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domingo, 8 de janeiro de 2017

A Ineficiência do Mal e o Estoicismo dos Bons

De todos os males que ousam vaguear pelos homens do mundo, a falsidade fora aquele que transformara seus melhores em mananciais de uma humanidade pútrida.
Reduziram os homens a um apanhado de sentimentos e medo - principalmente medo - enquanto proclamavam o quanto isto seria o suficiente para que se entorpecessem com uma falsa aceitação perante os outros medrosos sentimentais.
Fora poderoso o método utilizado, pois, em pouco tempo, seus locutores transformaram aqueles que ousaram se opor de alguma forma.
- "Nem só de medo vive o homem" - bradaram os opositores.
- "Seus sentimentos não servem de nada" - insistiram.
Mas a oposição sabia que seus membros voltariam sozinhos. Sabia que estes se deitariam, solitários, sobre suas camas e que encarariam o céu criado pelos covardes. O mal achou que isto seria o suficiente para derrotar a oposição - e enganou-se.
O mal se julgava a última reforma a ser criada, julgando-se definitivo, pois, somente aqueles que pudessem encara-lo saberiam que este era o mal em sua forma mais perturbadora, enquanto seus sacerdotes e devotos acreditariam piamente que praticavam a mais pura das benignidades.
Então, algo aconteceu.
Em seu interior, algo empertigava as entranhas da estranha maldade que assolava a maioria dos homens. Encarou o próprio modus operandi e encontrou uma realidade avassaladora.
Reduzira-os a parasitas sem hospedeiros que logo morreriam de inanição, pois aqueles que tinham suas veias tragadas pelos covardes rapidamente excluíram-se da presença da pútrida humanidade que criara.
E em seguida, deparara-se com um evento aterrador:
A solitária oposição, que supostamente deveria suicidar-se perante a exclusão, tornara-se mais forte e intragável.
Seus números cresceram e seus membros tornaram-se maiores e sustentáveis. Não precisariam da aceitação dos covardes corrompidos pela ilusória satisfação oferecida pela degradação.
Os solitários descobriram que trabalhavam melhor quando sozinhos.
E a solidão transformara-se em liberdade.
E a liberdade transformara-se em força.
Em pouco tempo, a maldade se tornaria ineficiente e seus seguidores, reduzidos a rostos raquíticos, cairiam no esquecimento, junto a ela.

- Lágrimas de Gasolina

Homem de mármore puxando pano
The fight of man against evil by Gaetano Cellini


quinta-feira, 17 de março de 2016

Sem Reis ou Deuses #1

Quando criança, lembro-me de caminhar a mando de uma voz autoritária que dizia para onde deveria ir ou quais caminhos não seguir.
Naquela época, nunca me ocorreu a possibilidade de sair das garras destas vozes, porém uma janela sempre ficou aberta e a espera de alguma coisa que pudesse esclarecer minha mente nebulosa. Dado que grande parte das alternativas ou esclarecimentos apresentados ao meu pequeno cérebro de criança não passavam de meras ilusões ou projeções da mesma realidade de submissão.
- Se você for tomar banho agora, poderá assistir televisão até mais tarde.
- Se comer toda a sua comida, poderá comer a sobremesa.
Sei que a maioria dos pais não tem a mínima intenção de prejudicar seus filhos, mas estas barganhas familiares contribuíram enormemente para a prosperidade da realidade em que autoridades são necessárias, fizeram com que nos acostumássemos com a presença deste falso tipo de negociação, onde não existe uma troca de fato, mas uma força possuidora de todos os meios, formas e produtos dessa negociação, resultando em obediência do comandado e soberania do comandante. - A mesma força que lhe tira uma liberdade é a mesma que a lhe oferece de volta em troca de outra.
Passei a tomar banho para assistir televisão e comer toda a comida para comer a sobremesa, mas não para me manter limpo ou bem alimentado. Não me perguntava o "por quê?", mas o "para que?" - sem nunca cogitar a possibilidade de compreender os reais motivos para se fazer o que fazia. Sem dúvida, a compreensão seria muitíssimo mais eficaz que qualquer tipo de barganha feita.
Para minha felicidade, meus pais se preocupavam avidamente com o meu bem-estar, por isso - e por ser fruto dessa obediência incompreensível - nunca ousei questionar suas reais intenções - e nem ouso.
Posteriormente, descobri que os dois me preparavam para uma realidade iminente em que a submissão é inescapável, ao mesmo tempo em que diversas famílias faziam o mesmo com suas crianças. O apelo à autoridade era explicita em algumas ocasiões, o que mostrava o quanto éramos dependentes de doutrinas para que alguns argumentos surtissem efeito.
Certa vez, meu pai girou os olhos furiosamente e gritou alguma exigência - raramente me batia - e imediatamente perguntei:
- Por quê?
E meu saudoso pai respondeu:
- Porque eu estou mandando, eu sou seu pai! - E funcionou.

Como dito anteriormente, para minha sorte, meus pais garantiriam o meu bem-estar incondicionalmente, sabido disso, tornava-se desnecessária a compreensão das decisões tomadas por eles em relação a mim. Afinal, as crianças têm a necessidade de serem comandadas pelos adultos até atingirem a próxima etapa do crescimento, pois se sabe que na hora de tomar atitudes racionais ou que preservem a própria integridade física, não é difícil perceber suas incapacidades perante o mundo e a soberania cognitiva dos mais velhos.
Quando cheguei ao ensino fundamental, algumas crianças já haviam aprendido a ler e escrever, a contar até dez e a ver as horas, tudo feito sob a tutela de uma voz maior. Não nos fora ensinado a reconhecer o valor do aprendiz ou da capacidade individual, este fardo era carregado exclusivamente por uma única pessoal da classe - a voz maior.
Quando avancei para os próximos estágios, fui apresentado ao sistema educacional que conhecemos, já não havia exceções, eu e as outras crianças nos tornamos números, a inércia deixou de ser uma opção, o estudo forçado para garantir uma vaga no próximo nível se tornara realidade, estudar e memorizar o que fosse necessário para progredir num sistema criado por eles, do qual não existia possibilidade de fuga - sempre sob a tutela de uma voz maior que nos dizia o que estudar como estudar, como se comportar, como sentar e como utilizar nosso tempo livre.
Desde cedo, nos ensinaram que a melhor parte de um diálogo é aquela em que ouvimos o outro, deram-nos a falsa sensação de que a verdade não pode estar em nós mesmos, sendo uma qualidade inerente a todas as outras pessoas; ensinaram-nos a não desobedecer as autoridades, pois estas exprimiam o melhor que há de nós e que estes são os guardiões do interesse comum - ou, caso queira, nossos eternos pais; passaram a nos ameaçar com a diretoria, criaram um sistema de punições e disseram:
- Caso vocês se comportem, vocês serão beneficiados!
Mas se esqueciam de dizer que a ausência de punição não é um beneficio, mas um estado natural do homem.
Embora não concordasse com os métodos utilizados ou com o sistema de ensino empregado, não me dei o trabalho de recorrer através de qualquer espécie de boicote ou reclamações dirigidas aos meus pais, pois isto nunca fora um grande empecilho no meu trajeto e me apaziguava a idéia de poder mudar para outra escola em qualquer momento, além de nunca ter me feito a seguinte pergunta:
- Por que devo me submeter à um sistema que não concordo para aprender coisas pelas quais não tenho interesse?

Na escola, mesmo que o individualismo e a exclusividade fossem massacrados pelas regras e sistema de educação da instituição, onde toda espécie de coletivismo era incentivado e a submissão um fator onipresente, os clientes - isto é, os pais dos alunos - ao sentir que seus filhos não estavam satisfeitos com o serviço, os mudariam de escola.
Comigo, por se tratar de uma escola particular, caso o dono da empresa se deparasse com um número relevante de reclamações, muito provavelmente algumas regras e métodos mudariam, caso contrário, os alunos seriam obrigados a mudar de escola e o dono perderia dinheiro.
No ensino médio, descobri que o sistema de educação não poderia ser alterado, pois o mesmo era regulado pelo Estado e aquelas escolas que não seguissem o modelo imposto, não seriam reconhecidas pelo órgão fiscalizador e não poderiam ter o título de Instituição de Ensino, o que impossibilitaria satisfazer qualquer um que buscasse outro sistema de educação em outra escola.
Por fim, estávamos satisfeitos - mesmo não concordando - com o sistema de educação imposto e com as regras e os métodos da instituição. Além de estarmos plenamente conscientes da oportunidade de poder mudar para outra instituição quando bem entendêssemos. Esta satisfação provinha indiretamente do medo de aborrecer os clientes que o dono da empresa carregava, seu âmago sabia que desagradar os alunos seria o mesmo que implorar para que as portas de sua escola se fechassem, logo, minha liberdade de escolha garantia o meu bem-estar, mesmo que este não fosse o real objetivo da instituição.
No final do ensino médio, uma pergunta assolava minhas entranhas:
- Se eu não podia tomar algo de algum colega e mais tarde presenteá-lo com aquilo sem parecer antiético, então por que eu permitia que as autoridades o fizessem?
E começou.

Continua

- Lágrimas de Gasolina


quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Contos de Matusalém #1

Aconteceu em uma época onde as coisas não eram deixadas para trás nem esquecidas em gavetas. Não precisávamos nos preocupar com portas trancadas nem com ferros de passar ligados.
Era uma tarde de segunda-feira.
Matusalém era um pequeno raminho saudável e morava com seus pais no fim do vale, estava brincando no infinito quintal de sua morada, desenhando em um pequeno espaço de terra que acabara de limpar, havia colhido e amontoado todas as folhas que conseguira, formando uma enorme pilha de sujeira. Com uma de suas pequenas extremidades, traçava finas e precisas linhas no solo, concentrado nos curtos pensamentos de seu pequeno cérebro e nos movimentos que fazia, não errou um traço sequer. Sua atenção era tão limitada quanto deveria ser para uma plantinha juvenil, por isso não percebera a aproximação quase inaudível de sua mãe. A gigantesca árvore ficou parada acima dos tímidos galhos mais altos do raminho desenhista.
- Nossa, que desenho bonito! O que é? - Uma doce voz cortou sua concentração. - É uma arvore? - Indagou a gigante baobá.
O raminho ficou olhando sobre seus galhos baixos para as raízes de sua mãe, nunca vira seu rosto, mas isto nunca fez a menor diferença, nenhum dos raminhos do vale já o havia feito. Respondeu:
- É sim, sou eu! - Disse enquanto riscava um grande sorriso que preenchia toda a extensão do desenho - e olha como estou feliz! - Completou.
A baobá riu serenamente perante a imaginação de sua cria. Ela era professora no vale e sabia como era raro um raminho que se preocupasse com o futuro. Virou-se para as copas de Pelagus e vislumbrou o último pôr do sol do dia. As árvores maiores preenchiam toda aquela vastidão e escalavam até mesmo as gigantescas montanhas Gaia Retrorsum.
O vale lembrava um enorme prato de sopa de espinafre, suas extremidades eram formações rochosas milenares e maravilhosas, havia árvores e pássaros dos mais variados tipos que preenchiam completamente o centro côncavo da gigantesca tigela, alguns deles se dispersavam à medida que se aproximavam das beiradas. A densa parte central era composta pelas árvores mais antigas do planeta, as primeiras formas de vida vegetal a emergirem sobre aquele jardim gigantesco e eram conhecidas como os líderes daquela sociedade vegetal, os anciões - como eram chamados - estavam envoltos por árvores mais jovens e estas por sua vez, envoltas por árvores ainda mais jovens. Ao contrário dos líderes humanos que conhecemos, as plantas têm uma intensa satisfação por estarem completamente rodeadas por sua espécie.
O planeta das árvores não tinha nome próprio, pois seus habitantes jamais poderiam dizer com firmeza o que era aquele imenso jardim onde moravam, tão pouco sabiam da existência dos outros milhares de planetas ou do vasto universo que os rodeava. Á princípio, as pequenas e poucas criaturas que cuidavam das planícies, antes do nascimento de algum dos ramos que originariam as primeiras árvores, desenvolveram asas, porém algumas delas eram desajeitadas ou pesadas demais para voar. Os primeiros seres a saírem do chão e voarem pelos ares do jardim foram os pequenos animais posteriormente apelidados de Liberums, nesta época as plantas já dominavam cerca de quarenta hectares do que um dia se chamaria Pelagus, assim puderam presenciar aquelas pequenas criaturas peludas e dentuças voando por aí com suas asas coloridas. A partir daquele momento, os anciões perceberam o quão importante aquelas criaturinhas poderiam ser para o estudo do planeta.
Sabiam que existiam extensões incompreensíveis de água fora da concha, nos arredores das planícies inexploradas, porém as asas em evolução dos peludinhos jamais permitiriam que voassem além delas numa viagem tão extensa, o que causou certa frustração à expectativa de sanar as curiosidades dos anciões.
Nada podendo fazer, assim seria o longo processo de exploração do planeta, toda descoberta feita seria passada para as árvores periféricas, que contariam às vizinhas que por sua vez contariam às vizinhas, repetindo-se até atingir os ouvidos das árvores centrais. Esse processo se repetiu até o nascimento da primeira baobá, plantas incrivelmente gigantescas e majestosas e que muitas vezes passavam da estatura da mãe em poucas dezenas de anos.

