segundos, o acolchoado traseiro do banco à sua frente. Olhou para baixo, analisou as próprias roupas, suas mãos azuis sobre o colo e suas pernas tensionadas, não se sentia mais anestesiado pelo efeito da bebida e da noite mal dormida. Virou o rosto para a direita, em direção a garota, esticou os dedos sobre o ombro da jovem e cutucou.
A garota não se moveu, nem reagiu ao impacto do dedo contra o ombro, o único movimento notável provinha de seus cabelos castanho-escuros, que se movimentavam devido à brisa que adentrava pela janela, possibilitando ver apenas parte de seu rosto adormecido e apático.
Olhos congelados. Não admiravam a paisagem, olhavam fixamente para o próprio reflexo, impressionados e arregalados, como os de quem vê um fantasma refletido no espelho.
Levantou o pescoço, se levantando e apoiando as mãos sobre a cadeira da frente, tentou notar algo de estranho naquele ônibus, algo que não tivesse notado antes, que passara em branco.
Foi quando se lembrou das feições. Todos olhavam pela janela, mas não admiravam a paisagem. O que eles observavam com tanta intensidade eram os próprios reflexos. Estavam tão extasiados pela própria aparência refletida que não conseguiam desviar o olhar.
Notou que nem todos tinham olhos impressionados, alguns estavam com os olhos entreabertos, como os olhos de alguém que assiste ao mesmo programa de televisão durante horas sem poder mudar de canal.
Estava pasmo. Estava enlouquecendo, pensou, apoiando-se e voltando a se sentar em seguida. Percebeu que os ares estavam esfriando, mesmo que pudesse sentir a brisa provinda das janelas do ônibus em movimento, sabia que a repentina queda de temperatura não se tratava de um fator ambiental, muito menos natural.
O ônibus parou, ressonando aquele som gaseificado. Trombou o peito contra a cadeira da frente, os outros passageiros dançaram um pouco, mas se recolocaram na posição anterior logo em seguida.
O bêbado começou a ficar inquieto, estava tudo muito estranho. Colocou a cabeça no corredor e pôde ver, por entre os corpos cinza, que ocupavam o ônibus, uma movimentação vinda da cabine do motorista, que se levantara e vinha caminhando, lentamente, desviando dos corpos paralisados. Parou a duas poltronas de distancia, apontou e disse:
- "Que raios você está fazendo aqui?"
O rapaz, não mais embriagado, já aflito, ficou ainda mais angustiado. Não sabia se o motorista falava do dinheiro da passagem, aquele que não fora pago, ou se referia a alguma outra coisa. Por que ele sairia de seu posto e levantaria justamente agora, 15 pontos depois de sua entrada, parando o ônibus e adiando os compromissos dos outros passageiros, apenas para lhe dar uma bronca?
- "Você pegou o ônibus errado, meu amigo. Sugiro que saia. Agora!"
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- Lágrimas de Gasolina
segunda-feira, 29 de junho de 2015
A Curiosidade Matou o Gato
O que?
Então quer dizer que não posso mais pensar?
Novamente?
Vamos fazer assim: Você fica com os teus pecados e eu fico com os meus!
Você guarda os teus defeitos e eu enfrento os meus!
Que tal eu pegar meus demônios e leva-los comigo para a igreja?
Eles iriam me apedrejar em praça publica!
Chamem as mulheres do passado e diga-as para que não lutem pelo que querem.
Diga aos negros que não deveriam ter atingido o patamar de seres humanos.
Vai lá, volta! Regresse!
"Mas cara, isso esta errado, todos o dizem. Algo de errado deve haver!"
Cale a sua boca seu pedaço de rocha imutável.
Atire em todas as direções. Existem alvos que não conseguimos ver.
Eles estão disfarçados de tabus e crimes.
Traga Satan, traga os Homens-bomba, traga o Egoísmo, o Preconceito, a Autodefesa.
Eu digo para os meus filhos serem livres!
Venham comigo crianças, carreguem teus fuzis e apontem para o inalvejavel. Atirem!
Acertem alvos jamais imaginados.
Prever é o mesmo que deixar de prever.
Se prender a previsões é o pior de todos os pecados!
A curiosidade não matou o gato! A curiosidade é a verdadeira vitima e ela não foi simplesmente morta!
Ela foi espancada e estuprada, esquartejada e posta dentro de um moedor de carne.
Seu autor? A comodidade de acreditar cegamente naquilo que te contaram.
Então, você leu em um livro que o que eu ando fazendo deve ser rotulado como errado?
Bom, eu li em vários livros, inclusive no teu, vivenciei e experimentei. Minhas experiências gritam que estou certo!
O chão sob meus pés diz que não devo sossegar!
A curiosidade deve agir como uma força da natureza, indomável e destruidora. Destruidora de filosofias.
