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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Contos de Matusalém #1

Aconteceu em uma época onde as coisas não eram deixadas para trás nem esquecidas em gavetas. Não precisávamos nos preocupar com portas trancadas nem com ferros de passar ligados.
Era uma tarde de segunda-feira.
Matusalém era um pequeno raminho saudável e morava com seus pais no fim do vale, estava brincando no infinito quintal de sua morada, desenhando em um pequeno espaço de terra que acabara de limpar, havia colhido e amontoado todas as folhas que conseguira, formando uma enorme pilha de sujeira. Com uma de suas pequenas extremidades, traçava finas e precisas linhas no solo, concentrado nos curtos pensamentos de seu pequeno cérebro e nos movimentos que fazia, não errou um traço sequer. Sua atenção era tão limitada quanto deveria ser para uma plantinha juvenil, por isso não percebera a aproximação quase inaudível de sua mãe. A gigantesca árvore ficou parada acima dos tímidos galhos mais altos do raminho desenhista.
- Nossa, que desenho bonito! O que é? - Uma doce voz cortou sua concentração. - É uma arvore? - Indagou a gigante baobá.
O raminho ficou olhando sobre seus galhos baixos para as raízes de sua mãe, nunca vira seu rosto, mas isto nunca fez a menor diferença, nenhum dos raminhos do vale já o havia feito. Respondeu:
- É sim, sou eu! - Disse enquanto riscava um grande sorriso que preenchia toda a extensão do desenho - e olha como estou feliz! - Completou.
A baobá riu serenamente perante a imaginação de sua cria. Ela era professora no vale e sabia como era raro um raminho que se preocupasse com o futuro. Virou-se para as copas de Pelagus e vislumbrou o último pôr do sol do dia. As árvores maiores preenchiam toda aquela vastidão e escalavam até mesmo as gigantescas montanhas Gaia Retrorsum.
O vale lembrava um enorme prato de sopa de espinafre, suas extremidades eram formações rochosas milenares e maravilhosas, havia árvores e pássaros dos mais variados tipos que preenchiam completamente o centro côncavo da gigantesca tigela, alguns deles se dispersavam à medida que se aproximavam das beiradas. A densa parte central era composta pelas árvores mais antigas do planeta, as primeiras formas de vida vegetal a emergirem sobre aquele jardim gigantesco e eram conhecidas como os líderes daquela sociedade vegetal, os anciões - como eram chamados - estavam envoltos por árvores mais jovens e estas por sua vez, envoltas por árvores ainda mais jovens. Ao contrário dos líderes humanos que conhecemos, as plantas têm uma intensa satisfação por estarem completamente rodeadas por sua espécie.
O planeta das árvores não tinha nome próprio, pois seus habitantes jamais poderiam dizer com firmeza o que era aquele imenso jardim onde moravam, tão pouco sabiam da existência dos outros milhares de planetas ou do vasto universo que os rodeava. Á princípio, as pequenas e poucas criaturas que cuidavam das planícies, antes do nascimento de algum dos ramos que originariam as primeiras árvores, desenvolveram asas, porém algumas delas eram desajeitadas ou pesadas demais para voar. Os primeiros seres a saírem do chão e voarem pelos ares do jardim foram os pequenos animais posteriormente apelidados de Liberums, nesta época as plantas já dominavam cerca de quarenta hectares do que um dia se chamaria Pelagus, assim puderam presenciar aquelas pequenas criaturas peludas e dentuças voando por aí com suas asas coloridas. A partir daquele momento, os anciões perceberam o quão importante aquelas criaturinhas poderiam ser para o estudo do planeta.
Sabiam que existiam extensões incompreensíveis de água fora da concha, nos arredores das planícies inexploradas, porém as asas em evolução dos peludinhos jamais permitiriam que voassem além delas numa viagem tão extensa, o que causou certa frustração à expectativa de sanar as curiosidades dos anciões.
Nada podendo fazer, assim seria o longo processo de exploração do planeta, toda descoberta feita seria passada para as árvores periféricas, que contariam às vizinhas que por sua vez contariam às vizinhas, repetindo-se até atingir os ouvidos das árvores centrais. Esse processo se repetiu até o nascimento da primeira baobá, plantas incrivelmente gigantescas e majestosas e que muitas vezes passavam da estatura da mãe em poucas dezenas de anos.

A primeira baobá nasceu nas periferias, como de costume, porém um fato pouco costumeiro ocorreu, o tempo se passou e aquela pré-adolescente ultrapassara a altura da mãe em um metro. As vozes ecoaram pelo vale que saudava precocemente a mais nova espécie do planeta, o gigante baobá. As palavras atingiram os ouvidos das grandes árvores centrais e um deles choramingou:
- Eu daria todas as minhas folhas para poder ver o tal gigante!
Mais uma vez as vozes ecoaram pelos galhos e em poucos dias as preces dos anciões atingiram os tímpanos da gigante.
Foi numa terça-feira e o primeiro sol já havia se posto.
As antigas árvores estavam aglomeradas como de costume, recebendo as notícias de todos os cantos do vale, quando toda a atenção foi direcionada para Greg, o quinquagésimo quarto. A árvore gritava de horror, eram palavras estridentes e ininteligíveis, balançava-se tentando remover algo de dentro de si enquanto roçava os próprios galhos contra o tronco. Gritou:
- Algo está dentro de mim! Agora, desceu e está embaixo! Algo está puxando minhas raízes!
As outras plantas o olhavam, desconcertadas, Greg nunca apresentara comportamento tão maluco, embora fosse uma das árvores mais engraçadas conhecidas. Athos, o quinquagésimo, disse:
- Ei, Greg. Fique calmo, com certeza são algumas cigarras, vá - mas foi interrompido pela horrível cena que se projetava à sua frente, algo que nunca havia testemunhado ou sequer imaginado ser possível.
A árvore deslizava como se estivesse sendo tragada pela terra através de uma areia movediça sobrenatural. Já haviam passado cerca de dois metros, depois mais quatro e mais dez, Greg agonizava afogado pela terra enquanto suas últimas folhas passavam pelo vórtice arenoso.
- Me ajudem! Me aju - suas palavras foram tragadas junto com seus últimos membros.
As múltiplas formas de vida que tinham plena consciência de que realmente haviam testemunhado o absurdo, estavam paralisadas com o terror que percorria internamente suas seivas, aguardando estaticamente pelo que veriam em seguida, as mais próximas tentavam inutilmente fugir para longe da marca que a suposta abdução de Greg deixara para trás. Os Receptores impediam quaisquer outras informações de chegarem e logo cuspiam descrições do que havia acontecido nas dependências dos anciões e com a quinquagésima quarta árvore mais antiga do vale.

As árvores receptoras tinham acabado de concluir a décima remessa de mensagens quando algumas plantas começaram a reclamar incessantemente do barulho provindo da marca no chão. Fazia apenas dez minutos desde o ocorrido e cerca de dois hectares já sabiam das notícias, do acontecimento e das palavras alarmantes dos anciões, até mesmo os Liberums foram chamados para iniciar uma busca sem esperança por Greg.