A primeira baobá nasceu nas periferias, como de costume, porém um fato pouco costumeiro ocorreu, o tempo se passou e aquela pré-adolescente ultrapassara a altura da mãe em um metro. As vozes ecoaram pelo vale que saudava precocemente a mais nova espécie do planeta, o gigante baobá. As palavras atingiram os ouvidos das grandes árvores centrais e um deles choramingou:
- Eu daria todas as minhas folhas para poder ver o tal gigante!
Mais uma vez as vozes ecoaram pelos galhos e em poucos dias as preces dos anciões atingiram os tímpanos da gigante.
Foi numa terça-feira e o primeiro sol já havia se posto.
As antigas árvores estavam aglomeradas como de costume, recebendo as notícias de todos os cantos do vale, quando toda a atenção foi direcionada para Greg, o quinquagésimo quarto. A árvore gritava de horror, eram palavras estridentes e ininteligíveis, balançava-se tentando remover algo de dentro de si enquanto roçava os próprios galhos contra o tronco. Gritou:
- Algo está dentro de mim! Agora, desceu e está embaixo! Algo está puxando minhas raízes!
As outras plantas o olhavam, desconcertadas, Greg nunca apresentara comportamento tão maluco, embora fosse uma das árvores mais engraçadas conhecidas. Athos, o quinquagésimo, disse:
- Ei, Greg. Fique calmo, com certeza são algumas cigarras, vá - mas foi interrompido pela horrível cena que se projetava à sua frente, algo que nunca havia testemunhado ou sequer imaginado ser possível.
A árvore deslizava como se estivesse sendo tragada pela terra através de uma areia movediça sobrenatural. Já haviam passado cerca de dois metros, depois mais quatro e mais dez, Greg agonizava afogado pela terra enquanto suas últimas folhas passavam pelo vórtice arenoso.
- Me ajudem! Me aju - suas palavras foram tragadas junto com seus últimos membros.
As múltiplas formas de vida que tinham plena consciência de que realmente haviam testemunhado o absurdo, estavam paralisadas com o terror que percorria internamente suas seivas, aguardando estaticamente pelo que veriam em seguida, as mais próximas tentavam inutilmente fugir para longe da marca que a suposta abdução de Greg deixara para trás. Os Receptores impediam quaisquer outras informações de chegarem e logo cuspiam descrições do que havia acontecido nas dependências dos anciões e com a quinquagésima quarta árvore mais antiga do vale.

As árvores receptoras tinham acabado de concluir a décima remessa de mensagens quando algumas plantas começaram a reclamar incessantemente do barulho provindo da marca no chão. Fazia apenas dez minutos desde o ocorrido e cerca de dois hectares já sabiam das notícias, do acontecimento e das palavras alarmantes dos anciões, até mesmo os Liberums foram chamados para iniciar uma busca sem esperança por Greg.

O quinto ancião havia começado sua narração, as Receptoras anotavam artisticamente as palavras que formariam a décima primeira mensagem do dia, porém uma delas parou ao perceber que uma pequena pedra rolara arbitrariamente sobre os dizeres que desenhava na terra, algo estava assustadoramente errado. Outra também parou quando notou que o chão se movia sob suas raízes e apagava os dizeres incrustados na terra. E mais outra parara, quando ouvira os gritos de terror produzidos pelas árvores dos arredores. A marca abdutiva se movia numa vibração sobrenatural, alguns até chegaram a pensar esperançosamente que Greg havia encontrado uma forma de voltar, outros pensaram desastrosamente que o mal que tragara Greg para as profundezas desconhecidas da terra estava prestes a emergir para preencher o estômago que uma única árvore não fora capaz de saciar. Todos sentiam tanto medo quanto curiosidade, mas poucos ousaram dizer alguma coisa, exceto as receptoras que narravam todos os detalhes que seus olhos permitiam descobrir.
- A marca está vibrando loucamente - dizia uma delas - posso sentir minhas raízes balançarem, é como se uma minhoca gigantesca estivesse prestes a saltar pelo buraco a uma velocidade absurda, a sensação é de completo terror, as árvores estão assustadas, as receptoras estão fazendo o mesmo que eu, os anciões estão impassíveis, cochicham entre si, sabem tanto quanto nós, o que é terrível! - fez uma pausa, olhava fixamente para a marca - a marca está aumentando, deve ser apenas impressão. Não, ela realmente está maior! Ei, espera, eu posso ver alguma coisa! Algo está saindo do buraco e é enorme! São folhas, eu não acredito, são folhas! Greg conseguiu!
As receptoras e subreceptoras gritavam velozmente, as árvores próximas falavam com extrema rapidez e precisão, todos ansiosos por reproduzirem via palavras acontecimentos nunca antes ocorridos.
Algo estranho chocou a receptora que se pôs a continuar:
- Só um momento, pessoal! Estas folhas são límpidas demais e estes galhos são maiores que os de Greg.
Uma das receptoras gritou do outro lado do recanto dos anciões:
- Acabei de receber: uma árvore desapareceu na atual periferia, próxima à Gaia Retrorsum, a desaparecida trata-se da nova espécie, a gigante baobá!
Em alguns segundos, nenhuma delas tinha mais certeza alguma, não sabiam se o que haviam presenciado era obra da imaginação ou se estavam ficando loucas. Algumas árvores descansavam inconscientes e ancoradas sobre as próprias raízes que as impediam de atingir o solo, haviam desmaiado. Os inteligentes olhos dos anciões assistiam a gigantesca extensão de casca, galhos e madeira que crescia através do buraco no chão, passaram-se galhos e folhas seguidos por dois metros de tronco, depois mais cinco e mais dez metros, em questão de segundos uma gigantesca árvore ocupava o lugar da quinquagésima quarta árvore mais velha do vale - a penetra era a árvore desaparecida de Gaia Retrorsum, a nova espécie, a gigante baobá.

- Lágrimas de Gasolina
 
 http://www.deviantart.com/art/Forest-98795458
Forest by Andead



terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O Adulto Infeliz

Tirou uma folha amassada do bolso e a desdobrou com cuidado, alisando suas partes violadas pela violência do caminhar e da pressão exercida por suas roupas, levantou os olhos e disse:
- "Sabe, eu cresci com uma cabeça cheia de opiniões de pessoas vazias".
Um homem estava em pé em frente ao banco em que um pequeno adolescente de cabelos escuros estava sentado, uma garoa fina caia sobre os ombros das duas figuras e algumas gotas escorriam pelo nariz choroso daquela criança crescida e desolada.
- "Ora essa" - pensou o homem - "mas você não passa de uma criança".
Olhou para aquelas pequenas mãos que dobravam um papel e o protegiam do vento e da chuva. Respondeu:
- "Como assim, cresceu? Você ainda é muito jovem para se lamentar por sua infância" - o garoto não o olhava - "você está vivendo a droga da sua infância" - o garoto olhou para cima, encarava os botões da camisa social branca em sua frente - "quantos anos você tem? Dez? Nove?" - Completou.
- "Onze." - Cochichou o garoto - "você não entenderia" - abaixou os olhos - "e nem precisa" - disse para si.
Eram quase seis horas da tarde, a garoa tornara-se tão fina quanto uma tênue neblina serrana, os pássaros haviam parado de cantar e não havia pessoas no parque, apenas algumas cadeiras vazias e lixeiras cheias de lixo.
- "Está ficando tarde, garoto." - Comentou após alguns segundos de silêncio - "os seus pais virão te buscar ou você esta pensando em ficar por aqui esta noite?" - Arriscou, não aguentou e sorriu.
Era indiferente, não importasse a pergunta que fosse feita, nada o atingia, sua cabeça estava em outro lugar.
- "Eu não tenho pais" - disse, indiferente - "bom, na realidade eu tenho, mas quase não os vejo, eles trabalham demais." - Complementou.
- "O problema não era esse" - pensou o homem - "afinal todos temos problemas com nossos pais durante a adolescência, alguns adolescentes gritam e se revoltam contra tudo e todos enquanto outros preferem sobrecarregar o departamento de tristezas incubadas do cérebro, porém os dois crescem e se tornam adultos tristes" - sua mente prosseguiu - "Assim como eu" - e sua boca concluiu.
O garoto o encarava sentado com as mãos no bolso sobre um banco de madeira envelhecido.
"Assim como você, o que?" - Perguntou calmamente.
Não havia percebido que teria proferido quaisquer palavras audíveis, correu uma das mãos até o queixo, mas não conseguiu evitar que as palavras que já havia dito chegassem aos ouvidos do garoto.
- "Disse que trabalho demais, garoto." - Lembrou-se das crianças em casa - "temo que meus filhos se sintam assim" - fez um movimento com o rosto -  "como você" - esperou - "não consigo suportar a ideia de que algumas crianças estão largadas pelas ruas ou sozinhas por ai" - suspirou, olhava para o garoto sentado a sua frente - "foi por isso que me tornei o que sou hoje." - Concluiu levantando as mãos num gesto indefeso.
O garoto o olhava, podia ver uns pequenos fios saindo das narinas e do queixo do homem em sua frente, jurou para si que não mencionaria este fato, percebeu que a chuva cessara e perguntou:
- "E o que você é hoje?”
Um sorriso triunfal serpenteou pelos lábios do homem, fez a expressão que os adultos fazem quando conseguem encaixar as falas de uma vítima numa piada de mau gosto, como se houvesse previsto a pergunta e tivesse uma resposta preparada desde a noite do dia anterior. Respondeu de olhos cerrados e de sobrancelhas levantadas:
- "Um adulto infeliz" - disse recitando uma música embutida numa fala de criança.
O garoto o encarou por um ou dois segundos.
- "O senhor não me parece infeliz" - disse - "até acho que você foi uma criança bem alegre." - Concluiu.
O homem tinha afundado o rosto na blusa para evitar o vento.
- "Sabe, garoto" - emergiu o rosto - "o que faz os adultos serem chamados de adultos infelizes não tem nada a ver com ser ou não ser feliz, mas com o fato de você conseguir fazer os outros serem felizes." - Falou como se desse uma lição de moral em um de seus filhos. - "E sim, eu fui uma criança alegre." - Respondeu ao se lembrar da afirmação.
O garoto abaixou a cabeça e pensou por alguns segundos, pegou o papel do bolso e deu uma risadinha, o guardou de volta.
- "Então isso quer dizer que eu vou ser um adulto feliz?" - Perguntou, olhando para o rosto mal-humorado em sua frente. Riu, insolente.
- "Como assim?" - Perguntou o homem ao perceber que sua lição de moral nem sequer atingiu os ouvidos do garoto.
- "Veja bem, se você era uma criança alegre e se tornou um adulto infeliz, eu que sou uma criança infeliz serei um adulto alegre, certo?" - O homem o encarava rindo.
- "Não necessariamente" - respondeu irônico.
O sorriso do rosto do menino desapareceu.
- "Como assim?" - Gaguejou.
Queria ter piedade, mas sempre fora um realista incurável.
- "Garoto, não é assim que funciona" - começou - "não é só porque eu fui de um jeito e terminei de outro exatamente contrario, que vai acontecer o mesmo com você. Nem todas as crianças ou adultos são iguais" - esperou, o garoto o olhava atento - "você vai conhecer crianças tristes que se tornarão adultos tristes, conhecerá crianças felizes que se tornarão adultos felizes e conhecerá pessoas como eu, que nascem de um jeito e terminam de outro" - continuou - "você vai pra escola, vai crescer e vai pra faculdade, vai fazer escolhas, vai arranjar um emprego, vai comprar um carro, vai encontrar uma garota que te aceite infeliz ou feliz, vai ter filhos, vai fazer mais escolhas, vai comprar uma casa, vai escolher um bichinho e todas essas coisas vão dizer se você vai ser um adulto feliz ou infeliz." - Concluiu.
Estava de cabeça baixa, tinha um papel na mão. Levantou e perguntou:
- "Se é a gente que escolhe tudo isso, por que existem pessoas tristes?" - O garoto triste estava mais triste. - "É por causa do que os outros adultos dizem, não é?" - Sua cabeça estava abaixada.
O homem reconheceu.
- "Sim, é por causa do que os outros adultos dizem." - Abaixou a cabeça.
O garoto levantou a cabeça.
- "E as crianças?" - Perguntou.
O homem abaixou, dobrando os joelhos na altura do banco.
- "O que tem as crianças?”
O garoto puxou o braço do homem e colocou um pedaço de papel em sua mão.
- "Elas podem fazer crianças felizes serem infelizes?" - Perguntou, ainda segurava o braço do homem.
Ele se aproximou um pouco, ainda de joelhos e viu os olhos lacrimosos do menino.
- "Não sei, acho que sim." - Disse.
No mesmo instante, o garoto pulou no peito dele, eram dois estranhos, nunca haviam se visto e o garoto o abraçava e soluçava. O homem ainda estava de joelhos enquanto o garoto molhava a camisa úmida pela chuva com suas lágrimas, ele passou os braços ao redor do garoto e o levantou no colo. Lembrou-se do papel em sua mão e o desdobrou, o leu em voz baixa, o garoto não o ouviu.
- "Feioso" - deu uma risadinha ao ler, mas parou, pois se lembrou de todas as vezes que ouvira palavras de mesmo efeito.
- "Você não deveria se preocupar com o que os outros pensam." - Suspirou o homem.
O garoto soluçou.
- "Eu sei".
O homem respondeu.
- "Não, não é pra você. Estou falando isso para me lembrar mais tarde".
 