Quer saber o que eu sou para a tua filosofia?
Eu sou um maço de cigarros! Sim, isso mesmo!
Estou explicitamente gritando o quão tóxico posso ser para ela, mas no fim das contas, quando você me tragar, sentirá um êxtase e uma calma tão profunda que quando menos perceber, estará viciado!
E no final, assassinarei tua vã filosofia!
-Lágrimas de Gasolina
Então quer dizer que não posso mais pensar?
Novamente?
Vamos fazer assim: Você fica com os teus pecados e eu fico com os meus!
Você guarda os teus defeitos e eu enfrento os meus!
Que tal eu pegar meus demônios e leva-los comigo para a igreja?
Eles iriam me apedrejar em praça publica!
Chamem as mulheres do passado e diga-as para que não lutem pelo que querem.
Diga aos negros que não deveriam ter atingido o patamar de seres humanos.
Vai lá, volta! Regresse!
"Mas cara, isso esta errado, todos o dizem. Algo de errado deve haver!"
Cale a sua boca seu pedaço de rocha imutável.
Atire em todas as direções. Existem alvos que não conseguimos ver.
Eles estão disfarçados de tabus e crimes.
Traga Satan, traga os Homens-bomba, traga o Egoísmo, o Preconceito, a Autodefesa.
Eu digo para os meus filhos serem livres!
Venham comigo crianças, carreguem teus fuzis e apontem para o inalvejavel. Atirem!
Acertem alvos jamais imaginados.
Prever é o mesmo que deixar de prever.
Se prender a previsões é o pior de todos os pecados!
A curiosidade não matou o gato! A curiosidade é a verdadeira vitima e ela não foi simplesmente morta!
Ela foi espancada e estuprada, esquartejada e posta dentro de um moedor de carne.
Seu autor? A comodidade de acreditar cegamente naquilo que te contaram.
Então, você leu em um livro que o que eu ando fazendo deve ser rotulado como errado?
Bom, eu li em vários livros, inclusive no teu, vivenciei e experimentei. Minhas experiências gritam que estou certo!
O chão sob meus pés diz que não devo sossegar!
A curiosidade deve agir como uma força da natureza, indomável e destruidora. Destruidora de filosofias.
Quer saber o que eu sou para a tua filosofia?
Eu sou um maço de cigarros! Sim, isso mesmo!
Estou explicitamente gritando o quão tóxico posso ser para ela, mas no fim das contas, quando você me tragar, sentirá um êxtase e uma calma tão profunda que quando menos perceber, estará viciado!
E no final, assassinarei tua vã filosofia!
-Lágrimas de Gasolina
quarta-feira, 17 de junho de 2015
Garantia
Eu só queria uma garantia.
"Por que esse apelo por segurança, por que agora?"
"Você tenta fazê-la segura o tempo todo, afinal, não é você quem realmente está implorando por segurança? Por que está se desculpando de novo?"
"Para com isso. Erga esse rosto inchado pelo choro e lute. Faça a droga dos teus planos, desgraçado. É de você de quem eles dependem e serão eles quem irão te acolher pro resto da tua vida. Aqueles que te amam que te acompanhem, porra!"
Não é tão simples. Nunca é. As coisas poderiam ser mais simples.
"Não, não poderiam, seu idiota. Se fossem simples você não teria se apaixonado. O que aconteceu com a aquele teu ódio pela simploriedade? Para onde foi? Por que agora o abraça como se fosse a unica salvação? Por que você não vai lá e diz que a ama? Vá e leve algumas flores, pois vai precisar."
Não é tão simples e não deve ser.
"Por que você não volta pro teu banho e abaixa a cabeça, como sempre fez?"
Não é tão simples.
Você não me entende. Eu quero pular na frente de tudo e lutar, construir uma barricada e um império atrás daquilo, mas isso não faz sentido, pois são essas coisas que a distancia de mim.
"Como assim, você está se desculpando de novo? Vá e o faça, porra!"
"Você quer tudo, mas quer que ela esteja lá, junto contigo. Então vá e faça. Faça dar certo! Qual é a porra do problema? Está se sentindo sobrecarregado, é? Pare de achar que as coisas precisam de explicação. O que falta pra você?"
Nada. Não falta nada.
"Então, por que não começa?"
Garantia.
- Lágrimas de Gasolina
"Por que esse apelo por segurança, por que agora?"
"Você tenta fazê-la segura o tempo todo, afinal, não é você quem realmente está implorando por segurança? Por que está se desculpando de novo?"
"Para com isso. Erga esse rosto inchado pelo choro e lute. Faça a droga dos teus planos, desgraçado. É de você de quem eles dependem e serão eles quem irão te acolher pro resto da tua vida. Aqueles que te amam que te acompanhem, porra!"
Não é tão simples. Nunca é. As coisas poderiam ser mais simples.