O quinto ancião havia começado sua narração, as Receptoras anotavam artisticamente as palavras que formariam a décima primeira mensagem do dia, porém uma delas parou ao perceber que uma pequena pedra rolara arbitrariamente sobre os dizeres que desenhava na terra, algo estava assustadoramente errado. Outra também parou quando notou que o chão se movia sob suas raízes e apagava os dizeres incrustados na terra. E mais outra parara, quando ouvira os gritos de terror produzidos pelas árvores dos arredores. A marca abdutiva se movia numa vibração sobrenatural, alguns até chegaram a pensar esperançosamente que Greg havia encontrado uma forma de voltar, outros pensaram desastrosamente que o mal que tragara Greg para as profundezas desconhecidas da terra estava prestes a emergir para preencher o estômago que uma única árvore não fora capaz de saciar. Todos sentiam tanto medo quanto curiosidade, mas poucos ousaram dizer alguma coisa, exceto as receptoras que narravam todos os detalhes que seus olhos permitiam descobrir.
- A marca está vibrando loucamente - dizia uma delas - posso sentir minhas raízes balançarem, é como se uma minhoca gigantesca estivesse prestes a saltar pelo buraco a uma velocidade absurda, a sensação é de completo terror, as árvores estão assustadas, as receptoras estão fazendo o mesmo que eu, os anciões estão impassíveis, cochicham entre si, sabem tanto quanto nós, o que é terrível! - fez uma pausa, olhava fixamente para a marca - a marca está aumentando, deve ser apenas impressão. Não, ela realmente está maior! Ei, espera, eu posso ver alguma coisa! Algo está saindo do buraco e é enorme! São folhas, eu não acredito, são folhas! Greg conseguiu!
As receptoras e subreceptoras gritavam velozmente, as árvores próximas falavam com extrema rapidez e precisão, todos ansiosos por reproduzirem via palavras acontecimentos nunca antes ocorridos.
Algo estranho chocou a receptora que se pôs a continuar:
- Só um momento, pessoal! Estas folhas são límpidas demais e estes galhos são maiores que os de Greg.
Uma das receptoras gritou do outro lado do recanto dos anciões:
- Acabei de receber: uma árvore desapareceu na atual periferia, próxima à Gaia Retrorsum, a desaparecida trata-se da nova espécie, a gigante baobá!
Em alguns segundos, nenhuma delas tinha mais certeza alguma, não sabiam se o que haviam presenciado era obra da imaginação ou se estavam ficando loucas. Algumas árvores descansavam inconscientes e ancoradas sobre as próprias raízes que as impediam de atingir o solo, haviam desmaiado. Os inteligentes olhos dos anciões assistiam a gigantesca extensão de casca, galhos e madeira que crescia através do buraco no chão, passaram-se galhos e folhas seguidos por dois metros de tronco, depois mais cinco e mais dez metros, em questão de segundos uma gigantesca árvore ocupava o lugar da quinquagésima quarta árvore mais velha do vale - a penetra era a árvore desaparecida de Gaia Retrorsum, a nova espécie, a gigante baobá.

- Lágrimas de Gasolina
 
 http://www.deviantart.com/art/Forest-98795458
Forest by Andead



terça-feira, 20 de outubro de 2015

Mergulho em Águas Rasas #3 - Eu Sei Me Cuidar!

Senti-me absurdamente zonzo quando sacudi a cabeça e coloquei uma das mãos sobre a beirada da escada. É um tanto quanto impressionante essa resistência que eu sempre tive, sabe? É até engraçado eu sentir somente tontura e nem estar vomitando sangue como qualquer outra pessoa. Cômico mesmo é ter percebido essa resistência extraordinária só agora, afinal já aconteceram tantas coisas que teoricamente deveriam ter me matado, às vezes penso que a morte já está prescrita e que aqueles não eram os momentos dela vir, sei lá.
Subi as escadas e andei, medindo cada passo dado em direção à cerca para apanhar a toalha da minha prima, ela não se importaria que eu me enxugasse ou limpasse o sangue que escorria da minha cabeça, sou o primo mais velho e ela me adora. Além de que a toalha era rosa e não mancharia de nenhuma cor que não pudesse facilmente passar despercebida – foda-se. O importante mesmo era que ninguém percebesse que eu tinha acabado de fazer besteira, pois isso daria munição para as pessoas falarem qualquer merda e todo mundo sabe como as pessoas adoram falar, dar munição para elas me fuzilarem com suas palavras seria o inferno para mim.
Sentei sobre um degrau de concreto nos arredores de uma churrasqueira escondida da chácara e ali fiquei, tentando estancar o sangue e impelindo o pensamento de que qualquer desgraçado poderia me ver e rir. O ferimento minava sangue como um daqueles frascos de ketchup sem vergonha que quando a gente aperta, sai bem mais do que a gente espera. A toalha estava ficando num tom escroto de vermelho rosado, dando a impressão que o sangue que a preenchia era proveniente de alguma boca manchada de batom.
Não demorou muito para o primeiro arrombado ver e alertar todas as pessoas possíveis da festa, a maldita da minha prima havia gritado para meu tio, que desceu correndo com um saco de gelo na mão. Ele ficou lá por alguns minutos me olhando, achando que eu ia deslizar a qualquer momento e começar a estrebuchar no concreto. Eu até poderia passar mal, sentir minhas pernas formigarem e vomitar, mas não diria nada á ninguém, não queria que a atenção fosse desviada para os meus erros. Afinal as pessoas não estavam lá pelos meus pais? Por que elas não ficaram lá sentadas e assistiram à droga da cerimônia? Eu não chamei ninguém e nem pedi ajuda. – Eu sei me cuidar!
Algumas pessoas são tão obcecadas por desgraças alheias, que muitas vezes preferem desviar do seu destino e assistir mais alguns segundos de algum paramédico praticando algum procedimento em algum corpo frio, do que simplesmente dirigir para a porcaria do trabalho. Para mim, isso só pode ser algum tipo de doença, já me disseram todo tipo de coisa para tentar ofuscar essa natureza delas, mas nada pode justificar esse sadismo. A pior parte é que quando essas mesmas pessoas chegam a suas casas, elas abraçam suas esposas e maridos, beijam seus filhos e filhas, vão para o Facebook e escrevem alguma frase de impacto a respeito da vida e do real valor dela.
Isso é demais para mim, cara! A pessoa gasta a porcaria do tempo de vida dela se masturbando mentalmente para um cadáver no caminho para o trabalho e quando chega em casa, quer dar lição de moral.
Eu nunca fiz algo desse tipo. Tá, tá certo, estou mentindo, aconteceu uma vez, sim. Mas foi só dessa vez e a situação era completamente outra, eu não estava lá para ficar apenas observando e lamentando pela vida do pobre infeliz. E a gente acabou se envolvendo sem perceber e foi tudo tão de repente que parecia que alguma atitude imediata devia ser tomada. Bom, numa manhã de algum dia das férias escolares, dois dos meus primos decidiram que deviam vir passar algum tempo na minha casa, comer minha comida e usar as minhas coisas.