- Lágrimas de Gasolina 




terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Código de Conduta

Correu até uma das gavetas da cômoda de madeira que descansava sutilmente no canto mais escuro do aposento. Era um móvel sagrado, trancado a duas chaves, uma escondida na gaveta logo abaixo e a outra carregada consigo ao redor do pescoço, pendendo através de um fino cordão de ouro dado por sua falecida progenitora.
Num rápido movimento de dedos o destrancou, o abriu e arrancou uma pequena caixa de madeira isolada por entre as sombras do fundo da gaveta, os estalidos produzidos pelo momento em que apanhou o objeto não foram suficientes para esconder as sirenes que emanavam das ruas ao redor da casa.
- "Quando foi que as coisas fugiram de controle?" - pensou, enquanto abria a caixa, retirando um pequeno amontoado de guardanapos negros enrolados sobre uma peça metálica - "Quando as pessoas fugiram de controle?" - completou aquele vago pensamento, olhando para aquela ferramenta.
Sabia que as armas haviam perdido o significado, por isso as pessoas encontraram outras formas de matar e controlar, formas ainda mais poderosas do que aquelas que disparavam contra um único alvo. Desenvolveram algo pior, como uma espécie de arma que transforma alvos em armas, vítimas em homicidas e carneiros em lobos.
Nem sabia por que pensara em correr até aquele objeto, uma ferramenta que escondera de todas as formas possíveis, na tentativa de evitar que fosse manipulada por algum de seus filhos ou que os colocasse em risco de alguma forma.
Esticou os guardanapos sobre a cama desarrumada, formando um quadrado negro sobre o lençol branco, colocou a peça no centro e uma pequena caixa de pequenos projéteis ao lado e os encarou por alguns segundos. Ouviu um curto e violento baque vindo da janela, acovardado pelos gritos e súplicas dos pobres infelizes que correram para as ruas quando perceberam que havia algo de errado.
- "Sentiram medo e correram para as igrejas e mesquitas da cidade" - pensou ao encarar a janela que sofria com os pequenos intervalos de batidas uniformes - "Foram para as ruas e se esqueceram do mal que vive nelas" - completou ao se dar conta de que as batidas e o pedido de socorro haviam cessado.
Delicadamente passou os dedos sobre as cabeças dos projéteis como se acariciasse o rosto de um sobrinho que não via há anos, com as pontas dos dedos apanhou cada um deles e os dispôs ordenadamente ao lado da pistola. Caminhou por vales mentais, voltando algumas décadas de sua mente e a estacionando numa época aos arredores de sua juventude, quando seu pai o ensinara a atirar. Tentou se lembrar dos movimentos que aqueles velhos dedos de atirador faziam e como suas mãos seguravam aquele objetivo que atiçava sua mente juvenil. Como um trabalhador que se levanta automaticamente e se prepara para mais um longo dia de trabalho, apanhou aquelas peças que descansavam folgadamente sobre os guardanapos negros e iniciou uma montagem semiautomática, quase inconsciente, de um quebra-cabeça assassino.
Sem nenhuma dificuldade, apenas sua mente trabalhava enquanto seus músculos se moviam, encaixando bala após bala, assim como seu falecido pai o ensinara.

- "Só use quando não houver mais o que ser dito nem feito, pois a palavra pode ser esquecida e a ação, remediada. Já um tiro, não é tão fácil assim de se esquecer, e muito menos, remediar." - as palavras de seu pai ecoavam pelas paredes de sua mente. A mãe só lhe dissera uma coisa, uma única vez:
- "Não faça nenhuma besteira!”.


Lembrava-se daquelas palavras sentado ao pé da cama, iluminado pela única lâmpada do quarto e segurando a arma com as duas mãos, realizando o movimento daqueles que estão prestes a orar, apoiando os dedos indicadores na testa e os polegares no queixo, com a cabeça abaixada e com o cano da pistola direcionado para o centro de sua testa.
- "Pai, não há nada que possa ser dito ou feito. Mãe, eu não farei nenhuma besteira" - disse em voz baixa para, deslizou a mão até a cintura e guardou a arma.
Aproximou-se da porta da frente, os gritos estavam silenciosos, ecoando com os tilintares das chaves em seu pescoço e o som de seus passos, preparou-se para abrir, agarrando a maçaneta com a força de sua expectativa e sua curiosidade latente projetada nas batidas de seu coração. Nunca soube o que esperar rastejando pelas ruas, apenas sabia o quanto os noticiários suplicavam para que as pessoas não deixassem suas casas naqueles dias.

- "Tranquem as portas, a situação está sob controle, estoquem alimentos e água, a situação está sob controle" - repetiam incessantemente, para apagar qualquer dúvida que insistia na mente das pessoas, numa tentativa de dar uma segurança que já havia sido perdida há muito tempo - "A situação está sob controle!”.

Quando ouvira nos rádios que as mesmas autoridades responsáveis por assegurar a segurança da população haviam se virado contra ela, percebeu a natureza do monstro e as consequências daquela poderosa arma transformadora, porém nunca havia enfrentado nenhum deles ou visto alguma delas em ação, tudo que lhe restara era uma especulação covarde, realizada nas noites em que se lembrava de sua esposa e filhos.


Os garotos estavam na casa dos avós e Marta estava no trabalho quando as coisas ameaçaram fugir do controle, ligou para o escritório de advocacia onde trabalhava e ordenou para que fosse para a casa de seus pais e cuidasse das crianças.
- "Mas por que, Bruno? Meu expediente acaba daqui três horas, não podemos esperar?" - lembrou-se das palavras que fugiam daquele dispositivo celular naquela noite - "Não se preocupe com as crianças, elas estão com seus pais e estão bem, acabei de falar com eles, acalme-se!" – ouviu um curto estrondo e uma pequena gritaria – “O que hou-“ - o telefone ficou mudo e a partir daquele momento, percebeu que não havia mais nada a ser dito.
- "Eu te amo" - respondeu para o som robótico e uniforme que soava em seus ouvidos, soltou o telefone e ajoelhou.

Suas mãos ainda abraçavam a maçaneta quando aquelas lembranças dominaram sua mente, foi como um lapso espasmódico causado pelo toque dado naquela peça metálica, uma descarga elétrica causada pela mais pura certeza. Podia sentir as vibrações em seu ouvido direito, causadas pela memória do ruído telefônico daquele dia, fechou os olhos, apertando com mais força a maçaneta, e ouvindo as palavras não proferidas pela esposa ao telefone, girou o punho e sentiu as vistas escurecerem.

- "Eu te amo”.
A casa parecia deformada quando se levantou e olhou à volta, fitou as cortinas cuidadosamente escolhidas por Marta, as fotos e os quadros nas paredes haviam perdido o sentido, as figuras não tinham mais rostos e as paredes estavam achatadas. Cambaleou até a cozinha e abriu a gaveta de talheres, onde um conjunto de facas gritava para ser selecionado, aquele conjunto lindo de materiais brilhantes escolhidos a dedo pelo casal seria utilizado por ele naquela tarde, como desculpa para evitar que qualquer um ficasse entre ele e seus filhos. Foi até uma pequena bancada no centro e pegou a chave do carro, o relógio na parede, desajustado para o horário de verão, marcava duas e meia.
Trancou as portas e correu até a garagem, o carro não estava lá. Esquecera que o estacionara do lado de fora quando entrou apressadamente em casa, lembrou-se de seu chefe perguntando o porquê de tanta pressa para abandonar o trabalho, mas não se lembrou de tê-lo respondido, simplesmente deu de ombros e atravessou as portas do edifício. Quando se ajoelhou perante o telefone mudo na hora passada, ainda estava com o terno utilizado naquela manhã de serviço, não se preocupou com suas roupas enquanto corria pela calçada de sua casa em direção ao carro e nem com a sua segurança quando acelerou em direção ao horizonte, a caminho da casa de seus pais.

Sua força de vontade era a única coisa capaz de concluir aquela simples ação de abrir a porta, porém sua mente, constantemente oprimida pela avalanche de lembranças, era incapaz de ignorar os lapsos de memórias convulsivas que explodiam sem aviso prévio, impossibilitando-o de focar em sua decisão. Por alguns minutos, ficou parado, esperando pela terceira torrente de imagens do passado, como um condenado que conta os segundos precedentes à sua execução, tentando inutilmente se preparar para o inevitável.