"Não, não poderiam, seu idiota. Se fossem simples você não teria se apaixonado. O que aconteceu com a aquele teu ódio pela simploriedade? Para onde foi? Por que agora o abraça como se fosse a unica salvação? Por que você não vai lá e diz que a ama? Vá e leve algumas flores, pois vai precisar."
Não é tão simples e não deve ser.
"Por que você não volta pro teu banho e abaixa a cabeça, como sempre fez?"
Não é tão simples.
Você não me entende. Eu quero pular na frente de tudo e lutar, construir uma barricada e um império atrás daquilo, mas isso não faz sentido, pois são essas coisas que a distancia de mim.
"Como assim, você está se desculpando de novo? Vá e o faça, porra!"
"Você quer tudo, mas quer que ela esteja lá, junto contigo. Então vá e faça. Faça dar certo! Qual é a porra do problema? Está se sentindo sobrecarregado, é? Pare de achar que as coisas precisam de explicação. O que falta pra você?"
Nada. Não falta nada.
"Então, por que não começa?"
Garantia.
- Lágrimas de Gasolina
segunda-feira, 8 de junho de 2015
sábado, 23 de maio de 2015
Souvenires
Então, no fim das contas devo ser influente.
Disseram que a tomada do sucesso profissional caminha pelo vale da influencia.
Influenciar os outros a acreditar nas minhas mentiras, é isso?
Será que o sucesso pessoal dá as mãos à realização profissional?
Eu não acredito nisso e desacredito, ainda mais, nas pessoas que acreditam nisso.
Não anseio por poder, embora me apeteça a ideia de comandar e dominar. Isso deve ser alguma falha da minha humanidade. Este anseio pelo controle.
Todos somos controladores, por isso prezamos tanto pelo autocontrole.
Acredito que haja algo mais.
É claro que eu adoraria ter imensuráveis posses ou quaisquer outros bens materiais, não sou nenhum hipócrita para negar tal coisa.
O sucesso pessoal é mais abrangente, mais profundo, por assim dizer. Acredito que a influencia possa até ser importante ferramenta em determinados casos, mas somente a compreensão é o que realmente deve ser levado em conta.
Compreender, ser empático, se por no lugar de outrem, ou melhor, no meu próprio lugar num determinado contexto.
Compreender o que fora feito e o por que de tê-lo feito.
Relevar a inexperiência, ou melhor, compreende-la.
Lidar com os erros como a bagagem de uma longa viagem, que começa com malas vazias e que se enchem com o decorrer. Caminhar sem arrependimentos.
Enfrentaremos rios ou, quem sabe, mares de impasses ao decorrer desta caminhada.
Pararemos em cada barraquinha de souvenires desta viagem e compraremos os chamados erros, compreenderemos o por que de ter lhes pagado tais preços e os carregaremos com orgulho.
Os mostraremos aos nossos filhos e diremos que existem souvenires mais em conta, mas nunca os pagaremos para eles, pois não podemos. Podemos apenas dizer.
E no final das contas, poderemos olhar pelos espelhos do passado durante as noites mal dormidas, olhar com satisfação e orgulho e, assim, voltar a dormir.
E voltei a dormir.
- Lágrimas de Gasolina
Disseram que a tomada do sucesso profissional caminha pelo vale da influencia.
Influenciar os outros a acreditar nas minhas mentiras, é isso?
Será que o sucesso pessoal dá as mãos à realização profissional?
Eu não acredito nisso e desacredito, ainda mais, nas pessoas que acreditam nisso.
Não anseio por poder, embora me apeteça a ideia de comandar e dominar. Isso deve ser alguma falha da minha humanidade. Este anseio pelo controle.
Todos somos controladores, por isso prezamos tanto pelo autocontrole.
Acredito que haja algo mais.
É claro que eu adoraria ter imensuráveis posses ou quaisquer outros bens materiais, não sou nenhum hipócrita para negar tal coisa.
O sucesso pessoal é mais abrangente, mais profundo, por assim dizer. Acredito que a influencia possa até ser importante ferramenta em determinados casos, mas somente a compreensão é o que realmente deve ser levado em conta.
Compreender, ser empático, se por no lugar de outrem, ou melhor, no meu próprio lugar num determinado contexto.
Compreender o que fora feito e o por que de tê-lo feito.
Relevar a inexperiência, ou melhor, compreende-la.
Lidar com os erros como a bagagem de uma longa viagem, que começa com malas vazias e que se enchem com o decorrer. Caminhar sem arrependimentos.
Enfrentaremos rios ou, quem sabe, mares de impasses ao decorrer desta caminhada.
Pararemos em cada barraquinha de souvenires desta viagem e compraremos os chamados erros, compreenderemos o por que de ter lhes pagado tais preços e os carregaremos com orgulho.