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- Lágrimas de Gasolina

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Mergulho em Águas Rasas #2 - O Boneco de Pano

Acho engraçado como são as coisas, me lembro que certa vez, eu e um grupo de amigos tivemos a brilhante e trágica ideia de adentrar as dependências de um retiro de aidéticos localizado à algumas centenas de metros de minha vizinhança. Reunimos somente as mais conhecidas e renomadas figuras do bairro para executar uma missão formada pelo mais alto grau de ingenuidade, imprudência e imbecilidade, é claro que eu fui escalado como líder do bando, eles não me elegeram, mas era explicito em seus rostos o quanto minha presença seria importante. A nossa meta era invadir o retiro através das matas compostas por arvores, córregos e bambus apodrecidos que cercavam toda a propriedade. A entrada da trilha de acesso à mata se desbocava em um descampado maldito de fácil acesso, que ao passar por ela e caminhar alguns metros por folhas podres e animais peçonhentos, podia-se ver, ouvir e sentir um sutil amontoado de águas escuras formado pelo mais puro odor de bosta, sobre o córrego havia uma das vigas da extinta cerca de arame descansando de atravessado, essa ponte era por onde - é claro - passávamos como formiguinhas.
O plano era simples, nos reuniríamos na entrada da trilha, caminharíamos até o córrego, cruzaríamos a ponte, nos esconderíamos em meio às arvores e correríamos como soldados em meio a guerra pela grama a céu aberto até a grade que contornava toda a piscina.
Sim, exatamente isso que você está pensando, toda a droga do plano era para simplesmente darmos algumas poucas braçadas em uma porcaria de piscina, correndo o risco de sermos pegos por invasão e receber uma senhora surra quando chegássemos a nossas casas, mesmo assim não tire a razão da gente, embora fosse um ato de extrema ousadia diluída numa dose gigantesca de burrice, estávamos em janeiro e estava calor pra caralho.
Corremos um de cada vez pela grama durante impressionantes cinco segundos - fiz em quatro -, tendo os corpos freados pela grade quando atingíamos individualmente o objetivo. Um dos meninos preparou e abriu a mochila, retirou um pequeno alicate e abriu a cerca depois de alguns cortes, não fomos vistos nem ouvidos.
Quando nos aproximamos da piscina, notamos que as águas se assemelhavam àquelas vistas correndo pelo córrego há alguns minutos atrás, a partir desse momento eu tinha percebido que adentrar a agua fétida da mata seria muito mais saudável e teria poupado muito mais esforço do que mergulhar na lama esverdeada daquela piscina. No fim das contas, éramos crianças e para a maioria de nós o destino não vale de nada, sendo o caminho ou a viagem o aspecto mais importante, por isso chegar até ali, cortar a grade, simplesmente parar e encarar a piscina com aquele ar de sucesso já seria o suficiente. Porém, em todos os grupos de crianças, sempre existe um elemento que é um pouco mais retardado que os demais.
Então, como uma espécie de iluminação divina ou como se um pequeno diabrete houvesse se apossado do corpo daquele garoto magro e de dentição torta, ouvimos uma risada seguida por grito, vimos um vulto rosa-amarronzado voando num mortal sobre a piscina, girando como um boneco de pano jogado ao ar. Lembro-me de seus membros balançando, digo no sentido literal e integral da coisa, pois o rapaz estava nu, e caindo na piscina. Em seguida, todos nós estávamos lá dentro, não dávamos à mínima para o que aconteceria se alguém chegasse ou se houvesse alguma espécie de contaminação naquela água, éramos crianças e ter preocupações é coisa de adulto.
De vez em quando, me pego pensando em coisas que não fazem o menor sentido e quando me lembro daquela molecada, vejo como cada um era e tinha uma personalidade totalmente única e sabe, pensando nisso, acho que em algum lugar exista uma divisão de entidades responsáveis por organizar os círculos sociais das pessoas. É, algo assim - deve ser. - Não sei se me expressei bem, mas você já percebeu que em todo grupo de amigos, nenhum deles são parecidos e quando são, é porque são irmãos? Por isso eu penso que exista esse tal de recursos humanos celestial, justamente para aquele seu amigo gordinho não ficar sozinho. Sei lá, as coisas são engraçadas e é isso, a gente às vezes se pega pensando em como as coisas aconteceram e no dia seguinte acordamos jurando que não repetiremos os mesmos erros, mas às vezes nossa cabeça é meio atemporal, sabe? A gente esquece com muita facilidade das coisas e o aprendizado vai para o vinagre também.
Foi até engraçado eu lembrar esse tipo de coisa no instante seguinte em que bati a cabeça, porque foi depois daquele momento em que saí da piscina que as coisas ficaram estranhas, afinal eu estava com a cabeça toda inchada e sangrando, minha prima gritava - não ria - como uma hiena e meus pais comemoravam os vinte e cinco anos de casados deles na cobertura de fundo com mais outros cem convidados e parentes.

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- Lágrimas de Gasolina

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Mergulho em Águas Rasas #1 - O Sapo-Deus Monge de Pernas Grossas

Porra, cara! Você não sabe o que me aconteceu nessa ultima semana, para você ter noção, tinha uma caralhada de gente dizendo o quanto eu tinha sorte e como eu deveria ser grato a alguma entidade que não permitiu que nada de pior acontecesse.
Como sempre fui o melhor de todos em tudo que já fiz, pensei que seria uma grande ideia demonstrar o quanto meu salto ornamental seguido pelo meu mergulho Ponta de Girafa - batizado assim por mim mesmo - era imensamente superior a tudo já visto pelos olhos da minha prima de dez anos de idade. Preparei-me como um campeão e saltitei elegantemente até a borda da piscina, parecia um magnata, o Magnata da Piscina, sem dúvida alguma, esse seria o titulo ideal.
Apontei para aquela cara ranhosa de criança e disse em voz alta como deveria ser um verdadeiro mergulho, ela me olhava com aquele olhar de admiração que somente as crianças são capazes e começou a gritar de euforia, parecia uma gargalhada deformada, mas não era, disseram que era, mas é tudo mentira, ela jamais riria do primo mais velho. Isso me irrita muito, todo esse bafafá que as pessoas fazem, estão sempre falando o que dá na cabeça e nunca pesam o quanto isso pode ferir os outros, são um bando de hipócritas essa é a verdade, sempre pregando o quanto você deve ser humilde e o quanto você deve praticar o bem, mas no fim das contas, estão sempre compartilhando imagens de suas conquistas ou alguma porcaria envolvendo estupro, mutilação ou qualquer outra besteira nojenta nas redes sociais. Desgraçados hipócritas!
Arregacei a bermuda para favorecer o ângulo do meu salto, dobrei os joelhos artisticamente enquanto pressionava as palmas uma contra a outra, numa espécie de posição de sapo monge ou um louva-deus de pernas grossas, depende do ponto de vista, acho que estava mais para o louva-deus do que para sapo - sei lá. - Acho um pouco complicado essa comparação entre sapo e louva-deus, embora o sapo seja um animal viscoso e nojento, ele ainda é bem superior ao louva-deus pelo fato de estar acima na cadeia alimentar, eu até diria que sou um sapo-deus monge de pernas grossas. É, esse seria o nome ideal para a posição pré-salto.
Então, na posição sapo-deus monge de pernas grossas, disse mais algumas palavras, apenas para deixar bem claro o quanto aquele salto mudaria toda a percepção de realidade daquela criança e o quanto ela deveria correr na direção dos pais e dizer o quanto o primo dela era embaçado, o rei - o rei, não - o magnata da piscina.
O engraçado é que tudo o que eu disse para minha prima até aquele momento antes do salto, aconteceu de verdade nos minutos que se seguiram, pois realmente abalou toda a minha percepção de realidade e a garota correu - como o vento - para chamar os meus pais. Às vezes eu me surpreendo com o meu poder de adivinhação, alguns diriam ser sorte ou coincidência, mas eu acho que não, deve ser algo maior, alguma espécie de habilidade não compreendida.
Pois é, eu pulei, mas não foi por falta de habilidade que atingi o meu crânio no fundo daquela piscina, na verdade, foi um instante absurdo de azar. Foi até interessante perceber o quanto - até mesmo os mais habilidosos - estão à mercê dos múltiplos fatores do ambiente, como o vento, as ondas sonoras dos pássaros e outras micro-variações incompreensíveis. Acontece que não foi minha culpa, alguma coisa fez com que a minhas pernas deslocassem trinta centímetros para frente e fizessem com que eu ficasse com o corpo perfeitamente reto, realizando um mergulho que só seria considerado seguro se fosse feito numa piscina de três metros de profundidade, que não foi o caso.
Minha cabeça projetava um curta-metragem de uma balada dentro de um trem desgovernado que colidia com uma tela de pintura vazia - não peguei ninguém - quando voltei ao mundo real, percebi que havia se passado pouco menos de dois segundos e eu ainda estava flutuando por entre as águas avermelhadas da piscina, me ergui com minhas próprias pernas e sai da água, suspirando como um guerreiro aquático ferido.
A menina apontava para a minha testa e gritava eufórica - não eram risos, eram gritos -, dizendo que eu estava sangrando e por isso já havia me tornado uma mocinha, eu não entendi muito bem a colocação dela, mas provavelmente era alguma gíria usada na escolinha.