Algumas crianças imploraram para que parasse, agitaram as mãos sujas de poeira e balançaram os rostos marcados pelas lágrimas escorridas, mas não obtiveram respostas e o carro passou por entre elas. Há alguns metros, em frente a uma casa de portas escancaradas, a imagem de uma mãe enlouquecida balançando uma das mãos e segurando uma pequena criança com a outra, também passara despercebida.
A maioria das casas estava com as portas arrombadas, o desespero alheio não passou despercebido por sua mente, que se agarrara às visões assustadoras concebidas através de sombras violentas, projetadas nos cantos de dentro das casas e janelas quebradas.
O automóvel cortava as ruas habilmente, controlado por um condutor em perfeito estado de alerta, nenhuma curva, manobra ou frenagem era em vão, tudo milimetricamente calculado para que o destino fosse atingido o mais depressa possível.
Vira dois homens arrastando um sofá para a calçada e um terceiro encarando seu carro, as três figuras estavam fardadas, pequenas cruzes desenhadas sobre os distintivos em seus peitos.
Havia percorrido dezessete quilômetros quando se deu conta de que o ponteiro de combustível estava na reserva, provavelmente suficiente para atingir seu objetivo, mas insuficiente para fugir dele em seguida.
Inclinou os olhos um pouco, virando-os para o painel que revelava sombriamente as horas através de um display digital - eram quatro horas. Quando levantou os olhos, fitou uma pequena mercearia que tomava forma no horizonte de casas saqueadas, ponto de referencia para a velha casa de seus pais, virou a direita nas ruas gastas e ouviu os primeiros estalos involuntários dados por um motor sem combustível. Aquela pequena somatória de motor, lataria e rodas imploravam por alimento, assim como as crianças que deixara para trás, forçou o automóvel por mais alguns metros e girou a chave, desligando o carro e deslizando através do declive da rua até a última casa do quarteirão, seu destino.


Continua 1/ 2

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sábado, 14 de novembro de 2015

O Lobo e O Rato

Aproximou-se de um dos espelhos do quarto e admirou o próprio resto de existência enquanto arrumava o colarinho. Tentou imaginar os dias que se seguiriam e moveu os olhos em direção a uma gota que escorrera de algum orifício facial, provavelmente um dos olhos. Levou uma das mãos até o rosto e tocou aquela lágrima, que grudou em seu dedo indicador como uma criança que abraça o pai que vai viajar. Por alguns segundos, encarou a figura refletida, um homem bem vestido segurando uma gota de água pelos dedos. Em seguida, dirigiu o dedo úmido em direção aos lábios, fazendo-o percorrer toda a extensão de sua boca. Secou os olhos, se virou, apanhou uma pequena pasta cinzenta que descansava ao pé da cama e saiu.
Por um momento, parou em frente à porta de saída, um dos braços estava estendido e alguns dos dedos acariciavam a maçaneta e pensou em cada pequena mudança que fizera até aquele momento, e em como todas elas haviam se transformado em um amontoado de ações sem qualquer valor.
Lembrou-se de todas as vezes que acordara para trabalhar e correra até o banheiro para um curto banho, das vezes que escovara os dentes e atentamente girava o registro, obstruindo o desperdício, das vezes em que chupara alguma bala e guardara as embalagens no bolso. Tudo aquilo só serviu para resgatar a lembrança de seus pais que sempre diziam:
-"Se vai deixar algo para as outras pessoas, que não seja uma pilha de lixo. Se quiser levar algo consigo, que não seja a oportunidade dos outros verem as arvores como são hoje”.
Tentou girar a maçaneta, percebeu que estava travada e se deu conta de que a mesma estava trancada. Olhou para as letras vermelhas marcadas em sua pasta - Curriculum Vitae - Direcionou o rosto para o molho de chaves dependurado sobre um gancho ao lado da porta, ao lado de uma máscara branca de médico. Pegou a chave, percorreu todas numa seleção cirúrgica e colocou a correta na fechadura, e girou, retirou-a e guardou em um dos bolsos. Dirigiu uma das mãos até a maçaneta e assim ficou por alguns segundos, aquela figura estática, inconsolável e bem vestida, em pé, segurando uma pasta cinza, tão cinza quanto teus olhos e pele, dirigindo um olhar infeliz para a entrada de um mundo que tanto lutara para que não se materializasse. Forçou-se para girar o pulso impotentemente fragilizado e franzino, mas parou e virou os olhos para a atual tendência de vestuário que pendia ao lado da porta. Esticou os dedos e agarrou a máscara, uma existência raivosamente cega e inocente, comparou-se a um rato rodeado pelo fogo e o muro de concreto, a um lobo de olhos furados que consome a própria pata para fugir de uma armadilha de urso, mas que se dá conta de que quando liberto, não saberá para onde ir e nem o que fará com o ferimento. Seus olhos ficaram molhados mais uma vez quando se lembrou da impossibilidade de ter filhos, uma lágrima escorreu quando se deu conta que se um dia viesse à possibilidade de ter herdeiros e os tivesse, não poderiam fazer aquele tipo de comparação. A gota deslizou até seus lábios secos, que a tragou de volta para dentro de seu corpo.
Tirou uma goma de mascar do bolso, abriu delicadamente o doce que a muito havia substituído sua escovação diária, observou a volta feita quando ele puxava as extremidades da embalagem, o pegou e o jogou na boca. Dirigiu a máscara até o nariz e contornou suas orelhas com os laços, fixando-a em seu rosto.
Girou o punho e abriu a porta de uma vez. Seus lábios se tornaram secos e seu rosto empoeirado, caminhou até o meio fio e gritou pelo taxista. Seus olhos enchidos pela maré amarelada dos céus e pelos jornais e restos de papel que caminhavam pelas ruas. Não chorou.
-"Distrito Industrial" - respondeu, enquanto limpava a poeira da camisa.
Em algum canto escuro de suas vestimentas, uma pequena embalagem amassada verde e de letras rosadas, estampava na escuridão os dizeres:
- "Bolong-Long, goma de mascar. Muito mais tempo de hálito fresco. Desde 2017.”

- Lágrimas de Gasolina
Reciclar formado de agua

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

João e os Pés Abençoados

João segurou o solo com seus dedos, depositando toda a sua energia nas solas dos tênis de corrida. Esperou pelo estrondo que deveria vir em seguida, fechando os olhos e fazendo uma pequena prece que nunca aprendera, implorando para uma entidade invisível, para que esta fosse a ultima vez que corresse pela necessidade. Jurou a algumas pequenas frações de tempo que jamais voltaria a correr, independente do motivo, nem que sua vida dependesse disso.
Disparou em linha reta, antes que o som do tiro ecoasse pelos teus tímpanos, percorrendo como um raio uma quantidade considerável de espaço em pouquíssimo tempo. Em tuas pupilas dilatadas, apenas o reflexo de seu objetivo podia ser visto e o objetivo, era a única coisa que era vista por seus olhos. Tudo que fosse irrelevante ao destino que ele mesmo havia imposto a si, fora descartado inconscientemente por seu cérebro, tornando aquele ilusório alcance muito mais tangível do que talvez fosse.
O garoto havia percorrido um pouco mais de vinte e cinco metros quando ouviu o disparo de uma arma de fogo e os primeiros gritos, dando a ele uma vantagem absurda sobre seus adversários. O som fez com que uma sequela de seus dias passados retornasse num lapso momentâneo, fazendo-o com que se lembrasse da promessa que fizera e dos motivos que o levaram a fazê-la.

Aprendeu a andar muito novo, aprendeu a correr nos meses que se seguiram, nunca fora suficientemente desengonçado para cair em nenhuma das tentativas, foi uma criança com joelhos abençoados e o mais veloz entre os garotos do bairro, mas houve uma vez, que ao entrar pelas portas da biblioteca pública do colégio em que estudava, encontrou um pequeno livro de bolso que descansava sobre a mesa. Devorou aquelas páginas como conseguira, com uma leitura precariamente aprendida através do precário ensino público e foi a partir daquele momento, que percebeu uma severa semelhança entre aquelas páginas, o personagem e ele mesmo. Percebeu que o garoto da estória, corria como o vento, assim como ele, mas sempre que corria, era para fugir de algum problema ou consequência. Então, percebera que ele, João, fazia o mesmo.
Jurou que nunca mais correria para se livrar de quaisquer problemas, consequências ou medos e os enfrentaria em um suave caminhar, se privando da maior de suas habilidades: Correr.

- "Correr" - foi o que pensou, quando viu o corpo do seu irmão mais velho caído no chão.
- "Correr" - foi o que pensou enquanto aguardava pelo segundo tiro.
- "Correr" - foi o que pensou quando colocou os dedos no chão e direcionou o queixo para frente, depositando toda a sua energia nas solas dos tênis de corrida.
Correr foi o que fizera parar. Por um instante, quando se lembrou da promessa feita, após segundos que iniciara a corrida, o garoto frenou por entre as sombras noturnas de seu bairro e caminhou por entre o breu e com a suavidade de uma leve brisa marítima, passou por entre as sombras e restos de concreto que provavelmente passariam despercebidos por seus olhos caso estivesse correndo. Alguns tiros voaram pela noite, enquanto barracos ribeirinhos acendiam as luzes e abriam as janelas, despertados pelos estrondosos projeteis.
Algumas figuras cruzaram as ruas em grande velocidade, não dando importância a uma figura pequenina que caminhava em direção ao ponto de ônibus.

João permaneceu ali durante o resto da noite, não pegou nenhum ônibus e caminhou até a escola do outro lado da cidade, onde provavelmente caminharia até a sala do diretor e seria encaminhado ao conselho tutelar.

- Lágrimas de Gasolina


domingo, 1 de novembro de 2015

Arrependimento

Uma das vozes veio do alto, deslizando sobre meus ouvidos e ombros como uma garoa fina.
- "Mas, por que tens esta paixão horrenda pela tristeza e pela morte?”.
Recostei-me sobre o epitáfio áspero de letras gastas e em relevo, onde apenas passagens vagas, escritas pela própria propriedade sem sentimento, repousavam. Tirei a rolha da garrafa de vinho e afastei algumas flores mortas que descansavam sobre o concreto velho, experimentando a dor de não ver nenhuma alma viva rondando por entre aqueles blocos que serviam para materializar a lembrança do que um dia fora vida.
- "É o que me resta." - respondi enquanto direcionava o bico da garrafa para meus lábios sem vida.
A voz tornou-se tempestade.
- "Você sabe que eu não estou falando de agora!" - esbravejou.
As coisas sempre foram assim, sempre pensando no fim. Uma afobação implacável para concluir as coisas. Em qualquer viagem ou plano que fazia, acabava por não concluir porcaria nenhuma, porque sempre pensava no que fazer quando atingisse o resultado, sem mesmo antes atingi-lo de fato. Morria aos poucos a cada projeto ou aspiração, não se preocupara com relacionamentos por temer pelos seus devidos fins, nunca visitara os pais por medo de qualquer dia ter de assistir suas devidas partidas, nunca disse - "Olá, como vai?" - por receio de dizer - "Adeus, se cuida".
Fez em vida o que não aprendera com a morte, sentado sobre a cova de algum estranho, presenciando o fim absoluto de qualquer coisa - a morte. Até pensara, enquanto sentava-se sobre o concreto e apoiava a garrafa de vinho lacrada sobre um dos joelhos - "Como irei voltar para casa quando ficar bêbado?" - fez todos os planos antes mesmo das consequências o afligi-lo de fato, mas não confunda com preparo a afobação pela conclusão, que descarta cada passo de uma caminhada até a padaria que for. Preparo é não sair de casa sem dinheiro, armado para não ser assaltado e de pés calçados para não serem feridos. Afobação é pensar no pão em seu estomago e se sentir saciado com isso.
- "Eu não sei do que você está falando!" - gritei para os céus neblinados pela chuva que se revelava através das luzes dos postes. - "Não sei, não sei!" - mas sabia.
A voz se tornou áspera e camuflou-se por entre meu ombro direito, materializando-se numa mão negra repousada sobre meu ombro e um cochicho no ouvido esquerdo.
- "Estou falando da viagem nunca feita por medo da chuva no ultimo dia que não aconteceu, falo da ligação que não fizera, falo dos planos que descartara quando jovem.”
Abaixei a cabeça enquanto o peso de dedos imateriais se dissipava, coloquei a garrafa intocada de lado e a tampei - "Algum arrependimento?" - me perguntei.
- "Vários, centenas!" - a voz respondeu em seguida.
Nunca pensei nos arrependimentos.