Os mostraremos aos nossos filhos e diremos que existem souvenires mais em conta, mas nunca os pagaremos para eles, pois não podemos. Podemos apenas dizer.
E no final das contas, poderemos olhar pelos espelhos do passado durante as noites mal dormidas, olhar com satisfação e orgulho e, assim, voltar a dormir.
E voltei a dormir.
- Lágrimas de Gasolina
quinta-feira, 14 de maio de 2015
Como o Vento
Existe um espirito?
Se existe ei de escrever sobre!
Por que escrever a respeito de algo que não posso tocar?
Se posso senti-lo, posso traduzi-lo em letras? Ou quem sabe... Pelo menos tentar.
Hoje foi uma das vezes em que senti a chamada paz de espirito.
Uma arvore retorcida logo ali.
Um caminho que acabasse em um sinal fechado.
A falta de pressa, ou melhor, vontade de andar. Caminhar, apenas.
Ir logo ali e voltar.
Ficar em silencio.
Ficar quieto. Não me expressar.
Dizer o que sinto, mas não como.
Dizer o que fiz, mas não o porque.
Não dever satisfações, apenas estar satisfeito.
Os problemas vieram, ah, e como vieram. Vieram como a brisa, pois eu reagi como a brisa.
Não esbravejei e nem bati de frente. Não peguei um resfriado ou nada do tipo.
Simplesmente, dancei conforme a musica.
Duas massas de ar, vulneráveis, se tocando e girando, valseando pelo espaço da existencia.
Pregando por aquilo que faz mais sentido, pelo menos para a mim, para minha vida.
Fazendo a diferença sem impor nada. Sem dizer uma simples palavra.
Eles vieram, foram vistos, sem analise, e resolvidos. Os chamados problemas, os chamados impasses.
Passaram.
Esperei o sinal abrir. Não superei expectativas, pois não as criei. Fui contemplado por uma satisfação absoluta.
Como satisfazer aquilo que se não buscou sanar?
Isso é o espirito e é para isso que vivemos.
Eu não posso dizer qual é o sentido da vida, mas posso dizer qual é o meu sentido de existir.
Fazer a diferença pelo simples fato de existir.
Satisfazer o que não se busca sanar.
Não criar pretensões ou dilemas.
O vento contorna os muros, mas para que precisamos de muros, afinal?
- Lágrimas de Gasolina
Se existe ei de escrever sobre!
Por que escrever a respeito de algo que não posso tocar?
Se posso senti-lo, posso traduzi-lo em letras? Ou quem sabe... Pelo menos tentar.
Hoje foi uma das vezes em que senti a chamada paz de espirito.
Uma arvore retorcida logo ali.
Um caminho que acabasse em um sinal fechado.
A falta de pressa, ou melhor, vontade de andar. Caminhar, apenas.
Ir logo ali e voltar.
Ficar em silencio.
Ficar quieto. Não me expressar.
Dizer o que sinto, mas não como.
Dizer o que fiz, mas não o porque.
Não dever satisfações, apenas estar satisfeito.
Os problemas vieram, ah, e como vieram. Vieram como a brisa, pois eu reagi como a brisa.
Não esbravejei e nem bati de frente. Não peguei um resfriado ou nada do tipo.
Simplesmente, dancei conforme a musica.
Duas massas de ar, vulneráveis, se tocando e girando, valseando pelo espaço da existencia.
Pregando por aquilo que faz mais sentido, pelo menos para a mim, para minha vida.
Fazendo a diferença sem impor nada. Sem dizer uma simples palavra.
Eles vieram, foram vistos, sem analise, e resolvidos. Os chamados problemas, os chamados impasses.
Passaram.
Esperei o sinal abrir. Não superei expectativas, pois não as criei. Fui contemplado por uma satisfação absoluta.
Como satisfazer aquilo que se não buscou sanar?
Isso é o espirito e é para isso que vivemos.
Eu não posso dizer qual é o sentido da vida, mas posso dizer qual é o meu sentido de existir.
Fazer a diferença pelo simples fato de existir.
Satisfazer o que não se busca sanar.
Não criar pretensões ou dilemas.
O vento contorna os muros, mas para que precisamos de muros, afinal?
- Lágrimas de Gasolina
terça-feira, 12 de maio de 2015
Moscas
Largou a faca ensanguentada.
- "Olha esse apanhado de moscas que eu recolhi no jardim" - narrou para si mesmo - "estavam sobrevoando a estátua de mármore do meu pai." - Parou por um momento - "Algumas ainda estavam no corpo sem vida de minha mãe".
- "Melhor levá-las para dentro, não quero perder parte da herança que me deixaram" - pensou enquanto subia as escadas. Se trancou em seu quarto e as soltou enquanto trancava as janelas.
Por um momento, um aroma familiar se misturou com o cheiro de sangue e podridão que adentrava pelas frestas da janela.