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- Lágrimas de Gasolina

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Dor, Sofrimento e Outras Coisas Terrorosas

Deitou-se. Tentou erroneamente dormir.
Não conseguiu se quer fechar os olhos, ficou encarando o teto angular de seu quarto, esperando uma cantiga de ninar que desconhecia a letra. Esperou por mais alguns segundos e se levantou, olhou para o primeiro andar através das grades que rodeavam o mezanino, onde jazia sua cama, analisou a noite e as horas que ainda restavam, analisou o dia que ainda viria e caiu de costas na cama, deitando-se novamente.
Uma pontada de consciência ecoava por suas paredes mentais lhe dizendo que deveria dormir, que amanha seria sexta-feira e que somente na noite do dia de amanhã poderia passá-la em claro.
Uma pequena força se rebelou dentro de si e mais uma vez soltou um grito corporal de liberdade, se livrando do adiantamento do dia de amanhã. Todas as noites quando caminhava atrasadamente até a cama, se recusava a aceitar que estava à mercê do cansaço de seus membros, se recusava a acreditar na implacabilidade do tempo e de como nenhum ser vivente poderia escapar de suas garras.
Desceu os degraus o mais rápido que pôde, queria aproveitar cada momento, produzir a cada segundo e adiar o resto dos dias de sua vida. Pensou no que deveria escrever, nos trabalhos que o deixava insone. Abriu a tela do computador, esticou os dedos e os posicionou sobre as teclas clareadas pelas luzes do monitor, iniciaria o que seria o maior de todos os textos já escritos e historias contadas se não houvesse sido interrompido. Escreveu:
"Quando dos espinhos de uma pútrida flor deslizar uma gota de orvalho e esta atingir o fértil solo de"
Parou bruscamente quando ouviu o som emitido através dos corredores de sua casa e encarou a porta fechada, à espera de alguém que pudesse entrar sem emitir um ruído se quer. Até mesmo a porta de madeira maciça não apresentava empecilho para o som que escorria pelas frestas e adentravam o quarto, atingindo-lhe os tímpanos nus e trementes. Empurrou a cadeira para trás num gesto cuidadoso, sem emitir nenhum barulho, nem mesmo as rodinhas do assento que sempre insistiam em estalar se manifestaram, parecia que todo o quarto estava focado em tornar a percepção do estranho som ainda mais nítido. Pôs-se de pé e caminhou sobre uma espécie de campo minado imaginário, onde qualquer estalido pudesse desencadear a maior de todas as explosões e dilacerar os membros daquele que as provocara.
À medida que se aproximava, o som se tornava cada vez mais orgânico, mas somente quando colocou as mãos na maçaneta pudera ouvir todos os detalhes que passaram despercebidos por seus ouvidos. Eram como a espécie de um ruído causado por uma dilaceração realizada por um animal, onde repentinamente estalares de ossos brotavam, sobrepondo sons semelhantes àqueles causados por uma massa de carne sendo devorada por algum ser desdentado, um animal que fizesse questão de remoer o alimento triturado em sua boca escancarada.
Juntou as forças e os resquícios de coragem dos quais tanto fizera menção em seus contos, e girou a maçaneta, revelando um corredor abismático e de dimensões irreconhecíveis quando admiradas através da perspectiva de um observador cego. Esticou os dedos com a mesma precisão que usava para escrever e pressionou o interruptor na parede, preparando-se para atingir um alvo invisível e desconhecido. Porém no lugar de uma criatura desdentada e de dimensões monstruosas, encontrou uma névoa malcheirosa somada à atenuação dos sons que adentravam com ainda mais força e infligiam ainda mais dor aos seus ouvidos. Forçou-se a caminhar pelo corredor, tapando as narinas e desviando das sequenciais ondas de mau cheiro nauseante, que utilizavam de seu nariz como via de transporte para passageiros só de ida para seu cérebro e dominavam suas lembranças, fazendo-o lembrar das queimadas de esterco velho, que seu falecido avô realizava nas periferias de sua fazenda.
Como grande observador que era, notou as luzes que irradiavam através das frestas de uma porta trancada no final daquele corredor mal cheiroso. Caminhou como um peregrino que rasteja contra os ventos hostis e arenosos do deserto, empurrando cada som mal cheiroso e cada nevoa auditiva, lutava contra um inimigo invisível porém presente e como o fim de toda a sua demonstração de força para telespectadores onipresentes, debruçou-se sobre a porta e deixou que as luzes que escorriam pelas frestas dominassem as solas de seus pés desnudos. Como uma torcida composta por torcedores fanáticos, sua mente gritava frases encorajadoras, embora todos os seus sentidos estivessem entorpecidos, uma fagulha mental de coragem e ímpeto o fez com que girasse a maçaneta e adentrasse o desconhecido e o inefável. Uma onda de podridão em forma gasosa destruiu todos os pelos do seu nariz enquanto debruçava-se sobre a porta e admirava a vil criatura, mais conhecida como "Vovó", sentada sobre um trono formado por porcelana e restos humanos. Sua vista se tornou turva e o chão se tornou próximo, os ruídos cessaram por uma fração de segundo e apenas uma frase ecoou por seus ouvidos:
- "Amorzinho, pega o papel higiênico pra vovó, vai querido!”