No restante daquela noite,  apenas uma garrafa cheia fizera companhia ao epitáfio, provavelmente algum funcionário do cemitério faria bom uso na manhã que surgia.

- Lágrimas de Gasolina


Imagem por Sandro Fortunato
Imagem por @Sandro Fortunato

sábado, 31 de outubro de 2015

Cigarros de Palha e Fósforos

"Toda vez que chovia, meu avô levantava de sua cama, fosse o horário que fosse. Caminhava a passos calmos e se dirigia até a porta do quintal, a abria e logo se sentava na cadeira de balanço do lado de fora.
Eu sempre o acompanhava, fosse o horário que fosse. Algumas vezes eu ficava de espreita, esperando ouvir o arrastar de chinelos, só para segui-lo e me sentar ao seu lado na varanda. Olhava maravilhado para toda aquela personificação de experiências e vivências acumuladas em um único ser que eu amava assistir.
Lembro-me da elegância com que preparava seu cigarro de palha, enrolando delicadamente com as pontas dos dedos, numa doce valsa entre palha e fumo. Assistia com meus pequenos olhos de criança, o acender de um dos fósforos que apanhara sem rodeios de uma caixinha especial que ele mesmo construíra quando mais moço. Incendiava os próprios dedos e em seguida acendia o cigarro recém-manufaturado.
Ali ficávamos por alguns minutos, admirando a chuva que se estendia por detrás das cercas nos horizontes da fazenda, enquanto ele balançava em sua cadeira de balanço e me dizia o quanto meus pais me amavam e dos motivos pelos quais nunca vieram me visitar, como eram pessoas ocupadas e a gratidão que lhes devíamos por garantirem o nosso conforto.
Essas eram as nossas noites, regadas ao cheiro de fumo e palha queimada e alguns rangeres de cadeira de balanço.
Sempre que me lembro de meu falecido avô, meu coração bate mais forte, aquele velho sempre fora como um pai para mim. Nunca lhe pedi nada, pois nunca me faltara nada.
É engraçado - e um pouco triste - quando essas lembranças aparecem por entre essas paredes vazias e sobre estes lençóis que meu avô utilizava para se cobrir, como se mesmo após sua partida, alguma coisa me dissesse que a qualquer momento em alguma noite, eu ouviria o arrastar de chinelos, o ranger da porta e o cheiro de fumaça.
Eu descobri a verdade a respeito de meus pais, muito tempo depois da morte do meu velho, e quando soube, não fiz alarde algum, pois em algum canto silencioso da minha alma, uma voz amordaçada sempre gritou escandalosamente:
- "Eles nunca virão!”
Hoje, completo sessenta e seis anos. Trabalho para o meu próprio sustento, utilizando dos recursos da fazenda. Às vezes vou até a cidade comprar alguns suprimentos, volto e me tranco em casa com meus cigarros de palha e fósforos.
Você já fumou um cigarro de palha alguma vez? Não?! É delicioso. Sento na cadeira de balanço nos dias de chuva e olho para o horizonte, esperando por alguma criança para iludir e servir de herói, o que é impossível, já que nunca me casei ou me preocupei com herdeiros. Tudo o que me resta são as lembranças que cultivo comigo mesmo e com as chamas de meus dedos - e como dói."

- Lágrimas de Gasolina


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Lembranças

Hoje eu decidi arrumar o meu quarto.
Pensei em começar pelas gavetas, mas comecei pelos armários.
Terminei de colocar alguns documentos no lugar e os ordenei por nome e data, tipo e tamanho.
Cheguei nas gavetas e comecei com as de cima e fui descendo.
Folhei cada objeto que descansava ali, demorei muito tempo.
Eram gavetas que não deveriam ser abertas.
Gavetas antigas, imóveis há cinco anos.
Seu conteúdo, embora estivesse logo ao meu lado durante as horas vagas, nunca me dei ao trabalho de movimentá-las.
Elas simplesmente estavam ali, esperando.
Uma lembrança embaixo de alguma apostila velha do ensino médio;
Algum passado alojado por entre fio velhos e fones quebrados;
Fotos escondidas por entre folhas de caderno;
Um convite para um baile de debutante;
Uma carta;
Uma foto de meus pais;
Um maço de cigarros vazio;
Adornos utilizados em épocas de escola;
Carregadores para celulares ultrapassados;
Apostilas do ensino fundamental;
Um presente sem valor;
Uma foto 3x4;
Chaves do meu antigo quarto; e
Um cofre vazio.
Ali dentro das gavetas, nada mais tem o valor que teve.
O valor se perdeu com o tempo e com as pessoas que se perderam.
No fim das contas, nós é quem agregamos valores às coisas.
A foto 3x4 não tem a barba que tenho hoje, as apostilas não sanam as dúvidas da faculdade, as antigas chaves não abrem porta alguma, não utilizo mais adornos, a carta não tem mais o amor, a debutante se mudou e nunca mais a vi.
Preparo o saco de lixo e jogo a gaveta toda lá dentro.
O mais engraçado é que na época, eu não jogaria nada daquilo no lixo.
Preciso descansar. São duas horas da manhã e o tempo não nos espera tomar fôlego.
A vida é rápida demais para termos lembranças.

- Lágrimas de Gasolina

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Mergulho em Águas Rasas #3 - Eu Sei Me Cuidar!

Senti-me absurdamente zonzo quando sacudi a cabeça e coloquei uma das mãos sobre a beirada da escada. É um tanto quanto impressionante essa resistência que eu sempre tive, sabe? É até engraçado eu sentir somente tontura e nem estar vomitando sangue como qualquer outra pessoa. Cômico mesmo é ter percebido essa resistência extraordinária só agora, afinal já aconteceram tantas coisas que teoricamente deveriam ter me matado, às vezes penso que a morte já está prescrita e que aqueles não eram os momentos dela vir, sei lá.
Subi as escadas e andei, medindo cada passo dado em direção à cerca para apanhar a toalha da minha prima, ela não se importaria que eu me enxugasse ou limpasse o sangue que escorria da minha cabeça, sou o primo mais velho e ela me adora. Além de que a toalha era rosa e não mancharia de nenhuma cor que não pudesse facilmente passar despercebida – foda-se. O importante mesmo era que ninguém percebesse que eu tinha acabado de fazer besteira, pois isso daria munição para as pessoas falarem qualquer merda e todo mundo sabe como as pessoas adoram falar, dar munição para elas me fuzilarem com suas palavras seria o inferno para mim.
Sentei sobre um degrau de concreto nos arredores de uma churrasqueira escondida da chácara e ali fiquei, tentando estancar o sangue e impelindo o pensamento de que qualquer desgraçado poderia me ver e rir. O ferimento minava sangue como um daqueles frascos de ketchup sem vergonha que quando a gente aperta, sai bem mais do que a gente espera. A toalha estava ficando num tom escroto de vermelho rosado, dando a impressão que o sangue que a preenchia era proveniente de alguma boca manchada de batom.
Não demorou muito para o primeiro arrombado ver e alertar todas as pessoas possíveis da festa, a maldita da minha prima havia gritado para meu tio, que desceu correndo com um saco de gelo na mão. Ele ficou lá por alguns minutos me olhando, achando que eu ia deslizar a qualquer momento e começar a estrebuchar no concreto. Eu até poderia passar mal, sentir minhas pernas formigarem e vomitar, mas não diria nada á ninguém, não queria que a atenção fosse desviada para os meus erros. Afinal as pessoas não estavam lá pelos meus pais? Por que elas não ficaram lá sentadas e assistiram à droga da cerimônia? Eu não chamei ninguém e nem pedi ajuda. – Eu sei me cuidar!
Algumas pessoas são tão obcecadas por desgraças alheias, que muitas vezes preferem desviar do seu destino e assistir mais alguns segundos de algum paramédico praticando algum procedimento em algum corpo frio, do que simplesmente dirigir para a porcaria do trabalho. Para mim, isso só pode ser algum tipo de doença, já me disseram todo tipo de coisa para tentar ofuscar essa natureza delas, mas nada pode justificar esse sadismo. A pior parte é que quando essas mesmas pessoas chegam a suas casas, elas abraçam suas esposas e maridos, beijam seus filhos e filhas, vão para o Facebook e escrevem alguma frase de impacto a respeito da vida e do real valor dela.
Isso é demais para mim, cara! A pessoa gasta a porcaria do tempo de vida dela se masturbando mentalmente para um cadáver no caminho para o trabalho e quando chega em casa, quer dar lição de moral.
Eu nunca fiz algo desse tipo. Tá, tá certo, estou mentindo, aconteceu uma vez, sim. Mas foi só dessa vez e a situação era completamente outra, eu não estava lá para ficar apenas observando e lamentando pela vida do pobre infeliz. E a gente acabou se envolvendo sem perceber e foi tudo tão de repente que parecia que alguma atitude imediata devia ser tomada. Bom, numa manhã de algum dia das férias escolares, dois dos meus primos decidiram que deviam vir passar algum tempo na minha casa, comer minha comida e usar as minhas coisas.