-"É o cheiro da torta que mamãe deixou no forno" - falei para as moscas - "Está quase pronta" - completou assistindo-as dançar pelos ares.
- "Adoro o som que as moscas fazem quando estão prestes a morrer de velhice." - pensou - "Sua asas ficam pesadas e quando batem, quebram qualquer silêncio ou tentativa de paz. Poderia observá-las pelo resto da minha vida."
Uma das moscas voou em direção à porta, zumbindo pelo caminho tortuoso que fazia, atingiu uma das quatro paredes e aterrissou no chão, estava morta. Se aproximou da pequena criatura e estendeu o dedo indicador na direção daquela casca sem vida, tocou suas perninhas e as balançou um pouco, imaginou o que aconteceria se esmagasse seu cadáver, o som que faria e o sabor que teria. A pressionou com uma pequena quantidade de força e as periferias de seu dedo se preencheram com o muco amarronzado da criatura.
Observou a face manchada de seu dedo indicador e o correu até os lábios, o raspando contra seus dentes como um fazendeiro que raspa o estrume seco das botas contra uma pedra encravada no solo. No primeiro movimento da mandíbula, sentiu um pequeno estalido, no segundo, a deliciosa amargura da morte que dominava seus sentidos, e no terceiro, um terrível som ecoou pelos corredores, um ruido ensurdecido pelas paredes de madeira, semelhante à uma chaleira.
Quando destrancou a porta, as moscas voaram por cima de seus ombros, se deu conta da semelhança entre o som agudo que ouvia e o grito de alguma criança ranhosa.
- "Adoraria descer e afundar uma lâmina no peito de quem fosse que estivesse atrapalhando minha observação" - gritou para os corredores, no intuito de atingir os cômodos abaixo.
"Melhor não" - disseram as moscas.
"Isto pode ser interessante" - respondeu.
Correu pelo corredor enquanto sentia a presença do dia de verão e do sol do lado de fora, a maldita casa nunca esteve tão quente. Novamente, ecoou pelos cômodos, aquele grito infantilizado, desta vez não lhe restava dúvidas, era um pequeno resto de ser humano e estava do lado de fora, no térreo.
As moscas o seguiam como conseguiam, voando por entre seus membros apressados, focados em apanhar o objeto cortante que havia deixado do lado de fora e afundá-lo no peito daquela pobre e infeliz invasora.
"Isto é loucura, garoto!" - disse uma das moscas.
Por um instante, as moscas pousaram sobre os ombros do garoto quando este exitou para dar o próximo passo, parou e encarou a gigantesca porta que descansava imponente no fim do corredor.
Caminhou em sua direção, ignorando as nuvens embaçadas que passavam pelas frestas, o cheiro de torta estragada e a maçaneta incandescente.
Esticou os dedos, esquecendo-se completamente dos sequenciais gritos que o atraíram até ali e acariciou a maçaneta. Estava sedento para saber o que se escondia por detrás daquela tabua de madeira maciça. - "Poderia ser o próprio demonio respirando do outro lado?" - pensou, esboçando um sorriso. A maçaneta estava fervendo, mas sua curiosidade infantil jamais seria silenciada pelos sinais de perigo que seus instintos gritavam.
- "Abra-a, afinal, você não quer ver o que há do outro lado?" - cochichou uma das moscas.
- "É loucura, garoto! Saia daqui." - disse outra.
Girou o punho e a porta se abriu como se estivesse dominada, não pela força de seu punho, mas pela possessão de uma entidade catastrófica, uma entidade alimentada pela curiosidade.
Uma luz estrondosa adentrou suas retinas, sentiu as carícias de uma meretriz incandescente, que deslizava as mãos por seu rosto e ouviu pela ultima vez aquele grito agudo.
Sentou-se sobre uma cadeira de praia, sentiu o sol sobre seus ombros e as queimaduras subsequentes.
- Lágrimas de Gasolina
- "Olha esse apanhado de moscas que eu recolhi no jardim" - narrou para si mesmo - "estavam sobrevoando a estátua de mármore do meu pai." - Parou por um momento - "Algumas ainda estavam no corpo sem vida de minha mãe".
- "Melhor levá-las para dentro, não quero perder parte da herança que me deixaram" - pensou enquanto subia as escadas. Se trancou em seu quarto e as soltou enquanto trancava as janelas.
Por um momento, um aroma familiar se misturou com o cheiro de sangue e podridão que adentrava pelas frestas da janela.
-"É o cheiro da torta que mamãe deixou no forno" - falei para as moscas - "Está quase pronta" - completou assistindo-as dançar pelos ares.
- "Adoro o som que as moscas fazem quando estão prestes a morrer de velhice." - pensou - "Sua asas ficam pesadas e quando batem, quebram qualquer silêncio ou tentativa de paz. Poderia observá-las pelo resto da minha vida."