- Lágrimas de Gasolina.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Fútil Realidade #5

Hoje eu acordei sem um beijo de bom dia.
O quarto estava abafado demais, a luz que entrava pelos estreitos feixes da janela estava forte demais. O silêncio era onipresente demais.
Não que a casa fosse barulhenta por rotina. Certamente não era, já que meus pais quase não mais conversavam. Mas hoje nem mesmo da rua propagavam-se sons, só um fraco ronco eletrônico.
Desci da cama quente para sentir o gélido piso agredir a sola de meus pés desprotegidos. Com passos aveludados, caminhei até a porta do quarto e a abri. O rangido grave lembrava-me dos raros gritos que meus pais trocavam entre eles; ríspidos, monossilábicos, agressivos. Sem traços de amor.
Caminhei pelo curto corredor até a cozinha, mas tenho que confessar; hoje ele parecia infinitamente mais comprido. Quando atravessei o batente, a luz do sol que entrava pela janela tornou-se tênue e opaca, deixando os eletrodomésticos e móveis criarem sombras agourentas e assustadoras.
A temperatura caiu absurdamente, e uma enorme adaga imaginária atravessou a boca de meu estômago. Não sei por que dizem borboletas. Não lembro de borboletas parecerem com um tornado catastrófico, varrendo tudo e todos pelo caminho.
E lá no centro da cozinha, tornando o branco piso de mármore em um carmesim aveludado, estava o corpo de minha mãe. Flácido, derretido no chão, como se seu corpo tentasse abraçar um sentimento que já não mais existia há muito tempo. Sua boca estava posicionada em um formato agonizante, enquanto uma segunda boca sorria em sua garganta.
Na cômoda da cozinha, um bilhete abandonado escrito pela metade:
“ Lucas, meu amor,
Você foi o melhor presente que Deus me deu, você me deu forças e me mostrou um maravilhoso mundo. Mas, infelizmente, mundos maravilhosos são efêmeros. Eu e seu pai não nos amamos mais há algum tempo, e tentamos nos manter unidos para sua felicidade. Infelizmente, eu não sou forte o suficiente, não sou forte como acreditei que era, e por isso vou m... ”
Gritei por meu pai.
Corri desesperado até seu quarto, poucos metros da cozinha, muitos metros do quarto de minha mãe.
O barulho frágil de um ventilador velho indicava que o aparelho estava ligado. Era um som estranho, fraco e forte, vivo e morto. Era um ronco despretensioso e conquistador, era o extremo do antagônico.
Quando entrei no quarto, gritei horrorizado ao ver seu corpo balançando junto com o ventilador. A gravata enrolada na haste de ferro do aparelho. Sem nada no estômago para vomitar, cuspi bile em fracos esguichos.
Deixei meu corpo cair, ajoelhando em cima do vomito e gritando em desespero. O som do ventilador conseguia ser ainda mais forte.
Em um surto de irritação, agitação, desespero, medo e agonia, corri até o meu quarto e comecei a arrumar minha mochila. Coloquei roupas, brinquedos, meu smartphone. Precisava sair dali o quanto antes.
Mas, para onde ir? O que fazer? Quem procurar? Eu não tenho avós e nem tios próximos, e se ficar aqui, o melhor que pode acontecer-me é ir para um orfanato. Gritei e soquei a parede, deixando o catarro arranhar minha garganta e esguichar na madeira velha.
Eu iria para a escola, eu precisava ir, eu preciso sair daqui. Não tem nada para mim aqui. Preciso sair daqui. Preciso de algo, alguma razão. Meu pai matou minha mãe e se matou em sequência. Mas que droga! Preciso sair daqui. Preciso de alguém, de alguma Brígida em minha vida. Troquei o pijama, joguei a mochila nas costas e sai correndo. Antes de sair de casa, entretanto, fui até a geladeira e peguei um pote de açaí com banana.

Afinal, quem pode realmente prever quando uma família começa ou acaba?

Fim

- Dedos Azuis

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Um passo à frente

Houdini era uma assassina, e disto eu já sabia desde o primeiro instante em que a vi. 
Demasiadamente simpática, demasiadamente solicita. Sorriso demasiadamente branco e olhos demasiadamente verdes.

A calça jeans preta e a camisa slim de botões vinho surpreenderam-me, pois o prático vestido escuro com fenda lateral até a cintura fora substituido. Parecia confortável naquele traje. Parecia mais humana, menos divina.

E, apesar de todos meus instintos, provavelmente foi nesta humanidade em que apaixonei-me. 
Como um ex assassino (não por contrato e nem por psicopatia, e sim pela simples beleza na arte de matar) reconhecer outros assassinos era tão simples como limpar uma faca.

Os ligeiros movimentos nos pequenos músculos faciais normalmente é o que entrega um assassino, e com Houdini fora basicamente da mesma forma. Mas ela era a composição tão perfeita entre divindade e humanidade, que precisei aborda-la naquela festa.

Ela achou que havia capturado sua presa, mas na verdade capturara um novo namorado. 

Houdini era boa, mas não tão discreta, e sempre que voltava para casa após um assassinato, era claro como uma noite de verão que havia matado alguém. Mas como nunca conversamos disso, ela alegrava-se ao pensar que eu acreditava que era apenas uma administradora de empresa que chegava em casa tarde.

Entretanto, criei um fascínio tão grande nela com a obscuridade de meu passado nunca contado, que Houdini despertou em seu íntimo a insaciável vontade de me matar. Bom, insaciável e inalcançável, pois eu estava sempre a um passo à frente. 

No jantar em que ela colocou cianeto de potássio em minha comida, tristemente deixou rastros do pó embaixo da unha, e com um simples "estou enjoado, vou deitar", escapei de forma gloriosa. Isto instigou-a ainda mais, e com o passar dos dias ela começou a tornar-se ansiosa, desesperada e de certa forma um pouco frenética. Certamente pensava em seu próximo passo, mas, apesar de tudo, eu sempre estaria um à frente.

Houdini comprou uma .9mm, e planejava pressionar o travesseiro contra o meu rosto e apertar o gatilho na noite seguinte, quando comprasse o cartucho necessário. Porém, fora traída quando sem querer disse, enquanto cochilava no sofá, "na gaveta do banheiro de hóspedes". Curioso, procurei e encontrei a pequena pistola lá.

No dia seguinte, quando minha namorada não encontrou a arma, teve um pequeno surto, mas não contou-me o motivo do stress. Chorou, gritou, mas em dez minutos tudo estava bem novamente.

Houdini teve outros movimentos, outras ideias, mas eu sempre estava um passo a frente. Tentou com faca pelas costas, linha de nylon em meu pescoço, uma martelada em minha nuca, e, até sendo menos original, tentou colocar um saco plástico na minha cabeça. 

Mas, sério, gloriosamente estive sempre um passo à frente.

Até aquela sexta, obviamente.

Preparava dois deliciosos bifes Angus, enquanto Houdini assava batatas. Estávamos comemorando um ano de namoro. Ela estava tão feliz, tão radiante. Seu sorriso brilhava mais do que no dia em que a conheci.

As velas, o vinho, a janta. A perfeição reinou. Saiu por um instante para pegar algo para brindarmos.
Quando voltou, revelou em sua mão esquerda a prateada garrafa de espumante. Com um sorriso sarcástico, revelou a mão direita. Na ponta do dedo, uma fina calcinha preta balançava promiscuamente.

O sexo nunca fora tão bom. Dois corpos que tornaram-se um, pelo momento, pelo suor, pelo clímax.

Quando terminamos, a sensação de deleite permaneceu. Sua mão acariciando meu peito arrepiava cada milímetro de meu corpo. Minha respiração pesada estava voltando ao normal.

Delicadamente, Houdini levou sua mão ao centro de suas pernas, e após um instante, trouxe o dedo estendido aos meus lábios.

Percorreu toda periferia de meu lábio inferior, depois superior. Inseriu o dedo entre meus dentes semi-serrados e, antes que eu me desse conta, esfarelou uma pequena quantidade de pó em minha boca.

