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segunda-feira, 13 de maio de 2013

Fama


Ah! Que momento glorioso fora aquele!

Todos ali, apontando, boquiabertos

Todos apontando para mim

Os olhos, as expressões

Nunca acreditaram que o garoto gordo seria o centro das atenções

Nunca acreditaram que o garoto excluído seria notado

Nunca acreditaram em mim

Nunca

Ah! Que momento glorioso fora aquele!

As pessoas em volta, se aglomerando, se acotovelando

O trânsito em estado caótico, contornando brechas para me ver

Ah! Mas que sensação!

Que alegria, que alegria

Nunca, naquela curta vida, eu fora tão feliz

quanto no dia em que fui atropelado pelo ônibus 3.85

- Dedos Azuis

domingo, 12 de maio de 2013

Limões

Quando eu era pequeno eu quebrei um pé de limão.

Na verdade, eu e meu primo o matamos, mas a ideia foi minha.

O limoeiro nunca me perdoou. Seu espírito me seguia, obsessor. Me ameaçava, tirava meus sonos. Tentava me matar.

Ao longo dos anos nos desvinculamos, e ele parou de me atormentar.

“Não dá mais, desculpa! Eu sempre vou te amar… Mas não dá mais…”
O bilhete amarelado jazia sorrindo em cima da cama. Minha esposa fora embora durante a noite.

Peguei o carro e dirigi até a casa de meu tio. Estacionei na rua e caminhei até o quintal, no local onde o pé de limão costumava estar.

Sentei ali e passei a noite, estático.

Quando começou a amanhecer, olhei para o céu e abri a boca. Um fino ramo escorregou para fora.

No final do dia, meu tio ganhou um novo limoeiro.

- Dedos Azuis


segunda-feira, 6 de maio de 2013

Caridade


Estiquei vagarosamente o braço, com a palma da mão voltada para aqueles que se recusavam a ajudar. A pequena caixa azul em minha frente carregava o meu fardo em forma de mensagem: “um pedaço para quem tem fome”.

E por lá passavam, e por lá nem se dispunham um olhar para o lado, um pensamento amigo, um ato generoso. Blindados em seus ternos de qualquer emoção vinda de fora, os humanos cruzavam a rua indiferente aos que estavam jogados ao chão; sujos, famintos. Esquecidos.

Levantei os olhos amarelados, cobertos de secreção e pûs, para pousá-los na caixa azul. Na caixa vazia e azul.

Em suas casas, seus carros, suas roupas, seus mundinhos, a população que não me dirigiam se quer um olhar era a mesma que gritava por um governo melhor, era a mesma que exigia reformas em diversos setores da economia. Era a mesma que pisava em mim quando passavam.

E de fato, o que eu peço, as pessoas desfrutam de apenas 10%. O que eu peço; apenas um pedaço disto, uma pequena parcela. Todos têm, isto é irrecusável, e todos têm muito mais do que precisam. Tem poucos muitos que nem mesmo um décimo de seu total eles usam. Seres malditos, egoístas, egocêntricos.

Um jovem senhor parou em minha frente, olhou no fundo dos meus olhos, encostou uma Glock na cabeça e, sem o menor traço de preocupação, apertou o gatilho.

Carne e sangue fresco voaram em todas as direções, cobrindo meu rosto com respingos quentes. Voltei os olhos novamente para minha caixa azul, que agora estava cheia de pedaços estourados do que costumava ser o cérebro do sujeito.

Abaixei os olhos para homem caído, sorri e disse um rápido obrigado.

Existem pessoas que se importam. Mas de modo geral, não é fácil ser um pedinte zumbi nos dias de hoje.

- Dedos Azuis

domingo, 5 de maio de 2013

Belo Incerto



Dobrei meu corpo sobre os joelhos para adimirar o pequeno artrópode: uma linda borboleta azul dançava uma solitária valsa por entre os ramos da roseira de minha casa. Por fim, parou em uma pequena petála e abriu suas asas ao sol.

Torci o pescoço, em busca de compreensão para tamanha beleza em algo tão pequeno, diminuto. Mas, afinal, o que é a beleza?

Seria a idealização de uma imagem, um desconhecido anseado, ou simplesmente a afinidade por aquilo que é semelhante à nós? Se mostraria como belo tudo aquilo que nos cerca e que estamos acostumados? Tudo aquilo que fora imposto para nós como belo, e assim por sequente?

E assim o resultado do feio seria simplesmente o novo? O estranho? Todos os que são diferentes de nós, todas as culturas e fisionomias  todos os mais diversos organismos e sistemas, todos os que se mostram com características distantes da massa chamada “normal” seria reconhecidos e clamados por sua falta de beleza?
Seria o ser humano tão hipócrita, que ele mesmo minoria, classifica o que é periférico a sua população como inferior intelectual e anatomicamente? E disso por sequente todo o critério adornado pela beleza destruído por um simples padrão de normalidade?

Segurei a borboleta pela asa e a comi. Azul, azul. Que cor deliciosa.

- Dedos Azuis