Uma das moscas voou em direção à porta, zumbindo pelo caminho tortuoso que fazia, atingiu uma das quatro paredes e aterrissou no chão, estava morta. Se aproximou da pequena criatura e estendeu o dedo indicador na direção daquela casca sem vida, tocou suas perninhas e as balançou um pouco, imaginou o que aconteceria se esmagasse seu cadáver, o som que faria e o sabor que teria. A pressionou com uma pequena quantidade de força e as periferias de seu dedo se preencheram com o muco amarronzado da criatura.
Observou a face manchada de seu dedo indicador e o correu até os lábios, o raspando contra seus dentes como um fazendeiro que raspa o estrume seco das botas contra uma pedra encravada no solo. No primeiro movimento da mandíbula, sentiu um pequeno estalido, no segundo, a deliciosa amargura da morte que dominava seus sentidos, e no terceiro, um terrível som ecoou pelos corredores, um ruido ensurdecido pelas paredes de madeira, semelhante à uma chaleira.
Quando destrancou a porta, as moscas voaram por cima de seus ombros, se deu conta da semelhança entre o som agudo que ouvia e o grito de alguma criança ranhosa.
- "Adoraria descer e afundar uma lâmina no peito de quem fosse que estivesse atrapalhando minha observação" - gritou para os corredores, no intuito de atingir os cômodos abaixo.
"Melhor não" - disseram as moscas.
"Isto pode ser interessante" - respondeu.
Correu pelo corredor enquanto sentia a presença do dia de verão e do sol do lado de fora, a maldita casa nunca esteve tão quente. Novamente, ecoou pelos cômodos, aquele grito infantilizado, desta vez não lhe restava dúvidas, era um pequeno resto de ser humano e estava do lado de fora, no térreo.
As moscas o seguiam como conseguiam, voando por entre seus membros apressados, focados em apanhar o objeto cortante que havia deixado do lado de fora e afundá-lo no peito daquela pobre e infeliz invasora.
"Isto é loucura, garoto!" - disse uma das moscas.
Por um instante, as moscas pousaram sobre os ombros do garoto quando este exitou para dar o próximo passo, parou e encarou a gigantesca porta que descansava imponente no fim do corredor.
Caminhou em sua direção, ignorando as nuvens embaçadas que passavam pelas frestas, o cheiro de torta estragada e a maçaneta incandescente.
Esticou os dedos, esquecendo-se completamente dos sequenciais gritos que o atraíram até ali e acariciou a maçaneta. Estava sedento para saber o que se escondia por detrás daquela tabua de madeira maciça. - "Poderia ser o próprio demonio respirando do outro lado?" - pensou, esboçando um sorriso. A maçaneta estava fervendo, mas sua curiosidade infantil jamais seria silenciada pelos sinais de perigo que seus instintos gritavam.
- "Abra-a, afinal, você não quer ver o que há do outro lado?" - cochichou uma das moscas.
- "É loucura, garoto! Saia daqui." - disse outra.
Girou o punho e a porta se abriu como se estivesse dominada, não pela força de seu punho, mas pela possessão de uma entidade catastrófica, uma entidade alimentada pela curiosidade.
Uma luz estrondosa adentrou suas retinas, sentiu as carícias de uma meretriz incandescente, que deslizava as mãos por seu rosto e ouviu pela ultima vez aquele grito agudo.
Sentou-se sobre uma cadeira de praia, sentiu o sol sobre seus ombros e as queimaduras subsequentes.
- Lágrimas de Gasolina
sábado, 21 de março de 2015
terça-feira, 17 de março de 2015
Liberália, a cidade dos Perplexos e Apáticos
As observo de longe.
Um sonho estranho, diferente.
Elas estão se matando, gritando alguma bobagem.
O chão está diferente, uma escuridão amortecida sob os pés das mais variadas faces.
Faces alongadas, faces quadradas e faces redondas. Juntas, gritando como crianças famintas.
Uma voz me pergunta:
"Onde está você?"
Estou aqui em cima, sentado. Apático, imóvel.
Como pude deixar tudo isso acontecer? A culpa é mesmo minha?
A voz responde:
"Como pôde? Como pôde?"
Levanto-me e sinto como se um tijolo atingisse o meu abdome. Não estou preparado.
Alguns deles estão tentando escalar a montanha, vejo-os escalando o abismo sob meus pés.
Estão querendo me pegar novamente, querem me levar para baixo, porém não o farão, pois não o permitirei.
Um deles agarra meu pé esquerdo. Forçando-me a sentar novamente.
Penso em chuta-lo, mas não o farei
Já os chutei certa vez e quando menos percebi estava gritando alguma bobagem adentrado ao abismo.
Uma segunda face agarra meu pé direito. Não cederei.
Não os balanço para que se soltem, apenas firmo os pés no chão.