Assustado e perplexo, sentei, cuspindo violentamente o conteúdo. Houdini riu, uma gargalhada maravilhosa.

- É apenas Eno, seu bobo - olhou em meus olhos com aqueles maldito verde celestial - Não vai ser hoje, amor.

Mexendo a língua, assimilei o gosto; Eno. Olhei para ela, com um sorriso desconfiado.

Transamos mais três vezes naquela noite.

- Dedos Azuis


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

O Dia que Contaram a História da Criança que tinha Braços de Porco


O tão esperado dia 16 de fevereiro finalmente havia chegado. Era uma segunda feira chuvosa, e não trazia sinais aparentes de mudanças climáticas.

Ao soar do primeiro sinal, às 7h30 pontualmente, todas as crianças correram agitadas para o grande ônibus estacionado do outro lado da rua. Pouco ligando para a chuva, pouco ligando para os avisos de "cuidado", a manada de pequenas criaturinhas apostavam a corrida decisiva pelo lugar ao fundo.

Após a contagem da turma, o professor deu o sinal para o motorista. Com um som intergalático a porta se fechou, e o estudo do meio iniciava-se.
O destino era Brotas, no interior de São Paulo. O percurso pode ser facilmente percorrido em 1h45, se o trajeto for feito de carro. Agora, em um ônibus lotado de crianças, em pleno feriado de carnaval, e com uma chuva que cada vez tornava-se mais aterrorizante, seis horas de viagem era um pensamento otimista.

No começo todos cantavam, e a felicidade era algo contagiante. Com o tempo alguns foram parando, ao passo que todos estavam em silêncio absoluto antes da primeira hora. O professor emendou algumas atividades, que perduravam por não mais de vinte minutos. Tentou cantar novamente, e até jogos foi uma de suas artimanhas.

Na terceira hora, muitos alunos reclamavam da demora. Alguns gritavam insultos e o ânimo do ambiente estava negativo. O professor precisava tentar novamente fazer desta viagem algo prazeroso. Então, persistindo, tentou novamente uma seleção de piadas, músicas, jogos. Tudo em vão. Mandaram-no calar a boca e, sem conseguir saber de onde veio o insulto, o professor explodiu.

Como cartada final, decidiu contar uma história de terror. Encheu os pulmões de ar e soltou um berro gigantesco, antecipando o que estava por vir. Todos pararam, mudos, imóveis, olhando atentamente para o mestre que com dificuldade tentava ficar em pé.

Quando notou ter conseguido a atenção de todos, começou a conta a história da "Criança que tinha braços de porco". Conforme contava, começou a envolver-se com a trama, e animar-se em conseguir prender a atenção de todos. Subiu em um dos bancos, e elevou sua voz em um tom.

As crianças começaram a chorar, a suplicar que parasse com a tenebrosa história. Muitos gritaram e entraram em pânico, urrando para que aquilo parasse. Mas não parou.

O professor ficou vidrado, em estado de transe hipnótico e, quando chegou ao fim, recomeçou a contar. Seguidamente, de novo e de novo, em um ciclo infinito, o professor contou e recontou a história horrível da "Criança que tinha braços de porco".

No final, quando deu por si, o ônibus estava parado no meio da pista, com vários carros cortando-o e buzinando enfaticamente. O motorista não encontrava-se em lugar algum, e as portas e janelas estavam todas lacradas. As crianças, por sua vez, estavam em convulsão coletiva com todos os pequenos corpinhos tremendo, enquanto espuma escorria de suas bocas e sangue de suas orelhas.

A policia chegou junto com o resgate. O professor estava em estado catatônico quando foi levado para a delegacia. Enforcou-se no banheiro ao lado da sala do interrogatório antes que descobrissem qual era o conteúdo da história.

Os jovens tiveram surtos de frio ao longo de alguns dias. Em uma semana todos estavam mortos.

- Dedos Azuis





sexta-feira, 13 de junho de 2014

O Príncipe do Nada

Apoiei a sola de meus pés descalço no parapeito do edifício. 

Se era o mais alto da cidade, eu não sei. O que sei é que precisava remar para longe.

Mas qualquer passo, qualquer direção, eu cairia.  

Garota, você não sabe o quão o céu é pesado, quando você está aqui

Aqui, tão perto, tão próximo. Tão azul e tão pesado. 

Senti a pressão no peito. Tristeza, desapontamento, fracasso. 

Toda a emoção de uma vida medíocre, preta e branca, branca e preta.

Algo quente na mão, uma gota de sangue. Tampo o nariz, culpado branco. 

Sinto o pensamento longe, a dor de cabeça crônica. Meus olhos pesados estão nublados. 

Meu braço dói. Outra gota de sangue, mas não escorreu do nariz. 

Um vergão roxo, picadas de agulha, picadas de mosquito.

Olho para os seus. Onde está você, onde estão vocês? 

Cada dia, cada mês. Em todos estes anos. Tantas ligações, tantas mortes. 

Tantos amigos. Atropelamentos, assaltos, câncer, infarto. Suicídio. 

Uma vez fui príncipe. Hoje meu reino é pó e ácaro. 

Olho para baixo, para os carros, para a rua. Tristeza, desapontamento, fracasso. 

E então o céu tornou-se mais leve e as nuvens abriram-se

E Deus desceu. 

Desceu e disse

Nada. 

E o parapeito tornou-se canja

E o Nada tornou-se meu reino.

- Dedos Azuis 

domingo, 1 de junho de 2014

Rede Social

O clique do mouse tornou-se tão repetitivo que passei a processá-lo de forma mecânica.

Enquanto as janelas iam abrindo e fechando, iluminando meu rosto, meus olhos acompanhavam cada movimento com um frenesi doentio.


- Allan, não vou te chamar de novo! Desça agora! 


Ignorei o chamado de minha mãe completamente, e continuei imerso em minha rede social. 


Meu pai então abriu a porta com uma força brutal, precipitou-se sobre meu macbook e socou seu teclado, berrando:

- Saia disso agora!

Saindo de meu quarto com a mesma velocidade que entrou, meu pai deixou-me sozinho.


Gritei ao ver a tela de meu computador oscilando de forma penosa. Cliquei diversas vezes e tentei digitar, mas nada. O note estava quebrado.


- Não, não, não...


Era inútil. Minha vida tinha acabado.


Com o coração apertado e uma náusea monstruosa, precipitei-me para descer e jantar, mas algo estranho aconteceu.


Não conseguia soltar a mão do mouse. Não, não era por vontade. A minha mão realmente não se soltava, como se uma força maior a puxasse. Como um vetor, de mesma força e intensidade porém de direção oposta, o teclado quebrado sugou minha outra mão. 


Estraçalhando todas as peças, senti a eletricidade percorrer meu punho quando toquei na placa mãe do notebook. 


O mouse rachou também, dando abertura para minha outra mão preencher seu interior.


Antes que eu pudesse gritar, a tela sugou meu rosto, e todo o meu corpo foi parar dentro do espaço virtual.


E então, finalmente senti paz. Estava ali, em baixo da foto que escolhi para minha capa, em um pequeno quadrado com a borda branca na superfície esquerda da tela, sorrindo para todos aqueles que clicassem em Allan de' Lucca. Agora eu não era só um operador, e sim meu próprio perfil.


- Dedos Azuis

domingo, 5 de janeiro de 2014

Novela

Por que estes putos sorriem o tempo todo?