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quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Mergulho em Águas Rasas #2 - O Boneco de Pano

Acho engraçado como são as coisas, me lembro que certa vez, eu e um grupo de amigos tivemos a brilhante e trágica ideia de adentrar as dependências de um retiro de aidéticos localizado à algumas centenas de metros de minha vizinhança. Reunimos somente as mais conhecidas e renomadas figuras do bairro para executar uma missão formada pelo mais alto grau de ingenuidade, imprudência e imbecilidade, é claro que eu fui escalado como líder do bando, eles não me elegeram, mas era explicito em seus rostos o quanto minha presença seria importante. A nossa meta era invadir o retiro através das matas compostas por arvores, córregos e bambus apodrecidos que cercavam toda a propriedade. A entrada da trilha de acesso à mata se desbocava em um descampado maldito de fácil acesso, que ao passar por ela e caminhar alguns metros por folhas podres e animais peçonhentos, podia-se ver, ouvir e sentir um sutil amontoado de águas escuras formado pelo mais puro odor de bosta, sobre o córrego havia uma das vigas da extinta cerca de arame descansando de atravessado, essa ponte era por onde - é claro - passávamos como formiguinhas.
O plano era simples, nos reuniríamos na entrada da trilha, caminharíamos até o córrego, cruzaríamos a ponte, nos esconderíamos em meio às arvores e correríamos como soldados em meio a guerra pela grama a céu aberto até a grade que contornava toda a piscina.
Sim, exatamente isso que você está pensando, toda a droga do plano era para simplesmente darmos algumas poucas braçadas em uma porcaria de piscina, correndo o risco de sermos pegos por invasão e receber uma senhora surra quando chegássemos a nossas casas, mesmo assim não tire a razão da gente, embora fosse um ato de extrema ousadia diluída numa dose gigantesca de burrice, estávamos em janeiro e estava calor pra caralho.
Corremos um de cada vez pela grama durante impressionantes cinco segundos - fiz em quatro -, tendo os corpos freados pela grade quando atingíamos individualmente o objetivo. Um dos meninos preparou e abriu a mochila, retirou um pequeno alicate e abriu a cerca depois de alguns cortes, não fomos vistos nem ouvidos.
Quando nos aproximamos da piscina, notamos que as águas se assemelhavam àquelas vistas correndo pelo córrego há alguns minutos atrás, a partir desse momento eu tinha percebido que adentrar a agua fétida da mata seria muito mais saudável e teria poupado muito mais esforço do que mergulhar na lama esverdeada daquela piscina. No fim das contas, éramos crianças e para a maioria de nós o destino não vale de nada, sendo o caminho ou a viagem o aspecto mais importante, por isso chegar até ali, cortar a grade, simplesmente parar e encarar a piscina com aquele ar de sucesso já seria o suficiente. Porém, em todos os grupos de crianças, sempre existe um elemento que é um pouco mais retardado que os demais.
Então, como uma espécie de iluminação divina ou como se um pequeno diabrete houvesse se apossado do corpo daquele garoto magro e de dentição torta, ouvimos uma risada seguida por grito, vimos um vulto rosa-amarronzado voando num mortal sobre a piscina, girando como um boneco de pano jogado ao ar. Lembro-me de seus membros balançando, digo no sentido literal e integral da coisa, pois o rapaz estava nu, e caindo na piscina. Em seguida, todos nós estávamos lá dentro, não dávamos à mínima para o que aconteceria se alguém chegasse ou se houvesse alguma espécie de contaminação naquela água, éramos crianças e ter preocupações é coisa de adulto.
De vez em quando, me pego pensando em coisas que não fazem o menor sentido e quando me lembro daquela molecada, vejo como cada um era e tinha uma personalidade totalmente única e sabe, pensando nisso, acho que em algum lugar exista uma divisão de entidades responsáveis por organizar os círculos sociais das pessoas. É, algo assim - deve ser. - Não sei se me expressei bem, mas você já percebeu que em todo grupo de amigos, nenhum deles são parecidos e quando são, é porque são irmãos? Por isso eu penso que exista esse tal de recursos humanos celestial, justamente para aquele seu amigo gordinho não ficar sozinho. Sei lá, as coisas são engraçadas e é isso, a gente às vezes se pega pensando em como as coisas aconteceram e no dia seguinte acordamos jurando que não repetiremos os mesmos erros, mas às vezes nossa cabeça é meio atemporal, sabe? A gente esquece com muita facilidade das coisas e o aprendizado vai para o vinagre também.
Foi até engraçado eu lembrar esse tipo de coisa no instante seguinte em que bati a cabeça, porque foi depois daquele momento em que saí da piscina que as coisas ficaram estranhas, afinal eu estava com a cabeça toda inchada e sangrando, minha prima gritava - não ria - como uma hiena e meus pais comemoravam os vinte e cinco anos de casados deles na cobertura de fundo com mais outros cem convidados e parentes.

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quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Mergulho em Águas Rasas #1 - O Sapo-Deus Monge de Pernas Grossas

Porra, cara! Você não sabe o que me aconteceu nessa ultima semana, para você ter noção, tinha uma caralhada de gente dizendo o quanto eu tinha sorte e como eu deveria ser grato a alguma entidade que não permitiu que nada de pior acontecesse.
Como sempre fui o melhor de todos em tudo que já fiz, pensei que seria uma grande ideia demonstrar o quanto meu salto ornamental seguido pelo meu mergulho Ponta de Girafa - batizado assim por mim mesmo - era imensamente superior a tudo já visto pelos olhos da minha prima de dez anos de idade. Preparei-me como um campeão e saltitei elegantemente até a borda da piscina, parecia um magnata, o Magnata da Piscina, sem dúvida alguma, esse seria o titulo ideal.
Apontei para aquela cara ranhosa de criança e disse em voz alta como deveria ser um verdadeiro mergulho, ela me olhava com aquele olhar de admiração que somente as crianças são capazes e começou a gritar de euforia, parecia uma gargalhada deformada, mas não era, disseram que era, mas é tudo mentira, ela jamais riria do primo mais velho. Isso me irrita muito, todo esse bafafá que as pessoas fazem, estão sempre falando o que dá na cabeça e nunca pesam o quanto isso pode ferir os outros, são um bando de hipócritas essa é a verdade, sempre pregando o quanto você deve ser humilde e o quanto você deve praticar o bem, mas no fim das contas, estão sempre compartilhando imagens de suas conquistas ou alguma porcaria envolvendo estupro, mutilação ou qualquer outra besteira nojenta nas redes sociais. Desgraçados hipócritas!
Arregacei a bermuda para favorecer o ângulo do meu salto, dobrei os joelhos artisticamente enquanto pressionava as palmas uma contra a outra, numa espécie de posição de sapo monge ou um louva-deus de pernas grossas, depende do ponto de vista, acho que estava mais para o louva-deus do que para sapo - sei lá. - Acho um pouco complicado essa comparação entre sapo e louva-deus, embora o sapo seja um animal viscoso e nojento, ele ainda é bem superior ao louva-deus pelo fato de estar acima na cadeia alimentar, eu até diria que sou um sapo-deus monge de pernas grossas. É, esse seria o nome ideal para a posição pré-salto.
Então, na posição sapo-deus monge de pernas grossas, disse mais algumas palavras, apenas para deixar bem claro o quanto aquele salto mudaria toda a percepção de realidade daquela criança e o quanto ela deveria correr na direção dos pais e dizer o quanto o primo dela era embaçado, o rei - o rei, não - o magnata da piscina.
O engraçado é que tudo o que eu disse para minha prima até aquele momento antes do salto, aconteceu de verdade nos minutos que se seguiram, pois realmente abalou toda a minha percepção de realidade e a garota correu - como o vento - para chamar os meus pais. Às vezes eu me surpreendo com o meu poder de adivinhação, alguns diriam ser sorte ou coincidência, mas eu acho que não, deve ser algo maior, alguma espécie de habilidade não compreendida.
Pois é, eu pulei, mas não foi por falta de habilidade que atingi o meu crânio no fundo daquela piscina, na verdade, foi um instante absurdo de azar. Foi até interessante perceber o quanto - até mesmo os mais habilidosos - estão à mercê dos múltiplos fatores do ambiente, como o vento, as ondas sonoras dos pássaros e outras micro-variações incompreensíveis. Acontece que não foi minha culpa, alguma coisa fez com que a minhas pernas deslocassem trinta centímetros para frente e fizessem com que eu ficasse com o corpo perfeitamente reto, realizando um mergulho que só seria considerado seguro se fosse feito numa piscina de três metros de profundidade, que não foi o caso.
Minha cabeça projetava um curta-metragem de uma balada dentro de um trem desgovernado que colidia com uma tela de pintura vazia - não peguei ninguém - quando voltei ao mundo real, percebi que havia se passado pouco menos de dois segundos e eu ainda estava flutuando por entre as águas avermelhadas da piscina, me ergui com minhas próprias pernas e sai da água, suspirando como um guerreiro aquático ferido.
A menina apontava para a minha testa e gritava eufórica - não eram risos, eram gritos -, dizendo que eu estava sangrando e por isso já havia me tornado uma mocinha, eu não entendi muito bem a colocação dela, mas provavelmente era alguma gíria usada na escolinha.

Continua

- Lágrimas de Gasolina

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Dor, Sofrimento e Outras Coisas Terrorosas

Deitou-se. Tentou erroneamente dormir.
Não conseguiu se quer fechar os olhos, ficou encarando o teto angular de seu quarto, esperando uma cantiga de ninar que desconhecia a letra. Esperou por mais alguns segundos e se levantou, olhou para o primeiro andar através das grades que rodeavam o mezanino, onde jazia sua cama, analisou a noite e as horas que ainda restavam, analisou o dia que ainda viria e caiu de costas na cama, deitando-se novamente.
Uma pontada de consciência ecoava por suas paredes mentais lhe dizendo que deveria dormir, que amanha seria sexta-feira e que somente na noite do dia de amanhã poderia passá-la em claro.
Uma pequena força se rebelou dentro de si e mais uma vez soltou um grito corporal de liberdade, se livrando do adiantamento do dia de amanhã. Todas as noites quando caminhava atrasadamente até a cama, se recusava a aceitar que estava à mercê do cansaço de seus membros, se recusava a acreditar na implacabilidade do tempo e de como nenhum ser vivente poderia escapar de suas garras.
Desceu os degraus o mais rápido que pôde, queria aproveitar cada momento, produzir a cada segundo e adiar o resto dos dias de sua vida. Pensou no que deveria escrever, nos trabalhos que o deixava insone. Abriu a tela do computador, esticou os dedos e os posicionou sobre as teclas clareadas pelas luzes do monitor, iniciaria o que seria o maior de todos os textos já escritos e historias contadas se não houvesse sido interrompido. Escreveu:
"Quando dos espinhos de uma pútrida flor deslizar uma gota de orvalho e esta atingir o fértil solo de"
Parou bruscamente quando ouviu o som emitido através dos corredores de sua casa e encarou a porta fechada, à espera de alguém que pudesse entrar sem emitir um ruído se quer. Até mesmo a porta de madeira maciça não apresentava empecilho para o som que escorria pelas frestas e adentravam o quarto, atingindo-lhe os tímpanos nus e trementes. Empurrou a cadeira para trás num gesto cuidadoso, sem emitir nenhum barulho, nem mesmo as rodinhas do assento que sempre insistiam em estalar se manifestaram, parecia que todo o quarto estava focado em tornar a percepção do estranho som ainda mais nítido. Pôs-se de pé e caminhou sobre uma espécie de campo minado imaginário, onde qualquer estalido pudesse desencadear a maior de todas as explosões e dilacerar os membros daquele que as provocara.
À medida que se aproximava, o som se tornava cada vez mais orgânico, mas somente quando colocou as mãos na maçaneta pudera ouvir todos os detalhes que passaram despercebidos por seus ouvidos. Eram como a espécie de um ruído causado por uma dilaceração realizada por um animal, onde repentinamente estalares de ossos brotavam, sobrepondo sons semelhantes àqueles causados por uma massa de carne sendo devorada por algum ser desdentado, um animal que fizesse questão de remoer o alimento triturado em sua boca escancarada.
Juntou as forças e os resquícios de coragem dos quais tanto fizera menção em seus contos, e girou a maçaneta, revelando um corredor abismático e de dimensões irreconhecíveis quando admiradas através da perspectiva de um observador cego. Esticou os dedos com a mesma precisão que usava para escrever e pressionou o interruptor na parede, preparando-se para atingir um alvo invisível e desconhecido. Porém no lugar de uma criatura desdentada e de dimensões monstruosas, encontrou uma névoa malcheirosa somada à atenuação dos sons que adentravam com ainda mais força e infligiam ainda mais dor aos seus ouvidos. Forçou-se a caminhar pelo corredor, tapando as narinas e desviando das sequenciais ondas de mau cheiro nauseante, que utilizavam de seu nariz como via de transporte para passageiros só de ida para seu cérebro e dominavam suas lembranças, fazendo-o lembrar das queimadas de esterco velho, que seu falecido avô realizava nas periferias de sua fazenda.
Como grande observador que era, notou as luzes que irradiavam através das frestas de uma porta trancada no final daquele corredor mal cheiroso. Caminhou como um peregrino que rasteja contra os ventos hostis e arenosos do deserto, empurrando cada som mal cheiroso e cada nevoa auditiva, lutava contra um inimigo invisível porém presente e como o fim de toda a sua demonstração de força para telespectadores onipresentes, debruçou-se sobre a porta e deixou que as luzes que escorriam pelas frestas dominassem as solas de seus pés desnudos. Como uma torcida composta por torcedores fanáticos, sua mente gritava frases encorajadoras, embora todos os seus sentidos estivessem entorpecidos, uma fagulha mental de coragem e ímpeto o fez com que girasse a maçaneta e adentrasse o desconhecido e o inefável. Uma onda de podridão em forma gasosa destruiu todos os pelos do seu nariz enquanto debruçava-se sobre a porta e admirava a vil criatura, mais conhecida como "Vovó", sentada sobre um trono formado por porcelana e restos humanos. Sua vista se tornou turva e o chão se tornou próximo, os ruídos cessaram por uma fração de segundo e apenas uma frase ecoou por seus ouvidos:
- "Amorzinho, pega o papel higiênico pra vovó, vai querido!”