Um deles grunhe:
"Você é um humano!"
O outro concorda e grunhe em resposta:
"Ele tem razão, seu humano!"
Um humano faria isso? Deixaria o mundo ruir? Ser humano é ser humano? O que é ser humano, afinal?
Estendo uma das mãos para uma das faces.
Venha aqui e sente-se ao meu lado.
Veja as coisas como são.
Ela estapeia a minha mão, recuo. Controlo a vontade de chuta-la e apanho teu punho à força.
Sento-a ao meu lado e assistindo a toda a existência, sua feição se transforma em perplexidade, em seguida começa apresentar indícios de apatia.
Agarro o punho da outra, ela se contorce, gritando:
"Não, não! Eu não quero!"
Sento-a e sua atitude é a mesma da outra. Perplexidade. Apatia.
Estão escalando!
Continuam escalando!
Será uma longa pescaria, senhores!
O melhor será que, no final, não restará nenhuma face no abismo, apenas uma montanha superpopulosa, cheia de observadores apáticos e perplexos.
E não haverá mais nada para se observar, exceto o horizonte.
-Lágrimas de Gasolina
Sento-a ao meu lado e assistindo a toda a existência, sua feição se transforma em perplexidade, em seguida começa apresentar indícios de apatia.
Agarro o punho da outra, ela se contorce, gritando:
"Não, não! Eu não quero!"
Sento-a e sua atitude é a mesma da outra. Perplexidade. Apatia.
Estão escalando!
Continuam escalando!
Será uma longa pescaria, senhores!
O melhor será que, no final, não restará nenhuma face no abismo, apenas uma montanha superpopulosa, cheia de observadores apáticos e perplexos.
E não haverá mais nada para se observar, exceto o horizonte.
-Lágrimas de Gasolina
terça-feira, 10 de março de 2015
Discurso de ódio
Querem saber de uma coisa?
Pra mim chega.
Eu não sou mais aquela criança que concordava com tudo, que acenava para um corpo morto no meio fio, que sorria para um filho da puta que não sabe a menor ideia do que está dizendo.
Quer saber de outra coisa?
Eu estou com raiva. Estou angustiadamente com raiva, nesse momento eu gostaria de ter presas de aço para devorar a carne desses desgraçados e depois cuspi-las nos pais incompetentes que criaram estes babacas.
E digo mais.
Estou perdendo a minha flexibilidade, e digo isso a plenos pulmões pra quem quiser ouvir!
ESTOU PERDENDO A CAPACIDADE DE ACEITAR!
Não vou sorrir perante a injustiça.
Não vou bater palmas perante os corruptos, nem aceitar esta instalação que pretendem realizar.
Não, não sou nada disso do que você está pensando!
Minha mãe é uma santa e me deu a capacidade de discernir o que é certo do que é errado.
E corrupção, controle, dor e morte não são sinônimos de liberdade.
Eu vos convido a se libertarem!
Não para abusarem de uma libertinagem desmedida. Estou falando de uma opinião formada! Sem religiões, sem discursos, sem reis, nem deuses. Apenas homens! Homens no sentido integral antes que tentem me taxar.
Vos convido a experimentar da dor e do prazer que é ter o chão sob os teus pés. Ter em mente que as pessoas é quem podem mudar as coisas, ter em carne que possamos fazer algo a respeito!
Batam tuas panelas, façam tuas passeatas, fumem tuas maconhas nas calçadas, baforem na face das crianças, façam o que têm de fazer. Façam o que vocês acham correto!
Não abusem da liberdade! Não da liberdade que lhe foi dada, mas da liberdade pessoal. Do fardo de ser um ser pensante, capaz de discernir e modificar a realidade.
Matem, estuprem, ergam suas bandeiras, o mundo esta em guerra e a guerra os levará a autodestruição.
E quando vocês todos, sem exceção, estiverem a mercê de mim, Eu não juro pelo deus, no qual eu não acredito, mas eu juro por aqueles que me amam e me compreendem, que se eu tiver a oportunidade e vocês à mercê, eu ei de destruir cada fagulha da tua hipocrisia, como tentaram fazer comigo.
Isso é um discurso de ódio, sem duvida.
Adoraria poder amar a todos vocês, adoraria ter este dom messiânico, mas enquanto homem, com falhas e ambições, eu sinto ódio.
-Lágrimas de Gasolina
Pra mim chega.
Eu não sou mais aquela criança que concordava com tudo, que acenava para um corpo morto no meio fio, que sorria para um filho da puta que não sabe a menor ideia do que está dizendo.
Quer saber de outra coisa?
Eu estou com raiva. Estou angustiadamente com raiva, nesse momento eu gostaria de ter presas de aço para devorar a carne desses desgraçados e depois cuspi-las nos pais incompetentes que criaram estes babacas.
E digo mais.