O que aquele palhaço ta olhando? Tá rindo de que?

"Sai da frente, velhote."

Qual é o problema destas pessoas? Sera que elas não veem o quanto o mundo está doente?

"Será que elas ignoram isso?"

"O que, Dan?"

"Sera que essas pessoas ignoram todos os problemas do mundo: a fome, a miséria  a corrupção e todas as outras coisas?"

"Não, amigo." - Disse Miguel, sorrindo como um babaca. - "Ha ha, elas não ignoram, elas simplesmente, não sabem."

"Não sabem?!?" - indignei-me - "Você é estupido?"

"Não, nós não somos estúpidos, Danilo." - Miguel desferiu um riso. - "O único estupido é você. Olhe à sua volta, todos estão felizes. Só você que está aí sentado com essa cara de bosta. Daqui algum tempo você perceberá e sorrirá como nós, andará como nós e pensará como nós.” e voltou a rir.

"É, Miguel. A ignorância é uma benção.”

"Falando em benção, você viu a novela ontem?"

"Vi sim."

"Eu não te disse?"

E ambos começamos a rir.

- Lágrimas de Gasolina

domingo, 20 de outubro de 2013

Amor Piscopata

Ah, o nosso amor, você me disse que estava escrito nas estrelas.

Mas e me deixar, estava escrito nas mesmas estrelas ou em outras galáxias?

Como pôde, depois de tudo?

Com essa cara rubro escarlate, simplesmente partir?

Falava que me amava, conversávamos sobre o futuro.

Mas enquanto eu estava sentado na cama, olhando você dormir, ouvia dizer coisas que nunca me disse.

Ouvia seus planos. Você planejava partir a muito tempo.

Cruel. Malévola. Vaca.

Simplesmente criou uma faca emocional, e cravou-a em meu coração, deixando-me afogar em meio ao sangue que transbordava da ferida recentemente aberta.

Vaca.

Vaca.

E agora, está mais feliz?

Independente de onde estiver, longe daqui, está simplesmente satisfeita? Era o que você esperava?

Espero que não. Espero que esteja sofrendo horrores.

Se for um décimo do que sofri, será insuportavelmente doloroso. O suficiente para fazer-me voltar a sorrir.


Eu tinha planos para você, sabia?

Sim, eu tinha.

Sempre que você passava, olhava sua nuca, sua espessura. Enquanto dormia, passava horas te observando, vacilando o olhar do travesseiro ao lado para sua boca semi aberta. Olhava para o topo da escada sempre que a via descendo.

Ó, minha querida, de tantas diferentes maneiras pensei em te matar.

Mas você, simplesmente, morre.

Óh, merda! Que vaca absurda que você foi! Maldita! Maldita! Vaca!

Como pôde, eventualmente, morrer?

Uma porra de acidente de carro, pelo amor de Deus!

À anos, culmino em meu interior o melhor jeito, o mais prazeroso de te matar, e você morre casualmente?

Óh, Deus!

Como suportar isso? Insensível você para deixar de lado todo e qualquer sentimento que jamais tive.

Você simplesmente partiu.

Partiu, deixando em meu coração uma facada emocional, que só será curada se preenchida por uma faca do mesmo tamanho, com o mesmo peso, com a mesma lâmina, só que real.

Espero te ver em breve.



Vaca.

- Dedos Azuis



quinta-feira, 4 de julho de 2013

Prozac

Ela sorriu, mas não era mais forte do que um pé de alface.
Com os anos ele passou a odiá-la, mas nunca a contou.
Com os anos, ela também passou a odiá-lo, e manteve isto em segredo.
Mulheres são mais complicadas do que moscas.
Ela deveria ter continuado dormindo. Era preferível um belo sonho do que um domingo assistindo ao futebol.
Ele nunca deveria ter encontrado o sapato de cristal. Criar um aspecto de amor para simplesmente ser traído meses depois.
Ela nunca deveria ter sido salva daquele dragão, daquela bruxa. Nunca deveria ter descido da torre e acreditado em um falso cavaleiro cavalheiro.
E para todos os outros que ainda acreditam em contos de fadas, comprem uma caixinha de anti-depressivos.
- Dedos Azuis

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Rodoviária

Me lembro da primeira vez que o vi. Sobretudo negro, barba longa. Carregava um pequeno livro de couro no colo.
Estava sentado na rodoviária, queixo direcionado para frente, os óculos escuros tapavam-lhe os olhos.
Me lembro de sentar ao seu lado.
A figura escura inquietou-se perante minha presença. Parecia desconfortável, coçava a barba e remexia os ombros.
Foi quando apanhou o livro e o abriu em uma página, repleta de escritas, indecifráveis. Caligrafia horrenda.
"Qual é o seu nome?" - perguntou, sem ao menos mover o pescoço.
"Samuel." - respondi, hesitante.
"De que?"
Jamais responderia a um estranho, mas as palavras saíram, mais fortes do que minha vontade.
"Guimarães Rosa"
Ele correu os dedos finos pelas linhas deformadas de seu livro negro, continuava igualmente estático.
"Você deve pegar o próximo ônibus, Samuel."
No mesmo instante, dois ônibus cruzaram a esquina.
"Me acompanhe." - Proferiu, adentrando ao primeiro dos ônibus. A rodoviária estava vazia, exceto por mim, a estranha figura e um pedinte apoiado em uma das vigas.
Meu bom senso falou pelos meus ombros. Permaneci sentado.

Me lembro da segunda vez que o vi. Ele estava sentado, na mesma poltrona, da mesma rodoviária.
"Ola, Samuel."
Me contive em responder.
"Hoje, definitivamente, você deve pegar o próximo ônibus."
No mesmo instante, dois ônibus cruzaram a esquina.
"Me acompanhe." - Proferiu, desta vez sem olhar para trás.
Cruzei os braços, virei o pescoço e gritei em minha mente.
"Não, velho escroto."
O ônibus fechou tuas portas e partiu.
O pedinte sentou-se ao meu lado, pediu por algumas moedas. Dei-lhe três moedas de real.
Entrou no outro ônibus e partiu.

Foi neste momento que o vi pela terceira vez.
"Ola, Samuel."
Estava cansado, estressado e com raiva daquilo. Quando fui abrir meus lábios para proferir alguma maldição para aquele homem, ele me interrompeu.
"Olhe teus bolsos, Samuel. Estão vazios. Parece que você doou teus últimos trocados para aquele pobre maltrapilho. Não terás dinheiro para o próximo ônibus."
Olhei a volta, o homem desaparecera. Uma voz ecoou em minha mente.
"Veremos se terás a mesma sorte."
A volta da rodoviária se tornara negra, abismática. Nenhum homem se aventuraria em tamanha escuridão.
Me apoderei dos cobertores largados daquele maltrapilho e ali permaneci, e ali permaneço.

Já fazem quatro dias.

- Lágrimas de Gasolina





quinta-feira, 27 de junho de 2013

Cria-Criatura

A criatura contorcia todos os teus braços em resposta à dor infligida.
O homem sorria. Os outros ao teu lado sorriam e gritavam.

Tirando o ferro da brasa, apontou para a pobre criatura.
A criatura enrolou teus tentáculos e suplicou por misericórdia. Chorou pela misericórdia e pelo remorso que os homens desconhecem.