- Lágrimas de Gasolina.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Influência

Hoje eu tive um sonho.
Já fazia algum tempo que eu não sonhava com algo tão real.
Lembro-me de uma face cinzenta que dizia que os finais estavam por vir.
Começou com uma tarde na praia.
Estávamos todos sentados em cadeiras disformes e plásticas sobre as areias do litoral e conversávamos sobre algo que abrigava os confins do passado, riamos como uma família.
Como uma grande esfera índigo-carmim o sol escorria sobre as águas de um mar calmo e acolhedor, alguns pássaros voavam sobre ele, grasnando um som surdo enquanto pareciam fugir e alertar de algo que estava por vir.
Todos estavam envolvidos numa conversa que eu não conseguia mais entender, seus lábios se mexiam sem proferir qualquer ruído. Lembro-me dos muitos círculos de pessoas entretidas nas próprias conversas-surdas que nos rodeavam, mas que só pude notar naquele momento.
Podia ouvir o som das raras ondas quebradiças, do mar que se afastava sutilmente como uma criança que acabara de roubar uma guloseima e o som dos pássaros.
As águas se recolhiam cada vez mais, a cada instante de forma mais explícita, ninguém as notara além de mim. Logo um cume de águas salgadas tomava forma no horizonte, como se o próprio estivesse vivo e erguendo um de seus membros para se arrastar em direção à praia.
As pessoas continuavam falando comigo, demonstrando que de alguma forma eu ainda as estava respondendo e meus gritos de pavor não às atingiam de forma alguma.
- "Você se lembra daquele dia em que fomos à praia e sua mãe ficou gritando para você sair do fundo?”.
Apontei para o horizonte e para a coluna horizontal de água que crescia e tapava o sol, deixando apenas um fio de luz azulado estendido verticalmente, riscando os céus.
- "Olhe lá no fundo!" - disse, apontando e mexendo os braços.
- "É verdade, é sempre assim com a sua mãe." - respondeu a uma afirmação não feita e soltou uma risadinha.
Alguns longos períodos de tempo se passaram, momentos que somente os sonhos podem nos proporcionar, falo daquela falsa sensação de passagem de tempo onde ficamos estáticos e somos apenas vistos por nós mesmos como atores de uma peça de teatro.
A coluna de água correu por toda a extensão das areias, engoliu tudo e todos, ocupando o local onde banhistas conversavam com seus filhos e onde as mulheres tomavam banho de sol. Fui engolido pela violência das águas como todos aqueles daquela praia, porém fui o único a sofrer pelos malefícios da falta de oxigênio, percebi isto quando procurei pelas pessoas que estavam sentadas ao meu lado e notei que elas continuavam conversando entre si como se nenhuma delas houvesse se quer sentido a força que a onda usara para arremessá-las contra as paredes. Afoguei-me e a visão escureceu.

- "Você tem outra chance." - uma voz ecoou pela escuridão.
Sentei-me sobre o concreto de algum quiosque e uma silhueta engravatada repousou a mão sobre meu ombro. Dali podia-se ver os diversos círculos de pessoas, inclusive o meu e a mim, todos sentados e conversando. As pessoas estavam dispostas da mesma forma que se encontravam antes da onda as atingir. Ao longe, podia-se ver a coluna de mar tapando o sol pressagiando o que eu acabara de vivenciar.
- "Você pode tentar avisá-los novamente, mas deve ser de outra forma." - a voz era da figura bem vestida ao meu lado - "De forma que entendam".
Em seguida, o mar consumia todas as pessoas à minha frente. Fechei os olhos.

Estávamos todos sentados em cadeiras disformes e plásticas sobre as areias do litoral e conversávamos sobre algo que abrigava os confins do passado, riamos como uma família.
Como uma grande esfera índigo-carmim o sol escorria sobre as águas de um mar calmo e acolhedor, alguns pássaros voavam sobre ele, grasnando um som surdo enquanto pareciam fugir e alertar de algo que estava por vir.
- "Não estou me sentindo bem." - gemi.
- "Aconteceu alguma coisa?" - olhavam para mim com olhos de empatia.
- "Acho que vai acontecer algo muito ruim, só isso." - respondi - "Provavelmente acontecerá nos próximos minutos”.
Imediatamente todos se colocaram de pé e começaram a juntar suas coisas.
- "Poderíamos simplesmente ficar em algum quiosque no alto, até esta sensação passar." - continuei e todos acenaram em concordância.
Subimos no mais alto quiosque e observamos o horizonte, esperando pela previsão, mas não acontecera nada fora do normal, nenhuma onda maior que dois metros ou mortes desastrosas.
Senti uma ânsia inominável, uma frustração arrasadora conhecida apenas por aqueles que já tiveram suas maiores certezas refutadas. No fundo, a vaga chama do alívio.
Senti uma mão sobre meu ombro e uma voz ecoou pela escuridão.

- "Às vezes somos mais culpados do que imaginamos".

- "E hoje, mais do que algumas vidas foram salvas" – prosseguiu.

Acordei e estava na praia.

- Lágrimas de Gasolina

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Monólogo

Você já teve a sensação de não fazer parte de algo?
Sentar na cadeira do ônibus, olhar à sua volta e não encontrar nada?
Não encontrar uma aspiração de crescimento, não encontrar alguém que você possa simplesmente conversar sobre o futuro?
Em todo lugar há pessoas implorando por ajuda, mas que nada fazem para merecê-la, já viu alguma delas?
Pessoas que preferem continuar sentadas na mesma cadeira de secretária que se sentaram desde a época do ensino médio; conhece? Sim, as mesmas que perguntam o que fazer, mas não como e muito menos por que fazer o que se faz.
Já parou para notar quantas pessoas estagnaram conscientemente no patamar em que se encontram?
O que você aprendeu no dia de hoje? Você utilizou o que aprendeu? Pelos menos ensinou alguém? Passou adiante?
Pelo amor que você tem pela praticidade que este aparato eletrônico na sua frente te proporciona, pelo amor que você tem pelo conforto da sua cama, pelo amor que você tem à toda projeção intelectual existente, me diga que você está ai! Em algum lugar. Por favor.
- "Mais um dia se passou e foi mais um dia em que não utilizei a Fórmula de Bhaskara!" - E caem na risada.
Eu simplesmente não compreendo. Não compreendo o fato de não desejarem algo mais.
Sempre vomitam o mesmo tipo de desculpa e, peço perdão aos que se desculpam com honestidade por eu generalizar todos vocês, mas não me aguento mais.
As pessoas estacionaram, amoleceram e esqueceram que o mundo é dos grandes e não dos pequenos estagnados.
Imploram e oram aos céus para que em algum dia abençoado ganhem alguma bolada em dinheiro.
Imploram e oram aos céus para que um aumento apareça no holerite do inicio do próximo mês.
Imploram e oram aos céus para que em algum dia abençoado a sorte grande bata a porta e diga:
- "Ei, camarada! Seu grande dia chegou! Isso mesmo, a partir de hoje você poderá fazer o que sempre sonhou e deixar de lado todo esse esforço que você faz apenas para garantir o teu básico. Agora sente-se ai, vamos iniciar seu grande sonho, a partir de hoje você não precisará fazer mais nada!"
Os corruptos, os ignorantes, o compassivos, os estacionários, os apáticos, os desonestos, os oportunistas, os oprimidos.
- "Ei, você ai no fundo, que acabou de se levantar. Sim! Você mesmo! Gostaria de dizer algo? Não? Ah, você só estava indo ao banheiro. Tudo bem, me desculpe. Achei que ia dizer algo... Não? Tudo bem. Não sabe se vai voltar? Mas acabamos de começar. Ah, tudo bem. Não tem problema."

Alguém me diga que estou errado, que não são todos assim.
- "Oi, você! É, você! Gostaria de dizer algo? Ah, você só quer um carregador para o seu celular? Ah, tudo bem." - Não está nada bem.

Por favor, alguém me diga que estou errado!
- "Posso ir ao banheiro?"

- Lágrimas de Gasolina

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

A Falsa Aceitação

O que é pior, fazer o errado de forma consciente ou ter a ilusão de que o que se está fazendo é o correto? A negligência ou a ignorância?
Provavelmente, diríamos que a negligência é a pior das duas, pois o praticante carrega consigo a consciência e a desonra assumida pela atitude tomada e, justamente por ter esta consciência, ele deve ser duplamente punido. O indivíduo é assumidamente errado.
Porém eu lhes afirmo, sem sombras de dúvidas, que o pior é aquele que erra sem saber da natureza do erro, que afirma sem fundamento, que atira antes de perguntar, uma variante do chamado 'Idiota com Iniciativa', o ignorante; pois funciona como uma doença altamente contagiosa e quase impossível de ser destruída quando se encontra no seu ultimo estágio: A falsa aceitação.
A falsa aceitação é tão perigosa socialmente quanto uma bomba atômica a é para a humanidade, devido aos falsos valores que o indivíduo assume quando se depara com um grupo que pensa exatamente como ele; um grupo que não questiona, que não discute outros ideais e onde as outras linhas de pensamento não são bem-vindas.
O problema começa quando os próprios meios de comunicação ou até mesmo as pessoas passam a desarmar os meios de discussão.
Se todas as armas, como a denúncia, a expressão e a liberdade; forem censuradas, como poderemos dar voz às outras linhas de pensamento?
Será que a maioria é mesmo composta por aqueles que carregam a razão? E se não podemos dar voz àqueles que pensam de forma diferente, será que não estamos monopolizando as ideias e nos privando de possíveis verdades não ouvidas?

E afinal, se não posso ouvir ninguém gritando o quanto eu estou errado, provavelmente eu esteja certo, não é mesmo?

Não, às vezes as pessoas não gritam porque elas simplesmente não podem.