Estou perdendo a minha flexibilidade, e digo isso a plenos pulmões pra quem quiser ouvir!
ESTOU PERDENDO A CAPACIDADE DE ACEITAR!
Não vou sorrir perante a injustiça.
Não vou bater palmas perante os corruptos, nem aceitar esta instalação que pretendem realizar.
Não, não sou nada disso do que você está pensando!
Minha mãe é uma santa e me deu a capacidade de discernir o que é certo do que é errado.
E corrupção, controle, dor e morte não são sinônimos de liberdade.
Eu vos convido a se libertarem!
Não para abusarem de uma libertinagem desmedida. Estou falando de uma opinião formada! Sem religiões, sem discursos, sem reis, nem deuses. Apenas homens! Homens no sentido integral antes que tentem me taxar.
Vos convido a experimentar da dor e do prazer que é ter o chão sob os teus pés. Ter em mente que as pessoas é quem podem mudar as coisas, ter em carne que possamos fazer algo a respeito!
Batam tuas panelas, façam tuas passeatas, fumem tuas maconhas nas calçadas, baforem na face das crianças, façam o que têm de fazer. Façam o que vocês acham correto!
Não abusem da liberdade! Não da liberdade que lhe foi dada, mas da liberdade pessoal. Do fardo de ser um ser pensante, capaz de discernir e modificar a realidade.
Matem, estuprem, ergam suas bandeiras, o mundo esta em guerra e a guerra os levará a autodestruição.
E quando vocês todos, sem exceção, estiverem a mercê de mim, Eu não juro pelo deus, no qual eu não acredito, mas eu juro por aqueles que me amam e me compreendem, que se eu tiver a oportunidade e vocês à mercê, eu ei de destruir cada fagulha da tua hipocrisia, como tentaram fazer comigo.
Isso é um discurso de ódio, sem duvida.
Adoraria poder amar a todos vocês, adoraria ter este dom messiânico, mas enquanto homem, com falhas e ambições, eu sinto ódio.
-Lágrimas de Gasolina
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
Resposta
Não há resposta.
Não adianta vir até aqui na tentativa de preencher essa tua ambição humana.
Chega! Vai viver a tua vida, vai fazer as tuas coisas e me deixa em paz.
"Aqui, pegue esta moeda."
Eu sei que pra você esse vazio é doloroso. Faz parte da tua natureza.
E se eu te dissesse que a partir daqui não tem mais nada?
Você deixaria de amar teus pais? Ou de beijar teus filhos?
"Pegue um pedaço da minha torta."
Deixaria de ajudar um mendigo? Uma velha a atravessar a rua?
Então quer dizer que você era bom porque deveria ser?
Hipócrita.
"Você pode se sentar no meu lugar."
A fé move muitas coisas e montanhas não é uma delas.
A fé move você. Você sabe disso.
Por que tem de haver algo?
"Me dê uma sacola, eu ajudo a senhora."
As coisas não podem sustentar-se por si só?
Por que não ser bom pela bondade?
Por que deveria existir um céu? Ou um inferno?
"Meus parabéns, é uma linda garotinha."
Você quer ser julgado? Ou quer um feedback?
Reconhecimento? Pra mim, você não passa de uma massa grotesca de ambição e falso altruísmo.
Você não precisa de uma justificativa para ser bom, mas de uma justificativa para não ser mau.
"Eu te amo."
Naturalmente podre. Naturalmente mau.
- Lágrimas de Gasolina
Não adianta vir até aqui na tentativa de preencher essa tua ambição humana.
Chega! Vai viver a tua vida, vai fazer as tuas coisas e me deixa em paz.
"Aqui, pegue esta moeda."
Eu sei que pra você esse vazio é doloroso. Faz parte da tua natureza.
E se eu te dissesse que a partir daqui não tem mais nada?
Você deixaria de amar teus pais? Ou de beijar teus filhos?
"Pegue um pedaço da minha torta."
Deixaria de ajudar um mendigo? Uma velha a atravessar a rua?
Então quer dizer que você era bom porque deveria ser?
Hipócrita.
"Você pode se sentar no meu lugar."
A fé move muitas coisas e montanhas não é uma delas.
A fé move você. Você sabe disso.
Por que tem de haver algo?
"Me dê uma sacola, eu ajudo a senhora."
As coisas não podem sustentar-se por si só?
Por que não ser bom pela bondade?
Por que deveria existir um céu? Ou um inferno?
"Meus parabéns, é uma linda garotinha."
Você quer ser julgado? Ou quer um feedback?
Reconhecimento? Pra mim, você não passa de uma massa grotesca de ambição e falso altruísmo.
Você não precisa de uma justificativa para ser bom, mas de uma justificativa para não ser mau.
"Eu te amo."
Naturalmente podre. Naturalmente mau.
- Lágrimas de Gasolina
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