O homem esticou o braço e afundou, triunfante, o ferro quente contra a pele escamosa da criatura.
Uma lágrima roxa deslizou pelas pálpebras da criatura.

Por um momento, pensou em suas crias e na sua fêmea que logo deixaria para trás. A morte era iminente.
A criatura fechou todos os seus olhos e deitou-se no solo, vencido pela desumanidade dos humanos.

Os homens se apressaram em chuta-lo e esmurra-lo pelo resto da noite.

A noite caiu.
Os homens cansaram.
A criatura se fora.
Suas crias e tua fêmea, dilatadas e apodrecidas em sua toca. Impreparadas para morrerem de fome à espera de um pai que nunca voltará para o lar.

Talvez se a história tivesse sido diferente... 
Vamos corrigir as coisas.

A criatura estremeceu. Os humanos, descrentes, recuaram. Viram o que tinham provocado.
Todo o ódio, toda a raiva, todo o medo. Canalizados e transformados no mais puro exemplo de força.

Com seus tentáculos ele quebrou teus pescoços e arrancou tuas linguás. Com suas garras ele dilacerou teus abdomes e furou teus olhos.

E com os teus olhos ele causou o medo, o panico e a dor que nenhum homem naquela noite jamais havia sentido.
A criatura se tornou humana e desumana.

E naquela noite, ela alimentou suas crias.
- Lágrimas de Gasolina



quinta-feira, 23 de maio de 2013

13 090 610


Você pode enviar-me um desenho.
Me escondia em meio as crateras. Mas qual a graça de um
esconde-esconde solitário?
No ar, alcançava as mais incríveis façanhas, as mais lindas piruetas.
Mas qual a beleza em não ser observado?
Corria, sorridente, por um solo tão branco quanto o sorriso de Deus, 
rumo ao encontro de meu amor. Mas como continuar quando não
há um amor?
Lembrava-me de uma antiga piada e sorria. Mas não havia ao meu lado
ninguém para sorrir comigo.
Não havia nem um amigo. Nem sete bilhões.
Não havia rosas nem raposas, gordos ou magros, Harrys nem Ronys.
Pode parecer, mas nem sempre é divertido morar na lua,
Se você quiser, você pode enviar-me um desenho
- Dedos Azuis

domingo, 19 de maio de 2013

Necrofilía


Nunca havia reparado naquela garota antes; O rosto

virado para o outro lado, as mãos cruzadas no colo. As pernas

a mostra por debaixo da saia. Vi o ônibus 3.85 e estiquei o braço.

No dia seguinte lá estava ela de novo. Sentei ao seu lado.

Dirigia-lhe olhares furtivos, mas não abri a boca. Seu rosto

permaneceu fitando o oposto, e lá veio o 3.85.

No ônibus comecei a refletir. Como passamos horas, dias, anos

próximos a pessoas que nem mesmo dignamos um ‘bom dia’?

Como nos sujeitamos a viver em casulos sociais e rejeitar tudo

aquilo que é novo? Será que isto incube a noção de um tal de

‘Belo Incerto’? Era simples, tão simples. É simples.

Um ‘bom dia’ de vez em quando. Um ‘como você está?’ em uma

preguiçosa manhã. Simples.

No dia seguinte iria conversar com a garota.

Ela estava lá, sentada com o rosto virado para o outro lado.

As mãos cruzadas sobre o colo. Sentei ao seu lado.

- Bom dia!

Esperei, sorrindo. Não houve resposta.

Toquei seu ombro. Sua cabeça pendeu para trás, revelando o

branco que totalizara seus olhos.

Ela estava morta. Morta.

Há dias, apenas parada, esperando o ônibus certo vir buscá-la.

Sorri.

- Como você está?

- Dedos Azuis

Origamis


A  primeira gota tocou minha testa. Articulei minha boca com voracidade e chinguei.

Mas, ao invés de preocupar-me com os pingos em cima de mim, olhei para frente. Porém, sabemos que quando olhamos para um horizonte chuvoso, vemos uma chuva acumulada de nosso ponto de partida até o objeto focal, e não a real quantidade de chuva.

O pouco, de repente tornou-se excessivo, mesmo sendo pouco. Ao parar de me importar com o momentâneo e viver a longo prazo, toda a chuva do mundo caiu sobre mim.

E o mesmo se aplica aos problemas; acreditamos que estamos sendo sufocados quando temos pequenos empecílios, pois não vivemos os problemas do presente. Vivemos os problemas que já aconteceram, que acontecem, e que vão acontecer. Vemos a chuva pelo horizonte, e simplesmente esquecemos de olhar para cima.

Se bem que… A chuva é um horizonte de problemas quando você é um homem feito de papel…

- Dedos Azuis

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Subindo


Entrei no elevador. O jovem senhor jazia com o braço estendido, segurando a porta aberta.

- Estou esperando um amigo – Explicou-me. Assenti com a cabeça e sorri.

Ele recolheu o braço e me fitou. Abriu um amarelado sorriso.

- Olá, amigo.

Continuou me fitando. Sorri de volta.

- Qual andar, amigo?

-Quarto, por favor.

Ele fez um lento movimento e apertou o botão do vigésimo andar. Voltou o olhar para mim e sorriu com entusiasmo.  Sorri também.

A música do fundo preenchia o ambiente.

- Esta ouvindo este tic-tac? – Perguntou-me.

Foi quando percebi que sua panturrilha esquerda recheava a calça de maneira disforme do convencional. Olhei para ele. Sorri, e acrescentei:

- Está frio, não é mesmo?

- Por enquanto, por enquanto.

Trocamos olhares e sorrisos. Típicas conversas de elevadores.

- Dedos Azuis

terça-feira, 14 de maio de 2013

Escolher

A luz amarelada ofuscava minha vista. Tão forte, mas tão fraca, a pequena lâmpada balançava de um lado para o outro, no fino fio que a prendia ao teto de madeira.

Tentei acalmar minha respiração. Minhas costelas estavam marcando até mesmo minha suja camiseta. Resultado de quatro dias sem comer. Minha boca sangrava, minha pele estava ressecada. Resultado de quatro dias sem água. Minhas roupas estavam amassadas, rasgadas, suadas. Resultado de quatro dias sem tomar banho, sem trocar de roupa.

As tábuas de madeira do piso, as tábuas de madeira do teto; todas apontando e rindo de minha situação, de minha angústia.

Há quatro dias meu poder aflorou. Foi a primeira vez. 

Me tranquei no sotão desde então. Não sairía, não sairía. Não por enquanto

“Com grandes poderes, vem grandes responsabilidades”, disse uma vez o tio de um colega meu.

Como, então, sair do sotão sem saber se voltarei meus poderes para o bem ou para o mal? Como sair sem saber? Onde esta, então, a responsabilidade de meus poderes? Preciso decidir, preciso decidir. Bem ou Mal?

Eu não sou totalmente Mau. Não, não sou. Mas estou longe de ser Bom.

Por um lado tem o bem. Proativo, bondoso, acolhedor. Viver de maneira simples para dar o conforto ao próximo. Por outro existe o mal. Egoísta, egocêntrico, conquistador. Viver de maneira esbanjadora, infinitas riquezas, infinitos falsos amigos.

Existe céu, inferno. Anjos, demônios. Bem, mal. Agora só me resta escolher o que ser.

Escolhi ser um pato.

- Dedos Azuis