- Lágrimas de Gasolina

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

O Ônibus 3.85 #10 - 45 53 43 4f 4e 44 45 52

"Não procures esconder nada; o tempo vê, escuta e revela tudo." - Sófocles

As chamas das velas oscilavam uniformemente fazendo com que as sombras da mobília e daqueles dois corpos sentados sobre o sofá se alongassem e escalassem as paredes. A maior parte do cômodo estava devorada pela escuridão que a cada minuto consumia mais alguns de seus centímetros, transformando a aconchegante aparência dos móveis rústicos em assombrosas peças de mostruário de alguma loja de velharias.
A figura de vestido azul sentada desleixadamente sobre as gastas almofadas direcionava seus olhos na direção do televisor desligado enquanto exprimia uma fisionomia consagrada pela mais profunda estranheza. Balançando involuntariamente os antebraços e direcionando as palmas entreabertas para cima à medida que escorregava a cabeça para trás, esperou alguns poucos segundos e fechou os olhos.
No momento em que suas pálpebras se encostaram, o garoto ao seu lado pôde ver o movimento epilético realizado por seus olhos, que desenhavam pequenas esferas confusas de pele. Suas sobrancelhas e nariz projetavam a natureza dos pensamentos que invadiam a sua mente: o abismático terror sentido por aqueles que viram o inconcebível.
O garoto esticou as pequenas mãos e colocou-as sobre a palma esquerda da mãe que convulsionava violentamente, arpejando uma musica amedrontadora ouvida apenas por ela, esticou o torso para se aproximar do rosto dela enquanto exprimia o desespero de uma criança que não compreende o que está acontecendo. Nunca a vira protagonizando nenhuma ação desmedida ou incontrolável como aquela, exceto pelos flagelos e os súbitos acessos de raiva que jamais pôde compreender.
Virou o rosto na direção do dele, ainda tremendo e de olhos fechados, os ombros balançando involuntariamente como os rodeiros de uma locomotiva desajustada e desferiu um ruído quase inaudível e inesperado:
- "Horas" - o garoto a olhava sem entender - "Que horas" - soltou a mão da mãe e correu na direção da mesa de canto, onde descansava o velho relógio de pêndulo, o apanhou rapidamente e o levou ao sofá. Sentou-se e esticou as mãos trementes, segurando o relógio em frente à face da mulher.
- "Que horas" - insistiu, sem abrir os olhos.
Trouxe o objeto para si e encarou os ponteiros por alguns instantes, tentando reconhecer os números e dizer as horas que nunca aprendera. Lembrou-se que os ponteiros formavam uma linha vertical sempre que fosse hora de jantar e que o ponteiro menor sempre andava um número quando o maior realizava a volta completa, disse:
- "São duas voltas" - olhou para a mãe que aguardava em silêncio, de lábios entreabertos e cabeça encostada no sofá. Não estava tremendo, mas seus olhos fechados continuavam a dançar - "Não" - voltou os olhinhos para o objeto e corrigiu - "Duas voltas e meia, depois do jantar".
A mulher soltou um longo suspiro, seus olhos não bailavam sob as pálpebras.
- "Oito e meia" - rosnou, desencostando violentamente o pescoço do sofá, apoiou as mãos sobre as almofadas e empurrou o corpo para se levantar, criando um rastro formado pelos seus cabelos castanhos que antes pendiam pacificamente por trás do móvel. Olhou para aquele garoto assustado que se agarrava ao macio tecido que envolvia a almofada e a pressionava contra o peito.
- "Ela vai me bater de novo!" - pensou enquanto seguia com os olhos a figura azulada cruzar a sala.
Dirigiu o olhar para o lado sem compreender por que sua mãe caminhava até a cozinha sendo que o cinto de seu falecido pai jazia ao seu lado, sobre o sofá. O cinto sempre fora a ferramenta preferida usada pela matriarca, então descartou a possibilidade de espancamento.
Ouviu o som das gavetas de talheres serem rapidamente manejadas e o tilintar dos objetos que descansavam lá dentro, os ruídos soaram mais algumas vezes até o momento em que múltiplos baques surdos atravessaram a cozinha e a sala, as gavetas estavam sendo fechadas sequencialmente e constatou que a meta da mulher fora alcançada.
A sala estava majoritariamente consumida pela escuridão, não era possível constatar o que havia nos cantos mais distantes, somente uma das velas estava acesa, travando uma batalha imaginária contra o breu absoluto, uma luta entre luz e trevas em que a claridade se perdia perante a implacável oposição. O silêncio que dominava a casa não era natural, uma ausência total de qualquer ruído, como uma planície desolada por onde nem mesmo o vento ou qualquer forma de vida ousa passar.
Esperou estaticamente por alguns segundos, fitando a porta da cozinha com os pequenos olhinhos repousados sobre a almofada, remexendo-os e demonstrando intensa curiosidade. Um calafrio atingiu-lhe as costas quando viu a escuridão por trás da porta entreaberta da cozinha tomar forma, um abismo humanoide e de vestido azul tornava-se cada vez mais nítido perante seus olhos, tentou reconhecer seu rosto, mas não pôde analisá-los sem ser frustrado pelo reflexo que atraia seus olhos. Um objeto metálico e brilhoso agarrado pela mão esquerda da mãe projetava a luz da vela na direção de seu rosto, em poucos segundos de analise soube que se tratava de uma faca.
Um ímpeto furioso tomou conta dos membros da mulher, transformando-a em um vulto azul cinzento que escorria violentamente na direção do sofá em que Igor jazia tapando os olhos com a almofada e rastejando para a outra extremidade do móvel. Saltou sobre o filho e ergueu ambas as mãos que seguravam a faca com firmeza, a apontou para seu peito e desceu os membros para apunhalá-lo pela primeira vez. Repentinamente, um breu consolidou-se por toda a extensão do aposento, a vela apagou e toda a escuridão consumiu a sala, deixando apenas uma leve e inútil brasa sobre o móvel e o som de algo que violava o espaço físico de algum objeto macio e sem vida.
Em êxtase e rodeada pela escuridão, desferia golpes cada vez mais violentos, soltava curtos gritos e gemidos enquanto ignorava todo o vestígio de realidade à sua volta. Não pôde notar que sua vitima tratava-se de uma almofada e nem que a porta da sala estava sutilmente entreaberta, denunciando um fugitivo.
Ela só cessou o esfaqueamento e retomou consciência da realidade quando os primeiros raios de luz, provindos do estranho evento não anunciado na televisão, cruzaram os céus daquela madrugada e iluminaram o amontoado de algodão e panos que se acumulavam nos pisos da sala.
Igor nunca mais foi visto.

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terça-feira, 1 de setembro de 2015

O Ônibus 3.85 #9 - Uma Moeda

A partir de determinado momento, alguns indivíduos estão fadados à não ter destino e até mesmo a condição de não se ter destino é obra do mesmo. A liberdade é a ilusão de quem a sente e o mártir de quem a desconhece.

- "Eu não sou ninguém!" - Disse ofegante e sentiu que uma gota de sangue despencava de uma das narinas, provavelmente mancharia ainda mais a camisa vinho - "Sou um qualquer!" - E a gota caiu, molhando um pouco mais a camisa encharcada de sangue.
O motorista se agachava novamente para ver de perto a estranha fissura que o ferimento havia se tornado, não passando de uma pequena marca de arredores avermelhados com uma casca superficial vinho e preto.
- "Isso foi incrível!" - Comentou impressionado, podia-se sentir um leve teor de sadismo em sua voz.
O ferimento havia se fechado por completo, as cascas haviam deslizado e caído no chão do ônibus e voado para o fundo.
O homem se levantou, ainda segurando a barra de ferro com uma das mãos e dirigiu a mão direita sobre a cabeça da jovem mulher que segurava o punho esquerdo de Dante, correu os dedos pelos cabelos escuros e disse:
- "Espero que a senhorita segure este homem com toda a destreza do mundo, certo?" - Os dedos passaram pelos últimos fios e correram em direção ao rosto do segundo carcereiro - "E de você, eu não espero nada de diferente! Certo, garoto?" - Completou, passando as costas da mão pela bochecha do rapaz.
Os dois não esboçaram reação alguma, mantiveram os mesmos olhares funéreos, as mesmas expressões apáticas e a mesma força sobre-humana aplicada nos punhos e antebraços de Dante, que tentava inutilmente movimentar os membros e os dedos azuis à todo momento.
"Você aí atrás! O mesmo vale pra você!" - Gritou, apontando a barra de ferro na direção do rosto do homem que se apropriava do punho direito do prisioneiro.
Sentiu o braço cansado levantado sobre o ombro que se torcia para manter aquele carcere um pouco menos desconfortável, e os pequenos dedos que envolvia seu membro esquerdo adormecido. Olhou para as faces fúnebres e constatou que não haveria qualquer chance de escapatória, cogitou em levantar as pernas ou saltar, mas logo em seguida desistiu da ideia, pois provavelmente o derrubariam, por isso fixou os pés ao chão, decidido a não se mover não importando quais fossem os flagelos que lhe seriam infligidos. Deixou que os olhos colhessem o máximo de informação possível, correndo-os por toda a extensão do ônibus, observando as costas da jaqueta jeans que se dirigia para à cabine do motorista e em seguida correndo para os assentos e passageiros. Não encontrou nada que pudesse salva-lo do que poderia vir a seguir e amaldiçoou o momento em que decidira pegar um ônibus para ir para casa. Foi então que se deu conta de que praguejava de olhos fechados e estava completamente despreparado para qualquer coisa que pudesse acontecer, abriu os olhos e sentiu um calafrio escorrer pelos seus ombros quando virou os olhos em direção às janelas e das imagens que elas projetavam.
Por um momento, viu os outros passageiros desaparecerem deixando como lembrança uma fina nevoa branca que deslizava sob seus tornozelos, a fumaça se acumulava no chão sobrepondo e escondendo os sujos pisos de ônibus, deixando apenas as cadeiras à mostra. O corpo do motorista estava congelado, estacionado sobre a nevoa, preparado para dar o próximo passo. Percebeu que no lugar das mãos e dedos autoritários que tolhiam seus membros residia apenas uma fina camada de fumaça que se dissipava ao redor de seus punhos, caminhou em direção a janela sem dar valor algum para a liberdade que não teve nas ultimas horas e encostou as palmas e testa no vidro da janela sem acreditar na familiaridade do que via.
As arvores e calçadas que corriam maravilhosamente perante seus olhos pertenciam ao canto mais brilhante e feliz de suas antigas memorias de infância. Os muros azuis da antiga casa dos Souza, onde jogava futebol de rua com os meninos da rua, passou voando pelas janelas, o homem apertou inconscientemente o vidro com os dedos para tentar abraçar aquela recém-reanimada lembrança e em seguida, voou a velha praça e pôde ver sua antiga escola ao fundo.
Eram lembranças das quais a fase adulta jamais o permitiria se lembrar, por alguns instantes fechou os olhos, tentando entender o que acontecia naquele momento, afinal o ônibus não deveria passar por estes lados. As mãos estavam apoiadas nas janelas, mas não estavam abertas, formando punhos fechados e todo o rosto descansava recostado sobre o vidro riscado por lágrimas escorridas. Seu corpo fez o breve movimento que um passageiro faz quando um veículo freia até parar, inclinando-se levemente para o lado e voltando ao ponto inicial. Percebendo que o ônibus havia parado, desgrudou a testa do vidro e abriu os olhos vermelhos e encharcados, pensou que iria desmaiar quando vislumbrou a insensatez que se escancarava do lado de fora para ele, sentiu que a nevoa que dominava as periferias de sua visão escurecia de forma gradual, mas naturalmente elas estavam enegrecidas, formando uma espécie de moldura abismática ao redor daquele retrato que revelava o impossível para seus olhos. Coçou as órbitas desacreditadas e colocou a mão no vidro, enquanto com a outra afastava a negra nevoa que insistia em tentar tapar a janela.
Rodeado pelo breu e clareado pela luz da imagem da antiga casa de seus pais, Dante se recostou sobre o vidro e se pôs a chorar, mas não chorava pelas lembranças que um dia formaram seu antigo presente, e sim porque diante de seus olhos uma pequena criança brincava na calçada em frente aos muros de sua antiga casa e facilmente fora reconhecida pelo homem, pois aquele homem e aquela criança eram a mesma pessoa.

- "Meu deus, eu só queria ir para casa" - Sutilmente aquela frase dominou seus pensamentos e todo seu corpo foi coberto pelo breu. Naquele momento, Dante compreendeu.

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-Lágrimas de Gasolina